Soeiro Pereira Gomes

Nos tempos em que fui professora de Português, encontrava-se entre as leituras obrigatórias para os alunos, creio, do 9.º ano a obra Os Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes. O romance marcaria várias gerações de leitores (até porque os seus heróis eram também miúdos, os «filhos dos homens que nunca foram meninos») e a primeira edição, com capa de Álvaro Cunhal,  acaba de comemorar oitenta anos. A Quetzal teve, pois, a belíssima ideia de republicar agora este romance neo-realista numa edição muito bonita, para nos trazer de volta (ou apresentar) as personagens Gaitinhas, Guedelhas, Maquineta ou Gineto e mostrar a solidariedade e a coragem por eles vivida nesses anos escuros e tão tremendamente pobres que antecederam o 25 de Abril. A efeméride foi também assinalada pela publicação de uma biografia do escritor, da autoria de Giovanni Ricciardi (Soeiro Pereira Gomes: Uma Biografia Literária) recentemente dada à estampa pela editora Página a Página e apresentada no Museu do Neo-Realismo, em cuja sessão esteve presente o filho de Alves Redol, outro dos expoentes da literatura neo-realista portuguesa. Às vezes, é bom que estes livros retirados das listas de leituras curriculares sejam devolvidos aos leitores para que os mais novos os possam ler e não ignorem aquilo por que passaram os seus avós nem esqueçam que a liberdade de que hoje gozam era então praticamente inexistente.

Comentários



  1. «- Gineto: descobri que as estrelas dormem de dia.
    -És parvo.»

    Soeiro Pereira Gomes em Esteiros.

    Não é dia de Antologia, mas se Ary disse que o Natal é quando um homem quisesse, abusivamente abro excepção para, ao falar-se de «Esteiros» e Soeiro Pereira Gomes, lembrar um preciso livrinho «Eles vieram de Madrugada», que é constituído pelas Cartas para a Clandestinidade, escritas por Manuela Câncio Reis, mulher de Soeiro Pereira Gomes.
    Manuela Câncio Reis faleceu em 8 de Dezembro de 2011 com 101 anos.

    «Estão amarelecidas as folhas dactilografadas que te mandei naquele Outono de 1944, e esbatido pelo tempo o vermelho da tinta com que foram escritas. Estão amarelecidas, e quase ilegível o que te contei. Mas conservam ainda manchas do bolo em que as introduzi. Esse bolo que o forno cozeu e depois foi levado, longe do alcance da PIDE, até às tuas mãos, na clandestinidade.
    Que aperfeiçoasse o que escrevi, desenvolvesse o que pudesse, e depois fizesse «um livro, a publicar um dia», pediste na carta que as acompanhava quando mas devolveste, Já lá vão trinta e cinco anos.
    Não cumpri, então, o teu pedido. E se hoje o faço é porque ele não mais se apagou na minha lembrança. Só que a dúvida persiste. A quem poderá interessar o que a ati tanto interessou? Quem quererá saber, decorridos, o que se passou comigo naqueles meses de Maio e Junho, desde que a nossa porta se fechou sobre a tua fuga, até à minha saída da prisão?
    Seja como for, e embora volvidos trinta anos após a tua morte, as cartas aqui estão, feitas no pequeno livro que desejaste, e que escrevi, com a minha saudade em tua memória.»
    (Dezembro de 1979)

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  2. António Luiz Pacheco18 de maio de 2021 às 02:43

    Faço uma ressalva:
    - O povo português não foi muito pobre antes do 25 de Abril... nunca deixou de o ser aliás, hoje está novamente empobrecido, por anos de má governação e gestão do dinheiro público!
    O povo português era muito pobre durante o Estado Novo, foi muitíssimo pobre durante os anos que se sucederam à implantação da república, pois já era paupérrimo na monarquia... ignoro como seria na época romana e antes disso.
    Portanto a pobreza é endémica, é o estado natural da nossa gente, sempre esmagada com impostos e contribuições que sustentam desde sempre aqueles que a esmagam e no fundo desprezam,
    Há que dar a conhecer, manter viva essa memória e a idéia de que não somos nem fomos nunca um povo rico, fomos sempre pobres e atrasados. Ainda somos... e seremos seguramente. Há que ter essa noção, há que saber como foi, até para que não se caia na tentação do "antigamente é que era" ... era nada! Era a pobreza e sim, a ditadura e a opressão, que aí estão à espreita, patente naqueles que tudo querem proibir e impor o seu pensamento como único. A PIDE já por aí ensaia a sua nova vigilância intelectual e de costumes.
    Poucos lêem, e, aos que lêem apresentam-se sobretudo ficções depressivas com histórias que nada têm a ver connosco, como que a distrair da nossa condição, daquilo que fomos e somos, de onde viémos.
    Portanto sim à leitura de Esteiros, Levantado do chão, Entre Cós e Alpedriz, Vida e morte dos Santiagos e tudo que sejam memórias nossas e da nossa condição de quem "aguenta" como dizia o outro, que neles reside uma nossa riqueza: a lembrança.

    Saudações ricas cá da Cidade Morena.

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  3. As melhores obras do neorrealismo português são, para mim, as pinturas " O Gadanheiro" e "O Almoço do Trolha", de Pomar, e os romances "Barranco de Cegos", de Redol e "O Hóspede de Job", de José Cardoso Pires, mas as imagens que mais fortemente se gravaram na minha memória são as vivências desses meninos dos "Esteiros".

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  4. Curiosamente o livro de Soeiro Pereira Gomes que mais me marcou foi a "Engrenagem", que devo ter lido com uns treze, catorze anos e me marcou bastante por ter sido a primeira vez que tive contacto com as misérias e as mentiras do capitalismo, na bipolaridade campo-cidade, e de como as pessoas para "eles" não contam para nada...

    Dos "Esteiros" ficou-me a felicidade de ter conhecido o grande nadador Baptista Pereira, o herói deste extraordinário esteio do reo-realismo, escrito por um Homem que lutou até ao fim contra o fascismo.

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  5. Bom dia com alegria

    A verdadeira pobreza é a do espírito e das mentalidades.

    Poderemos derramar milhões de euros num país. Tal benesse não muda por decreto um povo. (Vide as epístolas de Séneca a Lucílio)

    No entanto, verdade seja dita, os habitantes deste jardim acumulam a pobreza de espírito com a da carteira (estatisticamente falando, e incluindo-me nelas, nas pobrezas)

    Donde, apesar de considerar a publicação da obra citada extremamente importante, pelo reavivar da memória, não vejo como atingirá o seu público alvo.

    É que 16,6 eur no "país dos matraquilhos" é muito facilmente desviado para outros destinos, menos culturais. "Tipo, mais baris, tás a ver?"

    Qualquer dia arriscamo-nos a ver o IVA dos livros aumentado para a taxa máxima, com o argumento que é um produto de luxo - só os ricos é que compram.

    Metaforicamente falando, claro, apetecia-me comprar o livro (e a sua capa dura) e dar com ele nalguns agentes culturais que não sei identificar, públicos e privados.

    Saúde e Boas Leituras
    cp

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  6. Bom dia!
    E de repente dei comigo a procurar na estante os livros do Soeiro Pereira Gomes. E encontrei!
    Dois volumes pequenos da saudosa colecção dos livros de bolso das Publicações Europa América. Lembram-se? O número 1 dessa colecção são os "Esteiros" o número 50 é a "Engrenagem". Edições de 1971 e 1973. Uma ousadia do editor Lyon de Castro para os tempos que corriam.
    Por considerar extremamente actual refiro aqui a dedicatória da Engrenagem.
    "Para os trabalhadores sem trabalho - rodas paradas de uma engrenagem caduca"
    Com um abraço da margem esquerda do estuário do Tejo.
    A. Delfim

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    1. António Luiz Pacheco18 de maio de 2021 às 04:27

      Viva e bom dia para si também!
      Creio que Lyon de Castro era um opositor, um homem de pensamento livro e não coincidente com o que corria na época... precisamos de Editores assim, com coragem e a visão de editar aquilo que interessa de facto, não apenas o que os marketeiros mandam e quem analisa acha que é o que deve ir para os escaparates! Assim fora, e, se calhar nunca Soeiro Pereira Gomes ou Redol teriam sido publicados!
      Convinha pensar nisso, porque os tiros nos pés são mais do que os dedos!
      Abraço para si, Delfim!

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    2. Há editores e há editores.
      Por norma, são personagens malquistos, há excepçoes,poucas, diga-se.
      A maior parte são comerciantes sem escrúpulos, enganando os seus autores, pagando miseravelmente, principalmente as traduções.
      Numa velha entrevista dada à revista «Ler», Maria Ondina Braga queixava-se dos editores que lhe calharam em (des)sorte:
      «O meu primeiro livro Eu Vim Para Ver a Terra foi um livro que me trouxe grande desgosto: saiu cheio de cortes e gralhas, o editor não me deu para revisão, os caracteres chineses apareceram até ao contrário!
      Traduzi durante mais de dezanove anos, quase vinte, e hoje, ao lembrar-me disso, espanto-me. Traduções que me pagavam um ano e dois anos depois de as ter entregado, que, às vezes, uma editora (pelo menos) não me quis pagar. Isto já sem falar do pouquíssimo que pagavam todas. E não recebia nenhuma percentagem nas edições frequentemente sucessivas, nem quando o editor vendia o livro a uma organização editorial.
      A minha sorte tem sido bem fraca: editores que não pagam os direitos de autor ou pagam apenas uma mínima parte, não dão à Sociedade Portuguesa de Autores a relação dos livros existentes, houve um que fez edições piratas a há depois os que abrem falência, o autor fica separado da sua obra, como aconteceu com a editora dos meus dois últimos livros, não pagou, o caso foi para contenciosos da SPA, que, por sua vez, também nada resolve. Nunca tive um editor que se empenhasse na promoção da minha obra».
      Maria do Rosário Pedreira:
      «Tive de me habituar a outra coisa, essa bem mais difícil, que é a de ter acima de nós pessoas que não gostam de ler, pessoas que não percebem o que é um livro. Isso é dramático.»
      Manuel Alberto Valente:
      «Há 30 anos, os editores procuravam autores. Com a criação dos grandes grupos editoriais e da chamada indústria editorial, a edição começou a procurar o que o leitor quer ler. E porque o que o leitor quer ler nem sempre é o melhor, o nível da edição baixou.»
      Opinião do escritor chileno Luís Sepúlveda:
      «Há cada vez menos editores de verdade e cada vez mais managers que vendem livros como se fossem batatas ou bananas. Eles não falam de livros mas de produtos. Não falam de letras mas de números. Não falam de leitores mas de compradores. Com “yuppies à frente das grandes editoras, geram-se situações canalhas. Oferecem menos dinheiro aos escritores e chantageiam-nos, dizendo-lhes que não faltam escritores que queiram publicar.»
      Na correspondência entre António José Saraiva e Óscar Lopes, Saraiva fala dos problemas que teve com o editor Lyon de Castro por causa da edição da «História da Literatura Portuguesa» (Colecção Saber) e conclui que Lyon de Castro não lidou com lisura com a sua pessoa..
      «Só vejo uma solução para o meu problema com o Lyon de Castro: é desligar-me dele. Até hoje foi o único editor intrujão que tive e já fui editado em cinco casas.»
      Ainda sobre o editor Francisco Lyon de Castro, recorro ao 9º volume dos Dias Comuns de José Gomes Ferreira, numa entrada datada de 22 de Junho de 1970:
      «O Palma-Ferreira apareceu a certa altura do serão em casa do Fafe, nervosíssimo, cheio de notícias e de escândalos imaginários.
      - O Namora vai-se embora da Europa-América, o Lyon de Castro é um malandro, roubou-me cinquenta e tal contos. Não me quer pagar os direitos de autor do meu livro As Eleições de Outubro de 1969 com pretexto de que o compilei durante as horas de trabalho na Europa-América… Ora, tínhamos combinado que descontaríamos essas horas no meu ordenado… É um gatuno, etc., etc. »

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    3. Toda essa gente que o Mário refere está muito bem retratada no grande livro que é "Engrenagem" talvez até, como o Luís Eme muito bem salienta, o melhor livro do Soeiro Pereira Gomes.

      "Esteiros" e "Refúgio Perdido e outros contos" foram os outros dois livros que li deste grande escritor (não sei se terá mais livros editados).

      Vale a pena ler, pois está ali um Portugal (paupérrimo) muito bem retratado, Portugal que, na minha perspectiva, felizmente, já não existe.

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    4. António Luiz Pacheco18 de maio de 2021 às 07:43

      Tens a certeza de que não existe , Severino?
      Olha que eu tenho a certeza de que sim... apesar de andar menos por aí do que andava vão 10 anos, mas sei que ainda existe e até vejo, nesse pouco em que por aí ando. Se calhar a questão reside nos lugares por onde andamos... não falo de miseráveis, falo de pobres.
      Abraço!

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    5. Ó Paxeco mas queres comparar a miséria/fome/injustiça/prepotência que era imposta aos trabalhadores portugueses de então com os -direitos- dos trabalhadores portugueses de hoje? É algo absolutamente incomparável, é um outro mundo, um outro tempo, em que os trabalhadores retratados pelo Soeiro Pereira Gomes eram explorados tão ou mais do que são os trabalhadores "nepaleses" do mundo de hoje!

      Conhecerás certamente esta frase que era efectivamente uma realidade -uma sardinha para três-!

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    6. António Luiz Pacheco18 de maio de 2021 às 09:53

      Pois caro Severino, o que me custa é, precisamente, ter de admitir que HOJE o povo português está ainda e sempre pobre!
      Não te iludas, direitos dos trabalhadores? A fome, injustiça, prepotência... por acaso desapareceram? Mas em que país vives tu? O que dói é que continuam!
      Espera-lhe pela pancada e continua a achar que isso está que é uma maravilha e mais a bazuca e tal...
      Pena é que se ande a escrever sobre fantasias, que faltam os Soeiro Pereira Gomes, Namoras, Ferreiras, Torgas, para hoje escreverem sobre uma imensa mole de gente, o chamado povo, que vive ainda pobremente por essas aldeias, vilas e subúrbios da nossa terra, gente que não conta, feios, mal-vestidos e mal-amanhados, que não interessam a ninguém, apesar de pagarem, de laborarem, de produzirem, de limparem e alimentarem os que se vestem bem, que andam luzidos a despeito de terem créditos atrasados no banco!
      Pois é... como ninguém quer saber deles nem escreve sobre eles, ficam esquecidos, os rapazes das oficinas e as Gisbertas, os irmãos autistas desamparados... etc.
      Abraço circunspecto!

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  7. Há quem tenha ouvido falar em Soeiro Pereira Gomes apenas quando as notícias situam a rua onde se encontra a sede do PCP.
    Como alguém aqui disse, li os Esteiros numa edição de bolso da Europa-América, sendo até o primeiro volume dessa colecção, que tenho quase toda. É uma edição de Fevereiro de 1971 com 175 páginas, vendido com uma capa protectora em plástico, que o meu exemplar ainda tem.
    Tive o privilégio de conhecer e de falar com Lyon de Castro, que elevou a editora a um patamar muito alto, enquanto esteve à frente da Casa.

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    1. Já posso mencionar o A. Delfim, o Extraordinário comentador que referiu a colecção onde foram publicados o "Esteiros" e a "Engrenagem". Este último livro é, de facto, o nº 50 da colecção e tem a particularidade de a editora ter-se esquecido do mês e ano de publicação, o que emendou com a colocação, por carimbo, na contra-capa interior de Out.78 (pelo menos, no meu exemplar).
      Livros maravilhosos. Um autor de grande visão e atento à sociedade, independentemente das convicções políticas que possam estar aderentes à pessoa, nas quais não alinho. Para mim, independentemente da política, um escritor tem a valia da sua obra. E esta é que conta.

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  8. Rosário,

    Acho que era no 7º e não no 9º. Os Lusíadas é que eram no 9º.

    João Moreira

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  9. Vale a pena ler, ler e reler,,
    Obrigado por ter trazido este livro á lembrança,, ,, de quem não se lembra, claro!!!

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