Rasgos

Voltei a ser cronista, desta feita no jornal Mensagem. Quinzenalmente, recordo a Lisboa da minha infância e falo do que me faz saudades, baseando-me em histórias de família, muitas delas relacionadas com a minha mãe (talvez seja por isso que lhes pus o título genérico «Cidade-Mãe»). Gosto muito de crónicas, também como leitora, e na minha geração não posso deixar de mencionar as crónicas diárias de Eduardo prado Coelho no Público, cultas e leves ao mesmo tempo, e as semanais e modernas que celebrizaram Miguel Esteves Cardoso n'O Independente. Ele hoje escreve diariamente uma língua no Público, o que torna mais difícil manter aquele seu estilo de página inteira, mas às vezes ainda é tão bom como antigamente; um dia destes, elogiando o Diário de Lisboa, por exemplo, teve um desses rasgos e escreveu: «Se tirássemos o Diário de Lisboa do fio da história do jornalismo em Portugal, desmanchava-se a manta toda e ficávamos com os joelhos a bater nos cotovelos [...]» São frases assim que às vezes fazem a beleza de uma crónica e nos arrastam ao longo do texto. Ainda hoje temos cronistas muito bons (o escritor Afonso Reis Cabral está a começar mas já promete muito, assim como a escritora e crítica Ana Bárbara Pedrosa, cujo humor é impagável), e o nosso MEC é só um deles.

Comentários

  1. Cara Maria do Rosário. Não estivesse o mercado "literário" e os circuitos tão sequestrados pelo poder de mercado de tão poucos, a muitos outros - de tanta ou mais excelsa qualidade - não estaria vedado entrar nos circuitos, não estando o circuito reservado a eleitos. Ainda ontem acabei de ler mais umas crónicas do ex-embaixador Marcello Mathias; e, que profundidade, cultura e primor encontrei face a tanta leveza e simplicidade imposta, que por aí circula, como "borbotões ou coágulos" que impedem pelo monopólio uma melhor fluência da circulação literária. Ontem ouvi a sua participação no debate da Casa Fernando Pessoa, concordando com muito do que disse, discordando apenas da sua afirmação do «mundo cão em que vivemos». É que a existência desse «mundo cão» está nas acções ou omissões que temos face a esse mesmo mundo. Muitos anos passados sobre o 25 de Abril, aos escritores exige-se, face a este monopolismo do mercado literário, um grito de indignação e liberdade.

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    1. Eu sei que esteve, sim, e que aquela pergunta foi sua. Pela parte que me toca, não creio que as minhas «acções» e «omissões» sejam responsáveis pelo tal «mundo cão». É mesmo uma coisa dos tempos em todo o mundo e o que faço na maioria das vezes é lutar contra isso. Não percebi por isso o seu comentário. Bom Dia do Livro!

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    2. Cara Maria do Rosário: se o faz, faz bem. Mas terão o mesmo entendimento, não editoras como a Maria do Rosário, casas editoriais monopolistas como a Leya ou a Porto? Para a percepção do meu comentário e com sua autorização - a casa é sua - passo a explicar: Num debate promovido pela casa Fernando Pessoa sobre «como chegaram os livros a quem os lê neste confinamento» — onde participou a Maria do Rosário Pedreira, aparentando vestir mais o seu fato de editora (ou leitora profissional, como se assume) do que de poeta e escritora, foi lançada a seguinte pergunta. «Qual o lugar dos independentes na literatura portuguesa actual?»
      A resposta da Rosário pode resumir-se no seguinte, começando pela sua afirmação — denotando aparentemente alguma inevitabilidade e conformismo (realismo? sem dúvida!): «Vivemos num mundo muito cão, sendo cada vez mais difícil publicar um livro por falta de distribuição alargada. Não conseguirá o independente (obviamente, das editoras) entrar nas grandes cadeias, se esse independente for um escritor que se auto-publica. Nunca sendo criticado ou recenseado (não será o público o melhor crítico do escritor?) tem pois um papel (desafio?) muito difícil. Só conseguirá afirmar-se como escritor se tiver tempo e disponibilidade para se auto-impor, através das bibliotecas ou idealizando programas que o aproximem do público. De outro modo ficará na ignorância do mesmo. A menos que tenha a «sorte?!» de um académico (?) que fale dele. O escritor independente só se pode afirmar nas redes sociais. O comércio não está neste momento construído a pensar nesses objectos únicos, sozinhos (verdadeiramente livres?) que não vêm de uma distribuidora. É o mundo em que vivemos. Não há volta a dar». E, sugere aos criativos independentes: «tentarem concorrer a prémios, forma de chegar o livro aos principais pontos de venda, pois são as editoras que os mandam (promovem?!) aos críticos e jornais. Finaliza a Rosário, pessimista: «Não tenho ideia que se possa fazer grande coisa mais», chegando a afirmar «não ter dúvidas de haver muito boa literatura que fica nas gavetas», mesmo se, num aparente regresso a uma constatação de certo modo dúbia, afirme que é cada vez mais difícil encontrar (nos jovens?) qualidade.

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    3. Nas redes sociais, mas de forma mais abrangente, também António Carlos Cortez se queixa da actual perda do livro, focando-se muito na perda das humanidades, no panorama de um mundo novo carregado de novas fórmulas e novas “entidades” como o digital.
      Também José Couto Nogueira a um convite para participar numa edição auto-editada colectiva, de “Autor para Leitor”, afirmou, declinando: o “mercado” não vê com bons olhos a auto-edição. Pudera!
      A análise destas duas “preocupações” — sobre o tal novo mundo para que caminhamos, necessariamente diferente do passado — exige pois que se aborde esta temática de uma forma cada vez mais abrangente, mas visualizada sobre os diferentes actores. Neste mundo tão fechado e claustrofóbico em que se colocou o livro — como tantas outras actividades humanas — neste mercado de oferta e procura cada vez mais desequilibrado, monopolizado por poucos, “mercadejado”, não haverá necessidade de uma abordagem através de fórmulas novas, não repetindo à exaustão aquilo que aparentemente não faz efeito ou traz nada de novo? Não haverá por parte das casas editorais, as maiores sequestrando o mercado, a distribuição, o gosto, transportando tantas vezes um “petit” cinismo muito próprio do «é a vida!» — verdade, mas apenas a sua!, confundindo esse sequestro com falta de qualidade — uma responsabilidade particular na não transposição de novas fórmulas, na procura e assumpção de uma literatura nova, diversa, na não "dação" ao leitor de objectos literários senão os constantes, usuais, os marcados pelo passado? Na transformação, pois, da literatura em mercado? No "mercadejar" incessante do livro, consagrando a este «mundo cão», tão diferente da substância essencial da literatura, a liberdade e diversidade criativa só sujeita ao verdadeiro grande inquisidor… O Leitor final!
      Não pode, pois, o mercado, continuar a afirmar a decadência do livro e da leitura (será real essa decadência ou apenas uma alteração e uma análise centrada e focada nos actores usuais?) sendo incapaz de novas fórmulas e novas relações baseadas na liberdade, universalidade e diversidade do objecto e não no mercantilismo puro. Será que o livro — como bem pergunta António Luiz Pacheco —, chega aos leitores sem chegar às pessoas? No mundo do livro — à imagem de outros mundos — a existência de entorses e problemas só se arrasta se nenhum de nós for capaz — como sujeitos e actores activos — de dar passos noutro sentido. E mantivermos uma atitude passiva. Tornando-nos tantas vezes cúmplices por comodismo, omissão, passividade, assumpção de inevitabilidade.
      Por mim, declino esses papéis!

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    4. Estão estas temáticas tão bem explicadas e ilustradas no livro do João Tordo "Manual de Sobrevivência de um Escritor" ! A realidade é dura e não vale a pena culpar os editores. O sucesso de um escritor no mercado é muitas vezes um mistério. Pessoa só viu publicado em vida o seu "Mensagem" que hoje é, injustamente, menosprezado relativamente ao "Livro do Desassossego" ou à poesia de Álvaro de Campos. O mercado foi-lhe injusto em vida, mas vingou-o postumamente. Para bem de Pessoa, oxalá haja vida depois da morte.

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    5. São as crónicas do Mário de Carvalho no JL aquelas de que tenho mais saudades.

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    6. Caro Pedro, você tem o privilégio de ser dotado de um talento superior, o talento daqueles que escrevem com estilo literário original. Como dizia o Saramago, para escrever um bom romance, 75% vem do estilo e da voz do autor e só 25% decorre da temática escolhida. O seu êxito literário está ao virar da esquina.

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    7. António Luiz Pacheco23 de abril de 2021 às 04:05

      Apoiadíssimo!

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    8. Caro Artur. Mas há mistérios que são decifráveis. Desde que me dediquei à investigação que sei que uma análise cuidada "documental", de um corpus complexo como é o social, traz sempre ao de cima recorrências, regularidades. Aquilo que se procura não é um ajuste com as "estórias", mas a compreensão da realidade e a afirmação da verdade e das coisas "intransparentes" no seu devido tempo.
      A história da literatura está cheia de casos de autores da espuma dos tempos, desaparecidos no tempo e espaço e vice-versa. Agora como historiador — numa outra vida como economista, naquilo que é apenas outra visão do social —, sei bem dos processos de uma realidade social complexa. Mas como escritor independente e associado da APE — dou-me de facto mal com a proletarização e assalariamento dos autores — sei também da minha responsabilidade para com a denúncia daquilo que penso incorrecto e que está nas nossas mãos pelo menos tentar alterar. A capacidade de reflexão do escritor serve, para mim, acima de tudo, para exercitar a consciência do bem comum, afastando os tantos males e entorses criados por uma construção humana: o mercado. O Homem não pode, nem deve ser visto apenas como uma mercadoria, como um traficante de interesses, a economia devendo ser apenas um instrumento para a resolução do social; e, muito menos usada como açambarcamento.
      Artur: o sucesso de um escritor no mercado do livro — cada vez menos lugar literário — passa em primeira instância por contrariar uma visão monopolista do mesmo e em assumirmos que há muita qualidade fora do "mainstream". E que a escolha que se faz de muitos eleitos na edição não tem que ver exclusivamente com qualidade, mas com razões muitas vezes sobrelevando de outras condições. Nada diferente do "mercado político"! Assuma-se estes postulados, a diferença, o confronto de opiniões. Assuma-se, também, que o profissionalismo da edição não significa muito mais do que um gosto pessoal, não o deixando enquistar — o excesso de leitura também distorce. Não colocando como inabilitados todos os que por opção pessoal, gosto ou excesso supranumerário se vêem de fora da opção editorial. De modo a não fazer passar a mensagem que a qualidade reside apenas nos "eleitos" e não que a opção pela edição é cada vez mais um poder editorial vergado por uma difusa análise de marketing.
      Colocar a literatura nas mãos do mercado é não possibilitar aos leitores de outras "escritas", muitas vezes mais cheias de substância do que muita da literatura leve, cor-de-rosa e recorrente, que quer ser cânone.
      Exija-se ao Estado, àquele que deve defender o bem comum que, a bem do leitor e do seu direito à diversidade, intervenha e corrija estas imperfeições do mercado livreiro; e, faça-se outra coisa: assuma-se que o confronto de opiniões não significa cavar trincheiras, mas um levantar de problemas concretos com vista ao estancar da perda pronunciada de leitores, que pode ter todos os motivos do mundo, até opções editorais erradas.

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    9. António Luiz Pacheco23 de abril de 2021 às 05:21

      Extraordinária reflexão e conclusão... permitam-me!

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    10. Caro Pedro, os seus argumentos são imbatíveis, os seus objetivos mais do que louváveis, mas a minha perspectiva, se quiser a de um "vencido da vida", é que há lutas em que os obstáculos são tão invencíveis como moinhos de vento. E depois, para consolar (mal) aqueles criadores que têm as portas editoriais fechadas, há as alternativas de publicação digital, ainda que, segundo o João Tordo, seja uma pura perda de tempo. Muito obrigado por todas as suas sábias reflexões e pelos belos textos que tem oferecido aos frequentadores deste blog ! E espero que um romance seu seja em breve publicado e que se torne num merecido êxito editorial. Receba um abraço deste seu admirador.

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    11. Obrigado, Artur, grande abraço.

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    12. Excelente reflexão!

      Penso que uma das formas de contrariar a tendência corrupta ao mainstream, é fazendo chegar, de forma acessível e despretensiosa, pelo menos as mais importantes, emblemáticas e avassaladoras obras da literatura mundial - aos mais jovens. É aí que a coisa começa. É a única forma que consigo idealizar de "cortar" o mal pela raiz. Se o marketing conspurcura e molda as mentes e gostos amorfos da geração atual, que sejam as vindouras a reformular o valor e a importância do próprio marketing na vida e na sociedade. Que sejam eles a encontrar nos "tops" das livrarias, porcarias e obras sem valor, comparadas com as que viram ou leram com fácil acesso nas suas juventudes. Eu apaixonei-me por literatura, há vários anos, porque os únicos livros que me chegavam às mãos, e a um preço justo para meus pobres bolsos de estudante, eram, curiosamente, os grandes clássicos. Claro que isto não aconteceu em Portugal. E claro que depois disso, nunca mais acreditei nos tops de vendas, e tão pouco no valor das massas. O mesmo se passa com o cinema. A cultura que não é acessível ou apelativa aos jovens, perpetuará este ciclo vicioso e hipermonopolizado. Haverá sempre menos leitores, menos jovens escritores, e um ciclo cada vez mais restrito para quem estas questões são pertinentes, levando a que se tornem, por fim, secundárias.

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    13. António Luiz Pacheco23 de abril de 2021 às 10:03

      Totalmente de acordo!
      Aliás foi assim, era assim... porque não haveria de ser?

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  2. Bom dia com alegria

    Com muita pena minha não consigo ver o debate de ontem, eu, um auto-excluído do "Livro das Caras".

    Fazendo uma súmula daquilo que, imagino, tenha sido debatido, venho por esta forma deixar um referencial que, a ser atingido, poderá resolver o problema do livro em Portugal:

    - no dia que a tiragem do Público fôr dez vezes superior ao Correio da Manhã, a procura estará em condições, pelo seu grau de exigência, de depurar a qualidade daquilo que é publicado neste jardim á beira-mar plantado.

    Citando António Guerreiro, na sua crónica semanal: "Portugueses, mais um esforço"!

    Saúde, bom fds e boas leituars
    cp

    PS: Declaração de interesses: não possuo qualquer tipo de participação accionista na SONAE, nem me encontro de algum modo relacionado com este universo empresarial

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    1. António Luiz Pacheco23 de abril de 2021 às 04:22

      Deus nos livre que a tiragem d' O Público apanhe a do Correio da Manhã... porque isso significaria certamente a queda na qualidade da publicação...
      Agora deixe-me explicar o meu ponto de vista, contrário ao seu:
      - Sou popular, não sou populista no sentido político, e, assumo que nós o povo, temos mau-gosto, somos pirosos, comemos coisas que só nós e de um modo geral temos uma cultura que é a nossa, porém julgada inferior, desprezada por aqueles que tendo a sorte de terem ido mais longe nos estudos, na presunção da sua evolução assim o determinam!
      Não me custa assumir a minha suposta inferioridade cultural de barrão, ruralista portanto, apreendida nos lagares de azeite e de vinho, nas feiras, corridas de toiros e por aí... mas esclarecida porque também frequentei outros lugares, cultos, sofisticados, evoluídos, portanto é uma escolha livre e consciente, na qual tive outras opções. Mau-gosto meu, dirão... aceito que sim, mas é o meu e sou livre de o ter, quantos terão tido o privilégio de escolher assim?
      O que me custa é haver quem se alcandore a uma superioridade qualquer, de presumido gosto, cultura ou sofisticação, quando bem sabemos quão vã é a condição humana e estas presunções.
      A sociedade é como um bolo de camadas, ou um cozido à portuguesa, feita de estractos, onde todos têm lugar, vez e sobretudo utilidade! Fôramos todos cultos e sofisticados e não havia canalizadores, pessoal de limpeza, portageiros, hortelãos, vindimadores, apanhadores e vendedores de castanhas.
      Essa a razão porque há o Correio da Manhã e O Público, pela diversidade que é a maior maravilha da humanidade, que não tem de se desprezar nem digladiar entre si. Tem de tolerar, de conviver e respeitar o espaço uns dos outros, eventualmente até comungar nalgumas coisas, que pode muito bem ser o CR7!

      Não se amofine comigo, não o estou a desclassificar ou tão-pouco a atacar, apenas discordo e justifico porquê. Gosto muito de o ler e de falar consigo, peço-lhe que entenda isso!
      Grande abraço cá da Cidade Morena!

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    2. Meu Caro,

      A ideia foi talvez mal expressa: o desejo era ver o nível de exigência dos leitores a aumentar, não o nível das publicações a descer...

      De tudo o mais que sobre este post foi escrito, só vejo uma saída: educar os mais novos de forma apropriada, de maneira a termos uma camada da população mais robusta, menos amorfa, mais crítica.

      Acredito que, com mais e melhor Educação, o nível de exigência faria o mercado ajustar-se. (Havendo sempre lugar para o Correio da Manhã (ou da Manha) e outras publicações, nada contra a pluralidade de opiniões e gostos)

      E Educação, entenda-se, em diversos domínios, não só nas Letras, mas também na Matemática, na Filosofia, na Informática, na Ética, e por aí fora.

      Em resumo, costuma-se dizer que cada sociedade tem os políticos que merece.

      Mesmo reconhecendo o poder excessivo de mercado de alguns intervenientes, acho que o mesmo se aplica a qualquer mercado, inclusive o dos Livros.

      Agora tenho de ir fazer o jantar...

      Saúde, bom fds e boas leituras
      cp

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    3. António Luiz Pacheco23 de abril de 2021 às 13:04

      Bom proveito!
      Abraço cá da Cidade Morena, também já jantei!

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  3. António Luiz Pacheco23 de abril de 2021 às 04:32

    Crónicas!
    Eu gosto muito de crónicas. As crónicas são úteis pois constituem muitas vezes relatos do dia-a-dia que promovem idéias e suscitam reflexões, que nos ajudam a conhecer o quotidiano de pessoas ou mesmo povos.
    Quando as crónicas são escritas por pessoas de qualidade, humana e não apenas literária, tornam-se pequenos manuais instantâneos de bons sentimentos e do pensamento.

    Isto assim escrito, até parece uma redacção da quarta classe há 50 ou 60 anos, mas é o que penso mesmo das crónicas. Leio-as sempre que posso, e, quanto mais anónimas ou desconhecidas mais gosto delas... porque se não têm a qualidade do MEC, MST, do ALA ou da MRP - a estes eu já conheço e sei o que pensam, até consigo adivinhar - , aos outros, é a grata descoberta, o ser agradávelmente surpreendido.
    Vivam pois as crónicas, em género literário!

    Espero é que repescando os nossos mais antigos cronistas, não descubram agora que as crónicas são sinónimo de imperialismo, de colonização, de fascismo... sei lá eu! Anda para aí tanto imbecil em pontos estratégicos que tudo é de esperar!

    Enfim, também houve a Crónica Feminina, eheheh!
    Saudações crónicas cá da Cidade Morena!

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  4. António Luiz Pacheco23 de abril de 2021 às 04:38

    Em jeito de crónica:
    - Decorre aqui na vizinha e portuária cidade do Lobito, um festival de gastronomia e livros!
    Vai acontecer hoje e no fim de semana, não conseguirei ir pelos meus afazeres, que incluem ir à Equimina com o nosso subempreiteiro, dado estamos num projecto de recuperação de estructuras de apoio à pesca artesanal, que aliás foram por nós feitas. O nosso fim de semana muitas vezes é de trabalho, é um facto e não uma queixa.
    Bom, ouvindo a rádio esta manhã quando ia "na" Baía Farta, um entrevistado do referido festival, dizia que sempre que lia um livro, ficava uma pessoa diferente!
    Interessante reflexão esta.
    Portanto partilho-a nesta breve croniqueta!

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  5. Porque apenas sou um leitor, o tema de hoje foge, um tanto ou quanto, a esse meu estatuto, mas darei, mesmo fora da linha, uma achega.
    Quando aqui se chega, teremos que lembrar a frase batida: «É a economia, estúpido!»
    A concentração editorial estava escrita nas estrelas, e por arrasto a vida das pequenas e pequeníssimas editoras ficou, a médio/longo prazo, traçada.
    Dir-me-ão que essa concentração era inevitável, o problema começa quando à frente dessas concentrações ficou gente que nada tem a ver com livros. Por exemplo, a Leya tem um à frente um homem que gosta de automóveis – tem o seu direito – mas de livros, visto assim de longe, pouco saberá, já não direi do saber do tilintar das campainhas das caixas registadoras, que já nem campainhas existem.
    Portanto a filosofia das editoras está completamente modificada e sujeita a razões que a razão do leitor desconhece. Teremos que viver com isto. Ou com alguém que dentro do negócio possa dizer, como o José Afonso: «Eu sou o meu próprio comité central!»
    Já agora, por mera curiosidade, lhes lembro que o preâmbulo do decreto-lei nº 38.968 de 27 de Outubro de 1952, defendia uma explicação do analfabetismo português radicada no pretenso facto de o nosso povo, «pela sua riqueza intuitiva, pelas condições da sua existência e da sua actividade, não sentir a necessidade de ler».

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    1. Só para dizer que esse senhor que gosta de automóveis já não é dono da LeYa há muito tempo.

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    2. Se bem que, para o leitor que sou, seja um pormenor de somenos, muito obrigado pela rectificação.
      Já publicado o comentário, concluí se há assuntos em que não devo meter-me, este era um deles. Percebo a inevitabilidade da concentração editorial, mas não sabia - importância dos livros à parte - que um negócio, aparentemente tão pouco interessante, desenvolveria o que por aí se tem visto, e de que tão cedo não nos livraremos.
      «Não suba o sapateiro acima da chinela», lembra Saramago nesse belíssimo e pouco amado «História do Cerco de Lisboa».
      Bom fim-de-semana.

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  6. A hostilidade do mundo literário depende, em primeiro lugar, de quem governa os meios físicos e imateriais destinados à leitura.

    Sendo eu jovem, e deparando-me já com um mundo altamente competitivo e adverso, não consigo imaginar as dificuldades de um escritor, pelo que não me surpreende a escassez de novos talentos literários (ainda que me aflija).

    Espero, pelo menos, que essa hostilidade não suplante totalmente o ímpeto da criação literária.

    E a propósito do tema, termino hoje o enorme e doloroso romance de Hamsun, "fome".

    Ah, e feliz dia do livro!

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  7. Um amigo solicitou-me o nome de um blogue que fale de livros e que incentive à leitura e claro que recomendei o horas extraordinárias. Então não é que ele acaba de me telefonar: ó Seve tive azar, afinal o blogue que me indicaste e donde acabo agora mesmo de fugir, é, pelo menos hoje, uma xaropada de conversa quilométrica intelectualóide de "velhos" chatos e compridos que afastam de imediato qualquer amante da leitura...

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    1. Ó Seve, diga lá ao seu amigo - com todo o respeito - que a classificação de chato e comprido se aplica à espada de D. Afonso Henriques. Quanto a velhos... ainda não me considero "trapo".
      Enfim, ele está no seu direito de escolher os blogs que mais lhe convêm; e tenho de considerar que o seu amigo, gostando de livros, é uma boa pessoa.

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    2. Ó Fernando realmente este meu amigo é um desbocado, às vezes muito inconveniente até, mas ele disse-me que se referia não propriamente ao post do blogue mas à terrível incapacidade de síntese dos frequentadores cujos comentários quilométricos afastam qualquer candidato a leitor (até desses mesmos comentários)- é que este meu amigo não tem a capacidade intelectual, nem coisa que se aproxime, dos referidos e doutos comentários de oito mil milhóes de palavras...mas gosta de livros e gosta de falar de livros e, sobretudo, da opinião dos leitores sobre livros. Mas não lhe leve a mal porque é, como refere, boa pessoa.
      É que, por mais que o avise, não consegue absorver aquela máxima: pensa tudo o que dizes, não digas tudo o que pensas...

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    3. António Luiz Pacheco23 de abril de 2021 às 07:21

      Ó Seve, o teu amigo não é traça... está visto! As traças são atraídas pela luz, vôam depois em volta dela e até se tornam chatas!
      Ahahahah!
      É esta luz, quilométrica, que me atraiu e mantém por cá, pois me ilumina e na verdade se venho aqui dizer muita chachada, na verdade aprendo muito mais do que os disparates que debito.
      Faz parte... é um blog vivo portanto. Se fosse só para trocar curtas frases e comentários, secos e insonsos, esta traça já teria zarpado, se calhar para sossego dos outros frequentadores.
      Haja dum-dum!
      Abraço quilométrico para ti!

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    4. Caro Seve, experimente recomendar este blogue ao seu amigo:
      http://leiturasdemadamebovary.blogspot.com/
      Ali não vai ver comentários nenhuns. Não é um blogue exclusivamente sobre livros, mas é principalmente sobre eles.

      As diferenças entre as pessoas não deixam de me surpreender e encantar: no meu caso, que descobri este blogue, o Horas Extraordinárias, há pouquíssimo tempo (como é possível?!), venho cá com muito gosto não só pelos posts mas também pelos maravilhosos (extraordinários, perdão!) comentários! :-)

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  8. Não conhecia "A Mensagem" de Lisboa. Foi por este blog que cheguei ao jornal on line e ao artigo da Rosário "Trazer Amostras". A foto no perfil da MRP já não é recente, mas ela pouco alterou, reconhece-se sem necessidade de legenda.
    Tal como a Autora da crónica e do blog, nasci em Lisboa (na Alfredo da Costa, onde havia de ser?!), pelo que também considero a "minha" cidade, onde também trabalhei. Se subi para o Planalto, onde me encontro, foi para mais altos voos, como o parapentista que precisa de altitude para voar.
    Vai "A Mensagem" ter mais um leitor, com entrada pelos favoritos.

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    1. Então o Fernando Costa nasceu na Alfredo da Costa... pois, eu também. ;-)

      Quanto ao Mensagem de Lisboa: não recomendo porque está também subordinado, no geral, ao «aborto pornortográfico», mas pode-se abrir (eu abrirei, certamente) excepções para ler eventuais textos escritos em Português Normal e CorreCto, como os de MRP...

      ... E, por isso, recomendo, sim, outro novo jornal (o primeiro número saíu no passado dia 16 de Abril), semanário, este com edição em papel, denominado, precisamente, Novo.

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    2. Obrigado pela informação, Octávio. Não conhecia a existência do "Novo", que ainda não vi nos pobres e minguados escaparates deste interior periférico.
      O acordo que chama pornortográfico, e que eu não digeri porque não o engoli, trato-o por hortográfico, dado que foi idealizado e acordado (se é que não devia estar ainda adormecido) por horticultores que quiseram plantar, no jardim da beira-mar europeia, sementes sul-americanas, de forma a alterar só para alterar e satisfazer não sei quem.
      No entanto, continuo a ler obras em livro e periódicos que se vergaram ao decreto imposto com a desculpa de que a língua é mutável. Pois é, concordo eu, quando é o próprio povo a mudá-la e não a reboque do que quer que seja.

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  9. (Há quem passe por um bosque e só veja a lenha para fogueira).
    Leon Tolstói

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  10. Tudo muda como bem sabemos. E a mudança é independente da nossa vontade.
    Nunca consegui perceber porque razão não haveria um eletricista, um canalizador, um taxista ter frequentado a faculdade e ter uma licenciatura. Espero que num futuro próximo todos o possam fazer. A conversa do sapateiro e do chinelo também já está ultrapassada.
    Teresa Biu

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    1. António Luiz Pacheco24 de abril de 2021 às 07:08

      Talvez eu possa explicar-me melhor: Conhece alguém que tendo feito estudos universitários, opte por ter a profissão de canalizador ou electricista, até taxista?
      (Sem ser nos filmes ou nalguma série... falo na vida real.)
      Bom, eu não... toda a gente que vai para a universidade fá-lo exactamente para se distanciar dessas profissões, acredite em mim.
      Daí eu dizer o que digo... que tem de haver essa diversidade profissional, e ela implica quase sempre uma diversidade cultural e até social. A qual implica a diversidade de jornais e leituras, são consequências lógicas, encadeadas.
      Há quem não o entenda, eu percebo, como há até não o queira ver, que vive geralmente num Mundo utópico.
      Isso significa que o operário não lê? Não foi isso que eu disse... não lê é o mesmo que eu leio, pois temos interesses diferentes.
      Veja como você leu o que eu escrevi, não concordou ou não percebeu, mas leu e até pensou nisso! Já o amigo do Severino nem sequer leu, disse logo que era uma xaropada, comprida e chata...
      Compreende agora o que eu quero dizer?
      Isto não significa que o amigo do nosso Extraordinário Sev seja inculto, ou burro... nada disso, é a diversidade a funcionar, ele não lê o mesmo que nós, ponto final.

      Trabalho numa grande empresa de frio industrial que se dedica a engenharia agroalimentar, pecuária e pescas, com trabalho em quase todo o Mundo, convivo com os meus colegas de todos os departamentos, administrativo e financeiro, técnico, logística, etc.
      Dos que aqui estão comigo, o Pompílio, lê, o Rodrigues dos Santos por exemplo; o Prates não lê só vê notícias; o Sr. Víctor Romão só lê jornais desportivos; o Paulo Capelão lê sobre motos, carros e motores; o Dilabié não sei, mas conversamos e é informado sobre o que se passa no Mundo e na política... acredite que todos eles vão à internet e estão actualizadíssimos no que respeita ao frio e toda a envolvente, são técnicos de primeira água, todos eles, os dois primeiros com mais de 40 anos de profissão ganham mais do que alguns engenheiros e tanto quanto um chefe de departamento! Formaram-se e estudaram os assuntos em que trabalham, fizeram um percurso na carreira: o Pompílio depois do seminário, foi sargento especialista de marinha formado na escola electromecânica; o Prates tem a 4ª classe mas fez cursos de formação e é o mais prestigiado mecânico de frio de que há notícia! O Sr, Víctor Romão, tem a 4ª classe mas é um catedrático montador de estructuras e equipamentos de frio, é chefe de equipe; o Capelão, fez a escola industrial (equivalente ao antigo 5º ano) desenha em autocad e é barra em robôs e informática! O Dilabié, natural de S. Tomé, formado aqui na empresa, é um electricista de topo. Os técnicos locais, o Simão, o "Alemão", o Dilson, o Mateus, o André, e os outros, todos formados na empresa, tubistas, mecânicos, soldadores, electricistas, ignoro se lêem, mas não acredito, vêem sobretudo TV novelas e futebol.
      Portanto sei o que disse e porque o disse... ter razão, bom isso é outra coisa... mas esta é a minha opinião.
      Saudações cá da Cidade Morena.

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  11. O MEC foi uma das traves inspiradoras do meu primeiro romance...

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    Respostas
    1. António Luiz Pacheco26 de abril de 2021 às 01:27

      Sem ofender a sua compreensível reserva e anonimato, gostaria de saber de que romance se trata. Caso não o faça, aceite as minhas desculpas pela indiscrição sem segundas nem terceiras intenções, apenas curiosidade de traça dos livros que são maçadoras.
      Saudações cá da Cidade Morena.

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