Eça viajante
Quando pensamos em Eça de Queiroz, pensamos imediatamente na sua veia de romancista, no seu humor, na sua crítica social, no seu apurado sentido de observação. Não nos vem imediatamente à cabeça o Eça que viveu noutros países, foi diplomata e olhou para Portugal lá de fora, embora, claro, conheçamos essas circunstâncias. Vale, porém, a pena olhar para um Eça diferente: o que viaja e escreve sobre o que vê. Entre os seus escritos, há muitas impressões de viagem (já aqui partilhei algumas sobre os horrores que achou de Havana), mas nos próprios romances, como A Cidade e as Serras ou A Relíquia, há dezenas de passagens que se referem a locais de viagem, como tão bem recordamos o 202 dos Champs Elysées em Paris. O livro muito recentemente publicado na colecção Terra Incógnita, da Quetzal, intitulado Outras Paragens, é uma antologia de textos publicados na imprensa pelo escritor maior das nossas letras e também de excertos retirados da sua obra romanesca. Deixo-vos, a finalizar o meu post, para fazer água na boca, uma citação que alegra a newsletter que anuncia este livro:
«Antigamente contava-se a viagem quando se tinha viajado.
Hoje empreende-se a viagem unicamente para se escrever o livro.»
Eça de Queirós, Cartas de Inglaterra

Começo por afirmar que sou grande "fão" de Eça"!
ResponderEliminarNota: Digo assim para respeitar o género, dentro do políticamente ridículo - a Dulce M. C.. só por esta passou a ter ainda mais o meu respeito!
Percebo na leitura eciana, tudo o que a Nossa Extraordinária Anfitriã refere, mas sou dos que vêm nela também a categoria que o Escritor e o Homem tiveram, mesmo que possa ter sido um snob,, mas foi certamente uma pessoa de esmerada educação e elevado posicionamento, um Senhor, portanto. Também por isso o admiro, e também vôo atraído por essa luz que dele emana, como compete a uma traça. Não sei ainda explicar porquê mas há também um certo encanto e uma luz, no seu neto. Será de família, genético.
Bom, encómios àparte, vamos ao tema objectivo:
Uma proposta interessantíssima esta, bem ao meu gosto e duplamente, pelo que vai para a lista, talvez me o ofereçam no Natal, pois sabe-se que sou admirador do Escritor.
Como cereja a citação aqui trazida... que se aplica inteiramente. Uma reportagem é o que é, um livro de viagem é algo de muito diferente, em que o escritor-viajante escreve depois, apoiado nas suas notas, sobre a viagem e as impressões colhidas. Cito ainda e sempre Graham Greene: viajo pelo ir, não para chegar a lado nenhum!
É este o meu espírito, pode haver outros, mas este é o que me anima e interessa, a par do que refere Paul Theroux diante da paisagem: sinto-me grato por poder assistir a isto.
Saudações animadas, animosas mas nunca de animosidade, cá da Cidade Morena.
Escreveu também sobre o Egipto, aproveitando a viagem à inauguração do Canal de Suez, na companhia do futuro cunhado Conde de Resende; a Relíquia é igualmente fruto dessa viagem.
ResponderEliminarBem e oportunamente observado!!!!
EliminarPenso que o interesse de Eça pelas viagens, como pela cultura Vitoriana, está ainda patente na soberba traducção do Extraordinário romance de Rider Haggard , "As minas do rei Salomão". Haggard apaixonou gerações de jovens britânicos e animou-os a encetarem viagens pelos quintos do então Império Britânico, como a ingressarem nas fileiras do exército colonial britânico, em busca de aventuras! Penso que este espírito tenha igualmente tocado o nosso Escritor, será?
Primeiramente Eça Viajante cercava-se em silêncios. Ora, porque sim ou não, só o sabemos através da leitura de sua obra onde concentra o rigor limpo e atento, quase cirúrgico. O Brasil lê muito Eça de Queiróz e se não me engano depois de Machado de Assis e José de Alencar, Eça é pré-requisito no ensino médio brasileiro.
ResponderEliminarInclusive, arrisco mencionar que a obra de Eça é semelhante a uma fórmula (segundo a proporção) muito apreciada e copiada por uma geração Moderna de escritores paulistas, cariocas, mineiros e baianos.
Cláudia da Silva Tomazi
Porque hoje se escreve aqui sobre Eça de Queiroz, suponho que será oportuno e até relevante recordar, ou divulgar para quem não saiba, que nos passados dias 14 e 15 de Outubro realizou-se o 2º Congresso Internacional «Eça de Queiroz, 150 Anos», na Biblioteca Nacional e no Palácio Valenças...
ResponderEliminarhttps://queiroz150suez.blogspot.com/
... Que, tal como o primeiro, realizado em 2019 e que teve como tema principal os 150 anos da inauguração do Canal do Suez (e da viagem de EdQ ao Médio Oriente também para assistir àquela), resultou de uma ideia e de uma iniciativa minhas, que co-organizei no âmbito do Movimento Internacional Lusófono. Tal como há dois anos, o congresso de 2021 contou com a presença e a participação de especialistas portugueses e estrangeiros, o último dos quais a intervir foi Miguel Real.
Várias das comunicações apresentadas em 2019 foram publicadas no Nº 28 da revista Nova Águia...
https://novaaguia.blogspot.com/2021/10/nova-aguia-n-28-capa-e-editorial.html
... E as de 2021 talvez venham a sê-lo no próximo ano.
Muito bem!
EliminarObrigado, caro Pacheco.
EliminarE, já agora, uma adenda ao meu comentário anterior: estando, como seria de prever (porque é a Quetzal que o publica), o livro acima referido impresso em «acordês», obviamente desaconselho a sua aquisição e até a sua leitura - nenhum respeito merece um trabalho que, por exemplo, na mesma página, tem «Egito» e «egípcia», e, talvez pior, mutila, falsifica, duas citações de outra autora. É sempre preferível recorrer, e não apenas em relação a Eça de Queiroz, a edições anteriores, de épocas em que a ortografia em Portugal ainda não se tornara uma completa anedota.