Perdido e redescoberto
Toda a gente concorda que os horrores de Auschwitz e o Holocausto se tornaram um moda literária, fazendo com que se tenham vendido milhares de livros, sobretudo nos últimos anos, dedicados ao tema; e que essa circunstância levou a que se escrevesse todo o tipo de produtos melosos, xaroposos, perigosos e pouco rigorosos sobre um assunto que mereceria ser tratado com total respeito (graças a Deus, há muitas excepções). Mas este romance de que hoje vos falo, editado pela Cavalo de Ferro, deve ser lido por todas as razões, incluindo porque a prosa do seu autor, Ulrich Alexander Boschwitz, tem ressonâncias de Robert Walser e Knut Hamsun, e também porque ele sabe do que fala, pois foi um judeu contemporâneo do nazismo (morreu num navio no qual tentava fugir mas que foi torpedeado por um submarino alemão perto dos Açores). O romance, cujo manuscrito tinha sido enviado à mãe, acabou por ser discretamente publicado em inglês nos anos 1940 com pseudónimo, mas só recentemente foi redescoberto na Biblioteca Nacional Alemã e dado à estampa na sua versão definitiva. O Passageiro de que o título fala é um judeu que consegue por milagre escapar à Noite de Cristal (chegam a ir buscá-lo a sua casa, mas confundem um homem que o visitava com ele, permitindo-lhe fugir) e que, sem saber para onde se virar, deixa tudo para trás (a família e os negócios) e resolve apanhar comboios sucessivos e viajar sem destino preciso, numa aventura que tem muito de Kafka e, segundo o Figaro, mas não achei assim tanto, de Chaplin. A tradução é de Paulo Rêgo e este não é só mais um livro sobre Auschwtiz.
Quando andava no liceu, ainda adolescente, deu-me a fúria dos romances de guerra... li que me fartei o que havia na altura, desde o "Mila 18", a "Camaradas de Guerra", por arrasto "Mortos sem sepultura", e, muita coisa sobre a I Guerra também, pois os meu avô e tios-avós combateram na Grande Guerra pelo que havia muita literatura sobre o assunto. Na verdade cansei-me, no entanto fui alargando o interesse e lendo outras obras de outras guerras, como a Baía dos Porcos e toda a obra de Jean Lartéguy, esta me convencendo que o Movimento dos Capitães de Abril se deveu à sua leitura também...
ResponderEliminarAcabei por pôr de parte, se bem que não completamente, a leitura do tema enquanto romance, mas li bastante obra de índole histórica que não romance, sobre o tema, por razões de estar informado, para o que muito concorreu uma cadeira de História (pasme-se!) no curso de Ciências Agrárias. A Universidade de Évora em 1976 já andava muito à frente, como se deduz. Nesta cadeira, estudámos história contemporânea, a II GG e o pós guerra, também a guerra fria, etc. Numa perspectiva alargada, universitária e felizmente por um professor não-esquerdista, com uma visão ampla, sem antolhos nem sectarismo como seria de temer na época.
Bom, o que quero dizer, é que me fartei do tema... pura e simplesmente.
Hoje, continuo a ver excelentes programas sobre o Nazismo e a II GG, no canal história, também vejo e tenho visto excelentes filmes passados nas duas Guerras Mundiais, mas não tenho paciência para mais romances de guerra, escritos por quem não as passou ou viveu, ficcionando pura e simplesmente, ao contrário de Leon Huris ou Sven Hassel, entre muitos outros.
Os escritores em série, da moda, (alguns deles com romances muito bons!) não me tentam com um tema gasto, aliás repetindo à exaustão como num jogo de cartas, em que se baralha e volta a dar!
Como se diz: Estou noutra!
Saudações descansadas cá da Cidade Morena - hoje vou levar o meu pessoal à vacina, para o que fiz a inscrição de todos pela net no site do ministério da saúde, incluindo a nossa nova funcionária contratada a meio-tempo, a Inácia Tchateia Pacheco Tchipala! Juro que não tive nada a ver com isso...
Ó Paxeco, leste aquele livro sobre os homens cesto (os estropiados alemães - sem pernas e sem braços- da II Guerra) de um autor alemão muito lido nos anos 80/90, Hans Helmuth Kirst?
EliminarConheço o autor, tenho de memória, "A noite dos generais", "A noite das facas longas", "O crepúsculo dos deuses" , (creio que o mais conhecido dele), "Fábrica de oficiais" ... já uma vez aqui falámos nesse escritor, recordas-te?
EliminarAbraço!
O Hans (João) Helmuth Kirst é daqueles autores que não sendo dos grandes teve a sua época (curta) e, sobretudo, teve os seus (não muitos) leitores específicos.
EliminarEu estava convencido que "A FÁBRICA DE OFICIAIS" seria o seu livro mais proeminente.
HHKirst era praticamente um autor de um só tema (II Guerra Mundial).
A propósito de "O CREPÚSCULO DOS DEUSES" - é um dos 5 melhores filmes que vi até hoje; é um filme de Billy Wilder com uma fantástica/imperdível/inesquecível interpretação de Glória Swanson - para quem gosta de CINEMA/CINEMA, claro!!!
Ó Seve, eu atrevi-me a dizer que "O crepúsculo dos deuses", seja o mais conhecido dele, justamente por causa desse grande filme!
EliminarNão sei se te interessas, mas procura assistir no Canal História, a uma série chamada "na linha da frente", é esmagador! Mas impressionante, com registos vivos de quem esteve nas batalhas, na primeira linha!
Abraço
Não posso estar mais de acordo, António. E acrescento o Sven Hassel e o Constantin Simonov.
EliminarFaltou o nome: Pedro Sande.
EliminarBom dia a todos.
ResponderEliminarAtrevo-me a recomendar um livro escrito por quem, suponho, não passou ou viveu os acontecimentos, mas que é, para mim, do melhor que li sobre o assunto: "O comprador de aniversários" de Adolfo Garcia Ortega.
Como de costume o livro foi muito bem apresentado pela Rosário e tem muitos dos "condimentos" que gosto na literatura.
ResponderEliminarE ainda bem que não é uma obra de ficção pura, sobre músicos, jardineiros, barbeiros ou outra coisa qualquer, com piscinas, bares, bordeis e bibliotecas...
Creio que Primo Levy foi o único que li sobre este tema, embora outros me tenham despertado a curiosidade. Anoto a recomendação.
ResponderEliminarIndependentemente de algumas ideias das quais não comungo, um “cantautor” que admiro e de quem me deram a descobrir este “Les Yeux Fardées” (Memòria d’uns ulls pintats, traduzido do catalão para francês por Serge Mestre), Lluís Llach, sobre a guerra civil e muito mais. Desconheço se existem traduções em castelhano ou em português.
É, de facto, um excelente livro com uma tradução à altura.
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