Excerto da Quinzena
O mar do Algarve é feito de cartão como nos cenários de teatro e os ingleses não percebem: estendem conscienciosamente as toalhas na serradura da areia, protegem-se com óculos escuros do sol de papel, passeiam encantados no palco de Albufeira em que funcionários públicos, disfarçados de hippies de carnaval, lhes impingem, acocorados no chão, colares marroquinos fabricados em segredo pela junta de turismo, e acabam por ancorar ao fim da tarde em esplanadas postiças, onde servem bebidas inventadas em copos que não existem, as quais deixam na boca o sabor sem gosto dos uísques fornecidos aos figurantes durante os dramas de televisão. Depois do Alentejo, evaporado na paisagem horizontal como manteiga numa fatia queimada, as chaminés que se diriam construídas de cola e paus de fósforo por asilados habilidosos, e as ondas que se diluem sem ruído na praia no crochet manso da espuma, faziam-no sempre sentir-se como os bonecos de açúcar nos bolos de noiva, habitante espantado de um mundo de trouxas de ovos e de croquetes espetados em palitos, a imitar casas e ruas [...]
António Lobo Antunes, O Conhecimento do Inferno (1980), Publicações Dom Quixote
Que saudades deste estilo cheio de metáforas, imagens, ironias do António Lobo Antunes "barroco" dos seus livros da primeira fase. Agora sua escrita é depurada, no osso e que ele considera de mais elevada qualidade mas que confesso é de acesso difícil para este pobre leitor, incapaz de fruir a alta literatura. E volto sempre com enorme prazer à exuberância estilística de "As Naus", para mim uma obra-prima que imagina de modo genial o refluxo dos heróis da nossa saga marítima durante o pós 25 de abril.
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EliminarAlgures, António Lobo Antunes, deixou escrito que tem uma enorme colecção de silêncios e «a minha família, talvez como todas, não é um conjunto uniforme de pessoas, antes uma soma de solidões unidas por um vínculo, feito de memórias partilhadas e de frases que de tão repetidas, ao longo de anos se tornaram as correntes que nos prendem.»
O António Lobo Antunes que me encantou ficou-se, «As Naus», o resto foram outros livros que tentei ler e não consegui, só passei a entender-me com as crónicas e que, numa decisão incompreensível, deixou de as reunir em livro. Apenas estão publicados cinco volumes, o último publicado em Outubro de 2013, e não mais existirão, pelo menos em vida do autor.
Antes da pandemia, numa qualquer quinta-feira, Num tasco na Rua Angelina Vidal, que a dita pandemia colocou em trespasse, encontrei o Vitorino que ensaia, com a sua banda, por aqueles lados. Perguntei-lhe:
- Então quinta-feira,e não estás a almoçar nos Moinhos da Funcheira com o Zé Ribeiro, o Zé Francisco, o António Lobo Antunes?
-Eh pá!, não. O Lobo Antunes está um chato do caneco!!!
Belo texto ! É por contribuições como esta que vale sempre a pena frequentar este lugar de gostos partilhados.
EliminarSobre o abismo
ResponderEliminarQuando, por já mal me aguentar em pé
e por índole ser cronicamente vacilante,
procurava apoio mas uma estrutura frásica
que eu queria acreditar ser firme e eterna
se me decompôs entre falsos dentes,
deitei a mão àquele galho
que desde os tempos das gravuras de Dürer
se destaca, nodoso, na imagem
enraizado à beira de um abismo,
sobre o qual pendo agora,
esperneando ridiculamente
qual desdentado tolo.
Günter Grass, "Sobre a finitude", tradução de João Bouza da Costa, D. Quixote
“Porque a materialidade da escrita é a escrita. De facto, Santa Teresa escreveu como escreveu porque a mão ficava cansada de tanto meter a pena no tinteiro, daí a sua letra enfastiada e caótica e feroz e com mau feitio. Se tivesse tido uma esferográfica Bic, o seu estilo teria sido outro.
ResponderEliminarDe maneira que as suas visões de Deus foram visões materiais da sua escrita.
Escrever é uma mão que se move sobre um papel, um pergaminho ou um teclado.
Uma mão que se cansa.
Escreve-se uma coisa ou outra conforme o papel, a mão, a esferográfica, a pena ou o computador ou a máquina de escrever. Porque a literatura é matéria, como tudo. A literatura são palavras gravadas num papel. É esforço físico. É suor. Não é espírito. Já basta de menosprezar a matéria.
Moisés escreveu dez mandamentos porque se cansou de cinzelar a pedra. Estava a suar, estava esgotado. Poderiam ter sido quinze, ou vinte e cinco, e se foram dez tal deveu-se às laboriosas e pesadas condições materiais da escrita sobre a pedra. Toda a história ocidental frequenta o idealismo, ninguém parou para olhar as coisas de outra maneira, especialmente da maneira mais simples, a que se lembra da matéria, e das vãs realidades”
Manuel Vilas, “Em tudo havia Beleza - Ordesa”, trad. De Vasco Gato.
Filipa CR
Que livro!
Eliminar«A mim sempre me impressionou esta história dos quadros. Estão ali em cima durante anos, depois sem que aconteça nada, mas nada digo, trás, chão com eles, caem. Estão ali agarrados ao prego, ninguém lhes faz nada, mas eles a certa altura, trás, caem ao chão, que nem pedras. No silêncio mais absoluto, com tudo imóvel em redor, nem uma mosca a voar, e eles, trás. Não há nenhuma razão. Porquê logo nesse mesmo instante? Não se sabe. Trás. O que acontece a um prego para o fazer decidir que já não aguenta mais? Terá também uma alma, o pobre coitado? Toma decisões? Discutiu longamente o assunto com o quadro, estavam incertos quanto ao que havia a fazer, falavam disso todas as noites, desde há anos, e depois decidiram uma data, uma hora, um minuto, um segundo, é este, trás. Ou já o sabiam desde o princípio, os dois, estava já tudo combinado, olha eu largo tudo daqui a sete anos, por mim está bem, ok, então ficamos entendidos para o dia 13 de Maio, Ok, pelas seis, digamos seis menos um quarto, de acordo, então boa noite, b' noite. Sete anos depois, a 13 de Maio, seis menos um quarto: trás. Não se percebe. E uma daquelas coisas que é melhor não pensar nisso, senão fica-se maluco. Quando cai um quadro. Quando acordas uma manhã, e já não a amas. Quando abres o jornal e lês que rebentou a guerra. Quando vês um comboio e pensas tenho de me ir embora daqui. Quando te olhas ao espelho e reparas que estás velho. Quando, no meio do Oceano, Novecentos levantou os olhos do prato e me disse: — Em Nova Iorque, daqui a três dias, vou sair deste navio.»
ResponderEliminarAlessandro Baricco, «Novecentos», trad. José Colaço Barreiros, ed. Difel
"Quem me dera que o meu pai, ou a minha mãe, ou ambos, para dizer a verdade, uma vez que ambos estavam de serviço na ocasião, tivessem prestado mais atenção ao que estavam a fazer quando me conceberam; tivessem eles tomado em devida conta o quanto eu dependia daquilo que eles estavam a fazer;--- já que não estava em causa apenas a produção de um Ser racional, mas possivelmente a boa formação e temperatura do seu corpo, talvez até o seu génio e a qualidade do seu espírito;--- e, apesar do que pudessem pensar em contrário, mesmo a fortuna da sua casa podia ser determinada pelos humores e disposições que fossem então dominantes:------ Tivessem eles tomado tudo em devida conta e procedido em conformidade,------ estou verdadeiramente convencido que eu teria feito outra figura no mundo, muito diferente daquela em que o leitor provavelmente me há-de ver.--- Podeis acreditar, boas almas, que isto não é uma coisa assim tão insignificante como muitos de vós podereis pensar;--- já todos vós, atrevo-me a dizê-lo, tereis ouvido falar dos espíritos vitais, de como eles se transfusionam de pai para filho, etc. etc. e de muitas coisas desse teor:--- Pois bem, podeis crer na minha palavra, nove em cada dez partes do senso ou da sandice de um homem, dos seus sucessos e fracassos neste mundo, dependem dos movimentos e actividade daqueles espíritos, e dos diferentes trajectos e calhas que tomam, de tal modo que uma vez postos em marcha, bem ou mal, não é assunto de meia tigela --- ei-los que se lançam com estardalhaço num corropio imparável; e ao pisarem e repisarem sempre os mesmos passos, acabam por fazer deles uma estrada, tão plana e direita como um caminho da horta, do qual uma vez que a ela se hajam acostumado, nem o próprio Diabo por vezes os consegue afastar. Dizei-me cá, meu amor, disse a minha mãe, não vos esquecestes por acaso de dar corda ao relógio?------- Valha-me D-------! Gritou o meu pai, lançando uma interjeição, mas tendo o cuidado de moderar a voz ao mesmo tempo,----- Onde é que alguma mulher, desde a criação do mundo, interrompeu um homem com pergunta tão disparatada? Perdão, o que estava o vosso pai a dizer?--- Nada".
ResponderEliminarLaurence Sterne "A Vida e Opiniões de Tristram Shandy"
ResponderEliminarAlgures, António Lobo Antunes, deixou escrito que tem uma enorme colecção de silêncios e «a minha família, talvez como todas, não é um conjunto uniforme de pessoas, antes uma soma de solidões unidas por um vínculo, feito de memórias partilhadas e de frases que de tão repetidas, ao longo de anos se tornaram as correntes que nos prendem.»
O António Lobo Antunes que me encantou ficou-se, «As Naus», o resto foram outros livros que tentei ler e não consegui, só passei a entender-me com as crónicas e que, numa decisão incompreensível, deixou de as reunir em livro. Apenas estão publicados cinco volumes, o último publicado em Outubro de 2013, e não mais existirão, pelo menos em vida do autor.
Antes da pandemia, numa qualquer quinta-feira, Num tasco na Rua Angelina Vidal, que a dita pandemia colocou em trespasse, encontrei o Vitorino que ensaia, com a sua banda, por aqueles lados. Perguntei-lhe:
- Então quinta-feira,e não estás a almoçar nos Moinhos da Funcheira com o Zé Ribeiro, o Zé Francisco, o António Lobo Antunes?
-Eh pá!, não. O Lobo Antunes está um chato do caneco!!!
"... Contei já como e porquê me chamo Saramago: que Saramago não era apelido de família, mas sim alcunha: que indo o meu pai a declarar no registo civil o nascimento do filho, aconteceu que o empregado (Chamava-se ele Silvino) estava bêbado; que, por sua própria iniciativa, e sem que o meu pai se apercebesse da fraude, acrescentou Saramago ao simples nome que eu devia levar, que era José de Sousa; que, por essa maneira, graças a um desígnio dos fados, se preparou o nome com que assino os meus livros. Sorte minha, e grande sorte, foi não ter eu nascido em qualquer das famílias de Azinhaga que, naquele tempo e por muitos anos mais, ostentavam as arrasadoras e obscenas alcunhas de Pichatada, Curroto e Caralhana..."
ResponderEliminarCadernos de Lanzatote (I), de José Saramago.
Às vezes avizinha-se a desgraça, parece que tudo vai correr mal, (até pensamos no tal do Murphy), mas depois, por artes desconhecidas, o pior afinal não acontece. Serão desígnios divinos? Não sei. Mas todos os dias dou graças por ter havido, e continuar a haver, Escritores assim. Que, no caso concreto, apesar de já não estar entre nós... é indiscutivelmente, Eterno.
Boas leituras a todos. E um Excelentíssimo Fim de semana.
Celeste Silveira
Gostaria de acrescentar algo que se me oferece sobre Antonio Lobo Antunes.
ResponderEliminarQuando comecei a lê-lo (nos idos dos 80s)revelou-se-me difícil,nao propriamente intuitivo,mas certamente diferente,profundo,com uma escrita sui generis.O seu modo de escrever fazia entrever o psiquiatra,as suas observações do dia-a-dia não poderiam ser feitas por qualquer um,vinham de dentro,tanto do personagem como do autor.Depois de se penetrar nele,o que podia demorar mais ou menos,exercia um efeito encantatório,"obrigava-nos" a ler mais e mais livros a procura daquelas descrições embrulhadas entre passado e presente,e depois ainda mais passado e mais presente.
Não me lembro de tudo quanto li,mas recordo todos os da 1ª fase(Memoria de elefante,Os cus de Judas,A morte de Carlos Gardel,O esplendor de Portugal,Exortaçao aos crocodilos e outros).
Depois passei a fase seguinte-achei que com variações de historias e de situações, os temas eram sempre os mesmos-a "pirosice" do povo português,a vida sem esperança e sem horizontes,a guerra colonial,a impotência masculina,as famílias portuguesas,enfim,pouco havia de novo.Tambem mudou a forma de escrever,perdeu fulgor,originalidade,deixou de me encantar.Li "A ultima porta antes da noite" e não me levou a lado nenhum.
Continuo a guardar ótimas recordações dos seus livros,mas agora basta.
«Se com a idade a gente dá para repetir casos antigos, palavra por palavra, não é por cansaço de alma, é por esmero. É para si próprio que um velho repete sempre a mesma história, como se assim tirasse cópias dela, para a hipótese de a história se extraviar.» [Chico Buarque, Leite Derramado, 2009, D. Quixote]
ResponderEliminarA minha impressão em:
http://ocasosluiscaminha.blogspot.com/search/label/em%20tr%C3%AAs%20par%C3%A1grafos
Melhor:
Eliminara minha impressão em
http://ocasosluiscaminha.blogspot.com/2020/11/descendente-de-barao.html
«A madrugada estava fria e eu só levava em cima do corpo a camisa e as calças. Ia descalço, porque só em homem a gente experimenta botas ou sapatos. E se não fosse a vergonha de sermos tomados por pedintes, nem nessa altura se aguentavam. Uma vez uma senhora perguntou-me se era bom andar descalço. Não lhe respondi, mas deu-me vontade de pegar numa pedra e abrir-lhe a cabeça. Se ela soubesse o que isso é, não seria capaz de me falar assim...»
ResponderEliminar("Fanga", Alves Redol)
Os afetos são flutuantes, porque irresponsáveis. Deslizam à flor da corrente, ao sabor da baralhada amálgama do desejo.
ResponderEliminarArmando Silva Carvalho - O Livro do Meio (do Meio porque foi escrito a meias com Maria Velho da Costa)