O que ando a ler

Não sei muito bem explicar porque deitei a mão a este livro, até porque praticamente não tinha lido nada sobre ele, a não ser que fora finalista do Man Booker Prize (o que, de há uns anos a esta parte, também deixou de ser uma referência para mim). Talvez tenha sido um lado guloso escondido que me atraiu para o título, embora eu já não fique com água na boca por causa de doces, como acontecia na infância, comendo, aliás, cada vez menos guloseimas. O que é certo é que, assim que foi publicado, quis ler este Açúcar Queimado, da escritora norte-americana, de família indiana (e os costumes indianos aqui, bem como as comidas, são muito importantes), Avni Doshi, que já tinha escrito para a revista Granta (o que não é para todos) e feito uma especialização na Universidade de East Anglia, em Inglaterra, donde saíram escritores de renome como Ishiguro ou McEwan. Trata-se de mais um livro que fala da relação entre mãe e filha, mas aqui a mãe especializou-se em dar uma vida difícil à sua criança desde muito cedo, pelo que há muitíssima raiva latente, embora também uma grande preocupação, já que Tara (a mãe) começou a esquecer-se de tudo de repente (o lume aceso, por exemplo) e é, de facto, preciso que alguém cuide dela, mesmo que isso possa significar o fim do casamento de Antara (a filha). Mas a história presente alterna com as memórias que Antara tem de como ambas foram construindo a sua relação, ora rodeadas por familiares e amigos, ora pelos vários amantes de Tara. Vamos lá ver se isto não acaba mal...

Comentários

  1. Bom dia com alegria

    Como diria BHL, dono de um ego tão grande que a sua coluna é um mistério para a Ortopedia, "a família é um ninho de neuroses" - ou seja, uma excelente fonte de matéria prima para glosar!

    Saúde e boas leituras
    cp

    PS: A ler "Pós-Guerra - História da Europa desde 1945", de Tony Judt, comprado na extinta Pó dos Livros.

    PS2: Um dado interessante, revelado por João Rodrigues, durante o Braço das Artes: Em Portugal, metade do volume de vendas dos livros é feita em grandes superfícies comerciais, vulgo hipermercados. Porém, nesses mesmos pontos de venda (hipers), apenas estão disponíveis cerca de 20% dos livros editados.

    PS3: Chama-se a isto Biodiversidade

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    1. Grande livro, o de Tony Judt, não só em tamanho.

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  2. Bom dia! Leio, pela primeira vez na vida, Dostoiévski. Os Irmãos Karamázov. O livro impressionou-me logo desde o início. Graças também à Nina e ao Filipe Guerra, que traduziram. Por estes dias, só conheço a excelência, russa e lusa.

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  3. Não deixa de ser curioso o título desta rúbrica sempre tão apetecível, "o que ando a ler", embora se fale mais "do que andei a ler", até porque o que andamos a ler pode estar numa fase em que a nossa opinião pode ser dúbia... Eu por exemplo comecei a ler "Primavera Autónoma das Estradas" de Mário Cesariny e ainda não desisti, mas não me entendo nada com as palavras deste "poeta maldito". Embora goste da pintura surrealista, tenho dificuldades com a sua literatura.

    E nem de propósito, reli "Os Passos em Volta", de Herberto Helder, que algumas pessoas ligam as suas palavras ao surrealismo (mas estão enganadas...). Gostei muito de voltar a andar à volta dos contos de Herberto, que para mim foram clarinhos como água (e bastante inspiradores), não estão escritos de pernas para o ar, de lado ou na vertical.

    Continuo a ler poesia (estou a ler "Clepsidra" de Camilo Pessanha...). E gostei muito de ler "Uma certa Forma de Errância", da poetisa Graça Pires.

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  4. Sugestionado por uma referência antiga, já nem me lembro de quem, pis-me a ler Todos os Nossos Ontens, de Natalia Ginzburg. Com um apelido assim, estava longe de pensar que era italiana, mas é, a familia de onde lhe vem o apelido é judia.
    Passa-se no tempo ante e durante a 2a GM. Mussolini está sempre em pano defundo, os alemães também, mas são as personagens que construiu que fazem o tecido do livro. As suas idiossincrasias, as influências que recebem da sociedade, as relações entre si, sempre em transformação no que concerne aos jovens, tudo bem escrito num estilo modernista muito adequado, está a agradar-me imenso.

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  5. António Luiz Pacheco2 de novembro de 2021 às 06:09

    O Longo Vale... do eterno e genial criador de personagens, John Steinbeck.
    Decididamente o que mais gosto nele são os personagens! Extraordinário... creio que de um modo geral, aliás, o que mais me prende num romance são os (ou as?) personagens!
    Talvez por isso gosto tanto de romances americanos (Norte, Centro e Sul).
    Desde Sábado que estamos cá com feriado (hoje) prolongado... tenho passado práticamente os dias na Baía do Santo António, onde amigos têm casa de praia... houve três aniversários de um companheiro da pesca e de dois sobrinhos de um outro velho amigo e também companheiro de pesca, este parte de uma grande família que aqui são de facto "uma família". Sempre lhes digo que há cada personagem... um galego doutorado em economia, antigo representante do Banco Mundial, casado com uma mulata e que faz paellas! Um português da Póvoa do Varzim, homem de muitos saberes que faz facas e assa leitão no cabo de ferro de um ancinho... um peruano casado com uma indonésia, homem de cebiche e conhecedor de vinhos, representante de uma empresa americana que aluga navios à SONANGOL... os irmãos Mestre, empresários de transportes cada qual igual a si mesmo e cada qual um caso sério! Sem deixar de me citar eu mesmo que me integro nesta fauna contando histórias do Arco da Velha! Aliás tudo caçadores, portanto mentirosos...
    Enfim, se Steinbeck aqui viesse, o que não sairia de contos ou romances!!!!

    Saudações cá da alegre Cidade Morena!

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  6. Ando a ler Crónicas Italianas do António Mega Ferreira, de quem já li também Roma-Exercícios de reconhecimento e Itália-Práticas de viagem, para completar a trilogia, todos da Sextante Editora. Por dever de ofício e com vista ao Clube de Leitura da Portela estou a ler O Avesso da Pele de um autor brasileiro, Jefferson Tenório; não estou a gostar nada, acho a prosa seca, sem laivos de algum humor; a trama, na pena de um Jorge Amado, outro galo cantaria; e também O Mestre de Esgrima do Arturo Perez Reverte, ainda estou no princípio e não tenho opinião formada sobre este romance histórico.

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  7. “Todos os anos Ergo regressava à escola , depois das ferias de Natal, como se fosse outro homem . Tornava-se sonolento e cansado, doíam-lhe os olhos e a cabeça. A visão da neve suja era para ele tão assombrosa que chegava a doer-lhe . Ergo pestanejava e sentia-se como se estivesse preso num corpo desajeitado, rígido e inábil, e esse corpo , por sua vez , estava preso num mundo desajeitado, rígido e inábil.E a própria existência das crianças na escola lhe parecia uma coisa sem sentido- ensiná-las à custa de tanto esforço, batalhar contra a sua vacuidade espontânea, perder a vista a corrigir testes , perder a audição com a sua gritaria ,ficar grisalho por causa do pó do giz omnipresente - tudo isto para depois crescerem e matarem-se novamente uns aos outros na próxima guerra . Ou , então, para , em tempos de paz beberem vodca e procriarem seres semelhantes a eles.E ele ensinava Virgílio. Não percebiam patavina, sabia disso . Repetia com eles frases latinas simples que , nas bocas dos alunos , se transformavam simplesmente em palavras estrangeiras. O significado esvaía-se delas como sementes de papoila num saco roto e caíam na corrente fedorenta e suja do rio que teimosamente atravessava a cidade . Num raio de cem quilómetros, não havia ninguém que compreendesse Virgílio,ninguém que ansiasse por ele . Não precisavam dele para coisa nenhuma. Vivia rodeado de pessoas que não tinham descoberto os livros , que , tendo diante de si uma pilha de livros , entre eles Platão, Ésquilo e Kant , haveriam sempre de desencantar o GUIA do Colector de Cogumelos ou , então, Cem receitas de Pratos com batatas .”
    passagem de Olga Tokarczuk em Casa de dia , Casa de noite

    Não sou professora , mas entendi perfeitamente. Isto também é o peso e o desencanto do envelhecimento.

    M.A.

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    1. Excelente partilha!
      Obrigada.

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    2. Que trecho maravilhoso! Dela, li "Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos" e gostei muito - este vai também para a minha longa lista de livros a ler.
      Filipa

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  8. "NO PASSADO E NO FUTURO ESTAMOS TODOS MORTOS" do Miguel Esteves Cardoso, livro de pequenas crónicas com alguma piada (de vez em quando sorrio).

    Entretanto, dando razão ao meu caro Luís Eme, acabei de ler com muito interesse a biografia do José Cardoso Pires (notívago, boémio, brigão), "INTEGRADO MARGINAL" do excelente Bruno Vieira Amaral, apesar de ser um livro denso (mais de 500 páginas) gostei --muito interessante --

    Aproveito para vos sugerir um excelente blogue (LARGO DA MEMÓRIA, com belas fotografias) do também extraordinário Luís Eme.

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    1. Eu ando a ler o estrondoso "Autobiografia" do José Luís Peixoto, uma ideia de leitura colhida neste querido blogue. Agradeço a quem aqui recomendou esta obra magnífica. Dá vontade de ficar o dia todo a passear dentro do livro. É como se fosse uma declaração de amor, um amor de admiração imensa, ao Saramago. Dá, até, para matar um bocadinho as saudades que temos (tenho) dele.

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