Natália

Já sabem que não sou muito «televisiva» e, embora acredite que há séries francamente boas, é muito raro dispor-me a ver uma até ao fim, principalmente porque estou sempre a perguntar-me se não deveria aproveitar esse tempo para ler, pois a idade avança e cada vez há mais livros à minha espera. No entanto, um dia destes resolvi alinhar em ver um documentário intitulado Insubmissa em dois dias seguidos (são mesmo duas partes, antes e depois do 25 de Abril) sobre a escritora Natália Correia, essa mulher telúrica que chegava e logo vencia pela aparência, a coragem, as ideias, a voz, a frontalidade. A realização é assinada por Joaquim Vieira e a investigação e o roteiro são da romancista e guionista Filipa Martins, que já tinha colaborado em vários filmes e séries (Três Mulheres, Bem Bom, etc.) e que aqui intervém também como «a ouvidora» de todos os testemunhos; e são muitos, pois não só assistiremos a conversas com pessoas que sempre soubemos das relações de Natália, como Helena Roseta ou Fernando Dacosta (este último escreveu até sobre o Botequim, bar que foi uma espécie de casa de Natália aberta ao público), mas também vários desconhecidos que com ela privaram, como o empregado do bar, o jovem pianista que lá tocava ou uma professora de Matemática muito sua amiga. Gostei! Um ritmo muito inesperado, boa música de fundo (embora às vezes um pouco alta), muitas novidades, um retrato extraordinariamente bem feito de uma escritora e mulher muito especial. Até, vejam lá, em matéria de intimidade... A certa altura alguém conta que, por ocasião de uma sua participação num determinado evento fora de Lisboa, no hotel só lhe reservaram um quarto e Natália não ia sozinha. Ela fez uma fita: mas como era possível dormir na mesma cama com um homem? Só para saberem, o senhor que a acompanhava era... o marido. Vejam o documentário na RTP PLAY, que vale muitíssimo a pena.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco7 de dezembro de 2021 às 01:56

    Uma mulher intensa, desassombrada e corajosa, foi personalidade indissolúvel do nosso espectro cultural e político.
    É bonito e útil lembrá-la, sobretudo porque foi inclusiva, não sendo preconceituosa o que é uma qualidade cada vez mais rara.

    CREDO

    Creio nos anjos que andam pelo mundo,
    creio na deusa com olhos de diamantes,
    creio em amores lunares com piano ao fundo,
    creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes;

    creio num engenho que falta mais fecundo
    de harmonizar as partes dissonantes,
    creio que tudo é eterno num segundo,
    creio num céu futuro que houve dantes,

    creio nos deuses de um astral mais puro,
    na flor humilde que se encosta ao muro,
    creio na carne que enfeitiça o além,

    creio no incrível, nas coisas assombrosas,
    na ocupação do mundo pelas rosas,
    creio que o amor tem asas de ouro. Amém.

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  2. Também gosto pouco de televisão, exceto para ver jogos de futebol, ouvir música na Mezzo, ver episódios da Visita Guiada e justamente os deste tipo, sobre figuras que da lei da morte se libertaram. Comecei a seguir a série sobre Voltaire mas o documentário sobre Natália Correia escapara-me. Agradeço a indicação da Extraordinária anfitriã, vou assim poder vê-lo.
    Agradeço também ao Extraordinário Pacheco o poema que aqui postou.

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  3. Tenho de ver! Lembro-me de a ver encher o ecrã com a sua presença. Não percebia muito do que ela dizia (eu era pequena e ainda sabia mal português) mas achava-a magnética...

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  4. José Carlos Costa Barros vence Prémio Leya 2020/2021.
    Foram cerca de 800 obras em "jogo", venceu a melhor, porquanto obteve unanimidade do Júri.
    A Leya continua, no meu entender, sem merecer prémio, uma vez que mantém como presidente dos jurados o sr. Manuel Alegre, pois um prémio desta grandeza merecia maior rotatividade na cadeira.
    Digo isto, não porque tenha sido concorrente (que não fui, nem serei), também porque não tenho algo a apontar ao visado presidente, mas porque os lugares devem ser rotativos, com vista a não ganharem cimento e petrificarem no posto. Nada mais.

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  5. Da nossa NATÁLIA CORREIA, o magnífico poema "Queixa das Almas Jovens Censuradas", excelentemente musicado pelo GRANDE JOSÉ MÁRIO BRANCO.
    Aqui, tocado e cantado por mim, numa versãozinha, muito caseira e muito amadora.
    Que ambos me perdoem a ousadia...
    https://youtu.be/pxa3IgfHB5w

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  6. Obrigada pela sua partilha. Também tive o gosto enorme de ver o documentário e de ler sobre o Botequim. Ainda hoje, quando se passa lá, há um quê de mistério que emana de saber-se da presença dessa grande mulher, em tempos, por ali.

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  7. Até no melhor feito em Portugal, às vezes (quase sempre) a música de fundo se sobrepõe às vozes, o que é deveras irritante. Temos de mandar os sonoplastas ao otorrino

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