Cavalos-marinhos
Aqui há uma semana, mais coisa menos coisa, recebi uma mensagem muito especial de um Extraordinário. Além do que dizia a própria mensagem, que era só para mim, havia um link para um texto de um blogue que, curiosamente, me fez lembrar A Metamorfose dos Pássaros, um filme de Catarina Vasconcelos que ganhou já vários prémios internacionais. Não sei se o viram, mas é um objecto artístico muitíssimo especial sobre o amor, a distância e a orfandade (e as coisas que definem algumas pessoas) a que eu chamaria, para resumir, um poema cinematográfico. Por isso me pareceu que ele aqui cabe, até porque o texto do filme talvez pudesse ser lido em vez de ouvido, de tal modo é, a todos os níveis, literário, mas sem que isso torne o filme chato (podia acontecer) ou difícil (costuma acontecer, mas não é o caso). Voltando ao início, há uma cena muito bonita no filme em que a mãe que tem o marido ausente e os seis filhos pequenos em casa recebe de longe um cavalo-marinho fossilizado e o põe, como um brinco, na orelha. Ora, o texto que recebi na mensagem do Extraordinário tinha também que ver com um cavalo-marinho e, por isso e por achar que deve ser lido, partilho-o convosco. Bons filmes, boas leituras.
Um texto interessante... talvez até escrito por alguém que tenha uma casa modernamente composta com as actuais decorações minimalistas, moda que impera porque as pessoas ou não fazem coisas que lhes dêem para juntar recordações e objectos estranhos quando têm os seus "telefones espertos" para atulhar de fotografias, ou, porque pura e simplesmente não têm recordações, apenas vivem e vão obliterando aquilo porque passam, depois o publicarem no facebook como se acabassem de descobrir a Terra Nova.
ResponderEliminarTodavia nunca se viajou tanto e nunca se teceram tantas considerações como na actualidade. Se bem que pareça que se fala mais pela boca dos outros do que pela nossa própria idéia a qual se compõe de idéias alheias, consoante as modas que correm e hoje duram pouco, sendo igualmente abundantes!
Acho saudável ter-se olhos de vidro, guardados ou não em copos de água, mesmo depois de finado o seu utilizador; acho saudável manter bonecas espanholas, toquem ou não castanholas; e, igualmente saudável possuir cavalos-marinhos secos, desde que bem secos porque se não cheiram mal. São tudo pedaços de alguma coisa, passada, porém aconteceu connosco e nos lembrará uma tia velha, uma ida a Badajoz, um passeio à praia.
São memórias. Identifico-me perfeitamente naquilo em que o autor do texto reflecte.
Quem as tem sabe do que falo e certamente que gostará de as manter ou guardar algo que as preserve e eternize.
Saudações memoráveis cá da Cidade Morena, onde não tenho nenhum olho de vidro porque não achei nenhum ainda, mas tenho na minha frente e a olharem para mim, dois armários de vidro, cheios de conchas, corais, cascas de ouriços-do-mar, estrelas do mar, dentes, pedras ou minerais e outros objectos que guardo porque os colecto e são memória viva de algum acontecimento ou deslocação na qual se destacaram.
Quem conserva recordações tem todo o direito de assim proceder. Não estou a ver quem conserve a dentadura postiça de um tio-avô, como se conserva a cabeça do Diogo Alves do Aqueduto, numa redoma; a camisa manchada de batom da primeira namorada num baú com bolas de naftalina ou ainda o primeiro recibo do primeiro ordenado.
EliminarServe também este comentário para lhe dizer que tentei uma espécie de esclarecimento à sua dúvida, na respectiva caixa dos comentários de ontem.
ah, ah, ah...mas eu conheço uma pessoa que guardou a dentadura partida no cofre, a deixou lá por anos anos e anos, até esquecer o conteúdo do dito. E quando o abriu, pensando talvez em teres e haveres, saiu-lhe a dentadura e mais uns quantos relógios ineficazes. Foi um desânimo.
EliminarÉ curiosa essa da dentadura no cofre, Bea.
EliminarImagine que um assaltante resolvesse recolher o conteúdo para refazer a conta bancária e encontrasse aquele sorriso, naturalmente já amarelo. Tanto trabalhinho para nada! Nem, ao menos, uma ponte em ouro?!
Enfim, é o prelúdio de uma sinopse para um romance, sem dúvida.
Bom ano para a Extraordinária Bea.
Lembro-me de na altura do filme ter escrito qualquer coisa, sobre as "histórias familiares" que se repetem.
ResponderEliminarNo caso da Catarina foi a perda da mãe (tal como tinha acontecido com o pai e a avó (penso eu...).
Escrevi um pequeno texto porque me lembrei de um amigo, o Rui, que foi pai com apenas quinze anos (o mesmo tinha acontecido com a mãe e com a irmã, que foram mães solteiras... Ele apenas seguiu o "destino" familiar.
Parece que há coisas que estão "gravadas" no nosso corpo e que não há como fugir-lhes...
(os comentários valem o que valem, mas já perceberam que passo a vida a abrir parêntesis e depois me esqueço de os fechar...)
EliminarE ainda bem que esquece, pois assim o que está a dizer nunca fica por encerrar!
EliminarAhahah!
Porque o que diz é sempre interessante! Ora bem.
Grande abraço!
Olá, adoro cavalos-marinhos e ainda para mais um que pudesse por na orelha.
ResponderEliminarQuando escrevo "cavalos-marinhos" sinto-me revoltada e peço desculpa pelo desabafo mas a minha vontade é gritar e todo o mundo ouvir-me porque a minha filha está no terceiro ano e durante as aulas de Zoom estava a aprender o plural e eu ouvi e juro que ouvi a professora a ensinar que o plural de cavalo-marinho é...cavalo-marinhos!!!!!
E sim, vou muda-la de escola, são muitos os erros da professora.
Desculpa o desabafo.
Beijinhos
Susana (www.dajoana.com)
Gostei bastante do post "cavalo-marinho" que a Rosário nos deixou, tem escrita cuidada e muito atractiva. Mas aqueles olhos dentro do copo de água davam-me pesadelos, agradeço que não existam nas casas que frequento. Tinha até medo do senhor que conhecia e usava um olho de tirar e pôr.
ResponderEliminarQue pena, não vi o filme em causa. Mas pode que um dia passe na tv ou o veja na rtp play. Qualquer coisa assim.
A Metamorfose dos Pássaros, que achei maravilhoso, passou na rtp2 no dia de Ano Novo. Não sei se ainda está na rtp play.
EliminarM.
Leitora não comentadora, hoje tenho que comentar (não, não é resolução de novo ano). É por via dos cavalos-marinhos. Mergulhadora (além de leitora) que sou, vivo na esperança de vê-los, cada vez que mergulho. Quando tal acontece (raro, raro), fico ali a olhar para eles, na sua quietude, balançando-se ao sabor do movimento do mar... Vi tão poucos que me entristeço sempre que os vejo mortos e secos à venda para os turistas! Há cada vez menos no mar, tal como tudo o resto, aliás. Há cada vez menos de tudo no mar.
ResponderEliminar«Todas as espécies de cavalos-marinhos estão em perigo de extinção. Uma das causas é pesca predatória e a destruição de habitat. Outra causa é o captura frequente deles para serem usados como peça de decoração ou simplesmente serem criados em um aquário».
Eliminarhttps://pt.wikipedia.org/wiki/Cavalo-marinho
Obrigado por ter aflorado este problema, Pitucha.
Concordo inteiramente consigo, Pitucha. Venha mais vezes fazer um "mergulho" neste mar de comentários, porque serão certamente bem-vindos. Há também aqui um comentador que fz mergulho, o António Luiz Pacheco, outro dos felizardos que vêem no mar aquilo que nós, os que não praticamos essa arte, só vemos nas peixarias.
EliminarQuem pratica essa candonga de retirar do mar os cavalos marinhos para os vender a alguns pseudo-coleccionadores (para não dizer outro nome), merecia aquela frase do meu avô que imaginaria aplicada em quem se portasse mal - merecia levar no lombo com um cavalo-marinho - cujo nome se dá a um chicote era feito com couro.
Com coiro, de hipopótamo!!!! Daí o nome de "cavalo-marinho" que nada tem a ver com os outros, os hipocampos.
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