Humanizar

Já tive más experiências com médicos, que eram talvez bons patologistas mas ficavam a dever bastante como gente; e conheço quem tenha tido ainda piores experiências, pois nesses casos as doenças eram bastante mais graves e a comunicação do médico fez-se abruptamente, sem compaixão nem delicadeza. Um amigo médico queixava-se há tempos de falta de humanismo nos seus colegas de profissão e de uma crescente desumanidade em muitos serviços públicos de saúde, não só por falta de condições, mas também por falta de formação humana dos próprios médicos. Porém, pouco depois de a reitora da Universidade Católica escrever um artigo bem interessante sobre a decadência das Humanidades no jornal Público, o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, no Porto, anuncia que vai ser leccionada uma cadeira de poesia num mestrado de Medicina para despertar nos médicos o lado humanista que devem ter. Parabéns à escola e parabéns ao professor, o cirurgião e poeta João Luís Barreto Guimarães que, numa entrevista, diz que não tem receitas (essas são para os doentes), mas vai falar aos mestrandos essencialmente da vida, a mesma que tantas vezes se espelha nos seus poemas, premiados e traduzidos em muitos países. Vão ser 30 os alunos sortudos que vão poder ler poesia entre bisturis, batas brancas e, claro, sangue. Faz parte da vida e da poesia. Vamos ver se daqui sairão melhores pessoas e, logo, melhores médicos.

Comentários

  1. Bom dia,
    O meu pai foi cirurgião, agora reformado, e partilhava lá em casa esta mesma urgência de humanismo na classe médica, nomeadamente, a mais jovem.
    Um abraço feliz,
    SK

    ResponderEliminar
  2. Bom dia com alegria (e pandemia)

    Não sociólogo, nem tenho estatísticas, mas acho que a referida patologia é mal geral.

    Porventura será mais gritante numa classe profissional talhada para ajudar o próximo

    (A minha cara metade é médica, e tinha uma colega da geração anterior que retirava as cadeiras do consultório para o doente não se sentar. E só aceitava duas patologias por consulta...)

    No entanto, eu também dava a ler poesia a muito funcionário público com deveres de atendimento ao público.

    E progredia na escala hieráquica com esse proselitismo, se é que me faço entender.

    Naturalmente, semelhante receita poderia ser aplicada ao sector privado

    E porque não aos prevaricadores?

    Imaginem Ricardo Salgado a ler "A Divina Comédia" em cúmulo jurídico...

    Saúde e boas leituras
    cp

    ResponderEliminar
  3. Ainda há pouco tempo ouvi o Prof. Machado Vaz citar justamente Abel Salazar quando dizia que o médico que só sabe medicina, nem medicina sabe. ( E já agora, pronunciemos m'd'cina; e m'nistro; e ôp'nião; ao invés de vizita; medïcina; ôpïnião, etc., como se anda por aí a ouvir, que até faz mal à saúde!)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sempre assim se falou, no Norte. Eu aprendi a nossa língua a pronunciar todos os "i".
      Aconselho-lhe a leitura das crónicas de Marco Neves.

      Eliminar
  4. A cadeira de poesia pode ser uma boa ajuda. Mas o melhor mesmo era que qualquer médico tivesse alguma formação no campo da psicologia.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Claro que têm, logo desde início!

      Eliminar
    2. Muitos parecem não ter, Maria. Não fazem ideia nenhuma de como se deve falar com uma pessoa em situação de fragilidade, de que as suas palavras podem quase curar, ou piorar o estado do paciente. Trata-se de noções básicas de psicologia. Não estou a falar do comportamento do cérebro a nível orgânico, mas de sentimentos e emoções.

      Eliminar
    3. Talvez me tenha expressado mal. O que queria dizer é que há efetivamente várias cadeiras obrigatórias no âmbito da psicologia durante o curso de medicina, e que começam a ser lecionadas logo nos primeiros anos curriculares. Reconheço que isto são formalidades, e não posso garantir que os conteúdos que ensinam aos jovens estudantes contemplem os verdadeiros desafios que surgem durante as suas carreiras médicas, particularmente numa época "assaltada" pelos distúrbios mentais, ainda tão mal compreendidos e mal tratados.
      Por outro lado, esse humanismo, ou essa devoção empática que se exige aos médicos, não é propriamente algo que possa ser ensinado de forma formal e objetiva, como em todas as outras disciplinas obrigatórias do curso de medicina. Deste modo, e a propósito do interessantíssimo post de hoje, pode ser que a poesia ajude, como acredito que ajuda a cultura sempre a elevar o espírito e o humanismo, seja para médicos ou não médicos.

      Eliminar
    4. Pode-se ensinar humanismo e empatia, sim, nomeadamente, formas de comunicação que valorizem o interlocutor. É algo que se aprende em psicologia, atualmente (não sei se assim era há 20 anos). Porque, no fundo, o cerne está em valorizar o interlocutor, neste caso, o paciente, e não lidar com ele como se fosse uma criatura inferior a ouvir as palavras do sábio ou do génio. Não estou a negar a superioridade dos conhecimentos do médico, mas, na altura de comunicar algo ao paciente, ele deve, acima de tudo, valorizar o ser humano que está à sua frente.

      Espero que a poesia possa ajudar a criar esse efeito, sim.

      Eliminar
  5. Gosto sempre de acreditar.
    Mas tenho sérias dificuldades quanto ao sr. Bastonário da Ordem dos Médicos consentir que os médicos tenham uma cadeira de poesia num mestrado de Medicina, mesmo que seja para para despertar nos médicos o lado humanista que devem ter. A poesia não lhes fará mesmo mal nenhum, bem pelo contrário, mas o problema tem outras maneiras para ser olhado. Que encontro nesta frase tirada das «Memórias» de Rómulo de Carvalho: «Cumpri sempre os meus deveres para com o próximo e o distante. Trabalhei a vida inteira e, embora mal remunerado sempre o fiz com todo o esmero possível.»

    ResponderEliminar
  6. Não tenho nada contra os anónimos mas gosto de me nomear.
    Mário Sérgio

    ResponderEliminar
  7. Nao só aos médicos mas a toda a população em geral.

    ResponderEliminar
  8. Mas para que tudo isto resultasse era necessário que a poesia nos tornasse melhores pessoas...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Objetivar a poesia parece-me algo pouco (po) ético. Os poemas não são fármacos, nem curas. A poesia como lugar, ou dimensão, porém, apela ao espírito e à sensibilidade, ambos necessários na prática médica (a meu ver).

      Eliminar
    2. Maria, não me entenda mal. A cultura pode elevar de facto o espírito de uma pessoa (pode, não é garante), mas trata-se, normalmente, de um processo longo. Não me parece que uma cadeira de poesia, durante um ano letivo, possa cumprir essa função. Decerto levará um ou outro estudante a interessar-se por poesia, ou literatura, o que poderá ter repercussão na sua vida e isso já era ótimo. Por isso, talvez uma cadeira dessas fizesse sentido até em qualquer curso. Como ferramenta de comunicação com pessoas fragilizadas não me parece, porém, solução. Por isso, eu defender mais as técnicas de comunicação desenvolvidas pela psicologia moderna. Aliás, os psicólogos atuais costumam rolar os olhos perante a falta de jeito dos médicos para comunicarem com os seus pacientes. Claro, há gente que sabe fazer isso, por intuição. Mas é uma minoria.

      Eliminar
    3. Muito obrigada pelo esclarecimento! De facto, deve-se priorizar o ensino das capacidades de comunicação, desde cedo e com metodologias práticas, tal como diz. Eu sou suspeita (porque confiro à poesia um lugar muito especial), mas longe de mim considerar pouco ou menos importante o ensino da psicologia e das suas derivadas. Pelo contrário! De qualquer das maneiras, neste caso a cadeira é opcional, por isso vale o que vale...
      Saudações!

      Eliminar
    4. Esperemos que muitos estudantes aproveitem essa opção.
      Bom resto de semana!

      Eliminar
  9. Espero que nessa cadeira de poesia não entre qualquer coisa parecida com

    Os médicos estão fazendo a autópsia
    Dos desiludidos que se mataram
    Que grande coração eles possuíam
    Vísceras imensas, tripas sentimentais
    E um estômago cheio de poesia.

    ( "Necrológio dos Desiludidos do Amor", autoria de Carlos Drummond de Andrade, in "Brejo das Almas")

    ResponderEliminar
  10. Os atuais currículos universitários, à semelhança do que se faz há décadas além fronteiras, "obrigam" o estudante a escolher em cada semestre, entre um leque alargado de ofertas temáticas, pelo menos uma disciplina dita de opção a qual pretende cumprir o velho slogan proclamado por Abel Salazar: "quem só sabe medicina, nem medicina sabe". É salutar para o estudante que tem também a liberdade, se assim o decidir, de escolher como a sua disciplina de opção do semestre um dos temas técnicos de medicina que também farão parte da oferta curricular. Acontece que os estudantes de medicina estão entre os universitários que mais escrevem poesia, daí ser natural que haja uma apetência pelo tema nas escolas médicas.

    ResponderEliminar
  11. Acredito que todo o médico e médica que o seja por vocação, gosta de poesia assim como de pintura. A poesia vai para além da estrutura, da rima, é musicalidade e compêndio de emoções, como não gostar?
    Tudo de bom.
    Bjs

    ResponderEliminar
  12. Nem era preciso poesia . Bastava lerem . Hoje é só telemóveis. A juventude nem sabe interagir entre si .Preferem fazê-lo atraves do Bluetooth . Depois dá nisto ...
    Não conseguem dizer uma frase com sentido .

    ResponderEliminar
  13. Ser "humano" é da maior importância em qualquer circunstância da vida, particularmente naquelas em que se lida com a fragilidade, o sofrimento e a doença. Nunca é demais tentar resgatar essa humanidade, por vezes perdida ou outras, até, nunca tida.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório