Excerto da Quinzena

«Alguns minutos depois, Gudmund desceu à sala envergando o seu trajo de núpcias. Estava pálido, ardiam-lhe os olhos num brilho ansioso, mas nunca ninguém o vira tão belo. Os traços do rosto estavam como iluminados por uma luz interior, parecendo a quem o via um ser feito de alma e de vontade, e não de carne e de sangue.


Na sala tudo tomara um ar solene. A mãe vestira-se de preto e trazia nos ombros- o seu belo xaile de seda, embora não fosse assistir ao casamento. Todos os criados tinham também envergado os seus mais vistosos trajos. Folhas frescas de bétula guarneciam a chaminé e pratos variados e suculentos cobriam a mesa, revestida de uma alva toalha.


Terminado o almoço, a mãe Ingeborg leu um salmo e alguns versículos da Bíblia. Depois, dirgindo-se a Gudmund, agradeceu-lhe o ter sido sempre bom filho, desejou-lhe felicidades para o futuro e deu-lhe a bênção. Sabia falar bem e Gudmund comoveu-se. Os olhos velaram-se-lhe mais de uma vez, mas conseguiu vencer a vontade de chorar. O pai pronunciou também algumas palavras.


– Bastante duro vai ser para nós perder-te – disse ele.»


 


Selma Lagerlöf, «A rapariga do Brejo Grande», in O Livro das Lendas,


tradução de Pepita de Leão, Livros do Brasil

Comentários

  1. "Sempre sonhei ser arruinado moral, física e materialmente por uma mulher: deve ser maravilhoso, apesar de tudo, poder fazer alguma coisa de grande na vida."

    in 'A Promessa', de Romain Gary (trad. de Augusto Abelaira, Livros do Brasil)
    a minha impressão em
    http://ocasosluiscaminha.blogspot.com/2021/01/um-destino-prometido.html

    ResponderEliminar
  2. A mulher tira uma página do seu dicionário, a 33, a primeira, porque o dicionário está rasgado e já não tem capa, e o dicionário como um croupier dá-lhe três palavras actriz, actual, actualidade e repara que, sobre a página, as palavras estão a andar, acumulam-se como num baralho, sobrepõem-se, deslizam, e tomam banho num mar que ali apareceu

    foi muito brusca essa aparição

    e que, junto das rochas, embate furioso contra a falésia. A mulher corre perigo. Senta-se no dicionário, que é um banco sólido de papel e, de mim para ela, escorrem duas cenas. Ora a cena do plátano, a que chamo Grande Maior, ora as palavras se aproximam de mim em fuga, rodando num turbilhão que sucumbe quando pouso a mão sobre o texto.

    Maria Gabriela Llansol, "Parasceve"

    ResponderEliminar
  3. "Na luta de gerações, crianças e velhos estabelecem amiúde causa comum: os primeiros proferem os oráculos e os segundos decifram-nos. A Natureza fala e a experiência traduz: aos adultos só resta calar a boca. À falta de uma criança, tome-se um cachorro: há um ano, no cemitério dos cães, reconheci, no trémulo discurso que se desenrola de túmulo para túmulo, as máximas de meu avô: os cães sabem amar, são mais ternos do que os homens, mais fiéis, possuem tacto, um instinto sem falha que lhes permite reconhecer o Bem, distinguir os bons dos maus. «Polónio, dizia uma inconsolada, tu és melhor do que eu: tu não me terias sobrevivido; eu sobrevivo-te». Acompanhava-me um amigo americano: indignado, desferiu um pontapé num cão de cimento e quebrou-lhe a orelha. Tinha razão: quando amamos demasiado as crianças e os animais, amamo-los contra os homens."

    Jean-Paul Sartre, «As Palavras», ed. Livraria Bertrand

    ResponderEliminar
  4. Com aquela subtil sensibilidade bucólica que […em Jacinto] se desenvolvera, e incessantemente se afinava, qualquer breve beleza, do ar ou da terra, lhe bastava para um longo encanto. Ditosamente poderia ele entreter toda uma manhã, caminhar por entre um pinheiral, de tronco a tronco, calado, embebido no silêncio, na frescura, no resinoso aroma, empurrando com o pé as agulhas e as pinhas secas. Qualquer água corrente o retinha, enternecido naquela serviçal atividade, que se apressa, cantando, para o torrão que tem sede, e nele se some, e se perde.
    Eça de Queirós - A Cidade e as Serras

    ResponderEliminar
  5. António Luiz Pacheco3 de setembro de 2021 às 04:24

    E foram-no encontrar discursando sobre as corridas, com convicção, com autoridade, como membro do Jockey-Club. Afonso, na sua velha poltrona, escutava-o, cortês e risonho, com o reverendo Bonifácio no colo. Ao canto do sofá, Craft folheava um livro.
    E o Dâmaso apelou logo para o marquês. Não era verdade, como ele estivera dizendo ao Sr. Afonso da Maia, que iam ser as melhores corridas que se tinham feito em Lisboa? Só para o grande premio nacional de seiscentos mil réis havia oito cavalos inscritos!
    E, além disso, o Cliford trazia a Mist.
    - Ah, é verdade, oh marquês, é necessário que você apareça sexta-feira à noite no Jockey-Club, para acabarmos o handicap!
    O marquês arrastara uma cadeira para o pé de Afonso, para lhe fazer a confidência dos seus achaques; mas como Dâmaso se metia entre eles, falando ainda da Mist, decidindo que a Mist era chic, querendo apostar cinco libras pela Mist contra o campo – o marquês terminou por se voltar, enfastiado, dizendo que o Sr. Damasozinho se estava a dar ares patuscos... Apostar pela Mist! Todo o patriota devia apostar pelos cavalos do visconde de Darque, que era o único criador português!...
    - Pois não é verdade, Sr. Afonso da Maia?
    O velho sorriu, amaciando o seu gato.
    - O verdadeiro patriotismo talvez, disse ele, seria, em lugar de corridas, fazer uma boa tourada.
    Dâmaso levou as mãos à cabeça. Uma tourada! Então o Sr. Afonso da Maia preferia touros a corridas de cavalos? O Sr. Afonso da Maia, um inglês!...
    - Um simples beirão, Sr. Salcede, um simples beirão, e que faz gosto nisso; se habitei a Inglaterra é que o meu rei, que era então, me pôs fora do meu país... Pois é verdade, tenho esse fraco português, prefiro touros. Cada raça possui o seu sport próprio, e o nosso é o toiro: o touro com muito sol, ar de dia santo, água fresca, e foguetes... Mas sabe o Sr. Salcede qual é a vantagem da toirada? É ser uma grande escola de força, de coragem e de destreza... Em Portugal não há instituição que tenha uma importância igual à tourada de curiosos.
    E acredite uma cousa: é que se nesta triste geração moderna ainda há em Lisboa uns rapazes com certo músculo, a espinha direita, e capazes de dar um bom soco, deve-se isso ao touro e à tourada de curiosos...
    O marquês entusiasmado bateu as palmas. Aquilo é que era falar! Aquilo é que era dar a filosofia do toiro! Está claro que a tourada era uma grande educação física! E havia imbecis que falavam em acabar com os touros! Oh, estúpidos, acabais então com a coragem portuguesa!...
    - Nós não temos os jogos de destreza das outras nações, exclamava ele, bracejando pela sala e esquecido dos seus males. Não temos o cricket, nem o footbal, nem o runing, como os ingleses; não temos a ginástica como ela se faz em França; não temos o serviço militar obrigatório que é o que torna o alemão solido... Não temos nada capaz de dar a um rapaz um bocado de fibra. Temos só a tourada... Tirem a tourada, e não ficam senão badamecos derreados da espinha, a melarem-se pelo Chiado! Pois você não acha, Craft?
    Craft, do canto do sofá, onde Carlos se fora sentar e lhe falava baixo, respondeu, convencido:
    - O que, o touro? Está claro! o touro devia ser neste país como o ensino é lá fora: gratuito e obrigatório.
    Dâmaso no entanto jurava a Afonso compenetradamente que gostava também muito de touros. Ah, lá nessas coisas de patriotismo ninguém lhe levava a palma... Mas as corridas tinham outro chic! Aqueles Bois de Boulogne, num dia de Grand-Prix, hein!... Era de embatucar!
    - Sabes o que é pena? exclamou ele voltando-se de repente para Carlos. É que tu não tenhas um four-in-hand, um mail coach. Íamos todos d'aqui, caía tudo de chic!
    Carlos pensou também consigo que era uma pena não ter um four-in-hand. Mas gracejou, achando mais em harmonia com o Jockey Club da travessa da Conceição irem todos dentro de um ónibus.
    Dâmaso voltou-se para o velho, deixando cair os braços, descorçoado:
    - Aí está, Sr. Afonso da Maia! Aí está por que em Portugal nunca se faz nada em termos! É por que ni

    ResponderEliminar
  6. "Regressa o torpor àquela carruagem de viajantes forçados, já os pides se acomodam no fundo do vagão e se recostam, com o chapéu sobre a cara à faroeste. Sossega o guarda que afrouxa os dedos no fusil, de coronha manchada e com restos de cabelo de Joaquim agarrados. Amansa também a tensão nas pàlpebras, antes tão categóricas de arregalados. A ferida do preso amotinado não dói, apenas arde, já se encrosta o sangue e não se dispersa por aí em artes extravagantes. Continuaria Joaquim metido com os seus botões, não tivessem eles quase todos ido pelos ares na sarrafusca. Repara que a gola da camisa está empapada e de súbito sobressalta-se de um pulo que põe de novo em alerta vermelho os passageiros"
    "Que Importa a Fúria do Mar"
    Ana Margarida de Carvalho
    Edições Teorema -Maio de 2013.
    Recomendo vivamente a leitura deste livro. Desta escritora!
    Da margem esquerda do estuário do Tejo.
    Bom fim de semana!
    A. Delfim

    ResponderEliminar
  7. "Durante muito tempo depois da morte da minha mãe, aconteceu-me ser de repente assaltado por um sentimento paralisante de culpa por não me ter ocorrido dizer-lhe isto ou aquilo durante as reuniões do nosso clube de leitura. Tivera a oportunidade perfeita quando faláramos deste ou daquele livro. Por fim, compreendi que o maior dom do nosso clube de leitura foi conceder-me tempo para lhe perguntar coisas, não para lhas dizer.

    É claro que as nossas reuniões também nos tinham dado uma profusão de excelentes livros para ler, para saborear, ponderar e desfrutar; e para ajudar a minha mãe na sua jornada até à morte e a mim na minha direcção a uma vida sem ela.
    Desde a morte de minha mãe, fui tomando conhecimento de muitas outras pessoas que também falavam de livros com ela. Há muita gente em cuja vida a minha mãe deixou marca e que deixou uma marca na dela, amigos que a minha mãe fez quando eram refugiados-, que me relataram conversas que tiveram com ela sobre livros ou acerca de um livro importante que ela insistiu que lessem."
    Will Schwalbe- Os Livros do Final da Tua Vida-Outubro 2013-Clube do Autor

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório