Excerto da Quinzena

Chegámos a Boston num autocarro da Greyhound. As ruas estavam resplandecentes, os contornos dos edifícios definidos, as linhas exactas. A cidade tinha qualquer coisa de familiar, uma atmosfera demasiado europeia para aquilo que procurávamos. Precisávamos de sair dali depressa. Esperámos pelo Rui deitados na relva do Boston Common. Vários grupos de rapazes e raparigas jogavam futebol americano, ou frisbee, ou faziam ioga. Havia uma transparência desarmante em todos os seus gestos, uma segurança evidente na forma como se moviam: estavam felizes, certos de que cada coisa se encontrava no devido lugar. Não parecia existir neles a necessidade de sair em busca de vidas alternativas. Possivelmente, nas suas cabeças, o mundo fora daquele parque estava coberto por uma neblina cerrada.


– Esta merda é completamente Hemingway – comentou o Marco.


– Eu sei. Até mete nojo.


–Temos de deixar estas cidades bonitinhas. Para isto tínhamos ficado em Lisboa. Temos de ir para sul.


 


David Machado, A Educação dos Gafanhotos

Comentários

  1. " As paredes, que a lâmpada no tecto iluminava, estavam todas rabiscadas a lápis. A porta , que encostei, tinha inscrições gravadas a canivete. eram morras ao Governo, palavrões, vivas à República, denúncia de que o dono da tasca era corno, desenhos em que se viam homens e mulheres, ou homens com homens, nas mais variadas posições obscenas, gabações de que alguém, que se nomeava, tinha feito a outro alguém isto ou aquilo, recomendações poéticas como " não cague cantando, que a merda sai dançando", vaidosas medidas de pénis e de testículos proclamações de preferências sexuais, retratos ( e mesmo auto~retratos", como um com a legenda: "este sou eu"). Aquelas peredes eram, como a retrete em que eu estava sentado, uma retrete da vida.
    Jorge de Sena - Sinais de Fogo

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    1. Boa tarde, Extraordinári@s!

      Grande Livro! Adorei lê-lo.

      Celeste Silveira

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  2. Há centenários e centenários.
    O do nascimento de Maria Judite de Carvalho ocorreu no dia 18 de Setembro. Maria do Rosário Pedreira lembrou-o por aqui, já a colocou numa das antologias da quinzena, o resto um silêncio quase total, mas também é bom dizer que muita coisa não consigo ler/ver/ouvir.
    Maria Judite de Carvalho vista, em Julho de 1968, por Mário Sacramento:
    «Envergando a sua fina camisa de boa seda, bem engravatado e sem casaco, o N. – recordo-o agora – mostrou-me um cartão da Maria Judite de Carvalho em que esta guitarra cigana tão dolente e fina, penetrante e nostálgica, não se sabe de quê, recusou dar uma entrevista ao suplemento do jornal, a pretexto de que é antiliterária. Com a sua incapacidade de entender o que não meta cifrões, o N. (que a admira, está claro, pois as incomparáveis crónicas dela são pólen adejante que entra pela mais ténue frincha) comentou:
    -Veja lá, não tem consciência do valor que tem…
    Disse-lhe que pelo contrário!
    A autenticidade dessa mulher é realmente espantosa, se tivermos em conta, por demais, que não sofreu qualquer influência visível do Urbano, o que é bem difícil, se levarmos em conta a irradiação que o caracteriza. Apetece ajoelhar diante dela, para lhe beijar humildemente os pés.»
    Mário Sacramento em Diário, Limiar Editora, Porto, Junho de 1975.

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  3. «Pensa nisto: quando te oferecem um relógio, oferecem-te um pequeno inferno florido, uma prisão de rosas, um calabouço de ar. Não te dão somente o relógio, muitos parabéns, que te dure muitos e bons, é uma óptima marca, suíço com não sei quantos rubis, não te oferecem somente esse pequeno pedreiro que prenderás ao pulso e passearás contigo. Oferecem-te — ignoram-no, é terrível ignorá-lo — um novo bocado frágil e precário de ti mesmo, algo que é teu mas não é o teu corpo, que tens de prender ao teu corpo com uma correia, como um bracito desesperado pendente do pulso. Oferecem-te a necessidade de lhe dar corda todos os dias, a obrigação de dar corda para que continue a ser um relógio; oferecem-te a obsessão de ver as horas certas nas montras das joalharias, o sinal horário na rádio, o serviço telefónico. Oferecem-te o medo de o perder, de seres roubado, de que caia ao chão e se parta. Oferecem-te uma marca, a convicção de que é uma marca superior às outras, oferecem-te a tentação de comparares o teu com os outros relógios. Não te oferecem um relógio, és tu o oferecido, a ti oferecem para o nascimento do relógio.»

    Julio Cortázar, «Histórias de Cronópios e de Famas», trad. Alfacinha da Silva, ed. Editorial Estampa

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  4. Dos livros que mais me influenciou, lido aí pelos 17 a 19 anos!

    "O sol ainda não se levantou. Está fazendo frio. Estamos na coberta, vestindo nossas japonas. Mar agitado, logo na saída do porto.Pierre está no leme, Saint-Malo, coberta por enormes nuvens cinzentas, desaparece lentamente. Ninguém fala. É bastante impressionante partir assim, de madrugada, para dar a volta ao mundo.A situação tem algo de irreal. Olho para as ondas curtas, verdes e brancas, que chegam ao estibordo e me esforço por reconhecer que estamos lá de verdade, todos juntos com nosso barco debaixo de nossos pés. Por meses e meses disse e repeti as mesmas coisas, só pensando na partida. Nada contava, fora a expedição. Sem que o percebesse, ela se tornara uma coisa abstrata, intangível, um alvo a ser atingido.Agora vou vivê-la, essa expedição. Vou precisar me acostumar com a idéia. Sei que também meus companheiros compartilham dos mesmos sentimentos.- Acabamos de percorrer nossa primeira milha - diz Roger.- Só faltam outras 24.999."

    Bernard Gorsky - Expedição Moana, a volta ao Mundo em pesca submarina.

    Votos de um Extraordinário Fim de Semana para todos.
    A próxima Segunda-feira já me encontrará no meu Bairro Ribatejano! Levo cá uma lista de livros para comprar... eheheh!

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  5. -NARRATIVAS DO IMPÉRIO de Gore Vidal: "Metade dos americanos nunca leu um jornal, metade dos americanos nunca votou para um Presidente".-

    transcrito do excelente livro VIAGEM AO SONHO AMERICANO de Isabel Lucas

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    1. O Seve, tu que te interessas pelo tema, leste, Sul Profundo, de Paul Theroux?
      É uma fantástica viagem e uma análise clara, esclarecida e esclarecedora do eleitor do "make America great again" (vulgo Trump).

      Abraço!

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    2. Ó Paxeco, "SUL PROFUNDO" - Excelente!
      Li-o há cerca de três anos, e o que eu aprendi sobre a América (por ex.: O Ku Klux Klan originou-se em meados do séc. XIX, não entre os brancos pobres, mas na classe dos plantadores que usavam o terror para manter os negros a trabalhar nos campos...;
      -A primeira auto estrada de costa a costa, a Autoestrada Lincoln, foi inaugurada em 1931. Ligando Nova Iorque a S.Francisco...

      Gosto de livros de viagens e o Paul Theroux é um dos meus preferidos.

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  6. Qualquer de nós pede de mais à vida. Só os medíocres ou os egoístas são felizes, uns porque aceitam tudo, outros porque se couraçam contra as dores alheias e, na sua arte de viver, escolhem da existência só o que é gozo e logo fazem por esquecer, ou esquecem mesmo, tudo aquilo a que voltam as costas. Mas nem tu nem eu somos assim, não aprendemos a caminhar sobre os cadáveres das emoções. E, olha, ainda bem!, mais vale viver pouco, mas em profundidade. Com paixão e com sofrimento. Humanamente. O amor, [...] haverá coisa pior do que assistir-lhe ao fim, vê-lo degenerar em "afecto", quando não em indiferença?
    Urbano Tavares Rodrigues - Dias Lamacentos

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    1. Urbano Tavares Rodrigues - um bom escritor tão esquecido.

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  7. Boa tarde, Extraordinári@s Leitor@s!

    "... Carregamos o peso daquilo que os outros pensam que somos. Os outros tiveram acesso a uma parte de nós e tiraram as suas conclusões. Muitas vezes, os outros não nos deixam mudar porque não estão dispostos a mudar a forma como nos veem, fazê-lo implicaria que eles próprios mudassem. As biografias são depósitos de convicções que os outros tiveram sobre nós. A imperfeição desse método é evidente."
    "Autobiografia" de José Luís Peixoto.

    Ainda estou bem no começo, mas a minha natural (e por vezes muito inapropriada curiosidade), já me fez procurar mais informações sobre o livro. E até ao momento, estou a Adorar.

    Em relação ao David Machado? Gosto, mas gosto muito mesmo deste autor. Não só da sua literatura para "séniores", como a que é dirigida a crianças. Já foi, inclusivamente, convidado desta minha bela casa profissional. E deve ter muitos afazeres, é o que é! Mas eu adoraria mesmo que o David pudesse escrever mais romances. Adorei o: "Índice Médio de Felicidade". O "Deixem falar as Pedras". E também "viajei" por aquela América onde nunca fui, só estive mesmo no aeroporto de Filadélfia, a tal América do funesto e absolutamente lamentável 11 de Setembro.
    Fiquem bem, com muitas leituras. E protejam-se. É no quentinho das habitações nestes dias fuscos, que a Leitura muito apetece.

    Celeste Silveira

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    1. Olá Celeste. Acabei há dias de ler esse estrondoso "Autobiografia", percebo perfeitamente o seu encantamento. E, logo a seguir, como não podia deixar de ser, comecei um Saramago (Viagem a Portugal). Acho que "Autobiografia" é uma declaração de amor a Saramago, penso que o JLP tinha de escrever esse livro e acabou-se.

      Mas o final do livro demorou-me muito a ler - talvez por ter calhado numa fase em que estive afogada com trabalho - e fiquei na dúvida se foi de mim se foi do livro... hum, acho que foi de mim. Mas talvez depois a Celeste me possa confirmar isto. :-)
      Boas leituras!

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    2. Olá Susana:
      Que bom saber de si!
      Sim, estou a ler a Autobiografia com muito empenhamento. Concordo consigo, até ao momento também acho tratar-se de uma belíssima declaração de amor ao nosso único nobelizado no que à literatura diz respeito. Mas eu sou suspeita: Adoro Saramago! Houve uma vez em que eu fui assistir a uma apresentação de um livro de Saramago. Acho que por alturas do lançamento do fantástico livro: "Todos os Nomes". Gostei de o ouvir, mas gosto muito mais de o ler. Na altura, ele ainda escrevia nas dedicatórias dos livros o nome dos "requerentes". Estive na fila e o livro tem dois nomes, o meu e o de uma Grande Amiga minha. Não podíamos perder a oportunidade já que uma se esquecera de levar o livro... ;-)
      Acho que a prosa do excelente José Luís Peixoto está soberba. Dignifica o autor já falecido e glorifica a oportunidade dada pela efeméride. A seguir vou ler a: "Terra do Pecado". E só me fica a faltar mesmo, ler um ou dois, dos livros de Saramago. Mas creia que depois da leitura da Autobiografia: e pedindo desde já licença à nossa Anfitriã, lhe darei notícias.
      Fique bem com muitas Leituras, Susana. E que belas conversas se podem ter à volta de um livro.
      Celeste Silveira

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  8. mais uma excerto de "a máquina de fazer espanhóis":

    deus é uma cobiça que temos dentro de nós. é um modo de queremos tudo, de não nos bastarmos com o que é garantido e já tão abundante. deus é uma inveja pelo que imaginamos. como se não fosse suficiente tanto quanto se nos põe diante durante a vida. queremos mais, queremos sempre mais, até o que não existe nem vai existir.

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