Escrita Criativa
A primeira vez que ouvi falar de escrita criativa, por oposição a escrita informativa, foi a respeito da formação universitária do escritor Ian McEwan, que publiquei ao longo dos meus primeiros nove anos de carreira editorial. A biografia deste autor disponibilizada pela agente literária que o representava dizia expressamente que ele estudara Creative Writing na Universidade de East Anglia, uma instituição que se tornou aliás uma referência por ter deitado cá para fora muitos escritores e dos bons. Em geral, os cursos de Escrita Criativa em Portugal não estão ligados à Academia e a sua qualidade depende muito de quem os ministra e da experiência quer do orientador, quer dos frequentadores (que às vezes são meros curiosos que querem escrever um livro para oferecer a amigos). Agora, porém, a Universidade de Coimbra abriu um mestrado em Escrita Criativa orientado pelo Professor Manuel Portela e dizem-me que até o programa desse curso é já um livro. Parece-me coisa séria e divulgável, sobretudo porque pode andar para aí muita gente a hesitar no que estudar a seguir e as inscrições terminam já no dia 23 de Julho. Mais informações aqui:
https://apps.uc.pt/courses/PT/course/9202

Não devia o ensino de Escrita Criativa ser feito por um escritor consagrado, ou seja por alguém que já demonstrou ser praticante da Arte?
ResponderEliminarCurso presencial em Coimbra-so para quem pode.
ResponderEliminarSe souber de mais iniciativas deste género noutros locais,nao se esqueça de divulgar.
Lá terei de ir contra-corrente da opinião veiculada. Para não ser acusado de acidez estomacal, algo que verdadeiramente não padeço já que o meu problema é menos do foro do coração e da paixão e mais da “razão”, veiculo não a minha opinião, comum a muitos autores sobre o “desconseguimento” deste infeliz termo “escrita criativa”, mas a de José Manuel Cortês — peço imensa desculpa mas os Académicos, aqueles que pensam fora da paixão, fazem falta a este país, precisando nós da Academia como "pão para a boca", de modo a afastar o “achismo” e a “opinião” e o sequestro muitas vezes medíocre de um “mercado editorial”, cada vez menos literatura, cada vez mais mercado, cada vez mais sustento-apropriação do gosto e cânone literário — «Faz falta a diversidade, pá!», diria, até, um nosso “amigo” demasiado assertivo e criativo).
ResponderEliminarDiz Cortês — ainda sob um tema infelizmente muito na ordem do dia, reflectindo a imensidade de manifestações recebidas de muitos escritores nesse sentido, como plasmado também em obras-manuais de autores como o João Tordo sobre a “Sobrevivência dos Escritores” — e outros: «É de todo impensável, como sucede sistematicamente com a primeira opção editorial, a existência de um universo literário sem que os criadores recebam uma remuneração digna pelo seu trabalho; mas também parece acentuadamente contraproducente que a produção literária esteja inteiramente sujeita às leis do mercado, dado que esta situação, como já se referiu, asfixiará a sua dimensão de confronto com os valores estéticos e éticos dominantes, como está a suceder com a segunda (…) pode dizer-se que a acentuada bipolaridade em que se encontra actualmente a criação literária, com as suas inevitáveis consequências editoriais e comerciais, está a provocar uma gradual asfixia ao universo literário e o seu empobrecimento (…) ficando-se com a ideia de que os seus distintos objectivos estéticos, literários e sociais se tornaram, pelos piores motivos, promíscuos, e generalizando-se a sensação de que a literatura se transformou numa manifestação artística informe, destinada a um grupo social diminuto e, por isso mesmo, cada vez mais anacrónica.»
Neste blogue que esperamos — todos os que gostam de literatura, seja na sua roupagem de autores ou de leitores — seja mais do que uma “montra” de obras voltadas ao mercado, onde se possa acentuar a pluralidade, “dirimir” diferenças, perceber o "Estado da Arte", ir além das simples menções enunciativas e informativas, aduziria ter recebido manifestações unânimes da infelicidade deste termo. Para muitos sendo bem mais apropriado, menos enganoso — «mas alguma vez a criatividade se ensina?!» — se falasse em “Técnica(s) literária(s)”, fossem elas de romance, conto, dramaturgia ou poesia; ou, em alternativa, “Aprendizagem da Escrita”.
De outro modo lá está o mercado, sempre o mercado, a apropriar-se e a sequestrar a escrita como domínio, arte, diversidade, através do engano e do absoluto, arrasando a “condição humana” mais importante, a relatividade de todos os seres e coisas.
Excelentes reflexões, como sempre. E a apresentação de uma mais do que pertinente proposta: a de mudar o título do curso de "Escrita Criativa" para "Técnicas Literárias", tema este que pode ser ensinado com eficácia por estudiosos da Literatura, académicos ou outros, que não sejam escritores consagrados.
EliminarFaria todo o sentido, Artur. Mas até a academia (em minúsculas) já está "ensombrada" pelo mal do vil metal.
EliminarRessalvando: (...) não padeço, já que o meu problema; e, (...) precisando nós da Academia como de "pão para a boca".
EliminarA expressão está consagrada desde os anos 1980 e não tem nadinha que ver com o mercado, o vil metal e essas coisas todas que na altura não eram nada parecidas com as de hoje.
EliminarUma infelicidade terminológica, então, Maria do Rosário, com o selo desse terrível ano de 1980, que teve como primeiro dia um violento sismo abalando e resultando em muitos mortos e feridos, três ilhas Açorianas. E, no entanto, o mundo "pula e avança"; ou, como diria Galileu Galilei: "eppur si muove".
EliminarEm 1995, tive o bloqueio da "primeira obra" (depois de ter escrito o primeiro romance, que estava sem futuro...) e não conseguia escrever, nada de nada.
ResponderEliminarFoi por isso que me inscrevi num curso de "escrita criativa" (tinha outro nome...) organizado pelo Centro Nacional de Cultura. A responsável era a professora e poetisa, Cecília Barreira, que estava ali apenas para ganhar uns tostões, ou seja, não aprendi nada com ela, de escrita nem de crtiatividade. Aprendi mais com os meus companheiros de aventura, que quase que a obrigavam a "fazer o pino" (entre eles estavam os hoje conhecidos escritores, Gonçalo M. Tavares e José Luís Peixoto), porque percebia-se que ela estava para tudo menos para ensinar o que quer que seja. Limitava-se a dar um tema e nós escrevíamos um texto em casa e depois na aula seguinte liam-se alguns textos (poucos e sempre dos mesmos, o que fez com que o Gonçalo um dia "fosse aos arames" - com toda a razão - e questionasse qual era o critério de escolha dos textos discutidos na aula...
Além de ter gasto uns tostões e de ter conhecido algumas pessoas porreiras, não aprendi nada sobre "escrita criativa".
Percebo a existência destes cursos, até porque alguns escritores precisem de ganhar dinheiro para a bica e os cigarros, mas dai a criar um mestrado de escrita criativa... Vai uma grande diferença.
Claro que ainda há mestrados mais absurdos... que só se percebem porque as universidades tem de se autofinanciar com o dinheiro dos mestrados e doutoramentos...
(o comentário foi meu...)
EliminarExactamente, Luís. A Cecília devia ter bem a noção da "inanidade" da terminologia cursiva "que foi obrigada a dar". Felizmente dedica-se literariamente - cada vez mais - à escrita intensiva de pequenos contos, esse um verdadeiro e empenhado exercício de escrita criativa (que não se ensina e procrastina). Nota interessante é a da presença do grande Gonçalo Tavares - da soberba "Viagem à Índia" -, e do Peixoto. O primeiro dos quais arvorando de forma superlativa uma criatividade totalmente "fora dos limites" - como verifico pelo último que estou a ler dele, "O Diário da Peste".
EliminarFelicito a iniciativa. Os argumentos de televisão nacional precisam urgentemente de actualizar e ter outros intérpretes a desenvolve-los. Acompanho a actividade literária há 10 anos atrás e este tema era lançado com receio nas revistas e jornais. Liam-se toda a espécie de opiniões, como geralmente, contrárias ao progresso... Acho que a escrita como qualquer área (artística) requer muitas horas de prática (e de leitura) e não será seguramente um curso que garante melhores colheitas literárias, mas espera-se que seja um contributo.
ResponderEliminarEm relação ao comentário que as universidades têm de criar cursos para se financiar... As universidades devem criar cursos consoante as necessidades do mercado de trabalho, de emprego, e com o objectivo de gerar progresso ao país. Não devem ser passatempo. As universidades públicas são sustentadas por todos os contribuintes. As privadas o estado português devia realizar auditorias à empregabilidade gerada pelos seus cursos, em Portugal (e eventualmente no estrangeiro), e ajuizar a sua permanência de acordo com a análise...
Finalmente !!!!!!! Pois cada vez mais aparecem professores de escrita criativa e outros temas afins.
ResponderEliminarNo Instagram, no Twitter, no Face Book.
Bem haja.
José Calixto