Humanidade
Às vezes, fico deprimida com a forma como o mundo está a funcionar. Um dia destes fiquei parada numa rua à espera de que um automóvel, três lugares à frente do meu, descarregasse uma série de coisas (a segunda faixa foi substituída por uma ciclovia e todos tivemos de esperar pacientmente) e, enquanto ali estive, só vi pessoas a olharem para os telemóveis encostadas a prédios ou na paragem do autocarro. Estamos a criar seres mecânicos... Para recuperarmos a humanidade, leiamos então o magnífico e comovente e belíssimo Notas sobre Um Naufrágio, de Davide Enia, um livro que parte da experiência pessoal do autor na ilha de Lampedusa – aquela que antes da separação das placas tectónicas pertencia ao continente africano (é por isso que ainda é mais significativa a tentativa de chegar à ilha por tantos africanos) e que se tornou local de desembarques sucessivos – e ouçamos o escritor italiano, também actor e dramaturgo, conversar hoje à tarde com o encenador e grande leitor que é Jorge Silva Melo. Depois da mesa-redonda em Óbidos, moderada por Cândida Pinto, está na hora de ouvir falar o belo italiano (com tradução consecutiva) nesta sessão apoiada pelo Instituto Italiano de Cultura em Lisboa. Apareçam!

Com o devido respeito por opiniões contrárias, e na certeza de que a minha opinião não é nem a única nem uma verdade absoluta, eu penso que a humanidade, também, mas, não se cultiva e muito menos desperta pela leitura do livro aqui referido.
ResponderEliminarEle é apenas mais um a relatar (e não a revelar) aquilo que todos nós, gente informada, sabemos! Desperta a Nossa Extraordinária Anfitriã e mais algum leitor atraído pelo drama, que existe e é um facto, mas promovido também por obscuros interesses, religiosos, políticos e até económicos. Mas a NEA, os Extraordinários e outros leitores eventuais, já possuem humanidade q.b. .
A humanidade, desperta-se vivendo essas situações, assistindo a elas, sofrendo-as na pele!
Foi o que aconteceu ao autor, muito óbviamente, quem agora quer despertar toda a gente para o seu drama personalizado, como se fora único... não é.
Para isso, e neste ponto concordo inteiramente com a Nossa Extraordinária Anfitriã, é preciso tirar ao pessoal os aparatos electrónicos com que se desligam da realidade e do Mundo, para se encerrarem nas suas realidades pessoais e no seu pequeno Mundo particular, que todavia acham ser o cúmulo do saber e da evolução, da modernidade e da sensibilidade absoluta para os grandes problemas da actualidade, nas suas cabeças...
É preciso tirar as pessoas do Mundo Virtual, e fazê-las descer à normalidade, onde faz frio e calor, onde se passa sede, há fome e desconforto, onde se sua, ofega, se luta e sofrem de males reais, que não são o anseio pelo iphone XPTO 35 ou a preocupação com os ursos polares que urge salvar.
Claro que a leitura é um dos caminhos que conduz à humanidade, um caminho directo, simples e até barato, mas que implica ainda algo que falta muito: entendimento! Saber ler e interpretar o que se escreve. É notória essa lacuna, suponho que de educação puramente escolar. Como é que se comunica com quem não entende?
Portanto tudo começa por aí, por educar, sendo que ao educar se transmitem tanto os valores humanos quanto aqueles que são os da sociedade em que nos inserimos e onde vivemos. Sociedade da qual fazendo parte, é do nosso interesse preservar, pois em troca ela nos protege. Essa a razão de viver em sociedade e a vantagem. É isso que eu considero ser "humano", como é por isso que devemos cultivar a humanidade em vez de a desmontarmos e pretendermos substituir por algo de indefinido que ninguém sabe ao certo o que é e muito menos ao que nos conduz, mas pode muito bem ser o caminho da desumanização! Estou a pensar em Clara Ferreira Alves, concretamente, porque acho que uma vez mais tem razão na sua esclarecida e frontal análise, e, posição.
Para sermos humanos, não temos de nos dedicar a grandes causas distantes, mas sim ao nosso pequeno círculo, onde a podemos exercer objectiva e directamente, com efeitos reais. Esse círculo colinda com outros e outros, e, assim infinitamente criando uma corrente, pela qual se chega àquele ponto civilizacional e humano onde devemos estar, idealmente.
Os refugiados precisam de ajuda? Não sei... eles são humanos, todavia, virão eles preparados para serem humanos? Porque vêm e para quê, na realidade?
Não me entendam mal, eu mesmo sou um refugiado, admito. Fugi da crise, fui obrigado a vir procurar refúgio onde me aceitassem e valorizassem a experiência, porém, vim com um visto de trabalho e com um propósito muito claro: ajudar ao desenvolvimento e a criar conhecimento, no fundo apoiar as pessoas. Mais, ao vir, integrei-me, procuro fazer parte e criei o meu círculo onde ajudo directamente os que estão comigo, de forma mais indirecta aqueles outros que se incluem nos muitos projectos de pescarias, fazendas, indústria alimentar. Querem mais humanidade?
Já o disse, não é livro que me atraia, tão-pouco faço tenções de o ler, tenho as minhas razões e não preciso de outras.
Saudações refugiadas cá da Cidade Morena, votos de uma semana proveitosa e muito humanizada, pois bem precisamos dela e uns dos outros!
Caro António Luiz, está no seu direito de não ler o livro, claro, mas emitir tantas opiniões sobre um livro que não leu, dizendo o que o autor quer e não quer com ele é mesmo estranho. Quem começa a ler o seu texto pensa que conhece a obra para, quase no fim do comentário, concluir que não tenciona lê-la... Como sabe então quantas pessoas se sentirão tocadas por ela? (Desculpe, mas desta vez achei mesmo o comentário intempestivo.)
EliminarOra essa! Não tem de que se desculpar, a sua opinião é tão legítima quanto correcta, além de que, discordar é sempre saudável e um exercício de liberdade!
EliminarNão li e nem tenciono ler, o que pode parecer estranho, porém já li o bastante sobre o assunto para saber que não me interessa ler mais. Poderão contrapôr que devo ler, quanto mais não seja para concluir que não me interessa e é mais do mesmo. Pois, mas já não caio nessa esparrela.
Vou ficar a aguardar os comentários ao livro, as muito prezadas opiniões dos Extraordinários que o leiam, aliás acredito que sejam vários a fazê-lo, incluindo-o anónimamente nesse grupo.
Um abraço cá da Cidade Morena!
Um refugiado que nunca passou fome no seu país e viaja confortavelmente de avião.
EliminarPois... mas que não deixa de o ser!
EliminarParafraseando Vasco Santana, refugiados há muitos, seu palerma!
Grande Pacheco! :)
Eliminar(Até consegue pôr os anónimos cobardolas a trepar paredes)
Há várias coisas que nos afastam uns dos outros, que nos tornam cada vez mais egoístas e menos solidários. O telemóvel é talvez o exemplo mais gritante do nosso "alheamento" em relação ao mundo. Mas o pior é a forma como somos "bombardeados" com "mentiras", que passam a "verdades", ao serem partilhadas de imediato, por quem não tem qualquer filtro interno, que as faça pensar, um pouco sobre o que acabam de ler e saber. Se pensassem um pouco antes de enviar "mentiras", o mundo não era esta coisa dos nossos dias, muito pior que qualquer ficção.
ResponderEliminarOu seja,além de fugirmos da realidade, nem sequer nos preocupamos em querer em separar o "trigo do joio".
Como sou céptico por natureza (defeito do jornalismo), não engulo qualquer patranha às primeiras nem às segundas. Posso dar dois exemplos caseiros de duas notícias recentes. A SIC estava a dar uma notícia sobre motonáutica em Vila Velha de Rodão e substituiu por engano o Tejo pelo Zézere. A minha companheira achou que era ela que estava enganada, ao pensar que era o Tejo que passava neste localidade beirã. Eu disse-lhe que a SIC é que estava errada e expliquei-lhe que era em Constância que o Zezére se unia ao Tejo. Ou seja, que não vinha para tão perto de Espanha... A outra notícia ainda era mais estranha, ela falou-me de uma aliança no Seixal entre a CDU e o Chega. Disse-lhe que isso era uma coisa quase impossível de acontecer, até porque nem o CDS se queria aliar ao Chega (não consegui descobrir qualquer fundamento na notícia, após alguma pesquisa)... E poderia continuar a contar "mentiras", pela manhã fora...
Mas há muitas mais coisas que nos afastam da realidade e da humanidade, desde a forma como temos sido governados nos últimos anos, com políticos que são mais "mágicos", que outra coisa, manipulando completamente a realidade (o Costa é quase melhor que Luís de Matos...), espalhando "anestesiantes" por tudo o que é sítio, passando pela televisão, que também tenta "pensar por nós".
Tanta palavra e nada do livro... Há segundas-feiras assim...
De certeza que o livro nos fará acordar para o "humanismo" (nem que seja só durante a sualeitura), porque está distante do nosso conforto neste cantinho do mundo (da nossa vida de pobretes e alegretes) e da televisão que nos oferece notícias como se se tratassem de telenovelas...
Ó Luís a SIC não se enganou, simplesmente eles não sabem -por tudo e por nada vão ao Google-
EliminarA pretensão pode nem sempre ser uma questão fiável ou extraordinária. De facto em falar-se "Humanidade" requer um patamar na experiência de outrem, que não a nossa. E, nem sempre a humildade anda de mãos dadas com o escasso tempo. Talvez, por isso outrem eleve-se à condição humanizada, quando propriamente ler já o é, empresa mui necessária em argumentos. De que modo alguém que não se lhe sabe por leitura aceitar-se-ía enquanto criatura o seja lá, duas verdades que não as do práxis?!
ResponderEliminarCreio que todo livro de boa memória se lhe reserva o aprendizado. Excelente post!
Cláudia da Silva Tomazi