Finais

Um dia destes, já não sei que alma azeda falava por aí de alguém que tinha ganho prémios só por ser amigo de A e B. Outros defendem que ganham sempre os mesmos, desde que tenham livro novo. Há pelo menos um ensaio publicado em que se tenta provar que as capelas funcionam e que os jurados votam nos amigos e já está. Pode ser, efectivamente, que num ou noutro caso aconteça e até já me contaram há anos a história de que, em dois anos distintos, um prémio específico foi dado a quem estava a precisar de dinheiro (e não deixa de ser bonita esta humanidade, porque os livros em causa eram bons). Enfim, como só fui membro de um júri uma vez e nada vi de estranho (a não ser num concorrente que não queria ficar com o segundo ou o terceiro lugar para poder concorrer a outro prémio com aquele livro), deixo isso a quem queira andar a chafurdar ou se sinta vítima de injustiça. Eu cá o que quero dizer hoje é que os finalistas e o vencedor do último Prémio de Novela e Romance da Associação Portuguesa de Escritores deste ano foram, quanto a mim, bastante inesperados. Além de H. G. Cancela (A Noite das Barricadas), autor que já arrecadou o galardão e foi finalista de outras vezes (mas é um autor pouco conhecido do público), concorriam os escritores Valter Hugo Mãe (Contra Mim), Djaimilia Pereira de Almeida (As Telefones), Teresa Veiga (Cidade Infecta) e João Tordo (Felicidade), todos vencedores de outros prémios, mas nunca deste. E ganhou Valter Hugo Mãe com o livro que é o menos romance dos seus romances. E esta?

Comentários

  1. O meu comentário nem sequer vai incidir sobre o dito prémio literário e as perplexidades quanto ao vencedor e a um dos finalistas da coisa. Por isso, vou directo à minha perplexidade sobre o título da obra de Djaimilia Pereira de Almeida, cujo me parece um pouco esquisito no género (porventura justificado no miolo) - "As Telefones". Também poderia dizer-se as telemóveis ou a telemóvel ou até "0" Autora do Livro.
    Não soa bem, mesmo que (depois de lido o livro) seja justificado o feminino no plural com qualquer coisa com os aparelhos.
    Já agora...
    Se Valter Hugo Mãe ganhou com o livro que é "menos romance dos seus romances", o título mais apropriado seria "A Favor de Mim" e não "Contra Mim".

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  2. Bom dia, sem azedumes. :)

    Este é um blogue literário, de gente que lê, que escreve, que conhece livros e escritores, e claro, que houve histórias sobre prémios. E mais importante, que tem opinião sobre coisas.

    O único livro que li dos quatro finalistas é a "Felicidade" de João Tordo (para mim o seu pior livro, em todos os campos...), que segundo o meu ponto de vista não merece ser finalista de nenhum prémio literário. Em relação aos restantes, não posso dizer nada. Não li. Não conheço.

    Claro que também não acho piada que se dê prémios a quem precisa de dinheiro. É preferível criarem bolsas de apoio para quem vive com dificuldades...

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    1. Apetece-me fazer humor com os títulos e com os autores:

      Cancela estava exasperado com a noite cheia de barricadas. Temia que ainda não fosse desta... Hugo tenha pedido à mãe para acender uma vela, não queria ter todos contra ele... Djaimilia tinha colocado todos os amigos ao telefone, mas depois soube que o júri não era o "povo"... A Teresa estava cheia de dúvidas, ouvia cobras e lagartos da associação infecta... Tordo sorria de felicidade, estava cansado de ouvir dizer que há horas de sorte...

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    2. António Luiz Pacheco22 de junho de 2021 às 04:42

      Eheheh! Precisamos é do Cancelo... ahahah!
      Grande abraço e desculpe a piadola futebolística, adequada ao contexto actual!

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    3. Essa de "A Noite das Barricadas" fez-me lembrar um outro concurso (este, gastronómico) na Feira de S. Mateus, em que estavam em jogo as enguias que vinham em barricas de madeira, da Murtosa. Era uma competição entre amigos, à noite, numa das chafaricas, à volta das barricadas.

      Cumprimentos desde o Planalto até às margens do Tejo.

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  3. Gostei muito deste post que quase nos transporta para outras ilações que não aquelas com as quais nos viciámos e adormecemos, praticamente sinónimos de clichés sobre os outros, sobre as entidades, de como tudo interage. Ideias feitas que lentamente nos tornam tacanhos. Porém afinal, acordamos, e um premiado voltou a ser repetido. Vale-nos o texto e a sua tentativa para que comecemos a pensar diferente.

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  4. A inveja e a dor de cotovelo são dois vírus para os quais não há vacina: vamos ter de viver com eles.
    Posto isto, os meus parabéns ao Valter Hugo Mãe, autor que já me proporcionou bons momentos de leitura e reflexão.

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    1. O Anónimo invoca inveja e dor de cotovelo que terá lido (nas entrelinhas) nos comentários supra ou até no post. Engana-se. Não li ou percebi nada disso, até porque os que comentaram como a anfitriã o fizeram desafrontadamente, tanto quanto já se manifestaram (como eu) admiradores de algumas obras do Valter.
      Quanto à vacina, pelos vistos, já existe, e o comentador - digo-o com humor e com respeito - já a encontrou, pelo que nem vale a pena colocar a máscara do anonimato.

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    2. Limitei-me a responder ao post da Maria do Rosário, que permite comentários anónimos e nunca apagou nada que eu tenha escrito.

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  5. Tal como Luis Eme,so li "Felicidade" de João Tordo e também não gostei nada.
    Dos outros finalistas,conheço Valter Hugo Mae,que já me agradou e de outras vezes me desiludiu.
    De qualquer maneira fico a conhecer outros autores que me despertaram a curiosidade,nomeadamente Teresa Veiga.

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    1. De Teresa Veiga, li tudo e gostei. Ela é o género de escritora sem qualquer interesse pela fama, até porque nunca se deu a conhecer.
      Mas isto é apenas uma opinião de anónimo para anónimo, sem qualquer outro intuito. Não me leve a mal se a ler e não gostar...

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  6. António Luiz Pacheco22 de junho de 2021 às 04:45

    O meu comentário hoje, vai tentar ser literário:
    - Este tema dos concursos literários e tudo que em volta deles gravita, acontece, parece que é mas não é ou pode mesmo ser, parece-me que dava para um romance em sim mesmo!
    Quem avança... eu escolheria fazer uma sátira, um romance humorístico se tivesse engenho e a arte, mas fica a idéia, pode ser que alguém lhe pegue.

    Saudações bem-dispostas cá da Cidade Morena, dramáticamente palúdica.

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    1. Caro António Luiz

      Os prémios literários contentam os premiados e desiludem os perdedores; o que, só por si, como bem diz, tem matéria e massa para uma comédia em forma de romance literário. Bastaria pegar na panóplia passada e nas várias organizações dos ditos, para se encontrar um ponto de partida.
      "Pode ser que alguém lhe pegue", probabilidade que deixa no ar. Eu, não, porque para pegas, só de cernelha, porque de caras não tenho jeito.

      Cumprimentos desde o Planalto onde não se acham, no género, concursos nem com que ursos.

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  7. Destes cinco finalistas, só li "Cidade Infecta" da Teresa Veiga. Não sei se por ir com as expectativas altas, o livro deixou-me mais ou menos no mesmo ponto em que estava quando nele entrei. Quer dizer, deixou-me um pouco desiludida com os dois erros que lá encontrei (e que reportei à Tinta da China). Detesto encontrar erros em livros. Especialmente se revelam falta de cuidado na revisão, como é o caso.

    Não me admiro que tenha ganho o VHM, embora não tenho ainda lido o "Contra Mim". Aliás, não me admirava se ele ganhasse o Nobel e todos os prémios que há para ganhar. É um escritor genial. Bendita hora em que peguei num livro seu e comecei a chapinhar neste deslumbramento tão bom.

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    1. O comentário saiu anónimo, não sei porquê.
      Susana Rodrigues

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  8. Duvidar e até contestar (d)o resultado de um prémio literário (ou outro) não é sempre, necessariamente, consequência de se ter uma «alma azeda» ou de querer «chafurdar». Pode ser - e, frequentemente, é mesmo - a reacção inevitável à existência de dúvidas, e inclusive de factos, que colocam em causa a correcção de uma decisão. Dois exemplos...

    Primeiro, o actual presidente da mesa da assembleia geral da Associação Portuguesa de Escritores recebeu, nos últimos quatro anos, dois prémios daquela associação, em categorias diferentes. É certo que nos regulamentos respectivos nada existia que impedisse a sua participação, mas não é exagerado questionar a ética e a transparência (ou falta delas) nestas situações.

    Segundo exemplo, e muito pior, em 2018 a Sociedade Portuguesa de Autores atribuiu um prémio (sem regulamento conhecido) a uma obra em que um dos co-autores era membro do júri...

    https://www.publico.pt/2018/06/13/culturaipsilon/noticia/obra-premiada-pela-spa-vai-ter-envolvimento-de-um-membro-do-juri-1834174

    https://octanas.blogspot.com/2018/06/ocorrencia-fraude-na-spa.html

    ... E, tendo eu concorrido também ao galardão, tenho toda a legitimidade para afirmar que fui roubado.

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  9. Eu gosto muito do João Tordo, mas sobretudo dos seus livros iniciais e ainda não li Felicidade. Da Djaimilia tentei ler “Este cabelo” e não consegui. Já li o “Contra Mim”, do VHM, e gostei imenso (como também gostei de outros livros dele, gosto do seu estilo poético e sem complexos). Alias ele participou num clube de leitura do Público e da Folha de São Paulo, onde se discutiu esse mesmo livro, e foi uma delícia ouvi-lo falar sobre si próprio com tanto desassombro. Parabéns por isso ao Valter Hugo Mãe.
    Filipa CR

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