Excerto da Quinzena

Aos sábados, o jantar era sempre o mesmo em Pencey. Era considerado uma coisa do caraças, por ser bife. Apostava mil palhaços em como só o faziam porque havia uma data de pais de alunos que aos domingos iam visitar os filhos, e o velho Thurmer às tantas achava que as mães todas iam perguntar aos seus queridinhos o que tinham comido ao jantar e eles respondiam: «Bife.» Não me lixem. Haviam de ver os bifes. Umas coisas ínfimas e duríssimas que mal se podiam cortar. Davam-nos sempre aquele puré cheio de grumos na noite do bife e à sobremesa um Brown Betty, que ninguém comia, a não ser talvez os miuditos dos primeiros anos- que não percebiam nada de nada - e tipos como o Ackley, que comiam tudo e mais alguma coisa.


Mas quando saímos do refeitório estava bonito. Havia uns dez centímetros de neve no chão e ainda continuava a cair que era uma loucura. Era bonito como o raio, e começámos todos a atirar bolas de neve e a fazer macacadas por ali à toa. Era uma coisa de putos, mas era um gozo bestial para toda a gente.


Eu não ia sair com ninguém nem coisa que se parecesse, por isso, eu e um amigo que pertencia à equipa de luta livre, o Mal Brossard, decidimos apanhar o autocarro e ir até Agherstown comer um hamburguer e talvez ir ver um filme merdoso [...]


 


J. D. Salinger, À espera no Centeio, tradução de José Lima

Comentários

  1. " O momento do aperto de mão foi demorado e vertiginoso, a cronologia distorceu-se no melindre do tato. Saramago sentiu e recordou ao mesmo tempo, presente e passado. As palmas coladas, ligeiro côncavo, as linhas da mão sobrepostas, antagónicas, duas mãos direitas a chegar a lados opostos.
    Saramago perscrutou cada ruga de expressão, cada penugem que foi capaz de distinguir. Douto em múltiplas artes, simulou desinteresse ou desdém para não perder a compostura, preferiu manter o segredo."

    in Autobiografia, José Luís Peixoto,Quetzal Editores, 2019, págs.48-49

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    1. Que grande romance !

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    2. António Luiz Pacheco28 de maio de 2021 às 07:57

      Não li, mas vou seguramente ler!
      Belíssimo excerto, muitíssimo bem escolhido!!!!
      Gand'anónimo!

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    3. Partilho da sua avaliação que romance!

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    4. Já o recente best-seller "Almoço de Domingo", confesso que não passei da página 50.

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  2. " Segue-se de certa certeza a freira do convento de S. Bento da Avé - Maria, Dª. Isabel Cândida Vaz Mourão. Alberto Pimentel descreve-a com traços que levariam um Casanova, se lha tivessem metido na cama com luz apagada, a enjoar mulher para o resto da vida".

    "Camilo não era querido das mulheres, é certo, mas tinha por si o renome de homem desfaçado, faunesco, estuprador de donzelas, amante de freiras, raptor de virgens, susceptível de todas as abominações da carne, para o indemnizar do pouco de "sex-appeal" com que a natureza o dotou".

    Aquilino Ribeiro- O Romance de Camilo vol II

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    1. No fim da sua vida, foi o "faunesco" Camilo castigado pela sua submissão a uma Ana Plácido transfigurada em matrona dominadora, e também pela cegueira e por ter um filho esquizofrénico. Não li, e tenho que ler, a biografia escrita pelo Aquilino.

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    2. António Luiz Pacheco28 de maio de 2021 às 07:59

      E somos dois Extraordinário Artur!
      Abraço Camiliano e Aquilinesco para si!

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    3. Abraço retribuído ! Os dois mais castiços entre os grandes escritores que temos.

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    4. São três volumes que eu já li duas vezes na fascinante linguagem de mestre Aquilino; não se vai arrepender!

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    5. Vou requisitá-los na minha biblioteca pública !

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  3. «Ainda a semana passada o patrão do meu pai o castigou por ele estar a dizer aos que trabalhavam com ele, que deviam pedir mais dinheiro que aquele não era nenhum para demanda da comida e a casa que se tem de pagar. E o patrão do meu pai deixou o meu pai sem trabalho uma semana em que só, só eu como, por assim dizer, por via de estar no asilo que só lá não durmo.
    E a minha mãe fartou-se de moer o meu pai com palavras e choros, homem não te metas nestas coisas, olha o resultado que dá, a gente aqui a morrer de fome e os outros de barriga cheia, que o patrão não os castigou mas só a ti que eras o das ideias.
    Que uma das tarefas dos patrões é a de castigar os empregados e a tarefa dos empregados é a de trabalhar para os patrões a fim de estes ficarem mais ricos e mais patrões. Talvez eu um dia case com um patrão.
    A verdade é que isso não quer dizer nada, pois quando o meu pai vem bêbado e bate na minha mãe, grita: aqui eu é que sou o patrão. E ela cala-se e põe-se a chorar baixinho.»
    Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa em «Novas Cartas Portuguesas», pág. 293, Editorial Futura, Lisboa, Maio de 1974.

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    1. Um belo exemplo da vida e maneira de pensar opressiva do antigamente, de antes do 25 de abril. Não é que tenha desaparecido totalmente, mas o ar que se respira agora não tem nada a ver com o ar sufocante e bafiento com que se era obrigado a viver naqueles tempos. E eu lembro-me bem como era.

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    2. Eu ignorante me confesso, não é que nesta minha grande e total ignorância pensava eu que estas 3 Marias só queimavam soutiens...

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    3. António Luiz Pacheco28 de maio de 2021 às 08:00

      Do "antigamente"? Ó Artur, o Caro anda distraído? Eheheh!

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    4. António Luiz Pacheco28 de maio de 2021 às 08:01

      Semos dois, ó Extraordinário Severino!
      Faço minha a tua surpresa... cuidado que ainda nos vão chamar coisas feias...
      Eheheh!
      Abraço!

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    5. Eu lembro-me de, adolescente ou jovem adulto, ir ao café com o meu pai para nos encontrarmos com os meus tios e, frequentemente, um deles sussurrar: "fala mais baixo porque aqui ao lado estão com muita atenção ao que dizes..." Pelo menos isso acabou !

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  4. "Tens a certeza disso, Juanito? Um caçador pode ir à caça e disparar contra um vulto à distância. Mata inadvertidamente um rapaz que dormia no meio do mato no bosque e nem sequer grita quando é atingido pela bala, morre em sonhos; o caçador não toma conhecimento do que fez, pode não chegar nunca a saber, mas está feito: o rapaz não morreu por si só. Um condutor atropela um transeunte uma noite, dá-lhe uma pancada, está com pressa ou tem medo ou vai bêbado, mesmo assim trava um pouco, hesitante; vê pelo espelho retrovisor que a sua vitima se levanta cambaleante, não foi coisa grave, respira descansado e segue em frente. Passados poucos dias uma hemorragia interna leva o pedestre ao tumulo, o condutor não toma conhecimento, pode não chegar nunca a saber, mas está feito, o transeunte não morreu por si só"

    Excerto do livro: "Amanhã na batalha pensa em mim" de Javier Marias. Traduzido por Maria do Carmo Abreu.
    (E o que eu gosto de encontrar um livro que literalmente me arrebate!)
    Celeste Silveira

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    1. António Luiz Pacheco28 de maio de 2021 às 08:03

      Muito bom!
      Gostei... sou caçador e condutor, nunca matei nenhum rapaz a tiro, tão pouco atropelei, mas entendo perfeitamente a analogia aliás muito bem conseguida!

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  5. “Thomas Wolfe avisou, no título de um grande romance americano, que “não se pode voltar para casa”. Gostei do livro, mas nunca concordei com o título. Acho que nunca se pode sair de casa. Acredito que as sombras, os sonhos, os medos e os dragões da nossa casa estão sob a nossa pele, nos cantos dos nossos olhos e possivelmente nas cartilagens das nossas orelhas.
    A nossa casa é esse sítio vigoroso onde uma criança é o único habitante realmente vivo. Os pais, os irmãos e os vizinhos são aparições misteriosas que entram e saem e fazem coisas estranhas e insondáveis à criança e em torno da criança, que é o único cidadão de pleno direito daquela região.
    (…)
    Estou convencida de que a maioria das pessoas não cresce. Arranjamos lugar para estacionar o carro e pagamos os cartões de crédito. Casamos e atrevemo-nos a ter filhos - e chamamos a isso crescer. Acho que o que fazemos é sobretudo envelhecer.”

    Maya Angelou, “Cartas à Minha Filha”, tradução de Maria do Carmo Figueira

    Filipa

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    1. António Luiz Pacheco28 de maio de 2021 às 08:05

      Muito bom também! Gostei... e senti cada palavra, se bem que eu fosse obrigado a tornar-me uma espécie de domador de dragões, a vencer medos e isso tudo. Talvez por isso faça tanto sentido o que li.

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  6. «Agora, cada impressão se acentuava, cada fibra minha se achava singularmente consciente: visão, audição, odor, todos os meus sentidos pareciam de certa forma aguçados.
    Todos exceto o tato: não sentia o chão sob os meus pés. Magnus tinha-me avisado. Dissera-me: “Não sentirás o teu corpo entrar em contacto com objetos inanimados. Caminharás, pararás, sentar-te-ás, roçá-los-ás, mas não sentirás nada. Não te preocupes. O próprio facto de poderes deslocar-te sem experimentar qualquer sensação é metade do encantamento.”
    Evidentemente, eu tomara aquilo como um gracejo, um suborno da minha curiosidade para me instigar a fazer a experiência. Agora constatava que ele tinha razão. Comecei a avançar, e foi uma sensação inebriante, pois parecia mover-me sem esforço, sem contactar com o solo.»
    In “A casa na praia”, Daphne du Maurier, Editorial Presença, págs. 9-10, tradução de Manuela Madureira
    (por falar em livros que nos arrebatam – este sugou-me)

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    1. António Luiz Pacheco28 de maio de 2021 às 08:07

      Gosto de Daphne di Maurier! Não conhecia esse livro, mas parece-me que trata de uma iniciação à viagem astral?
      Fica na lista das leituras...
      Grato!

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  7. «A certeza estava para a curiosidade como o Sol para as asas de Ícaro. Se uma brilhasse com demasiada intensidade, a outra não podia sobreviver. Com a certeza vinha a arrogância; com a arrogância, a cegueira, as trevas; e com as trevas mais certeza. A isto chamava ele “a natureza invertida das convicções”.»

    ("Três Filhas de Eva", Elif Shafak)

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    1. António Luiz Pacheco28 de maio de 2021 às 08:07

      Nunca ouvi falar !
      Obrigado Extraordinário Luis Eme!

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  8. “Olá. Estás bem disposto? Como te chamas? Pedro? Ó Pedrocas…” Romana fala com os espectadores, agora com um rapazito das primeiras filas, depois de ter entrado no palco aos saltos, com duas bailarinas e música em playback. “És tímido Pedrocas? Vou-te fazer uma declaração de amor, tens de aguentar, olhos nos olhos”. E começa a canção: “Não és homem para mim, eu mereço muito mais…”
    Paulo Moura, “Longe do Mar”, edição Fundação FMS

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    1. António Luiz Pacheco28 de maio de 2021 às 08:08

      Sim , belo livro!
      Bem escolhido o excerto!

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  9. ‘’como serei daqui a quinze anos, avelhentado, no mesmo quarto, com a mesma Matriona, a quem os anos não tornaram mais esperta.
    Mas não guardo ressentimento no tocante à Nástenka! Nunca me passaria pela cabeça obscurecer com uma nuvem sombria a tua felicidade serena e límpida, nem, com uma acusação amarga, encher de angústia o teu coração, feri-lo de secretos remorsos e obrigá-lo, no momento da felicidade, a bater com mágoa, nem pisar nenhuma daquelas ternas flores que entrelaçaste nos teus caracóis negros quando subiste com ele ao altar.... Oh, nunca, nunca! Que seja límpido o teu céu, que seja claro e sereno o teu sorriso, que para sempre sejas louvada pelo minuto de alegria e felicidade que levaste a outro coração, solitário e agradecido!
    Meu deus! Um minuto inteiro de felicidade! Será pouco, mesmo que tenha de dar para toda a vida de um homem?...’’


    Dostoiévski, Noites Brancas, tradução de Nina e Filipe Guerra

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    1. António Luiz Pacheco28 de maio de 2021 às 08:09

      E como não gostar... sublime D. apesar de não ter lido este, é sempre belíssimo!

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  10. SURPRESAS DA PESCA
    Não tinha dado nada.
    Preparava-me para voltar para casa, mas resolvi atirar a linha uma última vez.
    Senti um esticão bem forte. Segurei firme e comecei a enrolar o carreto com cuidado, devagar. E não é que vejo vir um nazi no anzol! Um nazi bem bom, dos grandes! Fiquei admiradíssimo, tinham-me dito que já não havia. Tratei de o tirar com o auxílio do camaroeiro e fui verificar imediatamente. Era mesmo. General e SS, calculem! Com boné, medalhas, suástica e tudo. Vá lá uma pessoa acreditar no que lhe dizem! Meti-o logo numa lata, enquanto estava fresco, e despachei-o para a Peixaria Nacional. Lá devem saber o que fazer com ele. A mim, francamente, não me serve para nada.
    Mário-Henrique Leiria – CONTOS DO GIN-TONIC E.E. / 1973
    //ACCarvalho

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    1. António Luiz Pacheco28 de maio de 2021 às 08:10

      Ahahahah!
      Já não me lembrava deste clássico, icónico da minha (nossa?) geração!
      A ler, imperdível!

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  11. eles marcham sobre a terra, sob a terra, em farrapos, descalços, com os filhos ao colo, deixando os filhos mortos pelo caminho e, mesmo assim, fazendo filhos, os muros estão ruindo, as cidades estão ruindo, nuvens de fumo crescem no horizonte, é preciso cantar, é só o que lhes falta, o que nos falta, estás cantando, canta!, canta!, haja o que houver este minuto é nosso, já nada pode apagá-lo felizmente, bastam uns pratos, uns copos, alguns talheres, uma estante para os livros, uma mesa e uma cama, tem de ser, mas não dizemos cama, dizemos um sítio para dormir. Como? Quando? Era tão fácil receber, a família, pois é, essa grande construtora de ilhas, disposta a pagar tudo, basta só desistir dessas ideias que o tempo, tu verás, há-de apagar, viver com ela, para ela, pelo menos como ela, a grande construtora de ilhas, que vai ficar ofendida porque não pagou tudo, perde os direitos de quem deu, vê-se excluída, expulsa, explorará até ao fim, de livro de cheques na mão, a tua sensibilidade, «para isto se cria um filho, agora que estamos velhos, aqui está o pagamento de tantos sacrifícios, desgostos, desistências», mas receber de graça é para nós indigno, desfaz esta alegria esfuziante, furiosa, indispensável da liberdade total, da liberdade de escolher o bom ou mau caminho, o triunfo ou a derrota, o nosso triunfo, a nossa derrota, isso que faz da vida este delírio imenso, aberto, transbordante, canta!, canta!, que permite defrontar o medo, ser maior do que ele, apaziguar de algum modo a grande chaga que nos mina e minará (mudar de pele é impossível e isto está presente, morde mais fundo ainda do que a pele) de termos nascido aqui, onde tudo é fácil e afinal tranquilo à custa dos que sofrem ou nem chegam a sofrer, agradecendo humildemente um pão que lhe atiramos, sem chegarem talvez a dar por isso, porque nasceram por acaso noutro lado.
    Mário Dionísio, não há morte nem princípio, P.E.A. 1969.
    //ACCarvalho

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    1. António Luiz Pacheco28 de maio de 2021 às 08:11

      Extraordinário excerto!
      Não conhecia , nem obra e nem autor...

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  12. " Dado que tem de acontecer, aconteça então!", pensou Amadeu atirando-se para a frente com o livro na mão, um dedo entre as páginas; e aquilo que lia naquele olhar-repreensão, comiseração, falta de coragem, como lhe quisesse dizer: "Estúpido, fazemos sempre assim, mesmo que não seja necessário, mas tu não compreendes absolutamente nada, nem tu nem os outros...", isto é aquilo que não lia porque não sabia ler nos olhos, mas apenas indistintamente perceber, provocou-lhe um momento de tal transporte para com a mulher que, abraçando-a e caindo com ela no colchão, apenas voltou a cabeça para o livro não fosse ele cair ao mar.". In "Os Amores Difíceis", de Ítalo Calvino, Ed. Arcádia, Lda, 1968.
    Porque hoje é um dia de convites, parece-me, deixo este excerto de um livro de Contos, excelente. Que todos os extraordinários tenham os melhores convites. Dina Alenquer

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    1. António Luiz Pacheco28 de maio de 2021 às 08:12

      E deixou muitíssimo bem!
      Belo excerto!
      Grato.

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  13. [...] cuspi três forte no chão, e risquei de mim Diadorim. Homem como eu não é todo capaz de guardar a parte de amor, em desde que recebe muitas ofensas de desdém. Só que, depois, o que há, é a alma assim meio adoecida.
    Guimarães Rosa - Grande Sertão : Veredas

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    1. António Luiz Pacheco28 de maio de 2021 às 08:15

      Uma bomba!
      Este livro que me foi trazido ao conhecimento aqui no Horas, foi dos melhores que já li!
      É uma outra dimensão, como é o do centeio... ou Aquilino, e por aí fora.
      Que Extraordinários livros há!

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  14. António Luiz Pacheco28 de maio de 2021 às 07:56

    Tenhem lá pacêuncia... estes escritores amaricanos do realismo ó lá o que é, são o máximo!
    Isto par'mim... traça literateira!
    Que grande livro este do centeio e do Salinger, como dos outros todos. Caganda'scritores!
    Desculpem qualquer coisinha...

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  15. Cuspi três *vezes*. Peço desculpa pela falha.

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  16. Olá. Boa tarde!
    Por estes dias ando, ainda, a ler " Gente acenando a alguém que foge" de Paulo Faria, numa edição da Minotauro de Fevereiro de 2020.
    Carlos,a personagem principal do livro vai a Moçambique,50 anos depois do pai ali ter estado durante a guerra colonial.
    Mas não é deste livro que eu apresento um trecho.
    Falamos de Moçambique, falamos de guerra,falamos dos acontecimentos que têm transformado a província de Cabo Delgado num inferno.
    O Público na sua edição de 1 de Maio, publicou uma reportagem sobre a situação na cidade de Pemba.
    O texto é da autoria de António Rodrigues e as fotos de Paulo Pimenta.
    Porque considero um texto muito bom que me atrevo aqui a publicar alguns trechos dessa reportagem.
    (...)
    Na areia de Paquitete, dois dos jovens que arribaram no barco adornado sobre o musgo aguardam o seu destino. Um deles, resguarda-se dos raios do sol deitado na areia e coberto dos pés à cabeça num pano colorido, o outro aguarda sentado junto a dois baldes de plástico. As pessoas do bairro esperam pelo final, espreitando de longe porque as autoridades não querem ninguém muito perto, especialmente os jornalistas.
    A certa altura, os dois são mandados levantar e ambos, olhar triste, movimentos lentos, guardam os seus haveres nesses baldes plásticos que parecem ocupar o lugar de malas de viagem, e são obrigados a caminhar na areia com dois militares atrás que de vez em quando lhes estugam o passo- ríspidos, mas sem qualquer violência.
    (...)
    Eram apenas dois jovens perdidos caminhando na areia como quem carrega um peso incomensurável nos ombros. Um deles quase parecia chorar, tal o marejar dos olhos e o arquear das costas: uma corcunda de tristeza que arrastava com dificuldade pelo areal.
    (...)
    "Quando vi gente na praia, senti pena, porque estavam a dormir na areia" diz. E resolveu levá- las para casa. Fê-lo não só porque um dos pilares do Islão é o da caridade , também o fez, simplesmente, por ser humano fazê-lo, todas aquelas crianças, sózinhas. Mesmo que as condições que lhes tenha para dar, sejam as mesmas em que a sua própria família vive, sejam as mínimas: quando chove todos se erguem e ficam de pé. "
    Se possível leiam toda a reportagem. É quase um livro.
    Daqui do lado esquerdo do estuário do Tejo e até ao Rovuma, um grande abraço.
    Fiquem bem.
    A. Delfim

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  17. Santiago, ao contrário do que nos contavam no exílio, mostrava-se uma cidade resplandecente com os seus veneráveis monumentos iluminados, e as suas ruas limpas e em ordem. Os instrumentos da repressão eram menos visíveis do que em Paris ou Nova Iorque. A infindável Alameda Bernardo O’Higgins abria-se diante dos nossos olhos como uma torrente de luz, a partir da histórica Estação Central construída pelo mesmo Gustave Eiffel que fez a torre de Paris. Até as putazinhas tresnoitadas do passeio oposto tinham um ar menos indigente e triste do que noutros tempos. Breves momentos depois, apareceu do mesmo lado em que eu ia sentado o Palacio de la Moneda como um fantasma indesejável. Da última vez que o vira era uma velha casca coberta de cinzas. Agora restaurado e novamente ao serviço, parecia uma mansão de sonho ao fundo de um jardim francês.
    (…)
    Á medida que nos aproximávamos do centro da cidade, desisti de olhar e admirar o esplendor material com que a ditadura tentava apagar o rasto sangrento de mais de quarenta mil mortos, dois mil desaparecidos e um milhão de exilados. Detinha-me agora nas pessoas, que andavam com uma pressa invulgar talvez pela proximidade da hora do recolher. Mas não foi só isso o que me comoveu. As almas estavam nos seus rostos sacudidos pelo vento gelado. Ninguém falava, ninguém olhava numa direcção definida, ninguém gesticulava nem sorria, ninguém fazia o menor gesto que traísse o seu estado de alma dentro dos casacos escuros, como se todos estivessem sozinhos numa cidade desconhecida. (…)
    Gabriel Garcia Marquez «A Aventura de Miguel Littin, Clandestino no Chile», Publicações D. Quixote

    Jorge M.

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  18. Maria João Lourenço
    E o que é que recordamos, no fim de contas, quando toda a gente voltou para casa e a centelha da devoção e da esperança se apagou nas ruas varridas pelo vento ribeirinho? A recordação é escassa e amarga e envergonha-nos com a sua falsidade intrínseca – toda feita de subtis cambiantes, mera silhueta saudosa? Ou o poder da transcendência perdura, a perceção de um acontecimento que viola as forças naturais, uma coisa sagrada que pulsa no horizonte abrasado, a visão que desejamos ardentemente porque precisamos de um sinal que se erga contra as nossas dúvidas?

    O Anjo Esmeralda, de Don DeLillo, Sextante Editora, tradução de Paulo Faria

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