Cafés e restaurantes literários

Muitas bibliotecas portuguesas deram o nome de «Café Literário» a actividades que visam o encontro do público leitor com um ou mais escritores, independentemente de na ocasião servirem café ou coisa que o valha. Esse título é sobretudo uma alusão ao facto de, ao longo dos tempos, os escritores terem passado muitíssimo tempo a escrever em cafés (ou a beber, ou a conversar) e estes se terem tornado, por causa disso, lugares míticos e até turísticos. Não há ninguém que adore livros que falhe em Paris o Les Deux Magots ou o Café de Flore em Saint-Germain, cafés frequentadíssimos por escritores (Sartre e Simone De Beauvoir, entre outros). E, em Madrid, os autores contemporâneos continuam a marcar encontros com os seus editores no Café Gijón, onde os empregados têm o costume de fingir que não vêem os clientes... Hemingway, por seu turno, gostava muito do Floridita ou da Bodeguita del Medio em La Havana; e em Sampetersburgo, reza a lenda que foi num café da conhecida Avenida Nevsky que Pushkin travou o seu último duelo. Na cidade de Praga, o Grand Café Praha era, supostamente, local da preferência de Kafka e, em Lisboa, o desaparecido Monumental foi local de tertúlia e frequentaram-no muitos escritores (de Carlos de Oliveira a Luiz Pacheco). Já no meu tempo de faculdade, Abelaira, o autor de Cidade das Flores escrevia no Caleidoscópio. Não sei se hoje os mais jovens escritores ainda gostam de cafés, mas alguns dos que mencionei fazem parte dos roteiros turísticos de algumas cidades do mundo.


P. S. Hoje vou estar na Feira do Livro de Lisboa às 18h30 no pavilhão da Quetzal a autografar o meu livro de crónicas, Adeus, Futuro. Apareçam.

Comentários

  1. Espero encontrá-la com a mão ainda capaz de manobrar a caneta.

    ResponderEliminar
  2. Não esquecendo o Martinho da Arcada, do Pessoa, o Abelaira também escrevia na Irlandesa, pastelaria da rua Alexandre Herculano, junto á Av. da Liberdade , à qual se referia muitas vezes nas suas crónicas. esquecer também o desaparecido café Camanho, no Porto, frequentado por Camilo, Guerra Junqueiro e Sampaio Bruno.

    ResponderEliminar
  3. Há muito que não faço "vida social" , no sentido de frequentar bares, cafés ou outros lugares desse género.
    No meu tempo, chamávamos "o escritório" a esses pontos de reunião, onde se passavam horas a conversar e a beber. Em Santarém havia "tabernas" e cafés, onde se reuniam os intelectuais, os lavradores e malta dos toiros, o café onde se faziam negócios, a rapaziada da escola agrícola ou do liceu, tudo devidamente separado, e sabia-se onde era "o escritório" de cada um, conforme a hora do dia ou a sua classificação. Fazia-se muita tertúlia sim, em todos eles, nem que fosse cá fora encostado à parede se não houvesse meios para "consumir".
    Creio que não existiu em Portugal, aldeia, vila ou cidade que não tivesse o seu "Café Central".
    Em Oeiras e Paço d'Arcos, que eu frequentava havia igualmente os cafés que eram ou foram ícones, o célebre Picadilly era ponto de reunião de pescadores submarinos da Linha, mas de Lisboa e até Setúbal!
    Em Évora, fui ainda encontrar esse ambiente e os cafés, na época (1976 a 1983) divididos e prosaicamente designados pelo "dos comunas" e o "dos fachos". Fora desses dois, havia os que eram território neutro e qualquer um podia frequentar sem ser olhado de lado...
    Depois, a partir do final dos anos 80, abandonei a frequência dos cafés ou bares.
    Gostei de ler e lembrar este post, uma curiosidade é que aqui na Cidade Morena, existem esses estabelecimentos ainda, onde se faz tertúlia, onde se discute política, economia, negócios... em cada um há a sua fauna própria que são os frequentadores assíduos. No Flamingo se marcam reuniões de negócio, no Café da Cidade encontram-se políticos e empresários logo pela manhã... e por aí fora, a vida aqui ainda é assim. Mas suponho que mesmo em Portugal, talvez mais na província menos cosmoplita, ainda haja esses cafés típicamente frequentados, não pela gente do bairro mas pela outra fauna de que aqui falámos!

    Votos de um Extraordinário fim de semana para todos!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O Central de Santarém infelizmente já fechou...

      Eliminar
  4. Falar de cafés é falar de estudo, de conversa deitada fora para preencher os espaços de pausa que fazíamos ao longo das tardes passadas nos cafés do Porto. Onde, ainda hoje, estão presentes as placas dos finalistas, deste e daquele curso, que faziam do espaço café a casa onde regressavam todos os dias.
    Hoje não há tempo para o cimbalino que ficou esquecido na ausência dos dias que se prolongavam pela noite dentro. A cultura do café revolução e aprendizagem é tema literário que faz sentido na interação e crescimento pessoal, mesmo que sejamos apanhados " em flagrante de litro"

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. De acordo, Extraordinário e anónimo Anónimo!
      Fala-se de que o digital vai acabar com o papel... vai? Parece que o café-estabelecimento enquanto instituição cultural desapareceu já! E com outras coisas a modernidade acabará, mudam-se os hábitos e temos pena.
      Enfim, também na canção "video kill the radio star" !

      Eliminar
  5. Penso que todas as cidades têm um "café mais literário" que os outros. Em Almada fiz parte da "tertúlia do Repuxo" (nome do café, que continua a existir, na "fronteira" entre Cacilhas e Almada...), durante mais de vinte anos.

    É curioso, quando a comecei a frequentar, havia mais de uma dúzia de tertulianos, ainda que nem todos fossem assíduos. Com o tempo foi diminuindo, mas houve sempre meia-dúzia de resistentes. Falava-se sobretudo de Cultura, mas sempre com livros à mistura. Aprendi muito sobre história local naquelas mesas...

    Um dos tertulianos com quem tinha mais afinidades era Henrique Mota, escritor almadense autor de uma obra impar a nível nacional (quatro volumes de biografias desportivas que incluem os grandes "Desportistas Almadenses" - título da obra), de quem ainda se festeja o centenário do nascimento por Almada.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Esqueci-me de dizer que estas "tertúlias" foram acabando porque as pessoas foram perdendo o hábito de conversar umas com as outras, sobre coisas que vão para lá do seu umbigo. E os cafés também começaram a olhar de lado para clientes que ocupavam uma mesa a manhã inteira e só bebiam meia-dúzia de bicas e um ou outro salgado...

      Eliminar
  6. Afirma a Escritora Maria do Rosário Pedreira:
    “Hoje vou estar na Feira do Livro de Lisboa às 18h30 no pavilhão da Quetzal a autografar o meu livro de crónicas, Adeus, Futuro. Apareçam.”

    Pois bem sigo este maravilhoso “Blog” há já algum tempo, mas hoje, atendendo ao encontro supra mencionado, não posso deixar de aqui deixar umas breves linhas.
    Há bem pouco tempo, disse à minha mulher que, a ter de salvar algo do nosso lar, seria uma pintura muito antiga de Jesus Cristo, que ilumina a entrada da nossa casa de Lisboa, a “Poesia Reunida” da Maria do Rosário Pedreira – edição de Setembro de 2012, e toda a Poesia de José Agostinho Baptista, com relevo para o superlativo “Agora e Na Hora Da Nossa Morte” (Assírio & Alvim, 1998).
    Com estes, poderemos percorrer o Mundo sem nos sentirmos desamparados.
    Escolha dificílima, aqui deixo, todavia, um trecho da Poetisa do sofrido e delicado Amor e da Esperança:
    “ Se
    hoje vieres por esse livro que deixaste (e cuja
    lombada acariciei todos os dias que durou a tua
    ausência como uma nesga de sol acaricia um
    rosto no inverno), encontrarás a sopa a fumegar
    na mesa, e a camisa engomada no cabide, e os
    lençóis da cama imaculados, e um corpo pronto
    para qualquer aventura – e ainda o cão deitado
    à porta, à tua espera, como na véspera de partires.
    Porque os anos não contam para quem assim ama.”

    Como actualmente me encontro na minha casa de Estremoz, não pude comparecer atempadamente no referido evento, e prestar pessoalmente a minha homenagem a tão ilustre Poetisa!

    P.S:; o “Adeus Futuro” já foi “devorado” no mês de Junho deste ano da Graça de 2021…

    Delfim Cabral Mendes

    ResponderEliminar
  7. Peço desculpa pelo " não posso deixar de aqui deixar"...
    Delfim Cabral Mendes

    ResponderEliminar
  8. E porque não referirmos aqui esse saudoso (para mim) café Gluck, onde o Mendel dos livros "vivia", falava com os clientes e despachava o seu expediente livreiro para todo o lado?

    ResponderEliminar
  9. Não era no Monumental, a tertúlia, mas no Monte Carlo alguns metros abaixo

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório