Mais cães

Há não muitos dias falei aqui de A Cadela, da escritora colombiana Pilar Quintana, mas este não é o único livro recente com cães. Li um outro, do espanhol Arturo Pérez-Reverte, chamado Cães Maus não Dançam, que deve ter sido dos primeiros títulos a entrar nas livrarias na era pós-clausura, ou seja, em Março passado. Como bem sabem os que acompanham as crónicas do autor, magníficas, para Pérez-Reverte há valores que são incontestáveis, e um dos que lhe são mais caros é justamente a lealdade. Ora, como falar no exemplo máximo de lealdade? Usando cães, que disso são a metáfora mais-que-perfeita. Mas este livro é tudo menos um livro de cãezinhos… Como o título indica, aqui os cães são maus, são cães que os humanos converteram em animais de luta, com feridas e cicatrizes várias, orelhas cortadas e atitudes violentas; cães ferozes que atacam outros cães e seres humanos, mas nem por isso deixam de ser amigos do seu amigo, indo até ao fim na sua missão de o salvar quando ele está em risco. Não esperem uma parábola como a de Luis Sepúlveda com gatos e gaivotas, porque aqui as páginas são mais brutas do que divertidas, mas vale a pena ler este livro nem que seja porque nos permite aprender com os cães sobre… nós mesmos.

Comentários

  1. Do que a Rosário se lembrou de trazer! Enfim, é da ASA, está bem visto...
    Eu gosto de gatos e de cães, se possível sem treino e sem laboratório. Há um provérbio polaco que diz ser o "maior amor o de mãe, depois o do cão e em seguida o da namorada".
    Neste caso, o Reverte veio reverter o lado bom do fiel amigo (não é só o bacalhau), mostrando o lado mais contumelioso de quem aproveita o animal para fins mais obscuros e bélicos.
    Como Pérez Reverte gosta de "perros" e dos títulos com estes - tal o de "Los Perros e Hijos de Perra", apetecia-me sugerir-lhe um título que englobasse dois da sua obra. Isso daria "Los Perros Duros non Bailan el Tango de la Guarda Vieja".
    Sobre cães, porque é também um apreciador e admirador da raça, nada melhor que o Extraordinário Pacheco - a quem mando um abraço desde o Planalto - para se expressar sobre o assunto.

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  2. Bom dia,
    comecei a ler ontem à noite e promete ser mais um livro que "engancha" como todos os Arturo Perez-Reverte. Boas leituras.
    Ass. Silvia Cardoso

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  3. António Luiz Pacheco12 de abril de 2021 às 03:45

    Gosto muito da escrita de Pérez-Reverte, e, gosto muitíssimo dos temas sobre os quais escreve, com destaque para os históricos, mas não apenas, pois também os de mistério ou policiais me agradam. Gosto dos personagens e dos ambientes que cria.
    Na actualidade é um dos meus autores preferidos, de ficção!

    O livro em causa, não é novidade... não o li, mas conheço-o e li sobre ele, sobre o que o escritor pretende atingir. Já terá uns dois anos pelo menos.

    Os cães, são manancial inesgotável para escritores, sem dúvida.
    Hoje estão na moda, não há quem não saiba tudo sobre cães... especialistas em raças porque têm um há três meses, são aos milhares e na verdade incomodam-me, a mim, que sem ser especialista apesar de ter formação na área, todavia nasci e cresci numa casa onde sempre havia vários cães, tive dezenas se não mesmo mais de uma centena de cães, com quem vivi e convivi. Depois aparece-me uma flausina qualquer com um ar muito convencido, que tem um "vizzla" no apartamento e pretende dar-me uma lição sobre bracos. É que não há mesmo pachorra!
    Na verdade sabe-se muito pouco de cães, gosta-se muito deles mas não se sabe... cão não é pessoa, é diferente, não tem de ser tratado como um ser humano para ser feliz, sendo cão. Ser tratado com humanidade é outra coisa, e isso sim!
    O coração embota a sensatez... veja-se uma recente proposta de lei que visa proibir as corridas de cães, com base no pressuposto que correr não é natural, no cão! Como disse? Tamanha ignorância, ou estupidez pura?
    Viver num apartamento ou varanda é que é normal para o cão? Claro que há cães de companhia... desde há séculos, até há pinturas célebres de grandes mestres, com esses cães de regaço e colo.
    Mas a generalidade dos cães adora correr, fazem-no por instinto e prazer natural.
    É como dizer que o cavalo não é feito para correr...
    Para quem não saiba, a exognosia é uma ciência das ciências veterinárias e zootécnicas que estuda a adaptação do animal a um dada função, olhando exactamente à sua conformação.
    A ignorância e a desinformação campeiam, a par com aquilo que alguns acham que é, e, hoje impera esse "achar" que é assim.

    Pérez-Reverte bem alude a isso, e está até nos objectivos que pretende atingir...

    Não defendo as lutas de cães, por princípio, não gosto de ver cães a lutar entre si. Como não gosto de ver lutas entre homens... já vi lutas entre cães e javalis, por exemplo, às quais tento pôr cobro rápidamente antes que o cão saia aleijado e evitando sofrimento inútil à rês, mas isso são os chamados "ossos do ofício", como o facto de ter levado onze pontos no queixo, na praça de toiros de Évora ou ter tido um rim deslocado.
    Mas sei perfeitamente que há cães de luta. Temos de ter essa noção... há raças dotadas dessa índole, com características próprias, a nível do sistema nervoso e hormonal, com aptidão física, de músculos, dentes, ossos, feitos para isso, e, claro uma inclinação natural por parte deles, o que pode ser perigoso.
    Estão na moda cães como os Jack Russel Terrier, porém muito pouca gente tem a noção da agressividade e coragem extrema desses pequenos e espertíssimos cães, eleitos como de companhia quando são cães "ratoneros" ou seja, especializados em descobrir e eliminar "alimanhas" no campo, nos celeiros, armazéns e navios, que instintivamente matam borregos, gatos e outros cães, tudo que mexa, com facilidade e o maior dos empenhos. Nalguns, por força dos cruzamentos perde-se essa "linha", mas nunca se sabe quando ela que está no ADN do animal, se manifesta. Quando ele se faz adulto, o cachorrinho brincalhão torna-se o terror do prédio ou do bairro.

    Também se ignora que os antigos povos, sobretudo germânicos e da Europa Central, usaram os "cães de guerra", de que aliás descendem boa parte das raças actuais de cães de guarda e de guarda de rebanho actuais e das raças portuguesas também. Os romanos adoptaram e usaram com sucesso a mesma estratégia, que depois foi levada pelos conquistadores para as Américas e para África

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    1. Correr, sim, mas não obrigados, sujeitos a stress e a castigos, ou a serem trocados, se não corresponderem às expectativas.

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    2. António Luiz Pacheco12 de abril de 2021 às 04:05

      Um atleta humano, não é sujeito a tudo isso?
      E, o cão vivendo na Natureza, não está sujeito a ter de correr para obter alimento ou salvar a vida? Não há stress nisso? E se perder a corrida não morre de fome ou não é morto pelo seu predador?
      Ser trocado se não corresponder... melhor então abatê-lo?
      Sejamos pelo menos esclarecidos, como eu digo, o coração não deve embotar a razão, e fazer disso LEI.
      Convinha reflectir ...

      Saudações caninas

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    3. O atleta humano fá-lo de livre vontade. O stress que o cão vive na Natureza também é de livre vontade. Não há vida sem stress. Mas não há razão nenhuma para se provocar stress evitável.
      Melhor trocar do que abater se não corresponder? Não. Melhor não trocar! Melhor não usar o cão como objeto, ou mercadoria.
      Eu sou esclarecida, se ainda não notou. E o meu coração não embota a razão. Na verdade, costumam dizer-me que sou demasiado racional e pouco poética.
      Também não pretendo fazer lei de nada, não sou jurista, nem pretendo ser.
      Reflito sempre.

      Será que o Pacheco é capaz de escrever sem chavões?

      Saudações desenchavadas

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    4. António Luiz Pacheco12 de abril de 2021 às 05:00

      Pois será... mas não é o que demonstra, olhe que o cão não stressa por correr, se bem que possa correr por stress, se for espantado para fugir.
      Não é poético ou racional, é apenas Natural, mas isso é capaz de ser um chavão meu, ahahah!
      Se calhar sei tanto de cães quanto a Cristina de história medieval, leve isso em conta.
      Saudações naturais.

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    5. Não quer de maneira nenhuma intrometer-me no vosso diálogo rico e vivo, Cristina e António.

      Mas a primeira coisa que me lembrei ao começar a ler o texto e os comentários, foi que o cão devia chamar-se "burro", por levar a sua lealdade até ao fim, ser leal a quem o "acaricia" com pontapés...

      Sei do que falo porque cresci com cães, pois o meu pai sempre teve cães, que felizmente nunca "foram de apartamento" - e de tantas raças, desde os simples rafeiros a um "serra da estrela", que teve de dar a um amigo para cão de guarda, porque quando pegavam em pedras ou paus para o ameaçarem, era quando ele atacava em vez de fugir, causando alguns dissabores desagradáveis ao meu pai em relação à vizinhança e a quem passava na rua. O último foi um "lobo de alsácia", que lhe sobreviveu e arranhava a porta de casa, diariamente, depois dele partir... porque quando o pai já estava acamado, a mãe deixava-o ir visitá-lo ao quarto, por alguns momentos...

      Ou seja têm uma capacidade de amar os seus donos, para lá do inimaginável... Por isso, são mais "burros" que cães...

      E o Arturo, como já disse por aqui, é o meu escritor do país vizinho.

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    6. Este comentário fez-me recordar o estranho mas belo filme de Robert Bresson, ''Au hasard balthazar''.
      Curioso!

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    7. Meto-me na conversa porque neste livro a lealdade é entre cães, nada tem que ver com donos. Só para esclarecer.

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    8. Luís, nada impede de se ter um cão num apartamento, se lhe for proporcionada atividade suficiente ao ar livre e não for deixado sozinho todo o dia. Os cães não precisam necessariamente de ter um terreno enorme à sua disposição. Um cão sozinho num terreno enorme é bem mais infeliz do que um cão de apartamento, a quem é proporcionada a atividade aconselhada à sua raça, tamanho e idade.

      A minha Lucy era uma Jack Russell Terrier (raça que não é "ratonero", ao contrário do que o Pacheco disse) que se adaptava perfeitamente a um apartamento. Na Alemanha, temos jardim, mas, em Portugal, temos apartamento e ela adaptava-se perfeitamente. Era mesmo elogiada pelos vizinhos, por ser tão amigável e não fazer barulho.

      Há muitos enganos sobre cães. Eles tanto podem ser felizes numa grande quinta, como num apartamento. São felizes, quando se sentem parte de uma família e se lhes proporciona movimento suficiente e convivência com outros cães (nem que seja de vez em quando). Gostam de se movimentar, sim, mas também adoram um cantinho onde podem descansar, de preferência, em companhia. E, quanto mais velhos ficam, mais precisam de sossego. É um erro pensar que um cão pode ser feliz, apenas por ter muito espaço para correr (de notar que digo "apenas"). O pior que existe para um cão é aborrecer-se, não ter nada para fazer, nenhuma tarefa. É mesmo pior do que passar fome. E um cão que viva sozinho, sem ninguém lhe ligar, num terreno enorme, mas ao qual conhece todos os cantos, sente-se aborrecido e infeliz. Por isso, não se pode dizer, de maneira nenhuma, por princípio: cães de apartamento são infelizes e cães numa grande quinta são felizes.

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    9. Quando eu escrevi "felizmente", Cristina, cingia-me apenas ao meu ponto de vista (não gosto de ver animais presos e sem espaço, era incapaz de ter uma ave numa gaiola...). Penso que todos os animais gostam mais de viver em liberdade que numa "prisão",

      Não falava da felicidade dos cães, que tal como nós, são mais felizes com carinho e atenção que com apenas liberdade ou espaço...

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    10. O cão não stressa por correr, mas stressa se o tratam mal e obrigam a correr para lá das suas possibilidades. E stressa se o descartam, quando ele já está rebentado de tanta volência e aproveitamento das suas capacidades. E stressa se é trocado como mercadoria entre gente que se aproveita dele.

      Sei que o cão não tem de ter uma vida de luxo, ele tanto é feliz no meio do mato, como debaixo da ponte, como numa mansão, conquanto seja amado e respeitado. Um cão de um sem-abrigo que passe fome não é infeliz, porque sabe que isso só acontece por o próprio dono não ter outra possibilidade e ele passa de bom grado fome junto com o dono. Um cão que viva bem alimentado, mas preso a uma corrente, é extremamente infeliz.

      Sei mais de cães do que o Pacheco de História medieval, leve isso em conta.

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    11. António Luiz Pacheco12 de abril de 2021 às 13:33

      A Cristina tem razão , em parte... há cães de certas raças - como referi - que se dão bem assim, em casa ou pequenos espaços. A questão reside em fazer a escolha certa, e não em os tomar todos pela mesma bitola dizendo que precisam é de fazer parte da família, e blá-blá-blá... não é verdade.
      O cão precisa de espaço, não se aborrece, ele precisa ,mesmo de conhecer cada bocadinho desse espaço para se sentir confortável, seguro, pois é assim que funciona.
      Abraço

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    12. Todos os animais gostam de viver em liberdade, sim, Luís.
      E é de facto lamentável haver cães de apartamento que passam o dia inteiro sozinhos.

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  4. Deixem-me ser céptico: nem Reverte, nem ninguém, conseguirá superar o "Presas Brancas" do Jack London quanto a lealdade e brutalidade canina; nem superará "Timbuktu" de Paul Auster quanto a devoção canina; nem superará "Cão como Nós" de Manuel Alegre quanto a um cão se tornar essencial numa família. Mas sei que lerei "Cães Maus não Dançam", a esperar que Reverte me deslumbre como me deslumbrou no "Pintor de Batalhas".

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    1. António Luiz Pacheco12 de abril de 2021 às 06:12

      Presas Brancas, é um grande livro sim senhor! Com toda a poesia que Jack London punha na sua escrita, feita com a alma!
      Os cães são assim mesmo... olhe, uma vez deram-me um serra da Estrela adulto. Eu engatei o atrelado dos cães e fui buscá-lo ... achei-o pouco amigável e fiquei desconfiado. O velhote que tratava dele, ensinou-me que para limpar o canil e dar-lhe de comer, era entrar com uma forquilha à frente! Ahahah! O atrelado voltou para casa vazio... não sei o que aconteceu ao cão, mas comigo é que não!

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    2. Caro António Luíz, obrigado pelo seu comentário: eu a pensar que a brutalidade do livro era um excesso literário do London mas, ao ler a sua experiência, fiquei a perceber que a realidade dos cães amarrados a um atrelado envolve um nível de agressividade que era para mim imprevista.

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    3. António Luiz Pacheco12 de abril de 2021 às 09:19

      Ahahah! É questão de ter uma forquilha...

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  5. Ao excesso de lealdade que lhe reduz a autonomia como ser, dizem-me que sacrifica uma vastíssima parte do cérebro a registar os cheiros, informação que é decisiva para o seu tipo de vida. A soma dos dois fatores inviabilizam o desenvolvimento da inteligência. Será?

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  6. António Luiz Pacheco12 de abril de 2021 às 07:08

    Como é espaço de leitura, permitam-me...

    Chama-se Russel!
    É um sólido, esperto e atrevido Jack Russell Terrier, bicolor amarelo e branco, de uma linha Sul-africana, que sendo gente do “veldt” ou do mato se quiserem, desenvolveram estas linhas rústicas, sóbrias e bastante mais adaptadas que o tradicional, aliás sendo já esta raça naturalmente adaptada ao campo, e com uma forte pendente de agressividade para com os outros animais, na defesa do seu espaço, sendo por natureza cães-rateiros ou como dizem os espanhóis “ratoneros”, e por exemplo especialistas na caça a alimanhas como raposas, saca-rabos, texugos e outros que tais, tradicionalmente.
    O Russel viveu até ao final da juventude num quintal e casa, com direito a casota e gamela, banhos, vacinas, partilhar a cama do jovem dono, etc. como compete a um cão de família. Partilhava o espaço com um outro Jack Russell Terrier, tricolor e muitíssimo esperto, o Jack, adulto, mais velho e dono do terreno. Até que, começaram as brigas, como é normal na sociedade canina e para mais havendo fêmeas de permeio. Só que nestes pequenos guerreiros cujo valor e coração são inversamente proporcionais ao seu escasso tamanho, não eram meras brigas de cães e seriam luta de morte se o dono-mais-velho não resolvesse pôr-lhes fim! Levou-o para a sua fazenda pecuária, situada no início do interland na província de Benguela, onde corre o rio Coporolo, com a serra de Quilengues lá por fundo e ainda distante.
    Assim transitou do estado de cão-de-casa para cão-de-fazenda!
    Aquilo foi como colocar um peixe na água, e o nosso Russel logo se transformou num verdeiro cão-do-mato, como se nunca houvesse vivido noutro lado!
    Especializou-se em matar lagartos, que persegue raivosamente como antes aos ratos no quintal de Benguela.
    Tomou conta do espaço, correndo com todos os cães gentios que se atrevam a aproximar da casa, indo por sua vez fazer visitas de cortesia canina às fêmeas saídas, no quimbo dos trabalhadores. O seu morder rijo e a bravura, intimidam os outros, mesmo que maiores. Só lhe escapa o Simba, o grande leão da Rodésia, que vive no canil e só é solto pelo Cachissapa, para o seu passeio higiénico, depois de presos todos os outros.
    Dorme na rua, debaixo de uma árvore, perto da casa de onde possa controlar o que se passa, nariz sempre num frémito e orelhas espetadas.
    Esfrega-se gostosamente no esterco dos currais, mas aprendeu a guardar distância dos Nelhore de mau feitio, que lhe valeram uma ou outra patada e alguma pisadela, mas só cede caminho depois de inchar o peito e esticar as orelhas…
    Bebe água no Coporolo e sobreviveu a um crocodilo que o abocou, supõe-se que pelo seu pequeno tamanho e grande agilidade – guarda no lombo as cicatrizes dos dentes como medalha de sobrevivência. Todavia, no seu atrevimento continua a atirar-se ao rio que cruza nadando, felizmente que foi reposta a ponte suspensa, e agora partilha-a com os pundos (babuínos) e o pessoal da fazenda.
    Escolheu para dono o Caio, peão brasileiro, que segue por toda a parte, e faz cenas de ciúmes quando este sai no seu fim-de-semana, amua e rosna-lhe quando ele regressa!
    Todavia quando o seu jovem dono o visita, é grande a alegria com que salta para cima do depósito da mota, e lá vão os dois cabelo e orelhas ao vento!
    Adora ir na caixa da carrinha, focinho de fora a absorver tudo! Costuma saltar dela em andamento, para ir perseguir bâmbis ou mesmo ungiros (kudu). Já aconteceu estas perseguições ocorrerem por tanto tempo e distância, que aparece na fazenda um dia e meio depois.
    (continua)

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    1. António Luiz Pacheco12 de abril de 2021 às 07:08

      (continuação)

      Nas suas deambulações, teve um encontro com um porco-espinho, felizmente junto a um bebedouro ou não teria sido encontrado com vida. Lutaram e logrou matar um animal de que os próprios leões desistem… talvez devido ao seu pequeno tamanho, aliado à agilidade e valentia, sendo de uma agressividade extrema. Ficou muito ferido, acharam-no imóvel e sem dar acordo, todo furado, rasgado, exangue e esgotado. Esteve à morte, mas foi tratado e ao fim de três dias já se levantava com dificuldade… recuperou e o pêlo certamente o impedirá de entrar num concurso de beleza canina, mas fez honra à bravura da sua raça.
      De outra vez caiu num laço de caçador furtivo… que teve a sabedoria de o libertar, ao cão do patrão que todos conhecem. Ficou com mais uma marca e o pescoço torto!
      Por lá anda nas suas vadiagens pelo mato, sozinho ou atrás do pessoal, até que onça ou crocodilo permitam, espera-se que não cobra-cuspideira ou lacrau.
      Vem fazer festas e cumprimentar, cheirando muito bem a quem chegue. Nota-se o seu ar esperto e seguro de si, feliz diria mesmo.
      Se lhe perguntassem, não tenho dúvidas qual seria a escolha, entre o conforto e a segurança da casa de Benguela ou a liberdade no Carivo!
      O Jack, o outro, o que permaneceu na casa em Benguela… o dono leva-o também muitas vezes à fazenda. Ele está sempre atento e pronto a saltar para o jipe, ou a morder no guarda se lhe mandam segurar nele para não ir! Vai todo o caminho em pé no banco de trás, com as mãos em cima das costas do banco da frente, atento a tudo! Depois passa a tarde na fazenda, do que manifestamente gosta, e, é contrariado que volta ao jipe para o regresso… faz a viagem na mesma posição durante os 50 Km da picada, a perscrutar a noite pelos vidros, fremente a ver coelhos, cabrinhas do mato… assim que chega ao alcatrão, sossega e acomoda-se no banco: dorme.
      Se lhe perguntassem, também não tenho dúvida de qual seria a sua escolha!

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  7. Recomendo o livro O Homem que Gostava de Cães de Leonardo Padura, sobre o assassinato de Trótski, a União Soviética de Stalin e muito mais.

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  8. Bom dia! Acabei de ler "Cães maus não dançam". Uma espécie de conto sobre cães (como nós), escrito pela mão de um grande autor. Vale muito a pena! Um abraço.
    VF

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  9. Já li o do Arturo, autor que aprecio imensamente e agora estou a ler A Cadela e a gostar muito. Os cães a serem tema de dois bons livros.

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  10. Não tinha, creio, visto o "post" sobre o livro "A cadela", que comprei ontem e hoje comecei a ler. É que isto dos apegos dos humanos aos animais é uma coisa tão forte. O meu cão, que adoptei já sénior e, portanto, sabendo os riscos que corria, está a passar um momento complicado e eu, naturalmente, a sofrer muito com isso.
    Sou incapaz de afirmar que os animais substituem as pessoas ou cair nos exageros que hoje vemos, mas, e desculpem o desabafo, ao adoptar um animal de estimação, criamos um familiar (cão, no caso) e vê-los sofrer ou sequer pensar que podemos ficar sem a sua doce e querida companhia, parte-nos o coração.
    Tudo para dizer que ontem, quando olhei este livro (é, os livros por vezes escolhem-nos, como escrevia o saudoso Zafón..), para mais com uma capa tão bonita, achei que era o adequado ao momento. Ainda li pouco, mas, do que li, estou a gostar.
    Leio e olho o meu doce cãozito e peço que ele, apesar dos seus já muitos anos, sobreviva a este momento e me faça companhia mais uns anos.
    Desculpem o desabafo e as desculpas atrás de desculpas e as vírgulas que certamente estão no local errado, mas não estou com cabeça para rever o que escrevi. Apenas me apeteceu, face ao texto de hoje, ....desabafar! :(

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    1. António Luiz Pacheco13 de abril de 2021 às 10:05

      E fez muito bem, pois desabafar é humano e na verdade alivia, desde que feito com pessoas que nos entendam!
      Os animais, neste caso os cães marcam-nos tanto quanto as pessoas, pois se tornam membros da família como muito bem diz... na minha casa e família, os cães marcam épocas, e, dizemos: no tempo da Negrita... tínhamos o Banzé, e por aí fora. Isto apesar de ter tido muitos mas mesmo muitos cães, pois cheguei a ter quinze e mais, ao mesmo tempo, entre cães de guarda, de caça ao coelho, de parar... e os apenas cães, que há sempre!
      Morte de cão, era drama... claro, digo-o sem pieguice. O meu querido Panzer, morreu justamente numa véspera da abertura às perdizes, com leishmaniose. Pois não fui fazer a abertura, não tive coragem de sair nessa manhã! Veja bem no que dá...
      O meu pai, tinha um belíssimo perdigueiro (oferecido pelo famoso Padre Domingos Barroso, de Vilar de Perdizes). O Jipe. Era muito cobiçado por ser de onde era e porque era muito bom caçador. Quando meu pai foi mobilizado para Angola em 1962, um amigo dos meus pais, da riquíssima família Infante da Câmara, telefonou à minha mãe pedindo para o pai lhe deixar o Jipe, pois era uma pena e podia até nem voltar... que desse um preço! A resposta curta e seca do meu pai, ao pedido, foi que o cão era família e esta não se vende nem dispensa!
      Só há uma solução para a perda de um cão... arranjar outro! Porém, tendo a noção que não é nem será o mesmo, é outro, completamente diferente, mas que nos preencherá e a quem acharemos graça em descobrir as novas características ou "maneira de ser".

      Abraço cinófilo!

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    2. Obrigada, caro António Luiz Pacheco!
      Entendeu-me bem e conseguiu fazer-me sorrir com as suas histórias bonitas sobre os cães da sua família que, como tão bem dizia o seu pai, "não se vendem nem dispensam". Nem mais!
      E depois o nome do Jipe...fabuloso! Como podia alguém, por mais rico que fosse, pretender se lhe dispensasse um "Jipe"!? :)
      O meu é o Faísca. Não fui eu que coloquei o nome, mas o anterior dono. Penso que por causa daquele carro dos desenhos animados e por ele ser mecânico.
      Em casa dos meus pais sempre houve cães e sempre, a cada partida, o meu coração também se "partia" ...o meu pai também era caçador. Tinha perdigueiros, que chegaram a viver 18 anos lá em casa, como o Tarzan. O Piruças era rafeiro, mas esperto e vivaz que nem uma gralha, além de excelente caçador para as rolas..o Zip era um minorca "mulherengo"...enfim...e tantos outros, com as suas peculiaridades e especificidades enternecedoras e hilariantes.
      Que bom ter partilhado as suas memórias e propiciar-me trazer algumas, de entre tantas relacionadas com cães da minha infância.
      Estou em crer que após o Faísca, não vou mesmo querer ter mais. É que à medida que vamos ficando mais ...como direi...idosos (e eu estou a três anos de chegar aos 60, não tem mal dizer), vamos aguentando cada vez pior as "dores" não físicas no coração. É o que me está a parecer... :(

      Bem haja! Abraço cinófilo retribuído! :)
      Isabel

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