Querido tempo
Disse um dia destes num daqueles questionários que todos os jornais publicam no Verão que gostaria de ter mais tempo para ler e escrever. Na verdade, vivo mergulhada o ano inteiro nos livros ainda não publicados de muita gente, e isso retira-me tempo (às vezes puramente mental) para, chegada a casa, ir escrever ou ler outras coisas. E muitas vezes pasmo como alguns escritores com empregos a tempo inteiro conseguem escrever livros quase todos os anos. Um dia, perguntei à mulher de um desses escritores se ele era dos que não dormiam, mas ela respondeu-me que ele dormia lindamente, só que não via televisão, não ia ao cinema, não saía praticamente ao fim-de-semana e, além disso, era capaz de escrever em qualquer lado, mesmo dentro do carro, enquanto ela fazia compras no supermercado. Será um caso atípico? Não sei. Ainda na sequência do post do Livrologia que ontem aqui referi, como é que um autor que trabalhou sempre tanto (e, ainda por cima, teve tantos filhos, que são outros trabalhos) como Jorge de Sena conseguiu produzir uma obra tão variada, vasta e consistente? Como é que Vergílio Ferreira, a dar aulas e a corrigir testes, nunca faltou com romances? Como é que médicos como Namora ou Torga têm obras vastíssimas? Cá para mim, é tudo uma questão de organização e de capacidade de não se dispersar (mas, claro, eles não tinham Internet e o mundo era então muito mais calmo). Querido tempo.
De facto, creio que tem muito que ver com o tempo em que vivemos. Queixamo-nos da falta de tempo para nós, no entanto se formos a verificar o número de horas passadas nas redes sociais, iremos constatar que realmente poderíamos ter usufruído desse tempo para fazer algo mais produtivo ou que nos desse mais felicidade...
ResponderEliminarAinda estou debaixo da fascínio da leitura da brilhantíssima biografia de José Cardoso Pires escrita pelo Bruno Viera do Amaral. Aí é ilustrada a radical separação entre o tempo que JCP dedicava à criação literária e o tempo, muito mais extenso, que ele devotava à vida banal e às suas outras atividades profissionais, como a de jornalista. Os romances exigiam-lhe uma separação monástica do mundo e dos prazeres, em que a família, os amigos e até o uísque eram totalmente suprimidos durante semanas a fio.
ResponderEliminarViva Artur!
EliminarSem dúvida, daí o interesse em ler as biografias de pessoas que nos inspiram e interessam, que se destacaram naquilo que nos interessa! Há quem as não leia, que não lhes interessa o assunto. Pois nem sabem o que perdem, e, aí está a prova!
Aprender com os outros, a sermos nós mesmos, é no fundo do que se trata!
Abraço Ribatejano!
Caro António Luiz,
EliminarNeste caso não só se aprende como se lê esta biografia com prazer da leitura de uma obra de elevada qualidade literária, pelo estilo da escrita do Bruno Vieira do Amaral e por nos apresentar o biografado como se fosse uma figura de romance, oferecendo-nos também uma visão profunda e concreta do que foi viver em Lisboa durante a ditadura e as primeiras décadas de democracia. Adorei este livro e irei procurar a ficção do Bruno Vieira do Amaral de que só li um ensaio curto sobre as igrejas evangélicas e os seus frequentadores (e crónicas no Expresso).
Estava a pensar exactamente nisso, Artur.
EliminarSó escrevi um romance (e logo o primeiro livro, que ingenuidade...), mas para o escrever deitar fora as férias de Verão. Em vez de ir para as esplanadas e para as discotecas com os amigos, ficava fechado em casa. Escrevia até às cinco, seis da manhã... Os meus amigos mais próximos pensavam que tinha um caso qualquer maluco (as apostas iam para uma mulher casada...).
O livro precisa de ganhar o seu espaço, tal como as suas personagens, é preciso fugir do quotidiano, como fazia o Cardoso Pires.
Cada caso é um caso, mas sei que só será possível escrever outro romance quando "fugir de casa", estar longe do meu dia a dia, com férias da minha companheira e filhos...
E sinceramente, não acredito nos livros escritos nos intervalos de compras de supermercados.
Vou justamente começar hoje esta leitura! Fiquei com ela "atrás da orelha" depois de ter sido aqui anunciada, já cá canta, e vou começá-la hoje!
EliminarAbraço a ambos!
Pois então somos dois, Caro Luis!
EliminarTambém não acredito... mas enfim, mentiroso sou eu, caçador e pescador! Eheheh!
Abraço.
Caro Luís, muito obrigado por partilhar connosco a sua experiência como criador literário !
EliminarTempus fugit (isto uma frase em latim, sobretudo se adequada dá sempre aquele tom elevado à conversa e faz-nos passar por intelectualmente cultos, fica bem!).
ResponderEliminarEheheh!
Mas é mesmo, o tempo... ai o tempo que cada vez mais parece faltar-nos, ser cada vez menos, escasso como se a horas passassem a ser minutos, os dias horas, as semanas dias, os meses semanas, e, por aí fora, num retrocesso imprevisto e incontornável.
Quando achamos que vamos ter todo o tempo para fazer tudo, até o desperdiçamos, saltámos por cima dele e o forçámos, queimando literalmente tempo para dar pressa aos nossos objectivos, não sabíamos que um dia iríamos dar pela sua falta.
Haverá quem o consegue usar bem, ter tempo para tudo, é o que assim parece.
Quanto ao tema da escrita, creio que o tempo não é tudo, há um conjunto de circunstâncias, talvez possamos falar em enquadramento, social e geográfico, que concorre para dar ao escritor esse "tempo". Por alguma razão os escritores são muitas vezes ensimesmados, isolam-se, vivem nas suas "ilhas". Pois fazendo a vida normal de quem trabalha, seja pai de família, tenha hóbis, outros interesses e actividades, é-lhes difícil escrever, não será assim?
A menos que, se viva na tal ilha ou se tenha vivido num outro tempo.
Aliás, questiono-me se não deverá ser assim?
Que tem para contar um escritor jovem, se vive ensimesmado na sua ilha? Que experiências próprias possui, mero espectador do que outros vivem ou buscando na escrita alheia os argumentos para a sua?
Não sei. Vergílio Ferreira ou Torga como eram e viviam? Isso dará pistas... começaram a escrever com que idade e em que circunstâncias?
Repito que não sou escritor, embora sempre quisesse escrever e me interessasse pela escrita, todavia só me decidi avançar para escrever alguma coisa, depois dos 50 anos. Até lá tentei viver tudo o que consegui, ir a lugares, fazer coisas, reunir o que pudesse de sensações, idéias, experimentação.
Hoje, se pudesse, escreveria muito mais, dedicava-me a isso, ainda que sabendo ninguém me lê, sobretudo porque não ganhei nome nem estatuto. É assim que são as coisas, tudo tem o seu reverso, também ninguém me garante que teria tido sucesso a escrever se o tivesse feito mais cedo. Mas são o sal e a pimenta de existir, as dúvidas, as incertezas e claro, ir provando o cozinhado que vai sendo a nossa vida. É o que vale a pena, ir temperando e apurando, esperando sempre que o prato saia bom!
Eheheh!
Portanto há um tempo, o tempo de escrever chegará quando tiver que sair da nossa caixa, ainda que - repito - ninguém nos leia e menos nos publique. Mas para alguns, é como respirar.
Saudações cá do Bairro Ribatejano, e, do meu tempo que é o vou dele fazendo, se bem que ainda não à minha vontade.
Nem mais, António Luiz, é como respirar.
EliminarRelativamente ao “post” de ontem, relativo à planificação do trabalho de escrita, aquilo que posso dizer é que obviamente facilita "desenhar" um esboço inicial do que se pretende. Muito ao escritor que tem o mercado como alvo, menos ao que se gosta de surpreender com o indómito da sua própria verve. Dependendo, no entanto, do tipo de livro, mais ou menos narrativo, mais ou menos contando de modo linear e directo uma "estória". Mas a escrita, mesmo a escrita de um autor que pensa já ter uma voz e estilo próprio, permite muitos formatos, cada um deles utilizando "fórmulas" e abordagens diversas. Daí ser diametralmente contrário a quem afirme haver uma escrita de qualidade tipificada — podemos gostar mais do estilo mais directo e despojado Anglo-Saxónico, do fantástico Latino-Americano, de Literaturas mais eruditas como a de Proust, Sartre, Calvino; mesmo, Umberto Eco. Ou de tipos de escrita cada vez mais geométricos e distópicos como o de Gonçalo Tavares (basta ver o actual "Diário da Peste", onde pode sonhar quem gosta de sonhar, entediar quem quer respostas automáticas, directas). Muitos, numa escrita muito despojada, quase "tele-noveleira", parecem entretanto incapazes de diversidade, de “conteúdo informado”. Com uma escrita muito guionista, temporária, esgotando-se num olhar — como já afirmou aqui a MRP —, muito "espectáculo" da realidade (narrativas demasiado simples, “já vistas”, parecendo agarradas por cuspo, num estilo copista, cose e corte. Relativamente ao "tempus fugit", posso sempre dizer que se há alguns que resolveram dedicar-se quase por inteiro à escrita, há que entender que muitos dos seus livros são já reconfigurações, reescritas, de tempos profissionalmente mais preenchidos. Nesse aspecto mesmo muitas das abordagens originais em tempos de aprendizagem são como que uma espécie de “depósito”, passível de reescrita num futuro próximo, longínquo ou inexistente. Para além disso — como afirmou Tordo no seu Manual de Sobrevivência —, a escrita é um trabalho a tempo inteiro, numa dimensão quase de “adito” e adita.
Ninguém nos ler e publicar? Deixe lá, António Luiz. Se tivermos de pagar pela nossa liberdade, independência, verticalidade, que seja. O que escreveu e escreve fica como uma herança de um tempo próprio que um dia se há-de “revisionar” e questionar um dia, um espelho de um tempo com as suas inevitáveis grandezas e misérias: pouco ou nada do que é hoje, será o amanhã, mesmo se o amanhã for um pouco de tudo o que hoje no nosso micro-mundo construirmos.
Jorge de Sena e Vergílio Ferreira são do tempo em que o dia tinha três partes:
ResponderEliminar-manhã
-tarde e
-noite.
Agora não há tempo, "estamos" sempre on-linne...
Bem visto, amigo Severino!
EliminarGrande abraço, já da parte da tarde, pois as minhas férias quando passadas em casa, têm três partes!
certo, mas nao diz o que mais "mataria" a curiosidade de leitores avulso, apesar de explicar que um meio limitado facilita disponibilidade para produzir : escrever tanto, como os exemplos que dá, e se for só uma compulsao, , se forem pessoas para as quais escrever seja resultado do ar que respiram , colonizadas por um formigueiro de fantasias (inspiraçao).
ResponderEliminarSó posso alvitrar sobre Jorge de Sena. Dizem que era tão mulherengo, daí a caterva de filhos, que, assolapado pelas paixões "rapidinhas", muito provavelmente escrevia e descrevia as aventuras ao mesmo ritmo, do tipo "rapidinhas".
ResponderEliminarO masculino, em português, costuma servir para os dois géneros. Até aqui, no entanto, os comentadores, quando se referiram a escritores, consideraram apenas escritores/homens. Como é que um escritor pai de família tem tempo? Ou, como a a autora do post disse: escreve no carro, enquanto a mulher faz as compras.
ResponderEliminarDe facto, seria difícil uma mulher dizer que escreve no carro, enquanto o marido faz as compras. Ou uma mãe tirar férias dos filhos, para poder escrever (também há, mas é muito mais raro). Uma mãe de família, com actividade profissional a tempo inteiro, tem com certeza menos tempo do que um homem nas mesmas condições. Já vários escritores homens confessaram que nunca conseguiriam dedicar-se à escrita, se não tivessem uma mulher que lhes tratasse da casa, dos filhos e de outros assuntos (burocráticos, por exemplo). Quantos homens estariam dispostos a fazer isso pelas suas mulheres escritoras?
Não estou a dizer mal dos homens. Apenas achei pena ainda nenhum comentador se lembrar de dizer que o facto de ser homem, muitas vezes, ajuda, nesta coisa de ter tempo.
Não lhe ocorreu que, algum comentador tenha usado o termo "escritor" como uno e indivisível, sem sexo?
EliminarPara mim escritor é assim mesmo, nem homem nem mulher, mas se calhar sou eu que estou errado e deveria fazer a separação.
E, hoje em dia o casal não partilha as tarefas? Pergunto-me... talvez eu esteja ultrapassado, pois por acaso que faz as compras e cozinha sou eu - homem, mesmo. Mas enfim, se calhar estou enganado.
Claro que não está errado. Sucede é que os parolos, maioritariamente políticos e académicos aculturados, deram nessa de xenofobias, não sei quê de género e não sei que mais. Depois, dão para aquela parolada de fraseologia do género "portuguesas e portugueses..." como se tivéssemos de dizer "a sera humana e o ser humano". E até o PR, que cheguei a presumir que estaria acima dessa palhaçada, alinha nessa idiotice.
EliminarEscritor não tem sexo. :)
EliminarEstá enganado, sim. A partilha das tarefas é ainda uma ficção na maioria dos lares portugueses.
EliminarE, pelos exemplos que deram, não me parece que nenhum dos comentadores tenha usado o termo "escritor" sem sexo. Ora leia bem os comentários!
Desculpe, mas tal não transparece dos comentários.
EliminarMas os comentadores têm. :)
EliminarE ainda bem :)
EliminarComo o Extraordinário Pacheco costuma dizer, o que nos vale é a diversidade.
Por isso mesmo acrescentei algo que ainda não tinha sido referido :)
Escritores são como anjos.
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