O senhor Pires

Quando conheci pessoalmente o senhor Pires (leia-se: José Cardoso Pires), ele já tinha infelizmente sofrido um AVC e, portanto, já não teria a energia de que todos os que lhe foram próximos fazem alarde (escreveu, de resto, um livro intitulado De Profundis sobre o buraco negro que viveu na sequência do derrame e que li oportunamente). Na Feira de Frankfurt de 1997, quando Portugal era país convidado, tentou subir na escada rolante que era de descer e deu cabo de um pé, mas já ninguém se lembra se tinha bebido um whisky a mais ou estava apenas distraído. Em novo, era dado ao soco e não se coibia de pregar uns murros num crítico que desdenhasse dos seus romances. Escreveu uma obra-prima chamada O Delfim, que recebi de presente de anos quando atingi a maioridade e foi adaptada ao cinema por Fernando Lopes, bem como muitos outros livros importantes (eu comecei por Dinossauro Excelentíssimo). Diz quem privou com ele que era uma personagem fascinante, e quem queira saber porquê tem agora ao dispor uma biografia exaustiva pela pena de um dos mais elogiados escritores contemporâneos, Bruno Vieira Amaral (Prémio Literário José Saramago com o romance As Pequenas Coisas). Chama-se Integrado Marginal (um grande título) e está a fazer furor. O senhor Pires devia gostar de a ler.

Comentários

  1. Com tanta apreciação encomiástica, por ser leitor do Cardoso Pires (estou de acordo que o "O Delfim" é uma obra-prima, a um nível que, a meu ver, o escritor não mais alcançou) e do Bruno Vieira Amaral, e também por me ter cruzado ocasionalmente com o Cardoso Pires na Lisboa boémia (sim, sou velho), comprei de imediato esta biografia. Ainda não a comecei a ler mas estará para breve (acabei ontem, deslumbrado, "Um a Amor" de Sara Mesa, um romance curto que fez furou em Espanha em 2020).

    ResponderEliminar
  2. Li há muitos anos A Cartilha do Marialva e posteriormente O Delfim, leitura escassa para avaliar uma obra, reconheço; quanto à biografia não é figura que me entusiasme, tenho outras prioridades, embora seja apreciador de biografias, género literário um pouco escasso entre nós.

    ResponderEliminar
  3. Li há muitos anos "O delfim" e "Alexandra Alpha".Gostei dos dois.
    Depois disso li alguns outros,mas nenhum me encantou.Sobretudo guardo do autor a recordação de um individuo pouco simpático e que não tolerava criticas,chegando a ser mal-educado.
    Quanto ao género biográfico,tambem não faz parte das minhas preferências.

    ResponderEliminar
  4. Também gosto do senhor Pires, e sim acho "O Delfim", um grande livro, tal como o filme do senhor Lopes realizou, com adaptação do senhor Vasco, também é excelente.

    Tem mais livros bons, talvez nenhum como "O Delfim". Isso interessa-me pouco. Um livro chega para fazer um grande autor. Dinis Machado só tem um grande livro, "O que Diz Molero" e é um extraordinário escritor.

    Vou gostar de ler a biografia do senhor Amaral, que tem, de facto, um grande título.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. (que o senhor Lopes realizou...)

      isto de comentar sem rever tem que se lhe diga...

      Eliminar
  5. Não tive o privilégio de conhecer o "Senhor" Pires do "De Profundis e da valsa lenta".
    Mas sei, por ter lido a quase totalidade da sua obra, ter sido um dos maiores escritores Portugueses de sempre. Esperando-se, das próximas gerações, que lhe consigam chegar aos ombros. Pelo mérito da sua obra é, pois, para mim, desde já "Doctor Honoris Causa". Fiquei, entretanto, a gostar ainda mais dele ao saber que não se eximia a "dar dois murros na mediocridade nacional" - a regular pestilência nacional precisa tantas vezes de abanos desses, que o coloquem no caminho do probo e da decência. Do Bruno, que conhecemos, esperamos, entretanto, nada menos do que uma biografia ao nível de um meritório Doutor José Cardoso Pires.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Cem por cento de acordo com as opiniões sobre a obra do José Cardoso Pires e do Bruno Vieira Amaral. Biografia com boa contextualização social e detalhada análise da obra. Ao nível das melhores que já li, sem a mesquinhez do Joaquim Vieira...
      Aguardo com expetativa a prometida sobre Philip Roth, cuja obra/retrato da américa me delicia.
      ACCarvalho

      Eliminar
  6. Bom dia!
    Vou certamente comprar este livro e por várias razões.
    Porque gosto do JCP e dos livros que escreveu, nomeadamente o Delfim e o Alexandra Alpha a par do Excelente Dinossauro.
    Depois porque escrito pelo Bruno Vieira Amaral será com toda a certeza uma excelente leitura. Sem excepção, recomendo a leitura dos livros deste autor.
    A propósito recordo a Fotobiografia do JCP num excelente trabalho da Inês Pedrosa, numa edição esmerada da D. Quixote de 1999.
    Se calhar um dia destes vou reler o Delfim, numa edição de 1968 da Moraes editora, mas com cuidado porque já tem a lombada a descolar-se.
    Da margem esquerda do estuário do Tejo.
    Um abraço.
    A. Delfim

    ResponderEliminar
  7. António Luiz Pacheco5 de julho de 2021 às 04:29

    Aí está outro livro que vou ler certamente, porque me interessa muito o Sr. Pires, enquanto personalidade, e, porque sou leitor habitual de biografias.
    Quanto à obra do escritor, não tenho nada a dizer, já se disse e está dito!

    Uma observação: as biografias é um género que me parece estar sempre em alta... pois se renovam continuamente. Se têm ou não muitos leitores, não sei, mas que aparecem regular e constantemente novas, isso sei pois vejo.

    Saudações cá da Cidade Morena e votos de uma boa semana para todos!

    ResponderEliminar
  8. Nunca conversei com o José Cardoso Pires.
    Dele guardo algumas imagens: quando o via em algumas tardes no Bar Americano ou no British-Bar. Na Casa Transmontana, nas escadinhas do Duque, ao jantar, a comer uma morcela com grelos, acompanhada de meia garrafinha de Dão, que não acabou porque entretanto desceu o whisquinho da ordem, no começo da tarde do dia 25 de Abril, sentado no «República», na secretária do Vitor Direito, chefe de redacção, a escrevinhar para linguados as comunicações entre as tropas da afectas à ditadura.
    Nunca conversei com o José Cardoso Pires, o Lobo Antunes, sim, e muito:
    «É difícil, num meio literário pequeno e acanhado, cheio de invejas e de intrigas, encontrar uma pessoa com uma postura ética em relação à vida, de uma lealdade, de uma coragem, de uma amizade cheia de pudor, e de um rigor como se encontra em José Cardoso Pires, o que faz com que ele seja, de facto, enquanto homem, um homem de uma qualidade muito rara.»
    Ainda não peguei no livro de Bruno Vieira do Amaral, já está na longa lista de livros a comprar, em Agosto, na Feira do Livro. Tenho lido algumas anotações que remetem para alguma alfinetadas que o lembram como misógino egoísta, as suas frequentes ausências, como marido e pai, as noitadas de copos.
    O costume destas coisas de biografias e autobiografias, onde nunca se deve esquecer o velho «ninguém é perfeito.
    Gosto do escritor José Cardoso Pires, mas não chega para o colocar no topo da lista dos melhores escritores portugueses do século XX.
    No bolso do colete que nunca usei, transporto o amargo de «A Balada da Praia dos Cães» ter retirado o Prémio da Associação de Escritores ao «Memorial do Convento» de Saramago. Mas, claro, não cabem culpas a Cardoso Pires. Como foi possível? As tais coisinhas caprichosas de um meio pequeno e acanhado, cozinhadas por mentes caprichosas que saberão quais e como, mas nunca o disseram.

    ResponderEliminar
  9. António Luiz Pacheco5 de julho de 2021 às 06:54

    Li agora mesmo, no dn.pt (Diário de Notícias, on line) uma entrevista que apareceu por mero e feliz acaso nas notícias... justamente sobre a biografria.
    Vale a pena ler!

    ResponderEliminar
  10. Só este ano li "O Delfim". Quando o terminei, fui a correr procurar uma forma de ver o filme homónimo (nunca o vi). Tentei a Netflix (ingenuidades cá minhas), a Internet (sem piratarias, sou contra) e tudo o que mais me lembrei sem ter de ir à FNAC (estávamos trancados em casa). Não consegui. Mas sei que, se quisesse ver uma qualquer porcaria americana havia de ter muito por onde escolher.
    Há coisas que realmente não entendo.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco6 de julho de 2021 às 14:40

      Tente o youtube! Escreva o nome e acrescente ver youtube... costuma resultar!

      Eliminar
    2. Eu tinha tentado o Youtube, mas eis que com o seu incentivo lá fui de novo, "just in case", e não é que oh! está lá? Foi colocado a 2 de maio e eu fui lá pesquisar antes disso. Que boa coincidência. Muito obrigada pela sugestão!

      Eliminar
    3. Quem tem acesso aos canais de cabo, onde tem estada a ser "exibido", passa amanhã no TVCINE|EDITION - 8.07, às 16H50.
      ACCarvalho

      Eliminar
    4. António Luiz Pacheco7 de julho de 2021 às 12:00

      Boa!!!!
      Advirta-se, eheheh! Pipocas e um iced tea ou coisa parecida... enfim água chalada parece mal!

      Eliminar

Enviar um comentário