O malfadado
Apesar de o Novo Acordo Ortográfico (NAO) já ter sido aplicado oficialmente há muitos anos, não tenho a certeza de que seja impossível voltar atrás, porque sei que muitos adultos (como eu) que eram profundamente contra o NAO nunca chegaram a utilizá-lo. Na editora onde trabalho deixamos à consideração dos autores portugueses se querem ou não utilizar o NAO, e a maioria não quer, mesmo os escritores mais jovens; mas há alguns que, por serem professores, pais ou funcionários públicos (em suma, por já estarem habituados a ele no quotidiano), optam pela nova ortografia. No entanto, apesar de darmos aos portugueses essa liberdade, aplicamos a regra do NAO às traduções que publicamos. Só que um dia destes, uma tradutora que também é escritora e, como escritora, não usa o NAO, também não o usou como tradutora e foi o cabo dos trabalhos na revisão do texto... Bem, acho que as duas grafias vão conviver pacificamente até já não haver ninguém do tempo da antiga e a nova emergir naturalmente. Será? Continuam, porém, a sair artigos contra o NAO e o que se segue é bem interessante. Deixo-vos com 9 argumentos contra o NAO.
A "contenda" resolvia-se de modo inteligente - pois de uma verdadeira contenda se trata - se a "intelligentsia" não estivesse tão desvalorizada e não vivêssemos num mundo tão intolerante e intransigente: com um "NNAO" (novo NAO) que corrigisse alguns das regras do novo acordo ortográfico.
ResponderEliminarApoiado !
EliminarEstá muito bem observado. Assim se aproveitava o que pudesse haver de positivo nessa coisa a que chamam acordo. O problema é que o assunto é político e, como sabemos, a política está reservada a umas igrejas que se arrogam o exclusivo dela -e, inclusivamente, recusam-se a alterar a lei eleitoral para o parlamento, a fim de que nós, o vulgo (também dito "o Povo") não possamos escolher realmente os clérigos...
ResponderEliminarÉ verdade caro(a) anónimo(a). Mas estará talvez na altura, se queremos sobreviver como Povo, de nos deixarmos de orgulhos, arrogâncias, trincheiras bacocas, missas cantadas para "aggiornando" chamarmos todos à responsabilidade maior, à que une em vez de divide. Ah, pois, a responsabilidade não é o nosso forte... talvez começando por aí!
EliminarBom dia, Extraordinários e Extraordinárias:
ResponderEliminarTambém não o uso. Recuso-me! Sou Funcionária Pública e "alegadamente" obrigada a usá-lo. Mas não o uso, nem nunca me levantaram problemas quanto a essa minha absoluta determinação. E sim, também gosto muito mais de ler os livros com a grafia anterior a esse "Aborto AO". E sinto especial estima por todos aqueles escritores que escrevem bem e com a grafia a meu ver mais correcta. Mas infelizmente já não consigo ler só desses livros. Desses autores determinados. Não sei se o processo é irreversível, creio que sim. Com muita pena minha.
Boas Leituras!
Celeste Silveira
Só a morte e determinadas doenças graves são irreversíveis. O erro humano, chamado AO90, é absolutamente reversível. Se se deixou uma Língua, para se aplicar um arremedo de Língua, mais depressa se deixa o arremedo de Língua para se aplicar a Língua. Certo?
EliminarAntes de mais, gostaria de saber - e certamente não serei o único - o nome dessa «tradutora que também é escritora» para publicamente a saudar.
ResponderEliminarE a LeYa, enquanto instituição, deveria ter vergonha de impor algo, um «aborto pornortográfico», que é ilegal e prejudicial, para além de ridículo. Os seus proponentes e defensores em Portugal são extremistas, autênticos terroristas culturais, traidores. E, não, as duas grafias não vão «conviver pacificamente»... porque não têm convivido pacificamente - pretende-se que a «nova» acabe com a «antiga»; e aquela nunca irá «emergir naturalmente» porque é artificial, uma aberração, concebida por pervertidos e aceite por cobardes.
Já agora, deixo a ligação para um artigo «do contra» (entre vários possíveis) mais recente:
https://ilcao.com/2021/05/16/como-num-programa-de-televisao-se-demonstrou-que-o-acordo-ortografico-nao-era-necessario-maria-do-carmo-vieira-publico-11-05-2021/
Parece que o acordo ortográfico anterior demorou algum tempo a instalar-se e não vejo nenhum dos oponentes ao NAO usar a grafia anterior nem fazer campanha pela sua reposição. Gostava que o NAO se instalasse mais rapidamente para começarmos a ocupar-nos da eliminação de outras consoantes sem função. Considero a língua italiana muito bonita e ela grafa uomo, por exemplo.
ResponderEliminarSim, Amalivros,
Eliminarmas a língua italiana, como o castelhano, só tem cinco sons vocálicos, e nós temos, pelas minhas contas, uns catorze ou quinze. A anterior ortografia era bem mais transparente. Havia consoantes que não se liam mas ensinavam-nos que, naquela situação, tínhamos de abrir a vogal, ou que a sílaba de que ela fazia parte era tónica. Uma consoante muda não é uma consoante desnecessária, e isto aceitando mesmo os que, ao contrário de mim, não amam a etimologia das palavras...
'Receção' em vez de 'recepção'? Horrível. 'Espetador' em vez de 'espectador'? Horrível. 'Para' em vez de 'pára'? Horrível.
Quando traduzo ou revejo, vejo-me obrigado a adoptar o NAO, mas nunca quando escrevo, seja um sms, um email ou mais um romance ou um poema para a gaveta.
Por curiosidade, e a propósito dos sons vocálicos, recordo-me de uma entrada no meu blogue, no longínquo ano de 1911:
https://ocasosluiscaminha.blogspot.com/2011/01/sons-vocalicos-em-portugues.html
Dito isto, há aspectos do novo acordo ortográfico por que tenho preferência e até poder-se-á dizer que tenho uma grafia mista. Sempre a tive, mesmo antes do NAO. Por exemplo, prefiro escrever minissaia do que mini-saia. Os hífenes, para mim, só os estritamente necessários.
Um abraço a todos!
Estou de acordo com o post e com o artigo do Expresso ligado (para não dizer "linkado") daqui. O NAO tem, realmente, muito pouca lógica na maioria das alterações que traz. Logo para começar deita por terra as regras que aprendemos na escola primária, no primeiro contacto com a nossa língua, o que até soa a falta de respeito. Fiquei mesmo triste quando me apercebi que havia gente à minha volta a adotar o NAO e que portanto este vinha para ficar. Enquanto não me obrigaram, continuei a escrever "perspectiva", "acta", "recepção". Mas veio o momento em que fui obrigada a adotar o NAO numa das minhas atividades profissionais. De início bem rabujei contra as "atas de reunião" e as "perspetivas", até comecei mesmo a pronunciar estas novas palavras como merecem e com as regras antigas. Mas depois simplesmente adaptei-me.
ResponderEliminarReconheço, porém, que as razões (expressas no artigo do Expresso) para o NAO existir são louváveis: vender mais livros protugueses no Brasil. Só que infelizmente o empreendimento parece que falhou a causa, uma vez que nos afastámos ainda mais do Português de lá.
Hoje em dia adotei o NAO em toda a minha escrita, aquela em que sou obrigada a fazê-lo e na restante, porque escrever das duas maneiras como ao início tentei começou a gerar erros e confusão e mais consultas aos dicionários, etc..
Resta-me, ao menos, ficar satisfeita por os meses do ano se escreverem com minúsculas, o que é muito mais bonito e prático, e os feiosos hífens, na sua grande maioria, terem caído (embora noutros casos tenham surgido, como em "micro-ondas").
O que, mais do que as inconveniências do NAO, gosto ainda menos de constatar é o facto de a opção pela escrita conforme o NAO gerar, de vez em quando, antipatias alheias e, até, certa agressividade. Pelo menos a palavra tolerância continuou igual. E bonita.
Os nomes próprios - como os nomes dos meses - não se escrevem com maiúsculas?
EliminarEntão Pedro passa a pedro, segundo a lógica... não é?
Seria, pois, se a regra se estendesse a todos os nomes próprios.
EliminarEspero que tenha feito uma boa viagem e que passe uns dias felizes e plenos de boas leituras em Portugal!
Eheheh! Já estive a percorrer vários dos livros novos que tinha á minha espera... agora mesmo terminei, depois do jantar!
EliminarEstou cansadíssimo... comecei a viagem ontem às 5 da manhã e cheguei a casa hoje pelas 13 horas! Fui-me vacinar dar umas voltas... e agora vou descansar que amanhã muito cedo tenho de ir a uma reunião em Matosinhos, para ver se depois descanso!
Grato pelos seus votos!
Saudações cá do Bairro Ribatejano, com letras maiúsculas!
A dificuldade que existe entre pára e para é tão grande como a que existe entre séde e sêde e no entanto não nos atrapalhamos com a ausência de acentos; o mesmo entre rôta e róta e não perdemos o rumo; quanto ao môlho e o mólho já os atritos são maiores, não sei se há um AO responsável por isso. Uma vez escrevi adeqüe (sem trema, suponho que houve um AO que o eliminou), quando reli soletrei adéque e não percebia o que tinha escrito. Não vejo ninguém reivindicar a reposição do trema. Por mim está bem assim, apesar de certos percalços, pois simplificar é sempre bom desde que se alcancem os mesmos objetivos. As razões etimológicas ficam sempre disponiveis para os interessados e os entendidos. Os castelos não servem para nada desde que inventaram a artilharia mas felizmente que muitos estão aí, tal como as velhas pontes que não suportam um veículo muito pesado, as estradas romanas, as muralhas das cidades e muitos utensílios, principalmente da agricultura.
ResponderEliminarO que significa adeqüe?
EliminarSou funcionário público e não o utilizo. Não vejo nenhuma razão plausível para uma "uniformidade linguística". A riqueza de um língua vem da sua diversidade. Quantas expressões são usadas em determinada regiões e noutras não? Quanto ao léxico gramatical ele existe por necessidade, não por conveniência. Por exemplo, recepção não é o mesmo que receção. É o "p" que abre a vogal. Em "receção" não posso dizer "recéção", porque não é o que lá está e não é uma questão de interpretação. Tanto o inglês e o francês europeus são distintos dos falados/escritos noutro continentes. Porque é que o português tem de se submeter ao brasileiro?
ResponderEliminarJoão Moreira
Não consigo ler o texto do Expresso. Mas também não uso o (des)acordo.
ResponderEliminarO chamado Novo Acordo Ortográfico não passou do despudorado sacrifício da racionalidade - já de si discutível... - da língua portuguesa em benefício de manobras diplomáticas de captação de simpatias de um país irmão que, apesar de o ter assinado, jamais o viria a adotar.
ResponderEliminarAdotei-o como cidadão cumpridor da lei, mas violentando, profundamente, a minha convicção sobre a matéria.
Como vejo que colabora com uma editora, interessar-lhe-ão, porventura, algumas abordagens menos alinhadas - mas amplamente fundamentadas - que desenvolvi quanto a eternas polémicas da língua portuguesa e afixei em
https://mosaicosemportugues.blogspot.com/2021/02/as-casas-nao-se-vendem_20.html
https://mosaicosemportugues.blogspot.com/2021/04/sexo-e-do-genero-masculino.html
https://mosaicosemportugues.blogspot.com/2021/05/foi-limpo-por-o-terem-limpado.html
https://mosaicosemportugues.blogspot.com/2021/06/por-que-nao-porque-nao_79.html
Ficarei grato pela visita e, se alguma achar digna, pelo favor de um comentário.
Entretanto, tenha um ótimo Domingo!
"No entanto, apesar de darmos aos portugueses essa liberdade, aplicamos a regra do NAO às traduções que publicamos."
ResponderEliminarE porquê?
Se a maioria dos leitores são adultos, e a maioria dos adultos não utiliza o Aborto Ortográfico, porque raio é que a LeYa lhes impõe traduções com ele? Já pensaram que é provável que afastem mais leitores do que ganhem leitores? É que mesmo nas novas gerações a quem impingiram o AO90 há muitos que percebem a estupidez que ele consubstancia e adoptam a ortografia que os pais e a maioria das pessoas usa.
Parece-me até economicamente estúpido editar traduções em Acordês.
Porque muitos daqueles que, como eu, repudiam absolutamente o AO90, pura e simplesmente se recusam a ler coisas em Acordês.
Eu há mais de uma década que não compro UM livro traduzido pela LeYa ou por qualquer chancela sua. Prefiro ler os livros em Inglês a pagar para ler uma versão bastardizada da minha Língua. Tendo em conta que compro entre 50 a 100 livros por ano, façam as contas ao meu dinheiro que a LeYa já perdeu em favor de editoras estrangeiras.