As redes
Recentemente, a grande escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie publicou uma reflexão em três partes extremamente interessante sobre os comportamentos violentos e as mentiras publicadas nas redes sociais, especialmente as que rodeiam as pessoas, chamemos-lhe assim, famosas (o famoso tem um poder que o torna paradoxalmente mais vulnerável, segundo Chimamanda, ideia com a qual concordo em absoluto). As histórias que relata e se passaram consigo são, de facto, realmente assustadoras. Na primeira parte, uma pessoa que frequenta um dos seus cursos de escrita e que ela acaba por acolher excepcionalmente em sua casa, criando-se entre ambas uma relação muito próxima da amizade, só por não concordar com uma afirmação feita pela escritora numa entrevista, insulta-a publicamente, mostra fotografias pessoais e revela impressões sobre outras pessoas que Chimamanda trocara com ela em tom de confidência. Esta pessoa teve ainda a coragem de usar o nome da escritora para conseguir um visto nos Estados Unidos... Na segunda parte, a história é ainda pior, pois a pessoa que a insulta nas redes sociais ao ponto de lhe chamar «assassina» e dizer coisas tão graves como a morte dos pais da escritora (com pouco intervalo entre ambos) ter sido uma espécie de castigo merecido, mais tarde inclui o nome Chimamanda Ngozi Adichie na capa do seu romance de estreia como sua «mentora», tirando daí dividendos óbvios em termos de promoção e vendas. Na terceira parte, aliás parcialmente reproduzida no nosso jornal Público, a escritora conta como os jovens hoje se autocensuram permanentemente nas redes sociais com medo de serem gozados ou saírem do grupo de puritanos que às vezes até lhes pede que denunciem amigos verdadeiros. Leiam, que vale muito a pena:
Só uma correcção, MRP, que aparece no seu texto "pardoxalmente" em vez de "para...". Os pardais agradecem :), mas os críticos dos críticos podem sempre acrescentar ser preciso ter cuidado com uma crítica continuada, arrasadora, daquilo que mais não são do que erros involuntários de variado tipo (distracção, digitação, cansaço, etc.) Relativamente à censura e auto-censura sou mais pela tolerância, bondade e gratidão, já que no fim — no fim mesmo da nossa procura de uma voz e lugar no mundo —, os cemitérios estão cheios de gente grandiloquente… infelizmente, muitos deles, exercitando uma crítica contínua, demonstrativa de serem desprovidos das formas empáticas mais simples e generosas, ou estarem “datados” por incapacidade de se renovarem. Nesse aspecto, ao contrário de muitos que conseguem separar o criador, da obra, tenho grande dificuldade em fazê-lo – o que será erro meu e, talvez, até, má fortuna. Mas o que me aborrece mesmo neste mundo, tantas vezes cão, "sem necessidade", é o abater de tudo e todos como forma de se vivificarem ou auto-afirmarem, por necessidade de afastamento do Outro e afirmação de si próprios. Relativamente às “Redes” é tão curioso ver tanto "grandiloquente" a criticá-las constantemente, mas a utilizá-las de modo tão ou mais intenso do que todos os outros: afinal, somos todos necessitados de afectos e atenção, aquilo que denominamos de “humanidade”. A diferença entre “Les uns e les autres”, talvez esteja apenas no facto de terem para si que elas (as Redes) deveriam estar para si reservadas, reserva de exclusividade e "grandiloquência", revelando afinal serem tão comuns como todas as outras.
ResponderEliminarComeçou a semana azedo, Pedro. E o seu discurso ressentiu-se, pois ficou cheio desses mesmos tiques dos «grandiloquentes» que tanto critica. Mas não concordo nada consigo em que as pessoas queiram as redes apenas para si mesmas; o que acontece é que hoje, infelizmente, não há crítica, não há quase jornais, e é nas redes o que os escritores podem falar com os seus leitores. Quando se diz mal delas (eu também digo, e não me considero «grandiloquente»), é porque de facto elas não têm crivo, estão cheias de ódio e falsidade e criaram de facto comportamentos de censura e autocensura absolutamente inaceitáveis em democracia.
EliminarQuanto ao erro, o meu «revisor» já me tinha avisado, mas ainda estava a corrigi-lo quando chegou o seu comentário. Obrigada de qualquer modo.
Não precisa de agradecer, Maria do Rosário - aqui deixe-me distinguir a Maria do Rosário poeta, da Maria do Rosário editora; e, não sendo hipócrita, estando totalmente desprovido de ódio ou falsidade (o meu combate é o inverso), digo-lhe desde já gostar bem mais da primeira . Não precisa assim de agradecer, pois o erro é uma forma bondosa e comum de nos afirmarmos humanos. Quantos a crivos e críticos cheiram-me sempre a formas de censura, baseadas na dificuldade de aceitação da diversidade e/ou como forma de afirmação pessoal ou de grupo.
EliminarVerdadeiramente, Maria do Rosário, o que é hoje um escritor, senão apenas uma criação e uma escolha quase artificial, num mundo de transacção entre compra e venda?
Que lugar tem hoje a literatura pura e dura num mundo de edição que se denomina entusiasticamente de "indústria"?
Num mundo de conhecimento de onde foi erradicado a intelectualidade e a normalização é o seu traço comum?
Entre os termos "escritor" e "autor" cada vez tenho mais respeito pelo último, pois esse é o verdadeiro criador livre, o que não se "impõe" ao gosto percepcionado do público leitor, o que existe apenas por amor e paixão pela escrita.
Quanto ao azedo começo da semana possivelmente é dos agrafos cravados na pele; que ainda doem, mesmo se a constante afirmação da mediocridade fora de alguns universos e escolhas editoriais, fira bem mais do que os agrafos!
Reconheça-se que este mundo não se baseia exclusivamente no mérito, mas na transacção e interesse próprio; e que em todas as escolhas assumimos o mundo que queremos para nós próprios. De resto se ainda por aqui me movimento é porque ainda sinto algum sol debaixo deste hemisfério.
Caro Pedro, melhor do que ninguém sei o que é aquilo a que chama «indústria», acredite. Comecei em 1987 e assisti às mudanças no meio editorial ao longo dos últimos 30 e tal anos, das quais - sublinho - nunca fui responsável e com a quais não sou conivente. Tive de adaptar-me, como todos. E até tenho conseguido publicar quase só literatura: os livros que publico não são de modo algum os que se impõem ao gosto dos leitores, nem as minhas escolhas se têm baseado em qualquer tipo de mérito. Por isso, desculpe-me, mas não entendo as suas acusações veladas, em quse todas as vezes que comenta neste blogue, sobre a minha actuação enquanto «editora». Recuso livros, claro, quando não acredito neles, mas essa circunstância é consistente com o que acho que deve ser a profissão e nada tem que ver com servir a indústria. Dou, de resto, este assunto por encerrado com esta explicação.
EliminarO post anterior é meu: Maria do Rosário Pedreira
EliminarObrigada pela partilha
ResponderEliminarApesar do eventual azedume, vai interessante a conversa.
ResponderEliminarQuanto ao tema em si, diria que "pois é"!
Quem não quer ser famoso não lhe veste a pele - adaptação livre do adágio, que me parece adaptar-se perfeitamente. Isto de ser famoso porque se joga bem à bola, ou se é grande actor, escritor, acho justo. Porém, ser famoso porque se tem uma cara bonita e confundir isso com ter o direito de dizer toda a bacorada que calhe e depois isso seja amplamente difundido como se viesse do Prof. Vitorino Nemésio ou Mestre Agostinho Silva, é aí que na minha pouco humilde opinião reside o problema!
A qualquer cantor de terceira categoria, actor de anúncios, tipo bronzeado ou gaja boa, apresentador (sobretudo se for gay), pode dizer as tontices e disparates que queira e tem até de produzir muitos para se manter na ribalta, que acorrem logo os jornaleiros a publicar aquilo como sendo máximas filosóficas!
Na verdade não sei quem seja a grande escritora, mas sendo nigeriana pode ter 1,80m imagino, mas se calhar sofre na pele aquilo que vestiu e quem sabe se não é mais uma divulgadora de discórdia, desprezo e até da intolerância. Para não ser injusto vou tentar saber quem é, prometo.
Saudações de um nada famoso que não se importava de ser famoso-mesmo, cá da Cidade Morena.
Nós humanos somos "assim"... claro que há uns humanos ainda mais "assim" que outros.
ResponderEliminarComo não tenho "redes" (os blogues estão um bocadinho ao lado...), podia aproveitar para dizer mal, só que elas não têm culpa nenhuma do uso que lhe é dado pelos excelentíssimos humanos.
Posso falar de várias coisas, que mudaram a forma de nos relacionarmos.
A forma de comunicação entre as pessoas, cada vez mais indirecta ("fala-se" mais por mensagens e de telemóvel que cara a cara...) faz com se escreva e diga coisas, muitas vezes sem se pensar, protegidos pela "distância".
E quando estamos protegidos pelo "anonimato", deitamos fora o pior de nós. Pensamos que ninguém nos vai descobrir... A inveja, o egoísmo, "a dor de corno", a dor de cotovelo", tudo serve para insultar e mentir...
Sinceramente, acho que o "anonimato" não devia ser permitido em nenhuma situação, nas redes sociais, nos blogues, nas caixas de comentários de jornais.
Mas quando até mesmo, as "Horas Extrarodinárias", que não fazem mal a ninguém, têm dois ou três anónimos (cobardes) de estimação, está tudo dito...
Concordo inteiramente!
EliminarTambem interessante leitura: https://www.vox.com/22537261/chimamanda-ngozi-adichie-transphobia-cancel-culture-jk-rowling-akwaeke-emezi-olutimehin-adegbeye
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