As crónicas

Na capa, a rapariga bonita com um bebé loirinho ao colo chama logo por nós. Trata-se, de facto, uma fotografia belíssima dos anos 1940 de uma mãe com o seu primeiro filho, uma criança que ainda não sabia que viria a tornar-se um grande escritor. Falo de António Lobo Antunes, já de olhos notoriamente azuis, mesmo que a fotografia seja a preto e branco, e de um livro recentemente dado à estampa que não devemos evitar. Chama-se simplesmente As Crónicas e é uma colecção das melhores crónicas de Lobo Antunes organizada pela sua editora, Maria da Piedade Ferreira, que reuniu textos publicados na imprensa e ainda nove crónicas inéditas. O trabalho de Lobo Antunes cronista, ainda que durante muito tempo ele o tenha diminuído (chamando-lhe «prositas» e «coisinhas»), é genial e marcante, além de chegar a muitíssimo mais gente do que os seus romances que, como cita a crítica literária Teresa Carvalho no i, serão a sua «catedral de palavras». No entanto, às igrejinhas e capelas não se pode deixar de ir (é mesmo preciso fazer a peregrinação!) até porque, apesar de falarem fundamentalmente da vida do autor, remetem para hábitos e idiossincrasias de um país que é o de todos nós e para a nossa memória colectiva, tenhamos a idade que tivermos. Impossível não nos identificarmos e empatizarmos com estes textos. Obrigada ao escritor e à editora por este volume, prefaciado pelo nosso Presidente da República.


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Comentários

  1. António Luiz Pacheco20 de outubro de 2021 às 01:35

    Por mim fala, pois aprecio mais as crónicas do Escritor do que os seu livros.
    Aliás sou leitor habitual de cronistas nos jornais, até ouvinte na rádio. Confunde-se bastante a crónica com o comentário, é pena pois aos comentadores pouca atenção dou e aos analistas então... ao contrário dos cronistas, de que temos tido alguns muito bons.
    Portanto, é uma proposta interessante e que a seu tempo procurarei.

    Saudações crónicas, cá da Cidade Morena!

    Saudações

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  2. Bom dia Extraordinários Leitores:
    Também gosto muito das "Crónicas" de António Lobo Antunes. Já me apercebi da pouca importância que o autor dá às mesma. E acho sempre que ele está a ser injusto com ele próprio. Dos romances também já gostei muito, com destaque para os "Cús de Judas", "Fado Alexandrino", "a Morte de Carlos Gardel" e sobretudo O Esplendor de Portugal. Mas a partir do "Não andes tão depressa nessa noite escura" eu já não consigo ler. Sim, pelo jeito, entrei mesmo numa noite escura, quanto à leitura dos romances de Lobo Antunes concerne. E tenho pena. Francamente tenho mesmo pena. É que no tempo da publicação dos romances que eu aqui citei, este autor era mesmo um dos meus favoritos. Mas a culpa deve ser minha. Perdem-se algumas capacidades nesta coisa de "envelhecer".
    Boas Leituras para todos!
    Celeste Silveira

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    1. Olá Celeste, acredita que já tinha saudades dos seus comentários?

      Que maravilhosa maneira de ler e de comentar a leitura!
      Eu de António Lobo Antunes só posso dizer que li crónicas - das quais gosto muito, por sinal, e portanto este livro hoje anunciado passa a estar na minha lista. Tentei iniciar "Os cús de Judas", mas morri ali logo na praia, não passei das primeiras páginas. Ainda não tinha decidido voltar a tentar, mas agora este seu comentário incentiva-me a isso!

      E fica um abraço para si, para a Maria do Rosário e para todos os Extraordinários com votos de boas leituras!

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    2. António Luiz Pacheco20 de outubro de 2021 às 05:27

      Olá Extraordinária Celeste, que bom lê-la novamente!
      Concordo inteiramente consigo, por exemplo "Que cavalos são aqueles..." não cheguei nem ao meio e devolvi-o à estante! Também já não consigo ler o Escritor actual, e, não me parece que seja defeito nosso, como se subentende.
      Talvez seja assim que é ser-se Escritor, perdem-se uns leitores ganham-se outros.

      Cumprimentos cá da Cidade Morena!

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    3. Susana: que bom que foi ter interagido comigo. Eu venho aqui assiduamente. Sou "cliente" assídua. Os posts são sempre muito interessantes e como já referi aqui, são tambem para mim, excelentes ferramentas de trabalho. Escrevo só quando acho ter qualquer coisita a para partilhar. E sempre com alguma humildade. A idade trás-nos algumas noções é um factor. E a certeza de que a nossa ignorância não tem limites torna-se uma absolutamente efectiva. Mas confesso, fiquei muito sensibizada que se tivesse lembrado de mim. Eu também me lembro da Cláudia é um facto. E que bom que é saber que temos tantos livros para ler, para partilhar, temáticas para conversar! Um abraço Cláudia. Podemos não escrever aqui sempre. Mas há distância e às vezes em silêncio, fazemos sempre companhia uns aos outros.
      Celeste Silveira

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    4. Quanto a si, Extraordinário Pacheco, tenho a dizer-lhe que adoro lê-lo. Conhecer assim as suas estórias fantásticas. E também o meu muito obrigada pelo seu tão simpático cumprimento. Ai para a Cidade Morena (que deve ser linda) e que vamos conhecendo melhor através dos seus tão inspirados comentários.
      (Um dia destes vou pegar outra vez num livro do Lobo Antunes. Pode ser que consiga. E acho que vai ser antes da minha milésima tentativa de ler o Ulisses do Joyce. É cá um pressentimento).
      Celeste Silveira

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    5. Desculpem-me por favor algumas gralhas e erros. É o que faz ficar tão feliz a escrever em minusculo telemóvel.
      Celeste Silveira

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  3. Gosto das crónicas da ALA, mais do que dos seus livros, mas dizem as más línguas que cobrava 5.000,00 euros por uma prosita de 15 em 15 dias à revista Visão, que teve de o despedir porque era muito caro!

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  4. Não quero, como dizem os ingleses, estragar a festa e deitar umas gotas de veneno no champanhe, mas acontece que hoje não cheguei, aqui, tão cedo como costumo chegar, ainda pensei não comentar coisa alguma, mas não resisti pela simples ideia de que sou um desistente leitor de livros de António Lobo Antunes, Pelos tempos que correm, apenas leio as crónicas que vai publicando na imprensa, e que, lamentavelmente, o autor determinou que não mais seriam recolhidas em volume.
    Na Feira do Livro olhei um cartaz do livro de que hoje fala Maria do Rosário Pedreira. Tenho todos os livros de crónicas do autor, mas uma antologia é sempre gratificante, como ter todos os discos do Leonard Cohen e nunca deixar de comprar os «besto of». Arranquei para comprar o livro mas, espanto dos espantos, leio que o prefácio é de Marcelo Rebelo de Sousa. A tarde estava muito quente, a gente era muito e dei por mim a murmurar que uma coisa destas, como em tempos dizia o prefaciador, «não lembra ao careca».
    De quem terá sido a brilhantíssima ideia?
    Por aqui me fico, mas não saio sem colocar o começo de «Os Cus de Judas», no tempo em que ALA, pelo menos para mim, escrevia livros legíveis:

    «Do que eu gostava mais no Jardim Zoológico era do ringue de patinagem sob as árvores e do professor preto muito direito a deslizar para trás no cimento em elipses vagarosas sem mover um músculo sequer, rodeado de meninas de saias curtas e botas brancas, que, se falassem, possuíam seguramente vozes tão de gaze como as que nos aeroportos anunciam a partida dos aviões, sílabas de algodão que se dissolvem nos ouvidos à maneira de fins de rebuçado na concha da língua.»

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    1. Tem razão, deixei de o ler, o último foi A Morte de Carlos Gardel; então Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo, é execrável, ilegível, tive de abandonar depois das primeiras páginas; se alguém leu até ao fim que se apresente, porque deve ser fã do ALA! Eterno candidato ao IGNOBEL!

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  5. Boa noite com alegria

    Sobre ALA:

    - prefiro as crónicas aos livros, mesmo os primeiros (que foram aqueles que tentei, mas ainda não consegui, ler)

    - isto porque a páginas tantas já não sei quem está a narrar, e o quê, nem onde, nem quando, o fluxo de consciências (plural) finta-me e estatela-me no chão

    - já tentei esquemas e diagramas, mas chumbei nesta cadeira

    - não tendo capacidade para mais, as crónicas são um sucedâneo mais ao meu alcance

    - aprecia-se o género em doses homeopáticas, sem atestado de incompetência para o leitor

    Saúde e boas leituras
    cp

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    1. António Luiz Pacheco21 de outubro de 2021 às 02:13

      Enfim, espero que não me digam estar a "chover no molhado", mas sendo nós leitores num blog de leitura, entendo que a conversa entre nós é sempre agradável e nunca termina...

      Concordo com a análise do Extraordinário cp . : "... a páginas tantas já não sei quem está a narrar, e o quê, nem onde, nem quando, o fluxo de consciências (plural) finta-me e estatela-me no chão".
      É exactamente o que experimento ao ler ALA, e, o que me desagrada profundamente a ponto de o não conseguir ler. A dificuldade em manter a leitura, se lesse tudo de uma assentada talvez, mas ainda assim como a narrativa anda para cá e para lá, tenho de ir constantemente atrás, à procura do fio condutor. Quando interrompo, bem, ao retomar tenho de ir novamente à procura do fio.
      Acontece o mesmo com outras obras, muito raramente, porém todos conhecemos ou lemos romances em que se muda de narrador, local, época... uns mais confusos outros menos.
      Mas enquanto leitor, tenho de reconhecer que me desagrada profundamente este "para-trás-e-para-a-frente", o último destes que li e gostei muitíssimo, foi "O filho" de Philipp Meyer". Um romance Extraordinário!
      Aliás também considero ALA deprimente e depressivo, outra característica que me faz pôr de lado e imediatamente a maioria dos livros e autores... a minha vida e as desgraceiras, tragédias, dificuldades a que assisto, já me chegam, não preciso de as ler! Livra!

      Grande abraço Extraordinário cp.

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  6. Boa noite Maria do Rosário.
    Mais uma gostei do seu texto, sobre o livro de crónicas do Lobo Antunes.
    Trabalhei alguns tempos na Editora que o lançou em Portugal, com muito gosto.
    É certo que na altura li de uma assentada os dois primeiros livros lançados pela respetiva Editora.
    Na época adorei, mas hoje considero que ele é um verdadeiro "Contador de Histórias".
    Tenho guardadas uma boa parte das crónicas publicadas na revista visão, mas agora vou comprar o respetivo livro.
    NB: como constata hoje uma boa parte das opiniões são do seu clube dos "Anónimos" :)
    José Gonçalves Calixto
    Bem haja.

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