Vinte anos

Praticamente ao mesmo tempo que comemoramos os vinte anos de um dos mais tremendos acontecimentos históricos de sempre (sim, refiro-me aos atentados em Nova Iorque do dia 11 de Setembro de 2001) reparo que a Quetzal faz sair uma edição belíssima, comemorativa dos mesmíssimos vinte anos da publicação da estreia literária de José Luís Peixoto, Morreste-me  (cuja primeira edição comercial tive o orgulho de publicar  na Temas e Debates e que teve até uma edição especial com os direitos a favor da Liga Portuguesa contra o Cancro). Aquilo que começou por ser um texto publicado por um rapaz ainda muitíssimo jovem no suplemento DN Jovem (no qual tantos autores deram os primeiros passos na carreira das letras, poetas e ficcionistas) acabaria por transformar-se num livro extremamente falado, lido, comentado e estudado em todo o mundo sobre a morte de um pai amado e próximo, sobre o luto, a ausência e as recordações, sobre a incapacidade de viver sem essa presença marcante e, ao mesmo tempo, sobre como esse diálogo, essa espécie de carta do filho ao pai, acaba por ser a salvação. Se nunca o leram, está na hora. Impossível não sentir empatia e compaixão. Maravilhoso, comovente e realmente incrível quando pensamos que este foi o embrião de tanta coisa.


 


Morreste_me.jpg


 

Comentários

  1. É um dos nossos bons escritores.

    Reparo como é fácil "chamar-lhe jovem escritor" (assim como ao João Tordo, por exemplo), mesmo que já devam ter quase meio século de vida. Se calhar a culpa é do Eça e do Camilo, que continuam em grande forma e a serem falados e lidos aqui e ali.

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  2. Adorei "Galveias" e "Autobiografia" do José Luís Peixoto (não tanto o seu bestseller recente sobre Rui Nabeiro). Ainda não li o "Morreste-me" mas fá-lo-ei em breve estimulado por tão persuasiva recomendação, com a curiosidade adicional de ser o livro inicial de um grande escritor.

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  3. Não deixa de ser curioso que o nome do romance ("Morreste-me") seja tão coincidente com a outra triste efeméride.

    Devo dizer que, nesta fase da minha vida, e, sem dúvida porque convivo diáriamente com a maior miséria e falta de tudo, num grau inimaginável para europeus que apesar de tudo e dos seus muitos problemas, vivem com supermercado perto, frigorífico mais ou menos abastecido, rede de transportes regulares à porta, assistência, segurança social, segurança (relativa...), etc. , não leio nem consigo comover-me com a leitura de "desgraças", apesar de as respeitar.
    A minha mulher, uma vez comentava-me que por muito mal que estejamos há sempre quem esteja pior. Não serve de consolo, mas ajuda-nos a ver as coisas de outro modo.

    Não é fácil... e pior quando sentimos que pouco podemos fazer, mas sentimo-nos uns felizardos, ricos que temos tudo relativamente aos que pouco ou nada têm, sobretudo quando sabemos morrerem pessoas, próximo, por falta de assistência básica.

    Sem querer ensombrar a efeméride (boa) do "jovem escritor" (ahahah!) , mas porque de facto este post pode derivar para o lado sombrio.

    Saudações ensombradas, cá da Cidade Morena.

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  4. O «DN Jovem» ser referido no texto, leva-me a lembrar o «Diário de Lisboa-Juvenil» e o «Republica Juvenil».
    Recordo-me de o Augusto Abelaira ter dito que estes suplementos juvenis eram mais ume escola de leitores do que de escritores. Seriam as duas coisas mas, acima de tudo, eram de uma importância quase transcendente. Não havia computadores, telemóveis, essas coisas todas que por aí pululam e têm dado como resultado as pessoas cada vez mais deixarem de falar umas com as outras.
    O «Diário de Lisboa-Juvenil», coordenado por Mário Castrim, terá sido o mais divulgado. Mereceu mesmo uma tese de mestrado escrita pela jornalista Maria José Oliveira e nele, sem ser uma exaustiva listagem, deram os primeiros passos nomes como Alice Vieira, Eduardo Prado Coelho, José Pacheco Pereira, José Manuel Durão Barroso, Jorge Silva Melo, Hélia Correia, José Agostinho Baptista, Helder Pinho, José António Saraiva, José de Matos Cruz, Joaquim Pessoa, Miguel Serras Pereira, Luís Miranda Rocha, José António Freire Antunes, Paulo Varela Gomes, Mário Contumélias, Vítor Oliveira Jorge, Maria Leonor Xavier, Nuno Júdice, Nelson de Matos, Diana Andringa, João Bonifácio-Serra, Luís Almeida Martins, Cáceres Monteiro, Luís Filipe de Castro Mendes.
    Quando um dia disseram ao Mário Castrim que Marcelo Caetano considerava o «Juvenil» uma fábrica de castrinzinhos, terá respondido: «antes castrinzinhos que castradozinhos.»
    Nunca soube das razões do fim do «Diário de Lisboa-Juvenil», o «República Juvenil» terminou, de morte natural, com o 25 de Abril, quanto ao «DN Jovem», dirigido por Manuel Dias, deixou de ter representação em papel para ser despachado para a Internet quando ainda quase ninguém sabia o que isso era.
    Critérios!

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    1. Olhe meu Caro e Extraordinário Mário Sérgio: que boa efeméride e partilha trouxe e fez agora aqui! História da literatura, digo eu, traça dos livros!
      Abraço cá da Cidade Morena!

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  5. Tive o prazer e o privilégio de estar na apresentação do Morreste-me na Livraria Arquivo há 20 anos. Nesse dia começou uma nova e excelente viagem para mim, pela escrita, sempre apaixonante, de José Luís Peixoto. Obrigada por o ter trazido até nós!

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