Boas notícias
Sabem os que moram em Lisboa que a zona da Almirante Reis, sobretudo entre o Intendente e o Martim Moniz, é talvez a área mais multicultural de toda a capital (leio que tem mais de 90 etnias, caramba!). Se tiver tempo e paciência para se meter pelas ruelas da Mouraria ou por outras dos bairros adjacentes, não conseguirá deixar de reparar nas mercearias de produtos alimentares russos, por exemplo, bem como nos pequenos restaurantes indianos, chineses, nepaleses ou de kebab, entre muitas outras especialidades estrangeiras. Já me aconteceu um dia estar num destes restaurantes, perto do Mercado de Arroios, e dois empregados estenderem de repente um tapete no chão e começarem a rezar. Admirado? Não fique. Esta é a belíssima Lisboa de todas as cores e feitios que agora tem uma estrondosa novidade: a primeira biblioteca do Médio Oriente em Portugal! Sim, os livros que, segundo ouvi na TSF, começaram já a chegar às prateleiras desta biblioteca foram doados sobretudo por embaixadas (dos Emirados, de Marrocos ou da Tunísia) e ocuparão uma sala da Biblioteca de S. Lázaro, à Rua do Saco, fundada ainda no século XIX e uma das primeiras bibliotecas públicas portuguesas. Haverá parcerias com instituições portugueses (o Instituto Camões e as universidades, claro) e o objectivo é aproximar culturas e dar a conhecer o Médio Oriente em todo o seu esplendor não apenas aos lisboetas, mas também a todos os migrantes que são oriundos de países dessa zona (sírios, libaneses, egípcios...) e estão agora afastados de casa e sem acesso à sua cultura. Muitos parabéns à Junta de Freguesia de Arroios, que tanta coisa boa tem engendrado. Tomara que passe já o recolhimento obrigatório e se abram as portas à vontade para lá poder ir cheirar.
Ora aí está uma bela oportunidade para fazer, pelo menos no domínio da cultura, um Médio Oriente inclusivo e tolerante: faço votos para que a primeira Biblioteca do Médio Oriente em Portugal inclua também livros de autores israelitas.
ResponderEliminarExtraordinário Artur... isso é esperar demasiado, diria eu, pois duvido que a tolerância vá tão longe assim, e, se calhar começa logo na própria entidade que é a Junta de Freguesia... Mas vamos ver.
EliminarQue era positivo, era, e quem sabe se até uma ponte... o problema é que muitos preferem dinamitar as pontes que outros se esforçam por estender.
Grande e inclusivo abraço cá da Cidade Morena.
Caro António Luís, claro que é utópico pensar que se possa criar uma biblioteca que reúna livros de povos desavindos mas, estando nós longe do Médio Oriente, talvez fosse um primeiro passo de tolerância, convidando para a inauguração da Biblioteca o imã, o rabino e o bispo de Lisboa. A convite do Presidente da República, claro.
EliminarBoa tarde, Maria do Rosário Pedreira.
EliminarAinda bem que Lisboa se abre às Culturas dos povos que nela residem. Obrigada e, parabéns pelo seu novo livro que irá saír. Abraço!
Era no mínimo curioso ver as reacções, e, sobretudo interessante aprender algo com elas!
EliminarComungo inteiramente da sua opinião e proposta!
Bom dia com alegria (e pandemia)
ResponderEliminarE com a ciclovia na Almirante Reis fica lá fácil lá chegar.
Hans Kung, falecido esta semana, havia também de entusiasmar com o nosso melting pot e com a iniciativa.
Saúde e boas leituras
cp
Ora aí está, a velha Lisboa eterna, a de sempre!
ResponderEliminarLembro a propósito uma fala do clássico e oscarizado "Casablanca", em que o protagonista interpretado por H. Bogart arranja uma viagem de fuga à figura interpretada por I. Bergman, para Lisboa. Porquê Lisboa, perguntam-lhe: Porque é uma porta para o Mundo!
Assim é, assim era, assim foi... assim será ainda? Suponho que sim, pois está no ADN dos portugueses em geral e dos lisboetas em particular.
Lisboa é uma cidade multicultural, multicolorida, cheia de sons e aromas, dos sabores, desde a sua génese mais longínqua, ponto de passagem, ponto de chegada e de partida, por terra, mar ou rio. Romanos, judeus e árabes deixaram a sua marca indelével. O tempo e o Império trouxeram mais, outros e novos, regressando os antigos.
Portanto não há que nos espantarmos com isso, sempre assim foi, com ou sem invasões, com ou sem Impérios, com ou sem colónias, ditaduras ou revoluções.
Porque tudo passa, as modas e as ideologias, as teorias, as pessoas, porém os lugares ficam e com eles as memórias que se comprova ser um erro pretender apagar. Aí está mais uma prova!
E que prova!
Não sou grande fã de Lisboa, e aliás nem de cidade nenhuma... sou avesso a grandes cidades, sou homem de outras paisagens confesso. Porém reconheço que há nesta mescla lisboeta uma magia e um fascínio próprios, próprio de quem acredita justamente em que a grande maravilha da criação, da humanidade, é justamente a diversidade!
Saudações cá de Cidade Morena, aliás bem colorida!
Aliás, pensando bem, nós portugueses somos mesmo é uma grandessíssima mistura... dos primevos habitantes peninsulares, deve haver bem poucos genes, até porque éramos muito poucos, sendo suplantados por todos os muitíssimos invasores e ocupantes que nos colonizaram, e depois ainda nos fomos misturar com outros povos pelo Mundo fora!
ResponderEliminarLisboa recolheu toda essa carga... como a água corre para o mar.
Tanto genética quanto culturalmente.
Estarei enganado?
As boas notícias que este post nos trás, levam-me a recordar que este ambiente festivo que rodeia Anjos/Intendente/Martin Moniz sempre senti quando percorro aquelas ruas, senti-o mais ainda com as crónicas que Nuno Camarneiro escrevia no «Diário de Notícias» antes de o despacharem, como aconteceu com outros cronistas, Maria do Rosário Pedreira incluída.
ResponderEliminar«Não sei em quanto tempo se poderá dar uma volta completa a Lisboa, mas o Bairro dos Anjos leva-me pouco menos de duas horas, incluindo becos, travessas e escadinhas e uma pausa para café. Caminhar é umas das melhores formas de escrever, já que as ideias vão atrás dos olhos, tentando ligar as personagens aos locais, o que se mostra ao que está escondido, a realidade à ficção» (Nuno Camarneiro, «Diário de Notícias»).
Quanto ao projecto em si, espero bem que a presidente da junta só apareça para as fotografias e os flashes da televisão… e que todo o restante trabalho a outros esteja entregue.