Nada é inocente
Recebo várias vezes por semana a lista e os links das críticas, entrevistas ou meras referências a livros publicados pelo grupo editorial para o qual trabalho. Misturadas com elas, aparecem todo o tipo de artigos e notícias, desde receitas a inquéritos de satisfação, desde que neles figure algum nome (real ou semelhante) ao de um autor nosso. Mas estranhei um dia destes a inclusão nesse rol de um artigo publicado no jornal Tal & Qual, que é, na verdade, o que aqui me traz hoje, pois prende-se com a forma como, nos dias que correm, as notícias são apresentadas só para chamar a atenção dos leitores. Dizia o título: «Prostituição na agenda de Marcelo.» Quem ler isto assim de repente até pode pensar que o senhor Presidente tem agendado algum encontro com uma prostituta quando isso é totalmente falso. Afinal, há uma representante da mais velha profissão do mundo que gere um bordel em Évora, Ana Loureiro de seu nome, que, defendendo a legalização da prostituição (eu também), procura o apoio do Presidente se o Parlamento lograr fazer uma lei sobre a matéria. Ana Loureiro mandou um e-mail para a Presidência da República a pedir para ser recebida por Marcelo e foi atendida por duas das suas assessoras (embora o Tal & Qual escreva «acessoras», raios!). Não me parece, pelo que li, que o assunto tenha exactamente entrado na agenda do Professor, mas os títulos aldrabados servem para lermos as notícias até ao fim e eu caí na esparrela. Nada é inocente e eu também já tinha idade para não o ser...
Ora, é acessoras sim, porque dão acesso! Eheheheh!
ResponderEliminarBordel em Évora, deve ser "A Vivenda" que era muito conhecida nos meus tempos de estudante, nos anos 80, conhecida entre nós por "O ninho das águias" porque se localizava numa elevação fronteira à estrada nacional!
Há em Portugal diversas casas ligadas às actividades do sexo, ou prostituição, bem conhecidas e que marcaram gerações, creio que ainda marcam pois a minha sobrinhada e filhos de amigos, frequentam a famosa "Kikas" no Vale de Santarém que é até referência internacional! Ahahah! Depois ainda existe o famoso "Jardim Zoológico" em Lisboa, constituído por casas com nomes de animais, eheheh!
Há coisas que serão sempre assim... ora como não estudei para padre nem pretendo ser santo, só posso dizer que nada tenho contra a prostituição, embora tenha passado a ter dela uma outra e triste idéia desde que assisti a algo confrangedor e que me tocou profundamente. Mas isso deve ser porque envelheci? Talvez um dia conte este episódio humano e tocante, na senda daquela fabulosa série "Matrioskas", quem viu?
A prostituição marcou indelévelmente muitas ou todas as gerações, entre as quais a minha, óbviamente. Fazendo parte da nossa formação e inclusive iniciação, constituindo uma das maiores hipocrisias da nossa sociedade beata e dissimuladora. Haverá quem diga que não, e o mentiroso sou eu?
Neste caso concreto, para nós Extraordinários Leitores, gente dos livros e da literatura, traças, lembro que tem sido tema de muitos e belíssimos romances, proporcionando célebres personagens a grandes escritores, atentos ao palco da vida... creio que o mais notório deve ter sido o Grande Jorge Amado, mas não esqueçamos Steinbeck e tantos, tantos outros que souberam ir buscar a esta franja da sociedade, aquilo que nos deleita enquanto leitores. Lembro ainda o fabuloso vencedor de prémio Leya, "A rainha do cine Roma", e, se fizermos um ligeiríssimo esforço de memórias todos nos recordaremos tanto das personagens quanto dos bons romances em que o assunto aparece e é tratado como acessório ou mesmo sendo o tema-objecto do romance.
Saudações cá da Cidade Morena.
Só depois de escrever é que li o comentário. Pensámos na mesma coisa, extraordinário Pacheco. :)
EliminarPois é, cada vez mais se explora essa coisa de a "capa dizer uma coisa que é e depois quando passamos para a notícia descobrimos que afinal não é".
ResponderEliminarFoi quase sempre esse o truque do "CM". E como é o que mais vende, às vezes os outros tentam imitá-lo. Mas como as "imitações" são sempre piores que o original, talvez fosse melhor os outros continuarem o seu caminho, sem trocar os olhos aos leitores.
E é bom lembrar que acessoras escritas desta forma ficam mais acessíveis. :)
Bom dia com alegria
ResponderEliminarO termo técnico acho que é "clickbait".
"Clickbait is a text or a thumbnail link that is designed to attract attention and to entice users to follow that link and read, view, or listen to the linked piece of online content, being typically deceptive, sensationalized, or otherwise misleading"
https://en.wikipedia.org/wiki/Clickbait
Saúde e boas leituras
cp
A ler "To save everything, CLICK HERE" de Evgeny Morozov
Excerto: "As Pamela Hieronymi, a professor of philosophy at the University of California, Los Angeles (UCLA), points out in an important essay on the myths of online learning, "Education is not the transmission of information or ideas. Education is the training needed to make use of information and ideas. As information breaks loose from book stores and libraries and floods onto computers and mobile devices, that training becomes more important, not less." Of course, there are plenty of tools for increasing one's digital literacy, but those tools go only so far; they might help you to detect erroneous information, but they won't organize your thoughts into a coherent argument."
Verdade! O antigo sensacionalismo encontrou, na era digital, a forma rainha de se impor. Obriga a que o próprio leitor seja mais ponderado e aprenda a separar trigo e joio com mais destreza, tal é o vertiginoso fluxo de títulos a tilintar.
ResponderEliminarNem de propósito quanto ao tema de hoje... e a forma de noticiar!
ResponderEliminarJá dei boas gargalhadas, e partilho aqui com a devida vénia:
"-Chefe! chefe! ataque terrorista numa parada de Natal!
-Oh, catano! e então?
-Na América! foi na América!
-E há dados?
-5 mortos e mais de 30 feridos!
-Já se sabe quem foi?
-Ainda não.
-Isso deve ter sido um neonazi. Ou um apoiante de Trump.
-Ou um negacionista.
-Sim, é o mais certo.
-E agora, chefe?
-Agora? quero essa notícia a abrir telejornais de hora a hora. Digam que foi um neonazi apoiante de Trump, negacionista e que ainda tentou espalhar o vírus durante o ataque.
-É isso chefe!
(...)
-Chefe! Chefe!
-O que é que se passa?
-Já se sabe quem atacou o desfile!
-E então? nazi, claro!
-Não chefe, foi um afro-americano.
-Mau! mas era nazi, ao menos?
-Parece que não.
-Então isso é um problema. Bem, como é que vamos resolver isto?
-Podemos sempre dizer que era oprimido pela sociedade e que se tratou de uma revolta contra o heteropatriarcado. Ou que queria mudar de género e não o deixavam.
-Sim, isso seria um grande alerta para os maiores problemas da humanidade.
-Ou dizemos que foi um acto de protesto contra as alterações climáticas e a favor do encerramento das centrais a carvão.
-Pois. Só uma coisa, o desfile era nazi?
-O desfile? não era de Natal.
-É quase igual. Aquilo deviam ser apoiantes de Trump a celebrar o Natal supremacista nazi.
-Mas isso não se sabe ao certo.
-Pois, e depois se alguma das vítimas era afro-americana é uma chatice.
-Como é que fazemos então, chefe?
-Deixem isso, não se fala mais no problema.
-Então não noticiamos de hora a hora?
-Não, não.
-E se alguém se queixar?
-Dizemos que não temos internet desde ontem.
-Boa chefe!"
João Vaz