Excerto da Quinzena
Portanto, o mestre disse: «Se dos troncos
colheres um raminho a qualquer planta,
os pensamentos teus se farão broncos.»
Então, junto a um silvado, se adianta
a colher um raminho este meu punho;
e o seu tronco gritou: «Quem me quebranta?»
E feito em sangue escuro testemunho,
recomeçou: «Assim me dilaceras?
Piedade a teu espírito não dá cunho?
Homens fomos e eis-nos silvas meras:
bem deverias ter a mão mais pia,
se em nós almas de serpes supuseras.»
E como em tição verde em que arderia
uma das pontas, já a outra geme
e range pelo vento que assobia,
assim juntos o lenho roto espreme
sangue e palavra; e o ramo então de cima
deixo cair, e quedo tal quem teme.
Dante Alighieri, A Divina Comédia, «Inferno», Canto XIII (versos 28 a 45),
tradução de Vasco Graça Moura, Quetzal Editores
"Quando envergava o fato de ver a Deus, para quem não o conhecesse, metia mesmo respeito. Agora, nos dias de trapio, roto e negro punha medo a um aldeagante. Nisto não degenerara da mãe, que deixara fama de mondongueira e dada a bruxarias. Os garotos, quando ela saía à rua, largavam-lhe na peugada, tocando latas e apupando-a. Ela deitava-lhes maldições que até tremia céu e terra. Para cada um seu flagelo:
ResponderEliminar- Maldito sejas, tinhoso, e que tantos piolhos te cubram como de estrelas tem o céu com a lua nova! Que a sarna, a herpes e o câncero te roam dos pés à cabeça como os cães quando têm fome! Que te dê uma foeira e te derretas pelo ânus como um odre de azeite pelo pernil! Que tenhas tanta fome que comas tua mãe viva e desenterres os ossos de teu pai para os esburgar! Que tenhas uma dor de pedra que te saia o mijo pelos olhos! Que se te tape a tripa e deites pela boca como o câncero quando está cheio! Que morras com os dentes a tocar castanhetas e os Diabos do Inferno dancem ao compasso!"
Aquilino Ribeiro- Terras do Demo
Sempre um prazer ler Aquilino ! Na biografia de Cardoso Pires de Vieira Amaral são narrados vários episódios interessantes do editor Cardoso Pires e da sua encomenda a Aquilino da tradução do D. Quixote e da criação do "Romance de Camilo". Aquilino terá sido um negociador feroz dos seus honorários e ambos não de trato fácil.
EliminarFabuloso, Aquilino... sempre e para sempre!!!!
EliminarGrande Abraço, Artur!
Esse excerto é meu; sou fã incondicional de Aquilino, tenho quase todos os romances e novelas que releio com prazer, e também O Romance de Camilo em 3 volumes, O Homem da Nave, uma maravilha; Abóboras no Telhado, Arcas Encoiradas, O Livro do Menino Deus, etc.
EliminarOs meus favoritos entre os romances são exatamente "As Terras do Demo" e "O Malhadinhas", mas gosto muito dos ensaios biográficos do Aquilino. "O Romance de Camilo", em que só há pouco peguei por sugestão de um Extraordinário e de que ainda só li metade do 1º volume, peca, a meu ver, por ter demasiadas digressões com muitos parágrafos afastados do tema central que deve ser a vida do biografado.
EliminarOiça lá, ó seu anónimo, o excerto pode ser seu, mas o abraço é para o Artur!
EliminarOra querem lá ver, hein!
Ahahah!
Prontos, tá bem, um abraço para si também... a 7.000 Km de distância, acho que é seguro!
Mesmo assim com esses "defeitos" todos adoro a escrita do mestre; já li duas vezes quase seguidas o Romance de Camilo.
EliminarEste anónimo já viveu na cidade morena de 1987 a 1991, conheço bem o Lobito ,a Baía Azul, a Caotinha, a Baía Farta e os seus caranguejos gigantes.
Eliminar"... é por isso que vale a pena escrever livros, para poder conversar à distância com aqueles que amamos e que não são do nosso tempo. Que triste e pobre seria a vida se as nossas afeições estivessem limitadas àqueles com quem nos cruzamos realmente. Que longos nos pesariam os dias se aqueles que morreram antes de nós estivessem mesmo ausentes..."
ResponderEliminarDia de Chuva em Paris de Isabel Rio Novo...
Mais um magnifico livro... e a sorte que eu tenho tido: paulatinamente, têm vindo todos parar à minha mão. E sim, adorei ter acrescentado à minha vivência, mais esta história. De um tempo e de uma corrente artística, para mim, absolutamente fascinantes. Na cidade, que a seguir à minha (Lisboa), é a que eu mais GOSTO!
Boas Leituras para todos!
Celeste Silveira
E com a emoção, enganei-me no titulo do livro. Que é: "Rua de Paris em Dia de Chuva". As minhas desculpas!
EliminarGrande romance essa biografia do pintor Gustave Caillebotte recriada pela Isabel Rio Novo !
EliminarÉ MARAVILHOSO!
EliminarCeleste Silveira
Que bem escolhido, e, bonito excerto nos trás aqui, Celeste!
EliminarVotos de um fim de semana luminoso, caloroso e feliz!
Tudo a correr bem, para si também, Extraordinário António Pacheco. Excelente Fim-de-Semana!
EliminarCeleste Silveira
Ó Celeste, estas suas palavras são lindas:
Eliminar"Que triste e pobre seria a vida se as nossas afeições estivessem limitadas àqueles com quem nos cruzamos realmente. Que longos nos pesariam os dias se aqueles que morreram antes de nós estivessem mesmo ausentes..."
Não são minhas, Extraordinário Seve. São da Autora Isabel Rio Novo. E se não leu, por favor leia o livro. É belíssimo.
EliminarExcelente fim de semana, com optimas leituras!
Celeste Silveira
É sempre um espanto constatar como o Vasco Graça Moura encontrava sempre as palavras certas em português para manter a métrica e a rima da poesia que traduziu. Um dom e não dos mais vulgares.
ResponderEliminarSimultâneamente um erudito e homem de cultura, Vasco Graça Moura, concordo inteiramente consigo, foi dos que melhor souberam usar a nossa língua!
EliminarContra as «canções de opósitos»
ResponderEliminarPassei a vida toda a conciliar contrários.
A pensar: bem e mal não são assim tão diferentes,
sim é muitas vezes não, a amiga inimiga,
o prazer dói tanto que se confunde com a dor,
dias de festa são também dias de fastio.
Passei a vida toda a tiritar em Agosto
e a morrer de sede mesmo à beira da fonte.
Mas isso agora acabou. Não quero que o meu riso
se disfarce de pranto, nem que os meus beijos firam,
nem que a morte me salve, nem que o sol de Verão
seja no fundo sombra e oceano o deserto.
Quero voltar a antes, ao tempo em que as coisas
não eram tão difíceis, e o amor não era ódio,
e a neve era só neve, e paz e guerra
palavras singulares, distintas, inquívocas,
e não a dupla face do mesmo e igual tédio.
Já não quero suar rodeado de pinguins.
Luis Alberto de Cuenca, «A vida em chamas», trad. Miguel Filipe Mochila, ed. Língua Morta
O MEU SONETO DE ARVERS (traição)
ResponderEliminarDe amor guardo um segredo, um mistério na vida,
tão perene é a hora em que nos conhecemos.
Não posso querer mais: o sonho em que lho diga
há-de ser o pior de entre os meus pesadelos.
Estarei sempre só nesta viagem sofrida
porque estar ao seu lado é todo o meu desejo.
E quando enfim chegar o meu último dia
nem saberá que foi demasiado cedo.
É doce o gesto, é terno o olhar que ela oferece
ao longo do caminho... E porém desconhece
o murmúrio de amor que a minha espera traz;
fiel à sua escolha, em seu dever austera,
destes versos dirá, que apenas falam dela:
«Quem é esta mulher?» E não compreenderá.
in https://ocasosluiscaminha.blogspot.com/search?q=arvers
luís caminha in
Eliminarhttps://ocasosluiscaminha.blogspot.com/2012/01/soneto-de-arvers.html
Soneto
ResponderEliminarAcusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.
Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.
Entretanto, deixai que não me cale:
Até que muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.
A minha voz de morte é a voz da luta:
se confia a sua dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.
Carlos de Oliveira de «Mãe Pobre» em «Trabalho Poético» Vol. I, Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa s/d
Abro ao acaso o livro que se abre ao acaso.
ResponderEliminar"Aquela divina e ilustre timidez que é o guarda dos tesouros e dos regalia da alma.
Ah, mas como eu desejaria lançar ao menos numa alma alguma coisa de veneno, de desassossego e de inquietação. Isso consolar-me-ia um pouco da nulidade de ação em que vivo. Perverter seria o fim da minha vida. Mas vibra alguma coisa com as minhas palavras? Ouve-as alguém que não só eu? "
Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, edição da Relógio D'Água
A resposta é, sim, sem dúvida... ainda há quem vibre e as oiça!
EliminarPode por isso ficar consolado o Poeta, lá onde esteja.
Boa escolha Prezada Maria.
Votos de um fim de semana vibrante mas sossegado!
Uma efeméride do dia de hoje, é o falecimento de Vinicius de Morais, no ano de 1980.
ResponderEliminarVem a propósito... este grande Poeta da língua portuguesa, hoje seria certamente alvo de tudo o que é queixa ou acusação, pois foi políticamente do mais incorrecto que jamais existiu, na proporção directa do seu génio, como aliás tantos outros génios e segundo a forma de pensar vigente, em que mais do que nunca todos temos de encaixar como peças de lego, naquilo que se define como correcto, sob pena de haver uma qualquer Fernanda Câncio a apontar-nos o dedo e a denunciar, nas páginas de algum pasquim onde lhe deixem pespegar toda a sua azia maldizente.
Creio que nunca como hoje houve gente mal com o Mundo e consigo mesmo, travestida de santo, julgando-se impoluta, virginal e o cúmulo da virtude seja ela cultural, democrática ou filosófica. Faz-me lembrar um dito do meu pai a respeito de certa senhora, que segundo ele, era "tão-tão-tão", que em morrendo ia para badalo de sino!
Pois é, o que há para aí de futuros badalos de sino, creio que sobram até na substituição do carrilhão de Mafra!
Vinícius, era mulherengo, boémio, bebia demasiado, era gordo, desbocado, estava-se nas tintas e dizia e fazia o que lhe apetecesse. Hoje estaria na mira dos cruzados da virtude e do que se definiu como sendo bons-costumes, desde logo ser mulherengo coisa inaceitável num homem, suponho que aceitável numa mulher ou podendo ser-se "homengo" desde que sendo homem e trabalhando nas TV ou entretenimento (os ditos "artistas" ou "celebridades").
Génio? Bom isso não é necessário, basta dizer coisas que soem bem, mesmo sendo grandessíssimas atoardas, celebradas e aplaudidas na proporção da sua enormidade.
Portanto, em honra de todas as mulheres, lembrei-me de aqui postar o imorredoiro poema do Poeta: Garota de Ipanema, a qual existe em todas as praias, incluindo aqui a Praia Morena!
Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça
É ela, menina, que vem e que passa
Num doce balanço, caminho do mar
Moça do corpo dourado, do sol de Ipanema
O seu balançado é mais que um poema
É a coisa mais linda que eu já vi passar
Ah, por que estou tão sozinho?
Ah, por que tudo é tão triste?
Ah, a beleza que existe
A beleza que não é só minha
Que também passa sozinha
Ah, se ela soubesse que quando ela passa
O mundo inteirinho se enche de graça
E fica mais lindo por causa do amor por causa do amor
Tenham um feliz fim de semana, extraordinário, cheio de poesia e do que vos faça felizes!
São os meus votos desde a Cidade Morena, onde há mulheres lindas que passam e nos alegram.
é domingo e o silêncio estende-se pela casa.
ResponderEliminarhá muito que não te escrevo. dizer-te que existes ainda nos corredores, nos espelhos.
começo a esquecer-me da tua voz. oiço-te dentro de mim mas não consigo reproduzir a tua voz.
é tão difícil guardar a memória de uma voz
Al Berto (diários)
"O pai, um dos mais reputados editores franceses, era de opinião que no livro estava o futuro- mais do que nunca e devido à própria crise da cultura. « Mostra-nos a História», dizia ele, « que quanto menos se lê, mais livros se compram ».Desta maneira, jamais lia os manuscritos que lhe submetiam, não se decidia a publicá-los senão garantido pela personalidade do autor ou actualidade do assunto ( neste aspecto, o tema sempre actual, o sexo, acabou por especializar o editor ) e preocupava-se unicamente com obter apresentações interessantes e publicidade gratuita. Jonas auferiu pois, juntamente com a distribuição de leitura, numerosos vagares a que foi necessário dar ocupação. Assim descobriu a pintura."
ResponderEliminarAlbert Camus , «Jonas» in «o exílio e o reino»-, edição « livros do Brasil », colecção miniatura
David
Boa tarde!
ResponderEliminarAinda relacionado com o post de ontem, o meu excerto de hoje é do livro " O vício dos livros" do Afonso Cruz numa edição da Companhia dos livros.
"Como encontrar felicidade nos livros que não lemos."
Por vezes os livros que não são lidos podem assumir um ar acusador. Muitos leitores sentem alguma culpa quando olham para pilhas de livros por ler. No meu caso, considero estes livros uma possibilidade de ser livre: não tenho apenas um livro para ler, tenho muitos, e isso permite-me escolher o próximo (dentro de um espectro variado de possibilidades).
No fundo, concordo com Jules Renard quando escreveu em Notas sobre El ofício de escribir.
" Quando penso em todos os livros que tenho para ler, tenho a certeza de ainda ser feliz"
Este ainda vai sendo o meu caso.
Para terminar e quanto aos livros que ás vezes queremos dar sugiro duas alternativas.
A primeira é oferecer os livros à Livraria DÉ JÀ LU em Cascais. Auxilia a Assoc. Port. de Portadores de Trissomia 21. Já para lá levei muitos livros que as bibliotecas aqui da margem sul não quiseram.
Outra alternativa e esta com um leque muito maior de aceitações é a EPHEMERA - Biblioteca e Arquivo de José Pacheco Pereira. Desde livros, medalhas, pins, mapas, BD, aceita tudo.
Pronto. E por hoje é tudo. Vou ler mais um livro para continuar a ser feliz.
Com um abraço da margem esquerda do estuário do Tejo.
A. Delfim
- Em nome de Deus, tenho que me divertir!
ResponderEliminarA estas palavras todo o inferno estremeceu; e, ao ruído por ele feito, os guardas das moradas celestes armaram as espingardas.
Balzac - A Comédia do Diabo, na coletânea O Elixir da Longa Vida
Eis um instante para me converter em um pouco de noite
ResponderEliminare absorver-me num fundo fluvial
sem solidão e na plácida e solida solidão de uma montanha
como se fosse um arvore nascida de um relâmpago
Para este espaço o tempo reservou suas abelhas
e com o seu óleo aéreo limpou o rosto dos mortos
e fez-se concavo como um largo ninho aéreo
Continuo a ser um cego na espessa claridade
junto as fronteiras verdes do fogo
ao lume de uma orquídea
que poderia ser de cristal ou de ossos finos
e é um pequeno coração ou uma lua vermelha
sobre esta página de areia onde violas brancas
circundam uma torre de veludo e pedrarias…
António Ramos Rosa