Gramáticas

O querido agente literário Ilídio de Matos (que já cá não está e de quem tenho saudades porque era um homem bom como há poucos) gostava muito de usar a expressão «estas gramáticas» com um significado todo dele. «Já sabe como são estas gramáticas, não sabe?», exclamava ele quando um editor fazia uma oferta milionária para tirar um autor a um colega. E de outra vez, quando lhe dirigiam perguntas estúpidas, queixava-se: «Estes parvalhões não percebem nada destas gramáticas.» E, se era melhor tratar de um contrato com urgência, podíamos ouvi-lo: «Vamos lá tratar destas gramáticas antes que alguém se chegue à frente.» Eu achava-lhe graça, e não era só eu. E agora lembrei-me dele porque estimo muito a gramática e (deixem-me brincar um pouco com isto) acho-a até bastante plural. Mas o Museu da Língua Portuguesa em São Paulo mandou dizer que, depois do horroroso incêndio, vai abrir de novo as portas a todas, todos e «todes». E eu quase ouvi na minha cabeça o Ilídio a dizer baixinho que já nem o Museu da Língua conhece a gramática. Ele diria de certeza que todos cabem na palavra «todos» e que usar «todes» é sublinhar a diferença dos que querem ser iguais. Bem, o que é um facto é que a coisa deu brado no Facebook, com uns do lado de uma gramática e outros do lado da outra gramática. E uma escritora com bastante sentido de humor até comentou ao ver a palavra não dicionarizada: «A sério? A séria? A série?» Estou com ela. Sou mulher e sinto-me incluída no «todas», e no «todos» também.

Comentários

  1. Eu sou algarvio e, apenas e só por essa razão, sinto-me incluído no "todes".

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    1. O general Eanes também acharia o mesmo !

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    2. António Luiz Pacheco28 de julho de 2021 às 03:02

      Ahahahahah!
      Realmente, anda tudo marafade...
      Abraço cá do Bairro Ribatejano, onde dizemos: a gente!

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    3. Bom dia com alegria e pandemia

      Subscrevo o "todes" algarvio. O outro, moda WOKE, passo.

      Saúde e boas leituras
      cp



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    4. Já dizia o outro:
      A Gente briga por causa, da mulher da gente também...

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  2. E que tal criarmos por cá um Centro da Literatura em Português tal como existe o Lisbon Story Center no Terreiro do Paço? Algo tão cheio de som, imagens e percursos interativos como este Centro da História de Lisboa, tornando atraente e acessível a literatura escrita em português para quem pretenda uma introdução leve ao tema, seja turista ou não. A época dos pesados museus, cheios de profunda e estática erudição, já foi.

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  3. António Luiz Pacheco28 de julho de 2021 às 03:18

    Não sei, mas parece-me que andam por aí muitos gramáticos, mais do que gramáticas, a ver se dão cabo da cultura, das culturas aliás, todas, todos e todes... por falar nisso, lembram-se daquele livro do política e socialmente incorrecto, todavia genial Woddy Allen, "Para acabar de vez com a cultura"? Quem leu?
    Parece-me que é um tema actual, que merecia mais atenção e cuidados da parte daqueles que valorizam a cultura e a nossa sociedade. Porque, se formos pelo caminho dos muitos lóbis que pretendem acabar com tudo, pura e simplesmente, para construírem finalmente o "homem novo" tão ansiado pelas esquerdas revolucionárias como pelos nacionais socialistas, e que hoje abundam: supremacistas (brancos e negros), feministas, homossexuais, animalistas, ecologistas radicais, e sei lá que mais, que hoje campeiam na comunicação social que dominam e onde sobrevivem com o beneplácito do poder que também tem como agenda, desde sempre, anular-nos o pensar e a decisão, tornando-nos dependentes e acéfalos, acabaremos mesmo como simples animais de rebanho!
    O que se passará depois... enfim "O último europeu" de Miguel Real, é outro livro que aqui recomendo.
    Está tudo doido? Creio que é pior, está tudo imbecil ou louco, quando não ambos ao mesmo tempo.
    Temos de nos unir e lutar contra isso. Pelo nosso direito a existirmos, existirmas ou existirmes!

    Saudações igualitárias cá do Bairro Ribatejano!

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  4. Mas seria apenas uma homenagem ao Gen. Eanes...

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  5. Recordo-me, ainda na escola primária, como se chamava na altura, da senhora professora personificar as letras – as vogais, neste caso – e com pequenas narrativas memoráveis, incutir as regras da gramática aos seus pouco aplicados alunos. Num desses relatos, as letras eram divididas em função do seu comportamento: tínhamos as mais encantadoras, o “E” e o “I”, e as mais atrevidas, que iam roubar o pomar da pobre letra “C” (o “A”, o “O” e o “U”). Ao ver-se privada da sua fruta, doce e suculenta como poucas, o “C” munia-se da sua bengalinha (a cedilha) para dar uma lição aos prevaricadores. Essa é a razão da utilização do “C” cedilhado quando precede alguma dessas três vogais. A partir daí, nunca mais deixou de se fazer acompanhar da sua arma na companhia daqueles pequenos amigos do alheio.
    Não sei a que propósito escolhi esta história, mas parece que para algumas pessoas, a personificação das letras pode ter sido muito mais do que um simples método pedagógico.
    "Gramatiques", é o que é.

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  6. Bom dia. Inclusive atos e beatos. Coisa, outras.

    A Gramática, nossa melhor democracia. Ousado, museu LP está de volta e aquela velha Estação da Luz, eu gosto.


    Cláudia da Silva Tomazi

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  7. No Brasil houve uma Presidente que reivindicou ser Presidenta, desconhecendo que o termo é o particípio presente de um verbo. Presumo que uma amiga sua que fosse nomeada para gerir um banco não aceitasse ser gerenta. Seria um problemo para o jornalisto que desse a notícia.

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    1. António Luiz Pacheco28 de julho de 2021 às 13:07

      A estupidez, não conhece limites... nem de fato, nem de cuecas!

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  8. Gramática versus informática, onde nesta se dá muito pontapé na primeira. Evidentemente, refiro-me mais aos veículos de difusão e não à tecnologia em si. Então, no facebook, até dói a alma!
    Do Brasil nada me espanta! Esperem por novo acordo e irão receber um tratado devidamente assinado e confirmado pela política, onde certamente caberá o "todes".
    Tive um amigo que também se referia às coisas e às situações com o termo criado à sua maneira. Em vez de dizer "gramática", dizia "mobília" - não me entendo com esta "mobília"; é muita "mobília" para a minha carrinha, etc.

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  9. Eu vou mais pelo todos apesar de hoje o politicamente correto incluir o todas. A língua portuguesa falada nas diversas latitudes é muito rica em todos os aspetos. Vou perguntar ao Professor Ivanildo Bechara o que ele pensa do “todes”. Vamos aprendendo!

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