O francês americano
Não costumo ser maria-vai-com-as-outras, mas respeito a opinião literária de uma dúzia de pessoas e vi que algumas delas se entusiasmaram muito com a leitura de um romance francês, o que, nos tempos que correm, é coisa rara. Está certo que o livro tinha ganho (não me apanham a escrever «ganhado», lamento) o Prémio Goncourt, o mais importante galardão gaulês, em 2020, mas assim mesmo havia ali uma unanimidade no elogio que me suscitou curiosidade. Fui, pois, comprar Anomalia, de Hervé Le Tellier, para degustar nas férias. E é talvez o menos francês e o mais americano de todos os romances de autores franceses que li na vida, pois tem efectivamente um ritmo trepidante e a meio se transforma num thriller que é simultaneamente científico, paranormal, psciológico, social, mas muito literário também. Gostei mais da parte até à surpresa desconcertante (sem querer abrir muito o jogo, esta está ligada a uma hipótese de sermos meras «simulações»), em que nos são apresentados em capítulos autónomos muitos dos passageiros que iam em determinado voo intercontinental e apanharam o susto da vida deles com uma tempestade de granizo que rachou até o pára-brisas do avião. Mas na segunda concordo que o autor tem raro talento para nos agarrar e arrastar pelas suas páginas, é muito informado (matemático, jornalista, linguista, editor...) e escreve um romance a pensar em todo o mundo. Actualíssimo, distrai bastante. Traduziu-o Tânia Ganho e saiu na Presença.
Também li a "Anomalia" de Le Tellier (autor que eu não conhecia) nestas férias. Comprei-o por ser apontado como um recente êxito de vendas em França, país que me habituei a considerar (conceito a rever) como tendo leitores exigentes quanto à qualidade literária da ficção que escolhem ler (se o livro tivesse sido um best-seller americano, não o teria comprado). Como viajante aéreo frequente, os primeiros capítulos prenderam-me mas o entusiasmo foi esmorecendo à medida que ia avançando na leitura do romance quando fui constatando que estava perante um "thriller" que segue a receita estritamente a americana para este tipo de romances: são sempre cheios de ação e enigmas, mas escritos em estilo chão, jornalístico, e estão recheados de personagens sem profundidade psicológica (são apenas caricaturas de vários tipos básicos de humanos). À francesa, para acariciar o leitor "culto", o autor vai adicionando com frequência uns salpicos de referências culturais e baralha um pouco a sequência cronológica da sua trama. No terço final, quando o autor introduz a fantasia dos mundos paralelos para resolver a sua intriga, achei que estava ser gozado por ele e, no meu silêncio de leitor, insultei-o (um romance não é um jogo de vídeo). Na Europa, depois da moda de Auschwitz, será agora a moda dos thrillers à americana? E a moda está a chegar cá: o João Tordo também publicou recentemente um thriller que tem vendido bem. Será Le Tellier o Rodrigues dos Santos francês? O que me valeu nestas férias foi que o ter levado comigo uma paródia antiga do Juan Marsés ("O Amante Bilingue") e alguns Simenons.
ResponderEliminarNão sou grande leitor de thrillers... ou livros de suspense, ou lá como seja.
ResponderEliminarA menos que sejam divertidos! É claro.
No entanto, o post de hoje leva-me a uma breve e tracejante reflexão:
Romance francês? Romance americano?
O que vale é o escrito em si, não a nacionalidade... diria eu traça dos livros de forma óbviamente lapalissiana, porém que me parece justa.
Quando um francês escreva um romance passado nos EUA ou um americano escreva um romance passado em França, passa o romance a ter a nacionalidade do lugar onde é passado? Não sei... mas parece-me que não!
Paris é uma festa, é romance americano (pelo autor) ou francês (pelo tema e local da acção)?
Saudações cá da Cidade Morena!
Quando os franceses imitam outros, o resultado não é bom. Perdem o que é genuinamente francês, de que se orgulhavam anteriormente, e não acrescentam nada. Fizeram isso com a música ligeira e os resultados não foram bons.
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