Medo do escuro?

É verdade que a escuridão pode ser um bicho de sete cabeças e que a noite é uma inimiga da calma e da ponderação, sobretudo se estivermos num ambiente desconhecido. O que frequentemente ganha proporções disparatadas num quarto escuro de uma casa isolada (um estalo de um móvel, um ladrar de um cão, um zumbido de um mosquito...) de manhã já não tem qualquer significado e até nos faz rir. Mas não ver (é isso o problema do escuro) assusta desde a mais tenra idade. E é sobre isto que fala o mais recente livro infantil de David Machado, Viagem ao Centro do Escuro, que conta com ilustrações (escuras, claro!) da talentosa Madalena Moniz. Esta viagem ao longo de uma noite é a de dois irmãos, ele dois anos mais velho do que ela (7 e 5 anos) e cheio de vontade de a proteger dos perigos, mas, curiosamente, um bocado mais medroso do que a irmãzinha (embora não o possa confessar, bem entendido, e tenha de se fazer de forte). E a história é tão boa que todos os adultos deveriam lê-la (e não só os que têm filhos com medo de apagar a luz à noite, entenda-se), porque a ideia é belíssima e, além disso, a aventura fala dos terrores nocturnos  e dos pesadelos com todas as letras, sem pedagogia barata, e de uma forma com que até eu, que já tenho idade para não temer o escuro, me identifiquei. Bravo: um grande livro para todas as idades. Sigam o monstro e dormirão que nem uns anjinhos!


 


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Comentários

  1. Hoje em dia, custa um pouco oferecer livros às crianças, por virem escritos naquela coisa ortográfica a que chamam acordo. Já deixei de o fazer, pois repugna-me imenso ser conivente com essa aldrabice.

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  2. António Luiz Pacheco9 de junho de 2021 às 03:17

    Um tema interessante, sem dúvida tanto para crianças, quanto jovens e adultos. O medo do escuro é milenar, atávico e está bem enraizado entre nós!
    Temos aí uma Extraordinária que adora monstros, monstrinhos e monstrengos, este tema há de agradar-lhe, eheheh!
    Em criança tinha medo do escuro, como tantos outros! Vivia num casarão centenário, com muitos e variados ruídos, dos ratos a correr no forro do telhado, estalos da madeira, contracções das grossas paredes, resmalhar das folhas nas telhas e calhas... mas a isso me habituei e fui sabendo a razão, no fundo era como se a casa estivesse viva, mas era a nossa casa, desde gerações, que nos protegia tal como o Santo António com o seu menino Jesus na peanha sobre o altar da capela. Uma casa cheia de memórias, felizmente que tive mãe e avó que sem serem poetisas sabiam algo da poesia e psicologia infantil, para com essas histórias e explicações nos passarem a mensagem de segurança e tranquilidade.
    O meu pai, esse ensinou-me que o que tivesse corpo para nos fazer mal, também o tinha para ser magoado ou ferido... numa visão pragmática de militar e homem destemido, que foi. Mandava-me de noite à adega ou ao celeiro, ao lagar ou à sinistra casa das tulhas, fazer um recado qualquer, e eu lá ia, temeroso, de lanterna de petróleo ou pilhas na mão, mas com vergonha de reconhecer ir cheio de medo, o que me dava ânimo. Aprendi a assobiar ou cantarolar, a falar alto sózinho ou para os cães, como forma de espantar o medo. Outras vezes mandava-me com algum recado, já de noite, a pontos afastados da quinta, à casa da horta, a algum palheiro distante ou onde houvesse pessoal fora. Foi uma iniciação!
    Posso contar-vos que quando em 1984 trabalhei como mergulhador profissional nos estaleiros da Petromar, no Ambriz, para a Bouygues Offshore, fiz muitos mergulhos e trabalhei muitas vezes em condições de visibilidade nula, por ser de noite ou pela opacidade da água, ao ponto de ter de amarrar as ferramentas aos pulsos e trabalhar sem luvas, pelo tacto! Por vezes a "ardentia" (partículas de fósforo existentes na água do mar) era a única luz, e, quando movia as mãos ou os braços via aquele rasto de luz, feérico e fantasmagórico. Se tinha medo? Confesso que não me sentia muito confortável... sobretudo se fosse durante a noite em que se ia dar apoio à draga ou a algum rebocador que tivesse cabo enrolado na hélice, lá fora. Até pedia que desligassem as luzes, pois estas atraíam companhia indesejável, era preferível usar uma lanterna de mergulho para ver o que estava a fazer, localizadamente e sem dar tanto nas vistas!
    Outras experiências tive, como passar noites ao relento muitas vezes, em trabalhos no campo ou na caça. Fui aprendendo a interpretar e identificar os ruídos da noite, animais, vegetais ou outros, que a noite no mato é viva. Posso destacar o que é dormir ao lado de uma fogueira que serve para proteger do cacimbo e de algum visitante indesejável, e, ouvir cantar o leão, o seu rugido parece viajar não pelo éter mas sim pelo chão, e, entra-nos pelo corpo num frémito, que nos faz estender a mão para sentir o conforto do frio cano da arma.
    Vou ler este livro, sem dúvida!

    Saudações claras e tranquilas, cá da Cidade Morena!

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  3. António Luiz Pacheco9 de junho de 2021 às 04:53

    Já agora, e, julgo que a propósito, deixem-me acrescentar algo sobre o autor David Machado, de quem li dois livros, de que gostei bastante: "Índice Médio de Felicidade" e "Deixem falar as pedras" (pondero ler o tubarão na banheira, que depois posso oferecer a um garoto da família... falo a sério!):
    - Acho que ele tem um dom, o dom da narrativa deste logo e como é evidente, também o da observação o que concorre ainda para ser um bom escritor, no entanto mais diria que é alguém que tem o dom de saber identificar e expôr fantasmas, de ir buscar os nossos medos ou os acontecimentos que nos assombram, e, de os tratar literáriamente, exorcizando ou desmontando, ajudando até a viver com eles. É o que se me sugere, da leitura dos dois títulos supracitados. Posso estar certo ou nem por isso, outros o dirão melhor do que eu!

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  4. Ui. Se tinha de atravessar um pequeno bosque já de noite era olhar sempre em frente e para bem longe. E se contavam histórias num local rodeado de escuro! Como acabavam invariavelmente por meter lobisomens e almas penadas a espera do sono era verdadeiramente aterrorizante.

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  5. Fiquei com interese em adquiri-lo .
    Obrigada pela divulgação.

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  6. Ainda que um pouco tarde não quis perder a oportunidade de dizer quanto gosto do David Machado e da sua escrita. Dos seus três livros que já li, "Histórias Possíveis ", A Educação dos Gafanhotos" e "Deixem falar as pedras", confesso que foi este último que mais me marcou pelas razões que aqui já uma vez o referi.
    Confesso que nunca li nenhum dos livros que o David escreveu a pensar nos mais pequenos e não só. Penso que chegou a altura e se calhar vou começar pelo tubarão na banheira.
    Quanto ao medo do escuro confesso que na minha infância não me lembro de ter tido medo do escuro. Naquele tempo passávamos rapidamente da infância para a adolescência. Nas noites quentes de Verão,aí por volta dos 7, 8 anos,no bairro onde vivíamos, vinhamos para a rua e das duas, uma. Ou tentavamos entrar sorrateiramente no recinto da sociedade de recreio que levava filmes na esplanada ao ar livre ou saltavamos a vedação do quintal do vizinho para ir roubar umas ameixas ou uns pêssegos.
    Mais tarde sim tive medo do escuro. Quando no aquartelamento no meio do mato os nossos olhos tentavam ver a noite para além do arame farpado e para além do pouco que a luz que a dos projectores deixavam ver. Aí sim tive medo do escuro. E nem a presença da G3 diminuía esse medo. Noutra ocasião e em tempos da marinha mercante tive medo da imensidão do oceano na noite escura quando após as horas passadas no calor da casa da máquina , me sentava na popa do navio a ver como a escuridão se fechava para além do navio.
    Enfim, de uma maneira ou doutra sempre tivemos do escuro.
    Para terminar e para pôr um pouco de luz, quero referir também um livro que fala do escuro mas com muita ternura.
    Do Ondjaki leiam, por favor, "Uma escuridão bonita" com ilustrações do António Jorge Gonçalves. Uma edição da Caminho de 2013.
    Fiquem bem com muita luz. Com um abraço daqui da margem esquerda do estuário do Tejo.
    A.Delfim



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    1. António Luiz Pacheco10 de junho de 2021 às 02:17

      Também gosto do Ondjaki, se bem que só tenha lido um livro dele, mas vou procurar esse outro de que fala... tenho uma "livraria" aqui perto da minha casa, costuma ter autores angolanos e talvez tenha esse de que fala e me despertou a atenção!
      Os livros são a luz, tal como é luz este nosso Extraordinário Blog, que vai atraindo algumas traças dos livros como nós!
      Abraço Caro A.Delfim!

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    2. Caro António
      É sempre um prazer falar consigo.
      De certeza que vai gostar desse livro. Fala de uma Luanda às escuras e daqueles que não tinham iluminação nem dispunham de gerador.
      Vi e ouvi muito disso em Maputo, quando pela noite fora só se ouvia o barulho dos geradores particulares.
      Dizia-se na altura que Maputo era a cidade dos geradores.
      É incrível que passado tanto tempo eu só agora perceba o que fazia aquela fluorescência que se via no mar quando navegavamos ao longo da costa angolana. Na noite escura olhávamos para a esteira brilhante deixada pela passagem do navio e ficavamos ali sentados a ver aquele espectáculo. Estamos sempre a aprender.
      Uma escuridão linda.
      Com um abraço
      A. Delfim

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    3. António Luiz Pacheco10 de junho de 2021 às 05:15

      Conheci Benguela e Maputo, nos anos 90, sem luz... a geradores!
      Sabe que me parece que nessa época e nas circunstâncias, havia mais humanidade, outro calor... as pessoas não andavam a correr atrás de estatuto nem de ostentação!
      Não sentiu isso?
      É bom ter com quem falar, destas coisas...
      Grande abraço!

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    4. António Luiz Pacheco10 de junho de 2021 às 05:20

      Ora... apaguei o comentário...

      Bom: Como estava a escrever, conheci Benguela e Maputo nos anos 90, assim como diz, a poder de gerador!
      Nessa época e circunstâncias, parece-me que havia outra humanidade e outro calor, se bem me entende... as pessoas então não andavam à procura de estatuto nem de ostentação, era diferente. Não sei se sentiu isso assim? Hoje é só novos-ricos, cheios de papo, mas vazios de princípios de humanidade. A solidariedade dos tempos difíceis desapareceu, o egoísmo e a soberba preponderam!
      É bom ter com quem falar destas coisas!
      Grande abraço!

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    5. Realmente é muito bom conversar e conversar com alguém que o sabe fazer.
      Estaria aqui muito mais tempo a falar consigo mas tenho receio de aborrecer os outros extraordinários com esta nossa conversa e por isso vou procurar ser o mais breve possível.
      Das duas vezes que estive em Moçambique, 1983/87 na região dos Pequenos Libombos, 50km de Maputo e 1991/92 em Pemba, nunca me senti estrangeiro nem nunca me fizeram sentir estrangeiro.
      Isto resume tudo aquilo que senti e sinto, por aquele povo e aquele país.
      Com as suas dificuldades e a vida difícil(guerra civil) que passaram naqueles tempos aprendemos, eu e a minha família, muita coisa. Para nós não foi fácil. Mas para eles foi muito difícil.
      Voltamos diferentes a olhar para as coisas de um outro modo.
      De repente lembrei-me de uma entrevista que há uns tempos fizeram a uma médica que, como voluntária, tinha estado nos conflitos do Ruanda.
      Perguntaram-lhe que enquanto lá tinha estado no meio do conflito do que mais tinha sentido falta. Simplesmente de um banho de água quente,respondeu a médica.
      São com estes pequenos nadas que nos construímos e somos gratos à vida.
      Muito mais teria para contar mas temo aborrecer alguém.
      Com um abraço para Angola daqui da margem esquerda do estuário do Tejo.
      A. Delfim

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    6. Caro Extraordinário A. Delfim, pela parte que me toca, enquanto leitora deste nutritivo blogue, não aborrrece nem um bocadinho. Gosto aliás muito de ler os seus comentários (e os dos outros Extraordinários, como o António Luiz Pacheco, a Celeste Silveira e outros) e estas vossas conversas, conversas com as quais se pode aprender. A descrição que fez acima do seu medo do escuro quando andava no mato foi muito impressionante, gostei imenso de ler e por isso lhe estou grata.
      Mas ainda quanto à possibilidade de alguém se aborrecer: há sempre a opção de não ler os comentários :-).
      Um abraço enviado dos Países Baixos!
      (espero que a Maria do Rosário não se importe que estejamos aqui a conversar uns com os outros nesta sua casa onde nos faz sentir bem - mas acredito que não)

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    7. Grato pelo seu comentário.
      Com um abraço cheio de sol daqui da margem esquerda do estuário do Tejo.
      A. Delfim

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