A obra

É incrível a facilidade com que nos tempos que correm se usa a palavra "obra" a propósito de qualquer pessoa que escreveu um livro ou dois. É ainda pior quando alguém que só agora começou a alinhar umas frases numa página envia o seu original para uma editora com uma mensagem em que refere que a "obra" trata disto ou daquilo. Claro que, com a industrialização do mundo editorial, o autor parece agora importar menos do que o leitor; mas, ainda assim, gostaria de insistir em que só alguns dos autores que actualmente publicam têm ou terão "obra"... Quanto a isto, aliás, vale a pena perguntar a razão do estranho desaparecimento da referência à obra de um autor nos livros novos que vai lançando. Por exemplo, nas últimas páginas de cada livro publicado de Mário Cláudio ou Lobo Antunes (autores que têm "obra" e cerca de cinquenta anos de vida literária) aparece a lista dos livros que escreveram. Pode pôr-se também no princípio do livro, à inglesa, por ordem cronológica ou por género (muitos autores tocam vários instrumentos e podemos separar a sua obra por ficção, poesia, teatro, ensaio...); mas, quando realmente um escritor chega a um determinado patamar, é mais do que justo (e necessário para quem estuda esse autor) que se refira a obra já publicada. Aos que começam, aconselho a que usem palavras como "livro", "romance", "ficção" ou outras que se lhes assemelhem, e que desejem que essas suas primeiras experências literárias partilháveis um dia constituam parte da sua... obra.

Comentários

  1. Desejo a todos os Extraordinários e, muito em especial, à Maria do Rosário Pedreira, um bom ano de 2022.
    Relativamente à "obra" referida na "peça" (em comas, porque já nem sei o que chamar a cada uma) não tenho qualquer receio de chamar obra a um único trabalho, embora se possa presumir que o mesmo seja feito com tijolos, pá e talocha, bem pegados com muita argamassa.
    Sei que a MRP pretende distinguir a árvore da floresta, individualizando cada trabalho literário, levado a livro, mas há aqueles escritores cuja obra se resume a um solitário livro. Assim, com o risco de alguém me julgar hedonista ou narcisista, temos que esse livro é tanto uma obra como os 84 que publiquei (e me publicaram) até hoje, em todo o espectro literário ou desenhado.
    Ora, se me servi das edições da minha autoria, foi para dizer que esta "obra" de um autor na penumbra pode nem sequer equivaler à única "obra" de um só livro de um autor que, através dele, se consagrou e elevou aos píncaros da fama. Com toda a humildade o afirmo.

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  2. Podíamos contar-lhe algumas histórias muitíssimo giras sobre este tema, mas resumimo-nos a uma ideia - qualquer pessoa pode ser autor, mas poucos chegam a escritores. As pessoas tendem a confundir demasiado as duas coisas, como se o fosse uma só e a mesma. Conhecemos gentes que publicaram 20 livros que nada valem, e pessoas que publicaram um só, belíssimo, e desistiram de escrever. O problema deste mundo é mesmo esse, que os primeiros pouco desistem, e os segundos desistem demasiado.

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    1. Não se pode generalizar, cara Mitologia, embora concorde consigo.
      Se, como diz, os primeiros pouco desistem, é com eles e a sua bolsa ou com os editores e a bolsa deles. Como ninguém é obrigado a comprar, também ninguém pode ser obrigado a não escrever. Para mim, ponto assente.
      Relativamente ao meu exemplo, quero dizer e deixar esclarecido, que 70% dos "meus" livros foram a pedido de editores e instituições, 25 % em auto-edição e 5% a bater - uma única vez - à porta de uma editora: monografias; banda desenhada; estudos; etnografia; ficção.

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  3. António Luiz Pacheco6 de janeiro de 2022 às 05:28

    Concordo com o ponto de vista na generalidade, sobretudo em que é difícil separar a árvore (livro) da floresta (obra).
    Com efeito entendo e comungo da idéia de que a obra de um autor deva referir os seus trabalhos ( seja1 ou 100!), e que quando referimos a obra isolada, portanto o livro, este deva assim ser referido e não como "obra". Aliás julgo que o correcto seja qualquer escritor referir o seu livro, um a um, dentro da sua obra (o conjunto deles).
    Além de que escritor nem todos são, autores sim!
    Aqui já fia mais fino... Fia mais fino porque como foi dito e é sabido, há Escritores de um só livro que constitui uma obra-prima! Parece-me legítimo dizer "a obra", porque é o que dele fica.
    Como há escritores de muitos livros editados, cuja obra nunca passou da mediania, apesar de populares ou muito lidos. Serão mesmo a maioria.
    Todos conhecemos exemplos, seria fastidioso e atrevimento, até deselegante, citar nomes.

    No fundo o que há é muita prosápia ou convencimento, por parte de muitos autores.
    Creio que todos que escrevam se acham no direito de publicar - é legítimo - mas terão de ter presente que talvez não haja quem os queira ler. Aí reside o busílis, porque quem avalia nas editoras pode ter razão em os rejeitar, como pode não ter! Pode avaliar mal, e, haverá certamente bons livros que nunca são publicados. Creio que a história da literatura está cheia de casos destes.
    O tema dá mesmo para um romance!

    Saudações publicadas cá do Bairro Ribatejano.

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    1. Olá, Extraordinário António Luiz, cujas saudações provindas do Bairro Ribatejano são sempre bem-vindas.
      Possivelmente, em breve - e segundo sei -, um dos "escribas" referidos no 2º parágrafo da primeira parte do seu esclarecido post, fará chegar à Quinta de Santo António mais uma das suas "prosápias" publicadas, que mais não fazem do que mantê-lo no convencimento de que o muitos livros, se não forem para o índice do Guiness, correspondem grosso modo ao ditado popular de que "muitos brados cabem no cu do lobo".

      Desejo umas boas férias - bem merecidas - no Bairro Ribatejano, com um grande abraço desde o Planalto, ora frio e nebuloso como se à espera do D. Sebastão.

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    2. António Luiz Pacheco6 de janeiro de 2022 às 15:15

      Boa!
      Cá o espero... e, tratemos do frio, humidade e nebulosidade, com o nosso Sol engarrafado!
      Eheheh! E uns salpicões, queijinhos, chouriças... são o melhor remédio anti-Inverno que conheço!
      Grande Abraço!

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    3. António Luiz Pacheco7 de janeiro de 2022 às 11:01

      Chegou hoje mesmo!!!!
      Eheheh! Muito obrigado pela lembrança! Aliás vem mesmo a jeito, dado que constitui a leitura ideal para o longo vôo que me espera na próxima Segunda-feira: Lisboa-Paris-Luanda... aliás toda a gente sabe que o percurso mais directo para Luanda passa justamente por Paris!
      Menos mal que aproveito para no aeroporto comprar umas boas revistas de caça francesas, que são das melhores que há! E na época do Natal saem sempre aqueles números especiais, temáticos!
      Será portanto devidamente apreciado.
      Um grande abraço barrão, e uma saúde com vinho novo... experimente o 3 Castas, do Fiúza, que é vinho aqui da zona. O Pingo Doce tem!

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  4. Em primeiro lugar, desejo a todos 1 ano extraordinário.
    Será legítimo utilizar a palavra "obra", relativamente aos 2 livros escritos por Harper Lee?

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    1. Maria Do Rosário Pedreira6 de janeiro de 2022 às 08:25

      Sim, porque ela não é «qualquer pessoa». É o que diz o texto.

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    2. Ou seja, presumo que onde refere "qualquer pessoa" se deve entender por "qualquer escritora", dado tratar-se de um Prémio Pulitzer de Ficção. Sim, porque pessoas somos todos, os bons, os maus e os medíocres.
      Enfim, é por estas e por outras que não recorro a editores. O mais curioso, é que nem me sinto mal com isso.

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  5. E que dizer de “O Leopardo” de Giuseppe Tomasi de Lampedusa”, será único livro ou única obra? Soa melhor único livro quando se fala do autor, mas querendo analisar o conteúdo a obra impõe-se. Enfim, esta nossa bela língua portuguesa tão cheia de labirintos!
    Um bom Ano Novo para a nossa anfitriã e para todos os extraordinários participantes.
    ECG

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