Do bom e do bonito
José Carlos Barros, de quem há uns anos publiquei o romance Um Amigo para o Inverno, finalista do Prémio LeYa (leiam-no, por favor!), é quanto a mim um dos mais interessantes poetas da actualidade. Não só os seus livros de poesia são bons, como são cada vez melhores. E têm uma coisa que eu adoro em livros de poesia: não são meras colecções de poemas, são projectos unos, com uma ideia agregadora. Estes de que hoje falo pertencem ao livro Penélope Escreve a Ulisses e congregam uma série de textos dactilografados numa velhinha máquina de escrever. O editor, Guilherme Pires, da Caixa Alta, fez do conjunto um livro quase demasiado belo para ser verdade (talvez até pela sua sensibilidade às velhas máquinas de escrever, que colecciona e repara): um objecto bonito que merece o que tem dentro, ou vice versa. Sei que aqui no blogue está tudo mais virado para a prosa, mas por favor não percam esta pérola, juntem-na ao vosso colar de leituras e, garanto, ficarão mais ricos. Um pequeno exemplo (infelizmente aqui não posso respeitar o tipo de letra de máquina porque as definições do blogue não o permitem), mas há tantos poemas tão simplesmente lindos neste livro que podia ser qualquer outro:
Manhã
A manhã chegava
com os cabelos ainda
desatados
que sabíamos nós do mundo
senão fazer-lhe
uma trança?
Bom dia com alegria
ResponderEliminarAdicionado á minha lista de desejos
Saúde e boas leituras
cp
PS: uma sugestão de leitura para os hodiernos dias digitais https://www.cbsnews.com/news/facebook-whistleblower-frances-haugen-60-minutes-polarizing-divisive-content/
Não sou leitor habitual de poesia, ou melhor dizendo, não sou "consumidor do género literário poesia". No entanto, sou leitor e sobretudo amante das coisas belas, sabendo bem que o "belo" é algo de muito pessoal e subjectivo.
ResponderEliminarAinda ontem trouxe uma pedra muito bonita que encontrei na escavação de uma "chimpaca" (charca ou pequena barragem agrícola), agora vou estudá-la e entreter-me com ela. Mas isto sou eu.
Portanto também leio poesia, quando gosto, me agrada, me diz algo e sobretudo se fôr bem apresentada como se diz no post. Ou seja, sendo a obra um conjunto que contém beleza, pode acontecer que me sensibilize e dê vontade de a ter, como vou coleccionando tanta coisa que considero bele, interessante e me dá vontade de a guardar por alguma razão, desde que ao meu alcance, pois infelizmente há muitíssimas coisas que não posso adquirir!
No entanto tal como a pedra, um pedaço solto pelo bulldozer com uma clivagem perfeita, de uma rocha metamórfica lisa e brilhante, em vários tons de azul e vermelho, esta obra estará certamente ao meu alcance, e, sendo como se anuncia, corre o risco de vir morar na minha biblioteca, nas estante onde se encontram os livros de arte e os de poesia.
Gostei do poema, já agora.
Saudações poéticas cá da Cidade Morena, terra de poetas!
Bom dia.
ResponderEliminarEste é certamente um livro do JCB que vou rapidamente comprar para juntar aos outros que estão ali na prateleira.
Tal como a MRP, sou um grande admirador e leitor da poesia do JCB. Em termos de prosa só li "O Prazer e o tédio" de que gostei muito.
Atrevidamente e de modo a "converter" o Extraordinário António Luíz Pacheco, à poesia ,
vou aqui citar dois pequenos poemas do poeta de que falamos.
"Na província"
trocávamos tudo
por tão pouco
o largo com meia-dúzia de lâmpadas na noite de agosto
o duo de música pimba no atrelado de um tractor
os amigos em redor da roulote
beber cerveja
em copos de plástico.
"Tiro ao alvo"
perdia
propositadamente
a ver se em vez do alvo
te acertava no coração.
Refiro aqui dois livros do JCB.
"O uso dos venenos" edição de Língua Morta
" A educação das crianças" edição Do Lado Esquerdo
Permita-me ainda caro ALP dizer que o modo como escreve também é poesia.
Quanto a pedras,também eu tenho uma que retirei aquando da escavação do leito do rio Umbeluzi em Moçambique, para construção da Barragem dos Pequenos Libombos.
Está ali na prateleira e de quando em vez falamos um pouco.
Um grande Abraço
Daqui da margem esquerda do estuário do Tejo.
A.Delfim
Pois eu gosto muito de poesia (da sua em particular). Não conhecia este autor, mas gostei muito do poema que nos trouxe, vou conhecer melhor! Obrigada pela divulgação que faz.
ResponderEliminarFilipa
Uma das coisas de que gosto neste blogue é a sua honestidade, Maria do Rosário, expressa, como agora, por exemplo, em avançar com livros de autores que publica e - mesmo - "mandar-nos" lê-los. Adoro que deixe o entusiasmo sair-lhe traduzido em pontos de exclamação e verbos no imperativo!
ResponderEliminarFiquei já cheia de vontade de ler esse seu publicando, se é que publicando é palavra existente, mas percebe-me.
Quanto à poesia, que nervos! Durante décadas apenas li prosa. A pouca poesia em que tentava ingressar passava-me totalmente ao lado como se eu não existisse. Lia e relia um poema e ficava como nada.
Só há muito pouco tempo comecei a ingressar na poesia com mais afinco, a procurar autores diferentes daqueles que tinha experimentado. O suficiente para dar uns tombos valentes e ficar de cabeça à roda ou aperto na garganta. Hoje mesmo chegou-me uma encomenda a casa com quatro livros dentro, três dos quais de poesia - duas Adílias Lopes e uma Filipa Leal. Leio-as e fico de boca aberta - como é mesmo!?? - e mais viva por dentro, isso sim, cheia de um tudo novinho.
Mas estou a dar os primeiros passos. Ainda não li poemas seus, Maria do Rosário, de propósito. Quero começar essa caminhada estando mais madura na leitura de poesia. Receio que os seus poemas não gostem de mim assim à primeira.
Por fim (e calo-me já), gostei muito muito deste poema que publicou aqui, ele é dos que se metem na garganta e apertam. Coisa metidinha, a poesia.
Parabéns por ter descoberto a Adília, Susana!
EliminarE não demore muito a descobrir a Rosário (a Poesia Reunida é uma boa opção): quase apostaria que vai adorar, ou pelo menos, gostar muito.
Boas leituras.
Uma das tias da Marble (aposto que sabe qual é).
👣🐾🐾
Olá tia Maria da Marble! (acertei na tia, não foi?)
EliminarMuito obrigada pela sua achega. Vou então começar pela Poesia Reunida. Acho que em breve estarei pronta para me lançar na poesia desta nossa querida anfitriã.
A Adília é adorável! Sinto-me tão identificada com ela, a sua poesia faz-me até bem, sei lá!
Um beijinho, Maria.
Claro que acertou 🐱 mas a pista era boa, não era?
EliminarA Adília é fantástica, já a conheço há uns anitos e já li vários livros de bibliotecas; meus, tenho o Bandolim e Manhã.
Beijinho retribuído e um cafuné para a Marble.
Boas leituras!
M.
Sem dúvida. JCB tem marca identitária, desde os tempos do DN-Jovem.
ResponderEliminarA propósito de Poesia, tomo a liberdade de sugerir este blogue:
https://poetaporkedeusker.blogs.sapo.pt/
Muita Saúde e excelente Poesia.
A minha próxima aquisição!
ResponderEliminarObrigada