Doações
Muitas vezes falamos aqui no blogue (e uso o plural não de forma majestática mas porque muitos dos que aqui vêm também comentam) sobre o que vai acontecer às nossas bibliotecas no futuro, quando morrermos, sobretudo nos casos em que a geração seguinte não é leitora e não aprecia sequer o livro como objecto. Eu, que nem filhos pari, tenho a suspeita de que, se não oferecer os meus livros ainda em vida a quem goste de ler em papel, eles serão provavelmente vendidos a peso ou entregues para reciclagem por quem cá fique. Um escritor que conheço fez há pouco tempo uma coisa bonita: começou a esvaziar as suas prateleiras e a dá-las aos jovens investigadores que estudam a sua obra nas universidades e não teriam de outro modo possibilidade de adquirir todos esses volumes. Outros autores vendem-nos por junto a um alfarrabista e deixam o que a venda rende na conta bancária, assumindo que aos herdeiros faz mais falta o dinheiro do que a «papelada». António Lobo Antunes, que tem três filhas, decidiu recentemente doar o seu espólio à Câmara de Lisboa, que o instalará em Benfica numa nova biblioteca com o nome do escritor. Além de cerca de 20 000 livros, muitos deles dedicados por confrades portugueses e estrangeiros, e das primeiras edições da sua própria obra, haverá medalhas, certificados de prémios e manuscritos, bem como, por certo, estudos de outros autores sobre a obra lobo-antuniana. A partir de 2022 já poderá ser visitada a nova biblioteca. Em casa de Lobo Antunes, ficarão muitas paredes vazias...
💚
ResponderEliminarCara Maria do Rosário Pedreira, Extraordinários
ResponderEliminarNão soframos por antecipação.
Posso desde já fornecer os meus contactos e aliviar um pouco dessa sua angústia, prometendo que tratarei religiosamente os volumes que por bem entender aligeirar das suas estantes.
Confio no seu faro e gosto literário, que já me levaram a ler obras, e conhecer personagens, que de outro modo seriam por mim desconhecidas. Exemplo disso, o galego Benito Prada.
Pense com carinho nesta minha desinteressada e sincera sugestão
Saúde e Boas Leituras
cp
Não há quem queira livros de bibliotecas de anónimos. Os nossos livros acompanharão a incineração do nosso corpo. Quem tiver lareira ainda o poderá fazer com estilo, como o detective barcelonês Pepe Carvalho. É que mesmo aqueles que fantasiam distribuir os seus livros em vida poderão ter a sorte de uma morte tão rápida como a do criador do Benito Prada.
EliminarQue angústia pensar em ficar com as paredes vazias de livros...
ResponderEliminarPenso muitas vezes nisso!
Não apenas em relação à "minha biblioteca" (entre parântesis pois parte dela vem de minha
mãe e avô, logo não é só minha), mas porque sendo eu um ajuntador militante, tenho muitas colecções arrebanhadas nas minhas andanças, que vão das pedra às conchas, passando por arte africana, loiças, e muitos objectos curiosos ou temáticos, navalhas, facas e armas... um espólio que é fácil distribuir por clubes, federações, amigos e família pois são ou têm história e até fazem parte da história.
Voltando aos livros, em que incluo uma imensa colecção de banda desenhada (Disney sobretudo, Mundo de Aventuras e o Tintin edição da revista portuguesa, completa), muitas revistas e publicações, desde Selecções do Reader's Digest, à Gazeta das Aldeias, Almanaque Bertrand, Science & Vie, revistas femininas, passando pelas colecções completas do Mundo Náutico, Mundo Submerso, Calibre 12, e outras estrangeiras, temáticas. Tudo isto enche estantes, armários, prateleiras e ocupa muitos metros de parede, espalhada por várias divisões ou corredores..
Os livros são cerca de 5.000, haverá entre eles algumas preciosidades pelo meio dos manuais da Escola de Guerra (era a Academia Militar) de meu avô e pai, ou os livros de direito do meu outro avô, edições centenárias de alguns livros, porém a grande maioria são mesmo romances em edições dos anos 20/30 até ao presente, e, muita genéricamente designada "enciclopédia" ou livros sobre temas História, Natureza, Geografia, Viagens, Antropologia, aos quais dei grande incremento eu mesmo. Fora os muitos livros sobre temas cinegéticos e haliêuticos.
Separando por temas, será interessante para algumas bibliotecas de agremiações, clubes, ou mesmo camarária, universitária.
Os romances, que são a parte mais significativa com 3000 e tal volumes, logo se verá. Não me parece que dos meus vá haver quem queira aquilo tudo! É um problema que fica...
Como muita gente sabe o quanto gosto de livros, já tive algumas ofertas de bibliotecas ou "caixotes de livros", por falecimento ou até por mudança de casa. Aceito tudo! Faço a minha escolha e depois costumo oferecer o que sobra aos lares, centro de dia ou outras entidades. Nunca tive necessidade de acender o lume com nenhuns livros, felizmente.
Mas penso no que deixo, sim, são coisas de que gosto, fazem parte do meu Mundinho e de mim mesmo, serão uma parte de mim que fica pois expressam algo, tiveram significado e história, estiveram de algum modo ligados a algo que fiz, onde fui ou vi, provocaram uma qualquer sensação que me levou a reparar, querer manter, trazer, guardar, comprar.
Saudações cá da Cidade Morena que também tem sido a origem de muita coisa que guardo físicamente, não apenas na memória ou no coração.
Este post é dos mais tristes que li aqui. Se nem as 3 filhas do Lobo Antunes querem ficar com a sua colecção de livros, quem irá ler os livros que vão sendo doados a bibliotecas ou entregues, em caixotes, a quem os recolhe com gosto mas depois não tem a quem os passar? Eu própria também tenho uma divisão cheia de livros, e os meus 2 filhos guardam os mais “juvenis” nos seus quartos, mas estão sempre a pedir-me para os retirar de lá, que precisam de espaço. E não lêem praticamente nada, apesar de eu sempre os ter incentivado, e de ter lido horas a fio para eles quando eram pequenos (e como gostavam disso na altura). Continuo a ler imenso, a participar em tertúlias e clubes de leitura e sempre a incentivá-los, e ainda não perdi a esperança - mas é cada vez mais vã.
ResponderEliminarHá nichos, claro. Gente jovem que lê. Mas a literatura tenderá claramente a ser lida por um nicho, como outras formas de cultura são apreciadas cada vez mais por nichos cada vez mais pequenos. E isso é tão triste. Porque a cultura é essencial à compreensão da vida, logo à vida, e é na literatura que se aprende tanto, mas tanto, que não se encontra em mais lado nenhum. Esta juventude que não lê, não sabe o que perde; e nós, que lemos, ficamos sem perceber para onde irá o mundo, sem livros. Talvez seja melhor nem querer saber. Eles lá se orientarão, nada é imutável, e a liberdade também é isso: deixar os outros fazerem as suas escolhas, mesmo que fiquemos com o coração apertado.
Filipa CR
Sempre se poderão ofertar livros aos Estabelecimentos Prisionais e aos Centros Educativos para que o gosto pela leitura, se fomentado como algo de lúdico-cultural e terapia ocupacional , se reflicta naturalmente na sua reinserção social.
ResponderEliminarQuanto a livros infantis, suspeito que a Casa das Crianças cujas mães estão reclusas no EP de Tires agradeceria e os pequenitos vibrariam.
Comungo da opinião da Filipa CR: "Este post é dos mais tristes que li aqui. "
ResponderEliminarEsta leitura reabriu em mim a angústia latente no post e nos comentários, pois reabre a dúvida sobre o futuro do espólio livro. Procuro soluções, uma vez que tenho mais de 6.000 obras de todos os géneros, incluindo muito dele em Banda Desenhada. Para mais, uma fatia considerável desse espólio está autografado, a mim dedicado.
A MRP abriu a angústia, repito, mas é necessário falar sobre o assunto. Ninguém levará os livros consigo.
Não acho o texto triste. Acho-o real.
ResponderEliminarEu por exemplo, sei que os livros a mais que tenho espalhados pela casa, são um estorvo para a minha companheira e para os meus dois filhos, que não precisam de pouco mais que meia-dúzia de livros para a sua biblioteca pessoal...
E já tenho muitos encaixotados na garagem. Gostava também de ser eu a oferecer-lhe um futuro, mas...
Por ser real, como bem salienta o Luís Eme, é que é triste!
ResponderEliminarÉ tão triste como quando entro numa casa e não vejo um livro (é das primeiras coisas que tento visualizar).
E não tenho dúvidas que leitores de livros (em papel) serão cada vez mais raros -a Internet mudou o mundo e criou uma nova era na humanidade, onde os livros não têem lugar-!
Que serão dos meus livros se na família, praticamente sou apenas eu que gosto de livros, que os livros são uma parte de mim.
Atrevo-me a dizer que 96% dos jovens, com menos de 30 anos, não têem o mínimo interesse por livros e que 97% da população portuguesa não lê sequer um livro por ano, ou estarei completamente equivocado?
Eu ainda tenho a esperança de que a literatura em papel volte a ser recordada e apreciada, particularmente pelos mais jovens. Pode ser uma extravagância inocente minha, visto ser ainda jovem, e pertencente à escassa percentagem que atribui à literatura um valor elevado.
ResponderEliminarAinda assim, reconheço também, e particularmente nos mais novos, uma tendência crescente, e não insignificante, à adoção de comportamentos e desejos pelo que é mais sustentável, duradouro, e menos deturpado. Estou certa de que acabarão os livros em papel, e bem (ainda que prefira o formato físico, e resista ao digital). Mas acredito que por de trás desta aparente elevação espiritual e comportamental dos mais novos perante a desgraça que é o mundo atual - superficial, consumista e insaciável - ressurja também o amor à literatura, e aos prazeres simples da vida.
Se estiver a sonhar demasiado alto, que seja. Já dizia Proust que "Se sonhar um pouco é perigoso, a solução não é sonhar menos - é sonhar mais"!
Tenho uma boa amiga açoriana que me diz: "Celeste só existem duas coisas que levamos connosco: os livros que lemos e as viagens que fazemos." E é a mais pura verdade.
ResponderEliminarEu também me angustia saber do que acontecerá à minha biblioteca após o "desencarne", E todos os meus papeis escritos, que não devem interessar a ninguém mas que me interessam a mim... costumo dizer, que se o Altíssimo; ou alguém por ele, me informasse que eu podia levar uma coisa comigo, eu levaria tudo aquilo que escrevi sobre os livros. Numa grande caixa :-) Porque depois, gosto de alimentar-me na tal fantasia do Borges... que concebia o Paraíso como uma imensa Biblioteca.
Mas depois penso, o que me poderá interessar o destino das "minhas" coisas se eu já não andar por cá? E por isso vou vivendo na companhia dos meu ricos livrinhos: "comprados e emprestados, emprestadados". Lendo sempre o máximo que posso. Tentando que outros também leiam. Esforçando-me ao máximo para adquirir aquele livro, que aquele leitor (que resiste às modas e aos reality shows em catadupa) tanto queria ler... e depois, como ninguém controla nem determina o que virá, é continuar o percurso. Que sera, sera!
Boas leituras para todos!
Celeste Silveira
Eu já ofereci livros a uma biblioteca de uma Universidade Sénior e tenciono oferecer mais à Biblioteca da Casa da Cultura da minha terra natal na Beira Alta; tenho de arranjar espaço para os novos que vão chegando e os que ainda tenho estão espalhados por três locais: Lisboa, Ribatejo e Beira Alta.
ResponderEliminarNão penso que os livros alguma vez desapareçam, nem tão pouco leitores que preferem o papel.
ResponderEliminarQuanto às nossas bibliotecas, podemos dá-las em vida ou deixar que alguém se encarregue delas quando já cá não andarmos. Podemos escolher enquanto estamos vivos: escolher ler ou não, escolher dar ou vender. Ou escolher não pensar em nada disso.
É frequente desejarmos que os outros gostem do que acumulámos ao longo da nossa vida, livros, coleções, jóias (sobretudo se falamos dos nossos filhos) mas isso nem sempre acontece.
💚
T. Biu
Muito oportuno o texto. A minha família acabou de doar à Câmara Municipal de Mogadouro e à Biblioteca Municipal Trindade Coelho todo o espólio da minha irmã. Não há melhor sítio para preservar a memória e os livros que uma biblioteca.
ResponderEliminarÉ uma reflexão pertinente…a mim, também me assiste esta angústia - que farão com estes livros lidos, sublinhados, por ler…. que me acompanharam por onde andei?! A mim fazem-me falta “como pão para a boca”, mas aos meus descendentes, tão cosidos às novas tecnologias, ….doar será uma boa solução.
ResponderEliminarLuísa
Não há nenhuma boa razão para os mais jovens não serem bons ou grandes leitores. Mas é absolutamente essencialmente que os mais velhos se dêem ao trabalho, regular e intensamente, de lhes transmitir o "habitus". Habituem-nos a "ler" livros todos os dias mesmo antes de aprenderem a ler, construam-lhes uma biblioteca pessoal variada (romances, BDs, natureza, História) fazendo-os conhecer passo a passo o melhor da cultura humana (e.g. existem milhentos livros sobre mitologia grega adaptados a crianças a partir dos 5-6 anos, eles podem ir lendo e relendo os mitos em versões mais complexas à medida que crescem), introduzam frequentement esses temas nas conversas à "mesa do jantar", frequentem regularmente (várias vezes por mês) a biblioteca/mediateca, leiam-lhes todas as noites (365 dias por ano) antes de deitar, abdiquem da televisão em proveito de uma videoteca (cinema, desenhos animados) construída por DVDs ou BluRays ou coisas escolhidas criteriosamente entre o que existe de borla na internet (não escolher pacotes pré-mastigados do cabo), não lhes dêem écrans para a mão antes vá dos 12 anos, habituem-nos à ideia de que o computador é essencialmente um instrumento de trabalho, de colecta de informação (jornais, enciclopédia, mapas, dicionários) e de apoio para as actividades "reais" (artísticas ou científicas). Sejam o primeiro exemplo destes preceitos. Acredito que esta é uma parte essencial da formação de homens livres. É muito gratificante e aprendemos tanto quanto eles enquanto os ensinamos, acreditem. Nunca tanta gente teve tantos instrumentos à disposição, com excepção em muitos casos do tempo livre. Nesse caso, é preciso fazer das tripas coração.
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