Para o outro

Num momento em que «receber o outro» está na ordem do dia, sobretudo pelo que aconteceu com a tomada do poder pelos Talibãs no Afeganistão, destaco um livro dedicado ao Outro, de um escritor italiano, Davide Enia, que resolveu levar a cabo uma tarefa invulgar (testemunhar dezenas de desembarques de migrantes na ilha de Lampedusa) e nos oferece um livro absolutamente imperdível, comovente e humano como poucos sobre a matéria. (Chorei em muitas páginas, e a tradutora, Tânia Ganho, também.) Misto de romance e reportagem, Notas sobre Um Naufrágio fala com todos e de todos: os que atravessaram vários países, e depois o mar, para chegarem à Europa em condições inimagináveis – rapazes feridos e nus, raparigas violadas e grávidas, crianças e adultos que viram morrer familiares durante a travessia; e dos que os ajudam a desembarcar – voluntários, mergulhadores, pessoal médico, a Guarda Costeira… No meio, fica o autor, para contar sem paninhos quentes o que realmente acontece em terra e no mar e como as palavras são manifestamente insuficientes para compreender os paradoxos do presente. Lampedusa é também o lugar onde se reinventa a relação de Davide Enia com o próprio pai, um médico recém-aposentado que o acompanha à ilha por mais de uma vez. Testemunharem juntos o sofrimento público e a tragédia dos migrantes ajuda-os a construir um diálogo privado completamente novo que substitui os silêncios do passado e mitiga a dor de ambos com a doença de um familiar muito próximo. Notas sobre Um Naufrágio é uma obra-prima que trata da  tremenda fragilidade da vida humana. Profundamente actual e necessário. O autor estará no FOLIO em Outubro.


Notas Sobre um Naufrágio.jpg


 


 

Comentários

  1. Agradeço a sugestão tao cuidada e apelativa para muitos,mas não para mim.Este mundo já me incomoda em variadissimos aspetos,ja me deixa perplexa e incrédula em múltiplas situações e não quero acrescentar mais noites sem dormir nem carregar a minha existência com fardos que não posso aliviar.
    Façamos cada um a sua parte e não quero acrescentar mais nada.

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    1. Bom dia: comungo desse seu sentimento, Extraordinária Anónima.
      Pode parecer egoísmo, mas não é! Eu sei que não é... porque eu mesmo convivo diáriamente com esses horrores, que não consigo aliviar e nem fazer nada por eles.
      Tentei através de um romance que ninguém tem aceitado publicar chamar a atenção, de forma ténue, para eles... não despertou qualquer sensibilidade humana, artística (?), social, e certamente muito menos financeira. É assim que são as coisas, eu sei, não me queixo.
      Portanto ficam abertas as portas às grandes intenções e às causas que se abraçam (à distância sobretudo) , à indignação dos que vivem no seu conforto cómodo, mas que se indignam (claro). Nada fazem, mas indignam-se!
      Estou como a Cara Anónima, faço o que posso e está ao meu alcance, ao meu redor pois também não consigo ir mais longe, e, já tenho o bastante para me preocupar ainda com mais situações e casos.
      Gostaria de lhe transmitir que a compreendo e cumprimento-a, solidáriamente, cá da Cidade Morena.
      PS: Provávelmente vamos ser mal-entendidos e invectivados, mas é assim que são as coisas e o que acontece a quem tenha opinião, e, faça algo.

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  2. Louvo a atitude do autor, se deveras saiu do seu conforto, do sofá e de frente da televisão, para ir ver ao vivo, sentir, aquilo sobre o que escreve.
    Resta saber se escreve com propriedade, pois o que o impressionou pode não ser a verdade, um risco que eu aceito correr ao ler o livro ora aqui trazido.
    Não que eu precise de mais consciencialização ou mesmo de mais carga, de todo, porém gosto de estar informado, de saber sobre estas coisas, com alguma racionalidade.
    Portanto parece-me que é um livro a ler, apesar do aparente oportunismo do tema e por conseguinte da obra, mas não critico, as oportunidades surgem e aproveitam-se, assim produzam obra de real valor, independentemente do eventual aproveitamento.

    Saudações cá da Cidade Morena
    Nota: Morreram já 9.000 pessoas no surto de paludismo que eclodiu nestes três meses na província de Benguela e Quanza Sul, sobretudo... o Covid ao lado da malária , continua a ser um rapaz pequeno, e, não me chamem negacionista, apenas realista.

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  3. Já dizia o Steinbeck: "You can only understand people if you feel them in yourself".

    Não me parece existir qualidade mais elevada, e também inteligente, do que a da empatia.

    Será certamente a minha próxima leitura! Obrigada

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  4. Quando a Maria do Rosário se exprime de modo tão veemente sobre um livro, sei que tenho que o ler. Até agora nunca falhou.

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    1. Ora bem!!!! Isso não é o que se pode dizer ser, negacionista! Ó Artur, ahahahah!
      Não lhe nego razão, note bem.
      Grande abraço.

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    2. É uma confissão de fé. No dia em que me sentir desiludido de pois de ler uma sugestão da Maria do Rosário, com a veemência desta, aqui deixarei escrito o meu desalento. Isto sempre lembrando que quanto a gostos literários nunca haverá, felizmente !, unanimidades.

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    3. Subscrevo, inteiramente

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    4. Estou consigo, mais uma vez!
      Grande abraço!

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  5. Não queria ser vulgar, mas os parabéns à Nossa Extraordinária Anfitriã e não pelo blog!

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  6. Mesmo quando temos consciência de que fazemos pelo próximo o que nos é possível e, por vezes, o que nos parecia impossível, livros como este, sobretudo com qualidade literária testemunhada, são uma benção naqueles momentos em que sobrevém o queixume, ainda que íntimo e silencioso. Há uns anos, ainda antes do seu falecimento, ofereceram-me as Memórias, de Edmundo Pedro, que se demorou muito tempo na minha mesa de cabeceira porque entretanto iam chegando “moradores da minha lista”, pegava nele nesses tais momentos e acabava sempre a perguntar a mim mesma se de facto teria algum problema. A empatia é das qualidades mais difíceis de treinar e alcançar, para mim, porque há pessoas que parecem ter uma habilidade inata, mas as suas manifestações comovem-me sempre, seja na minha direcção ou na de outrem, e creio que é o que irei encontrar neste livro.
    Obrigada pela sugestão e parabéns, ligeiramente atrasados.

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  7. Sugestão de leitura :
    Luc Boltanski "La souffrance à distance" :
    https://www.persee.fr/doc/reso_0751-7971_1994_num_12_65_2515

    Russell Boncey

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