Excerto da Quinzena
Se antes eu era um pessimista, depois de comprar a bengala passei a ser um cínico. Um homem novo com uma bengala podia dar-se ao luxo de desprezar o mundo e, assim sendo, eu tencionava aproveitar a oportunidade para ajustar contas com a realidade. Havia alguma coisa naquele objecto – e na dor constante que sentia na perna, e na firme crença de que, dentro de mim, algo apodrecia – que transformava todo o cepticismo da minha juventude no mais puro fel. Não conseguia andar sem coxear e, no entanto, todos me observavam com o mesmo olhar incrédulo do médico, como se eu fosse maluco e imitasse um inválido por puro prazer. O médico tivera razão numa coisa: um homem de trinta e tal anos com uma bengala não lembra ao diabo; era preciso mais atrevimento para que o diabo se lembrasse de nós.
João Tordo, O Bom Inverno, Publicações Dom Quixote, 2010
“À noite, escolhendo com cuidado as palavras, tentei explicar-lhe que não se tratava de traição, que tinha grande estima por ela, que a nossa verdadeira traição é quando se trai o nosso próprio instinto, a nossa própria necessidade, o nosso próprio corpo, a nós mesmos. Lérias, berrou, mas conteve-se de imediato para não acordar as crianças. Passámos a noite inteira a discutir em voz baixa, e a sua dor sem grito, uma dor que lhe agigantava os olhos e lhe torcia as feições, aterrorizou-me mais ainda que a gritada. Aterrorizou-me, mas não me envolveu, o seu tormento nunca me entrou no peito como se fosse meu. Estava num estado de ebriedade que me embrulhava como um fato ignífugo. Recuei, ganhei tempo. Disse que me parecia importante que ela compreendesse, disse que tínhamos ambos necessidade de reflectir, disse que estava confuso e que ela devia ajudar-me. Depois, dei à sola e não voltei a casa durante vários dias.”
ResponderEliminarDomenico Starnone, Laços
Alfaguara, 2018
«10 de Junho de 1967
ResponderEliminarFaz hoje trinta anos exactos que fui preso, a primeira vez pela polícia do fascismo – ao tempo, a P.V.D.E. É dia comemorativo! Assinalá-lo abrindo nele este diário, que será de reflexões ou apontamentos e não de factos, pois foi o perigo destes que me fez evitar o gosto do jornal íntimo. Se nunca houve carta ou rabisco que os cães de fila não esquadrinhassem à lupa! Entre prisões (5) e buscas (3), quantas recordações não perdi, voluntária ou involuntariamente! Até o diarismo, companheiro e confidente da frustração, foi boicotado…
Envelhecer é desvalorizar o futuro dum ponto de vista pessoal. E reganhar, de certo modo, o passado. Se estas linhas, escritas entre duas consultas, podem ajudar-me a encher o vazio do imediato, por que evitá-las, hoje? Bem se me dá que as levem ou as destruam! Não deixarei nelas o que quer que seja que prejudique terceiros.
Passei estes anos a preparar uma maturidade inútil, descubro-o agora: no plano social, procurando condições políticas que, realizando as aspirações gerais, viabilizassem as minhas; no plano intelectual, adquirindo uma utensilagem que estruturasse uma intervenção idónea. Com a saúde que resta e o tempo que nunca sobra, já pouco ou nada poderei fazer, mesmo que as condições mudem a tempo. O que foi foi, não o discuto, nem o deploro. Nunca houve alternativa possível. Mas salve-se a ilusão desta lápide.»
Mário Sacramento em «Diário», pág. 11, Limiar Editora, Porto, Junho de 1975
"E, portanto, ficámos ali sentados a conversar, e Marilyn disse:-Detesto funerais. Fico muito satisfeita por não ter de vir ao meu. Só que eu não quero um funeral, prefiro que um dos meus filhos, se chegar a ter algum, espalhe as minhas cinzas nas ondas do mar. Nem era para vir hoje, só que Miss Collier gostava mesmo de mim, preocupava-se com o meu bem-estar, e era como se fosse uma avó para mim, uma avó dura e severa, mas ensinou-me muito.
ResponderEliminarTC: Bom, achas que já nos podemos pôr a andar daqui para fora? Prometeste-me champanhe, lembras-te?
Marilyn: Lembro-me sim,. Mas não tenho dinheiro nenhum comigo.
TC: Chegas sempre atrasada e nunca tens dinheiro contigo? Por acaso não viverás na ilusão de que és a Rainha Isabel?
Marilyn: Quem?
TC: A rainha Isabel. A rainha de Inglaterra.
Marilyn (de cenho franzido): O que é que essa vaca tem a ver com o assunto?
TC: A Rainha Isabel também nunca anda com dinheiro. Não lho permitem. O vil metal não deve conspurcar a palma da mão régia, é uma lei ou coisa que o valha..
Marilyn: Sabes que mais? Aposto que lhe dão tudo de graça. Basta ela dar a sua caução ao produto.
TC: É bem possível. Não me admirava nada. Fornecedor certificado de sua Majestade, a Rainha. Cães Welsh Corgis. Todas aquelas delícias da Fortnum & Mason. Erva. Preservativos.
Marilyn: Para que é que ela havia de querer os preservativos?
TC: Não é ela, palerma. é para aquele cabeça de alho chocho que anda sempre dois passos atrás dela. O Príncipe Filipe."
Truman Capote- Música Para Camaleões- Livros do Brasil 2015
Truman Capote - Grande escritor!
Eliminar"A sangue frio" - livro absolutamente imperdível.
Tenho e já li duas vezes; o filme do Richard Brooks é fiel ao livro!
EliminarUm dos meus autores e obras preferidas, de culto!
ResponderEliminar"Bairro da lata" (Cannery Row) memorável obra do imortal John Steinbeck.
Nunca eu haveria de pensar, quando o li e me entusiasmei, passei por uns tempos a viver ali no bairro, fiz amizade com os personagens, que um dia iria viver este ambiente e lidar com pessoas assim, aqui na Baía Farta em Angola, terra de pescarias, fábricas e pescadores, com o mesmo cheiro e as moscas que Steinbeck aspirou e enxotou!
Digam o que disserem a literatura é vida, é a nossa vida, e sempre o será, pois ela espelha a realidade e nela encontramos outras realidades e outras vidas!
Sinto-me profundamente grato por saber ler, por ter lido tanto livro!
I
Cannery Row, em Monterey, na Califórnia, é um poema, um fedor, uma estridência, uma gradação de luz, um som, um vício, uma nostalgia, um sonho. Cannery Row é acumulação e desperdício; lata ferro, ferrugem e gravetos; pavimentos escavados, terrenos de ortigas e amontoados de cordame; fábricas de enlatar sardinhas de chapa ondulada, dancings, restaurantes, bordéis e pequenas mercearias atravancadas; laboratórios e albergues. Os seus habitantes são, como disse o homem certa vez, piegas, alcoviteiras, batoteiros e filhos da mãe, com o que pretendia dizer toda a gente. Tivesse o homem espreitado por outra frincha e talvez dissesse: santos e anjos, mártires e homens bons, e significaria a mesma coisa.
Pela manhã, quando a frota da sardinha fez boa safra, entram as barcaças na baía a apitar, balouçando pesadamente. Cheios a deitar por fora, os barcos acostam ali, onde o rabinho das fábricas mergulha na baía.
A imagem é de avisada escolha, porque se as fábricas mergulhassem a boca na baía as sardinhas enlatadas que emergem do extremo oposto seriam, metaforicamente pelo menos, ainda mais repugnantes. Depois estridulam as sereias das fábricas, e em toda a vila homens e mulheres enfiam as suas andainas e correm direito ao Bairro para dar começo à faina.
Automóveis reluzentes levam as classes superiores, os superintendentes, os guarda-livros, os patrões, que logo desaparecem nos escritórios. Da vila surgem italianos, chineses e polacos em torrente, homens e mulheres de calças, casacos de borracha e aventais de oleado. Chegam correndo para limpar, cortar, lotar, cozinhar e enlatar o peixe. A rua toda rumoreja, geme, guincha, trepida, enquanto os prateados rios de peixe se escoam dos barcos, os quais vão alteando mais e mais até ficarem vazios. As fábricas rumorejam, trepidam e guincham até o último peixe estar limpo, cortado, cozinhado e enlatado; e então estridulam de novo as sereias, e os italianos, os chineses, os polacos, homens e mulheres a pingar, estafados, fedorentos, arrastam-se derreados pelo monte acima a caminho da vila, e Cannery Row volta a ser ele mesmo — tranquilo e encantado. A sua vida normal restabelece-se.
Saudações com cheiro a peixe, cá desde a Cidade Morena.
Oh, que desatenção, eu já pus este excerto noutra sexta-feira qualquer... Não vale repetir!
EliminarJohn Steinbeck - lia os seus livros como se estivesse a ver cinema!
EliminarEste mesmo excerto???? Que barraca... não me recordo!
EliminarMas, prontos, este é dos que lê-se sempre!
Eheheh - uma boa desculpa...
Não se precupe cara Maria do Rosário isto acontece a todos (os leitores). Eu já não me lembrava.
EliminarJá me aconteceu, até mais do que uma vez, que a meio de um livro (às vezes até só no fim) ir ao fundo "da gaveta" e ver que já o tinha lido.
Quem lê (quem seja leitor a sério) isto acontece com muita frequência, por isso mesmo, a partir de uma determinada altura, passei a escrever no fim do livro o dia em que o comecei a ler e o dia em que o acabei, e se gostei ou não.
Um abraço para todos.
"Convive-se sem problemas com mil mistérios por resolver que nos ocupam durante dez minutos de manhã e que depois se esquecem sem nos deixar inquietação nem rasto. É preciso não aprofundar nada nem demorar muito tempo em qualquer facto ou história que nos desvie a atenção de uma coisa para outra e que nos reitere as desgraças alheias, como se depois de cada uma pensássemos: “Olha que horror. E pronto. De que outros horrores nos teremos livrado? Precisamos todos os dias de nos sentir sobreviventes e imortais, por contraste, e assim, contem-nos atrocidades diferentes, porque as de ontem já as gastámos".
ResponderEliminarOs Enamoramentos de Javier Marias. Mais um livro que me inquieta. Pelas melhores razões. Boas Leituras para todos!
Celeste Silveira
"Turb(i)-, pode ver-se no Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa, é um "elemento de formação de palavras que exprime a ideia de agitação, desordem". À entrada do seu primeiro romance, Chico Buarque apresenta-nos algumas palavras que esse elemento integra. Entre elas: estorvo, distúrbio, perturbação, turvo, turbulência, turbilhão, trovão, atropelo, tropel, torpor, estupor, estropiar.
ResponderEliminarUm homem bate à porta. Quem será? Lembra alguém. Tem barba. Talvez o protagonista "já tenha visto aquele rosto sem barba, mas a barba é tão sólida e rigorosa que parece anterior ao rosto". Num exercício onírico em que a escrita sobressai face ao enredo, o protagonista vagueia a partir daí, em fuga ou não, em busca ou não, desistente ou não, num mundo estranho. Ou talvez apenas num mundo que é um estorvo porque estorvo são os outros, ele próprio, a vida.
O texto é o da primeira maratona de um poeta: senhora da narração, a linguagem não dá tréguas ao leitor. Nesse sentido, aqui e ali, a surpresa de me ter evocado uma outra obra cuja filigrana me enredou há uns tempos: "um pinguim na garagem" de um tal de luís caminha."
in https://ocasosluiscaminha.blogspot.com/2020/10/a-primeira-maratona-de-um-poeta.html
" Da janela, quarta feira feriado, acompanho o percurso da cadela velha do bairro, um labrador de oitenta anos humanos. Dá a volta ao relvado, tomando sempre o caminho mais longo e desenhando um círculo por onde não há um caminho previamente definido. Na relva, pára e rebola-se, coçando-se, de barriga para o ar. Nunca se sabe se a quem dará cavaco. Em princípio, aproxima-se de toda a gente,desde que lhe pareça que comem alguma coisa, e não chega a ter medo de ninguém. Se algum cão se aproxima, cheira-o e desinteressa-se. Ou, sem que se perceba porquê, escolhe roçar o nariz no nariz dele, e dar-lhe as costas pouco depois .
ResponderEliminar(....)
Às vezes, caça um pardal ou experimenta uma rã, mergulhando de rompante no pequeno tanque do bairro, onde um canavial jovem vem ganhando respeitabilidade. Mas neste passear-se tem toda a sabedoria que não temos, e busca unicamente o seu prazer. Em duas horas de uma manhã, fazendo o que faz todo o santo dia, ela nasce , vive e morre, enfim, à porta do café, onde aterra de cansaço junto ao letreiro dos gelados: cada passeio , uma vida com direito a surpresas, revesses, traições e gozo. E tudo recomeça na manhã seguinte......."
"Regras do isolamento" de Djaimilia Pereira de Almeida com fotos de Humberto Brito.
Edição da Fundação Francisco Manuel dos Santos - Agosto de 2020
Um bom fim de semana daqui da margem esquerda do estuário do Tejo.
A. Delfim
Sobre um monte de terra fresco, um pouco retirada [..], estava ajoelhada, mergulhada numa oração íntima [...]. Ela escolhera bem a sepultura: avistavam-na de qualquer lado. Mantinha juntas as mãos magras, que estremeciam por vezes de contida emoção; os olhos, firmemente fechados, não viam nada do mundo, por muito que tivessem gostado de apreciar o efeito da sua solidão. Se tivessem um pouco menos de severidade, ter-se-ia acreditado neles. [...]. Todo esse cerimonial era [...] demasiado enfático: tivessem as mãos tremido com menos frequência, tivessem-se os olhos aberto aqui e ali, estivesse a sepultura [...] situada num local não tão obviamente propício, e uma pessoa teria ficado inclinado a tomar tal emoção por verdadeira.
ResponderEliminarElias Canetti - O Jogo de Olhares, pp 226/227
"No Ponto, na farmácia de seu Belo, no armazém de secos e molhados de seu Bernardino, mesmo no final das tardes de conversação distinta do Banco Duas Pontes, no gabinete do nobre de alma e de gestos Vítor Macedônio (o belo varão, bem-nascido e gentil-homem), que reunia em torno de si (ali se servia do melhor conhaque francês) os potentados do café como o coronel Tote ou ilustres desocupados como seu BP. Lima, maledicente e boa-vida, mas de berço, enfim nas várias ágoras da cidade onde se comerciava a novidade, a imaginação, o ócio e o tédio…
ResponderEliminarNas janelas das casas terreiras de grandes e pesadas janelas de marco rústico, baixo e retangular, junto das calçadas, onde se ficava sabendo de tudo pelos passantes que iam e vinham (como era bom se debruçar e bater dois dedinhos de prosa ou fugir para dentro, se quem apontava na esquina era um maçante), de tudo se sabia sem carecer de estafeta e selo, as notícias e novidades: quem andava pastoreando quem, aquela que tinha caído na vida e agora era carne nova, estava de rapariga na Casa da Ponte, na testa de quem apontara o broto de futura e soberba galhada…
Mesmo nas nobres sacadas de ferro, nas janelas de ricos sobrados, podia-se ver a qualquer hora do dia, no enovelar lento do tempo, os carapinas do nada, ocupados na gratuita e absurda, prazerosa ocupação.
Eram os carapinas do mínimo e do nada, os devoradores das horas, insaciáveis Saturnos, dizia o sapientíssimo, alambicado, precioso Dr. Viriato. Quem não tem o que fazer, faz colher de pau e enfeita o cabo, vinha por sua vez o proverbial, memorioso, eterno, pantemporal noveleiro Donga Novais, uma das poucas pessoas a não se entregar inteiramente ao vício e paixão da cidade. Porque para ele a entidade metafísica do tempo não existe (como para os platônicos que, ao contrário dos hebreus, não tinham o senso da historicidade, lidavam com o puro universal), passado, presente e futuro são uma coisas retrucava o Dr. Viriato súbito espantosamente aderindo a fiação e tecelagem dos nossos mitos. Ele que era um cientista exaltado, um agnóstico convicto, de dialético linguajar maneirista que demandava precioso raciocínio, imaginação, dicionário."
Conto: Os Mínimos Carapinas do Nada. Autran Dourado, Violetas e Caracóis.
Editora Guanabara, 1987.
Rafael da Fonseca
"Nada é mais difícil de definir do que a linha de demarcação entre a sanidade e a insanidade (...) Façam a definição demasiado restrita, e ela deixa de fazer sentido; façam-na demasiado ampla, e toda a raça humana fica presa na rede de arrasto. Em rigor, somos todos loucos quando cedemos à paixão, ao preconceito, ao vício, à vaidade; mas se todas as pessoas apaixonadas, preconceituosas e vaidosas fossem enclausurada como loucas, quem ficaria a guardar a chave do manicómio?"
ResponderEliminarKate Summerscale
As suspeitas do Mr. Whicher
Bertrand Editora 2009
-Alguém deve ter difamado Joseph K., pois que numa linda manhã foi preso sem ter cometido qualquer crime.
ResponderEliminar"O PROCESSO" KAFKA
Talvez o livro mais genial que li até hoje.
«Então foi assim, meus amigos. Éramos cem. Saímos pela porta lateral, passámos por um tapume, encaminhámo-nos para a Rua Garrett, Chiado acima, depois atingimos as duas igrejas, já seriam umas três horas da madrugada, e no Largo Camões não havia vivalma. Não havia rumor, não havia estrondos, não havia sirenes, não havia polícia, e nós pensámos. Teremos mesmo nós cem colocado a gravação no ar? Foi mesmo verdade, ou foi um sonho, que à meia-noite e vinte o som dos passos começou a rolar pelo país fora, e depois dos passos do coro veio a voz do Zeca? A canção do Zeca? O cante dele? A sua voz alternando com a voz dos companheiros? Meu Deus! Tanto silêncio, tamanha calma, pensámos, nós cem, quando parámos entre as duas igrejas. Possivelmente terá sido uma fantasia das nossas cabeças, nós cem não teremos colocado a fita no ar, a canção não terá passado, ninguém neste país a terá escutado, nenhum civil, nenhum militar em nenhum quartel, em nenhum regimento, e era por isso que nada iria acontecer. Pensámos nós, os cem. E nenhuma árvore se agitou, nenhuma ave se moveu. Quando julgávamos que todos os rios subterrâneos corriam para o mesmo lado, afinal todas as águas tinham ficado paradas no fundo dos seus abismos. Pensámos nós dois, quando, ambos, perdão, nós cem, caminhávamos em passeios diferentes, devidamente afastados uns dos outros, como se não nos conhecêssemos. Os nossos cem corações batiam de medo debaixo das cem camisas. Foi assim, naquela madrugada...»
ResponderEliminarOs Memoráveis. Lídia Jorge, P.D.Q. 2014.
ACCarvalho
"O que é que eu quero? Não posso querer um tanque em cimento como o da minha mãe, mas também...
ResponderEliminarDantes, queríamos que as coisas durassem para sempre, agora, queremos que só o nosso corpo dure para sempre, não importa que tudo o mais se estrague depressa, eletrodomésticos ou afetos, tanto faz, convicções ou roupas, tanto faz, queremos o novo, a vertigem de experimentar o novo, o resto tanto faz, tanto faz, do novo depressa fazemos velho, para podermos experimentar o novo que depressa fazemos velho, para podermos experimentar o novo que... Quanto cansaço! Vivemos cada vez mais, um dia seremos eternos, mas o tempo que se vai ganhando à morte não compensa aquele gasto com a aflição de sentir tudo frágil à minha volta, com o que se estraga e não se conserta, com o que faz lixo mas não aduba, com a roleta das possibilidades infinitas, com o que tanto me demora a escolher e de tão pouco me serve..."
Dulce Maria Cardoso, in "Autobiografia não autorizada"
O bom Inverno. ... livro muito interessante,moderno ...literatura moderna ...de qualidade .!👌
ResponderEliminar