Saramago

José Saramago foi, até hoje, o nosso único Prémio Nobel da Literatura e é, por isso, natural que nos orgulhemos dele, ainda que possamos preferir os livros de outros autores ou até achemos que outros escritores portugueses ou de língua portuguesa teriam merecido receber a mesma distinção. Mas isso não menoriza o trabalho de Saramago nem nos deve privar de o celebrar de muitas formas. E é isso, no fundo, que fará a Fundação José Saramago e os seus parceiros nesta iniciativa, incluindo o Plano Nacional de Leitura, começando as comemorações do centenário do escritor exactamente um ano antes de ele se completar, ou seja, no próximo dia 16 de Novembro de 2021. O programa foi recentemente apresentado e não vale a pena estar a descrevê-lo aqui, pois mais fácil será deixar a cada um tempo para a respectiva leitura, já que, num ano, muita coisa acontecerá. Assim, deixo-vos o link para festejarem o escritor nas datas e das formas que melhor entenderem. Mas juntem-se à festa lendo-o e relendo-o, que é o mais importante.


Plano Nacional de Leitura (pnl2027.gov.pt)


 

Comentários

  1. Não tenho a menor dúvida de que Saramago, é, um escritor que não podemos deixar de ler!
    Sei bem que existem muitos anticorpos, o que é aliás discussão acesa e tem de ser mantida, cada vez mais, em nome daquela liberdade de que se falava ontem, a qual, creiam-me, corre sérios riscos.
    Sempre correu, é certo, pois ao longo da história da humanidade sempre houve a tentativa e sonho de quem governa, de condicionar, controlar, dominar, orientar, o pensamento, a cuja raiz e como diz a canção não há machado que corte! Mas bem tentam... têm tentado e continuarão a tentar, à esquerda e à direita, religiosos a quererem impor ou agnósticos a quererem proibir, os amantes disto, os que odeiam aquilo, os que são pela igualdade, os que são pela diferença, no fundo todos se achando melhores porém ignorando que a maior maravilha da criação, é justamente a diversidade!
    Portanto, compete a nós, amantes da leitura, leitores, escrevinhadores, escritores, intelectuais de café, académicos ou simples traças dos livros, levantar a nossa voz e fazermo-nos ouvir por cima das vozes que clamam falsa liberdade (só a deles), exigem tolerância (só para eles pois não toleram os demais) e buscam a todo o custo fazerem-se notar, o que conseguem amiúde e infelizmente não pelas suas reais e humanas qualidades ou arte mas porque gritam alto e conseguem visibilidade junto daqueles que vivem de os promover e mostrar, como bichos raros, como aberrações num circo de horrores.

    Portanto, sim, leiamos e divulguemos Saramago!
    Gostaria de destacar da sua obra, o para mim notável armazém de uma memória campesina, que não podemos deixar esquecer: "Levantado do chão".
    É obra obrigatória, o retrato fiel da nossa sociedade rural profunda, de tempos que não podem ser esquecidos lá porque hoje toda a gente tem número de segurança social e cartão de cliente, comprou casa, troca de carro e vai de férias! É dali que vêm, lembrem-se... foi assim que vossos avós viveram e sofreram.
    Saramago sabia, assistiu e viveu isso!
    Podemos não gostar da pessoa, ou das suas idéias, porém temos de nos dobrar ao que ele relata e ao génio com que o faz, porque somos gente e não podemos esquecer nem que o somos, nem de onde vimos, por bem do futuro a quem eu aceno saudando e não em adeus.

    Saudações Saramaguianas, humanas e gratas, cá da Cidade Morena!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Os pormenores de gosto residem na qualidade da escrita, na coerência de ideias e já que o vigilante da cidade morena lembra «Levantado do Chão», Saramago, num dos seus «Cadernos de Lanzarote» cita uma leitora italiana que em carta lhe disse que a leitura de «Levantado do Chão» a deixou «melancolicamente» mais feliz e o autor concluiu a cadernal entrada escrevendo «nunca se disse nada tão bonito sobre um livro».

      Eliminar
    2. Escreve o meu caro
      «Portanto, sim, leiamos e divulguemos Saramago!»
      Concordo.
      Contudo, se me permite, deixo uma pergunta:
      está a obra de Saramago disponível em braille para os cidadãos cegos deste país?
      Sim, quiçá meia dúzia de títulos, mas e o resto?
      Porque razão nenhuma editora de Saramago, lançou nenhum título neste formato?

      É uma pena, diria mais - vergonhoso -, a forma como todas as editoras tratam os amantes da literatura que têm a infelicidade de serem cegos.

      AntónioF

      Eliminar
  2. Gosto do Saramago por coisas que os outros detestam.

    Sei que se não fosse a sua "teimosia" e o "mau feitio", não teria chegado onde chegou.

    Até porque se tornou-se um grande escritor quando muitos da sua geração começaram a calçar pantufas e se tornaram escravos da televisão.

    É uma vergonha ouvir gente culta e informada dizer que ele só se tornou um grande escritor porque viveu com Isabel da Nóbrega (por muito que esta Senhora o tenha ajudado, e ajudou...). Muitas vezes só falta dizerem que ela escreveu os livros por ele...

    Felizmente Saramago abriu muitas portas e janelas (até por não ser "dr"...). Ajudou muitos a acreditarem que é possível, que o mais importante é ler e escrever, lutar diariamente e conseguir agarrar todas as palavras boas que andam à nossa volta.

    Em relação à sua escrita, não é o meu escritor preferido, mas escreveu dois ou três livros extraordinários ("O Ano da Morte de Ricardo Reis" é um deles...).

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Extraordinário Luis Eme, lá está a maravilhosa diversidade a funcionar... e, se cada um de nós referir um romance de Saramago, favorito, será diverso. No entanto estaremos a fazer um serviço na sua divulgação!
      Grande abraço!

      Eliminar
    2. Em relação à Isabel da Nóbrega mandou retirar das segundas edições dos seus livros, todas as dedicatórias a ela dedicadas, com quem viveu 16 anos; não se faz; como classificar uma pessoa que tal gesto praticou!? Dos seus livros gostei do Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis, A Viagem do Elefante.

      Eliminar
    3. Diz que "Levantado do Chão" foi plagiado. O verdadeiro autor morreu pobre e desconhecido.

      https://comtento.blogspot.com/2010/10/uma-familia-do-alentejo-as-origens-de.html?fbclid=IwAR2IgSJWnzi6JQGZ1QFgDatvz66dYG-LlYSEUd7Ic1WWu1Puv4EzZZvfouo&m=1

      Eliminar
    4. As dedicatórias continuam nas primeiras edições, ninguém as apagou. Depois de separados, e estando ele casado com outra mulher, não fazia qualquer sentido as reedições serem dedicadas à Isabel da Nóbrega.
      Que pensar de tal gesto?
      O melhor possível! Isso só prova que ele não era hipócrita.

      Eliminar
  3. Levantemo-nos do chão mas não nos encerremos na caverna, façamos a viagem, de elefante ou de jangada, a Portugal ou à Lisboa de Ricardo Reis, busquemos a lucidez, lutemos contra a cegueira, porque todos nós, todos os nomes, Cristo ou Caim, todos somos dignos de um memorial do que vivemos nas intermitências da morte.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Bom, se me permite: Concedo-lhe rabo e duas orelhas, volta em ombros!
      Talvez não faça o entendimento tauromáquico da minha avaliação, mas é o máximo que se atribui!
      Saudações!

      Eliminar
  4. Eu gosto muito de Saramago!
    O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS é um grande livro, talvez até o meu preferido!

    MEMORIAL DO CONVENTO foi a mais bela história de amor que li até hoje!

    LEVANTADO DO CHÃO é absolutamente genial!

    O HOMEM DUPLICADO, TODOS OS NOMES que grandes livros, que grande escritor.

    E as imperdíveis pérolas de literatura CADERNOS DE LANZAROTE.

    O melhor escritor português depois de CAMÕES (não me levem a mal este meu louco exagero, mas não resisto a tão bela escrita).

    ResponderEliminar
  5. José Saramago entendia que. para que se possa conhecer melhor a obra de um escritor, é necessário publicar a correspondência trocada com os seus pares.
    Saramago ia mais longe:
    «Um dia deixei consignado nestes Cadernos a única ideia em tudo original que até aí tinha produzido (e suspeito que desde então não consegui espremer da cabeça outra de quilate semelhante), aquela luminosíssima ocorrência de que na publicação da obra completa de um escritor deveria haver um volume ou mais com as cartas dos leitores. Fala-se, discute-se, discorre-se sobre as teorias da receção (empurrando portas abertas?), e parece que ninguém repara no inesgotável campo de trabalho que oferecem as caretas dos leitores.»
    Sabe-se que Saramago, no final das tardes, ao som de Mozart, Bach ou Beethoven, respondia a algumas das cerca de 100 cartas que lhe chegavam todos os dias.
    Gosto dos livros que se publicam com a correspondência entre escritores. Mas da correspondência de José Saramago, apenas conheço o volume que, ainda, a Caminho publicou.
    Veja-se os inúmeros volumes da mais diversa correspondência de Jorge de Sena.
    Mas Sena tinha atrás de si o dedicadíssimo trabalho de sua mulher Mécia de Sousa, e Saramago apenas tem uma Fundação.
    Não conheço todas iniciativas da programação do centenário saramaguiano, antes a Leya e agora a Porto Editora, não pensaram no assunto, mas seria uma brilhante e importantíssima tarefa, a publicação da correspondência que José Saramago trocou com os leitores e os seus pares.

    ResponderEliminar
  6. Boa tarde,

    Estando atenta a este blog, hoje não podia deixar de vos deixar ler uma carta que dirigi ao nosso José Saramago. Embora não tenha recebido resposta, encontro-a todos os dias com quem me cruzo.

    Caro Amigo José Saramago,

    Escrevo-lhe estas breves palavras, para lhe dar conta de como os seus e meus amigos e os outros que não conhecemos, nos encontramos sobre a jangada de pedra a naufragar
    no meio do Atlântico.
    Esperávamos Ricardo Reis que chegava do Brasil para se despedir de Fernando Pessoa, quando tudo aconteceu.
    Blimunda e Baltasar tinham vindo ter comigo nessa manhã, pois eu queria falar com ela ainda em jejum, há coisas que só ela me poderá ajudar. Talvez ela entendesse
    porque é que os homens estão a ser afetados pela cegueira e pelo egoísmo e nada fazem para nos levantarem do chão.
    Veio connosco o Sr. José da Conservatória, também ele nos contou
    que o nome que procurou no meio de tantos, não existia. Tal como ele,
    nós procuramos a vida inteira por alguém que nunca conseguiremos
    encontrar. Sem raízes não somos ninguém, sem sementes não há frutos.
    A nossa vida é como uma árvore, em todas as estações se transmuta sem deixar de ser ela própria, se não houver grandes temporais prosperará, se o vento for forte deixará as suas marcas espalhará as suas sementes para longe e por isso encontramos os amigos que nos pertencem, são o fruto da mesma semente.
    Foi por tudo isto que nos separámos, a terra começou a abrir-se e o
    nosso grupo ficou do lado de cá e assim começámos a afastar-nos de todos
    os outros. Se calhar a nossa consciência pesava mais que o outro lado,
    porque nós não queremos ser iguais aos que não veem.
    Esperando por um por um lugar onde ancorar, despedimo-nos
    Até sempre
    Adelaide Carrêlo

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório