Tarrafal
Leio algures que existe um memorando de entendimento entre Portugal e Cabo Verde para propor o campo de concentração do Tarrafal, a que alguém chamou «o campo da morte lenta», a Património da UNESCO. Não só é uma forma de fazer com que não se esqueça, e assim não se repita, o horror, mas também um modo de convocar visitantes para o arquipélago sem ser apenas pelo clima e a paisagem. Conheço o Tarrafal, com as suas montanhas altas que parecem ter rostos desenhados na pedra, e com as suas praias de água transparente e coqueiros. Quando ali estive, da primeira vez que fui em trabalho à cidade da Praia (depois disso já fui mais três) levaram-me também a ver o Campo de Prisioneiros e, apesar de então estar bastante destruído e abandonado, deu para perceber as provações por que passaram os presos políticos que ali foram encerrados. Publiquei dois romances que evocam o Tarrafal: Que Importa a Fúria do Mar, de Ana Margarida de Carvalho, e O Diabo Foi Meu Padeiro, de Mário Lúcio Sousa. O primeiro insere na ficção um velho sobrevivente português, o outro faz-se homenagem a todos os que, na realidade, estiveram presos no campo em épocas distintas: portugueses, angolanos, guineenses e cabo-verdianos. Ambos os livros devem ser lidos para que não esqueçamos, enquanto o Tarrafal não se torna Património da Humanidade por direito próprio.
O contraste é de facto gritante entre a beleza da praia do Tarrafal e, a poucos quilómetros, a aridez do campo de concentração em degradação.
ResponderEliminarNunca fui a Cabo Verde, mas dá para ver que é um Paraíso com alguns pequenos infernos, daí muitos serem obrigados a partir e tentar uma vida melhor.
ResponderEliminarEm miúda ouvi uma conversa lá em casa em que se falava das tristemente célebres 'Frigideiras' do Tarrafal. Depois de muito insistir, o meu pai lá me explicou o que eram: nunca me esqueci!
🌼Maria
Não posso fugir a esta referência a Cabo Verde, e mesmo não sendo dia de «excerto», trago um dos muitos livros que me deixaram feliz, para sempre, com a aventura da leitura: «Chiquinho» de Baltasar Lopes, editado pela Prelo:
ResponderEliminar«Deus quase esqueceu de nós…
- Cale a boca, homem sem fé! Fé em Deus é que salva a criatura.
- E se fé em Deus não nos der chuva?
- Destino, homem…
Chico Zepa revoltou-se:
- Qual destino, velho! Destino é cair de rocha…
- Destino não é só cair de rocha. Trazemos o nosso destino desde que abrimos os olhos ao Sol.
- Não acredito. Nós é que fazemos o nosso destino consoante o que pensarmos na nossa cabeça…
- Então se é assim, por que é que tu, que pensas em embarcar outra vez, não embarcaste ainda? Queres mas destino não deixa…
~Deixará, velho… Não acabo apodrecendo aqui. Se for preciso, brigarei com o destino.
- Deus não deixou isto à criatura. Só uma pessoa venceu o destino: Totone Menga Menga…
- Explique como Totone venceu o destino…
- Ninguém sabe, Chico.»
E porque o tema do texto é o Tarrafal, não fugir aos «Papéis da Prisão» de Luandino Vieira, publicado pela Caminho em 2015:
«22.08.1964
Saudades até às lágrimas. Obsessão. Por tudo e todo o lado… Quando terei novamente a alegria do Amor».
O Diabo Foi Meu Padeiro é um relato impressionante, ao qual o leitor não consegue, nem pode, ficar indiferente.
ResponderEliminarNunca fui a Cabo Verde... já estive para ir por diversas vezes, porém o destino foi sempre contrário, não nasci marcado para lá ir!
ResponderEliminarMesmo que um dia vá, não tenciono visitar o campo por muito "atracção" que se torne. Como não visitarei os campos de concentração ou gulag, ou o que quer que seja nessa "onda".
Sou da opinião que se perpetuem, sim. Pois lugares desses não podem ser obliterados, esquecidos, têm de ser explicados e recordados pelo que significam: a opressão!
Mas continuarei a não os visitar... em contrapartida leio sobre eles, é uma forma de os manter vivos nas memórias colectivas.
Saudações e boas vibes cá da Cidade Morena.
Boa noite.
ResponderEliminarAinda não li nenhum dos livros referidos, mas confesso que tenho na lembrança o que foi o Tarrafal.
Tempos atrás referi aqui um livro que me deixou boas recordações e que por acaso tem referências ao Tarrafal. No livro "Deixem falar as pedras" do David Machado, a personagem Nicolau Manuel é preso e levado para aquela prisão. Da contracapa do livro retiro a seguinte frase: Deixem falar as pedras é um romance maduro e fascinante sobre a transmissão das memórias de geração em geração, nunca isenta de cortes e acrescentos que fazem da verdade não o que aconteceu, mas o que recordamos.
Outro livro sobre o Tarrafal tem por título "Tarrafal - testemunhos" uma edição de 1978 da Caminho. É uma preciosidade. Está assinado por alguns dos sobreviventes daquela prisão com ilustrações de diversos artistas plásticos e capa do pintor Gil Teixeira Lopes. Leiam-no por favor!
Para terminar, e porque a noite já vai longa, não posso deixar de referir a importância do Mário Lúcio Sousa, teve ou tem, na divulgação da música de Cabo Verde, enquanto fez parte do grupo de música Simentera.
Se possível ouçam a música daquele grupo. Muito bom!
Boa noite. Da margem esquerda do estuário do Tejo.
A. Delfim