As Santas Casas
Não sou contra o crowd-funding para projectos culturais e, além de ter contribuído, aplaudi, na oportunidade, a operação que o Museu Nacional de Arte Antiga lançou há uns anos para «pôr no lugar certo» (ou seja, no próprio Museu) A Adoração dos Magos, de Domingos Sequeira. Acompanhei, de resto, a evolução dos donativos e gostei de saber que muitos fizeram como eu e contribuíram com o que podiam. Ainda que com pequenas quantias, apoio por vezes projectos que me parecem merecer a ajuda de todos ou estarem em risco (livros, jornais, outros) e não acho mal que grandes instituições peçam dinheiro quando é a única forma, por exemplo, de deixar uma obra-prima ficar em Portugal. Parece que o nosso Ministério da Cultura pretende ajuda para a salvaguarda do nosso Património nesta época difícil; e, para isso, lembrou-se de criar uma raspadinha que todos pudéssemos comprar. Até aqui, nada de estranho. Porém, como o cronista do Público João Miguel Tavares fez notar, e muito bem, na semana passada, um estudo recente demonstra que quem compra habitualmente raspadinhas é justamente o segmento mais desfavorecido da população portuguesa, aquele que menos ganha e que mais ajudas precisa; e (acrescento eu) provavelmente aquele que menos desfruta do nosso património... Um leitor do Público, na sequência da crónica, escreveu ao director do jornal dizendo que, ainda por cima, o jogo é uma actividade viciante, geradora de dependência e, como tal, lesiva da saúde pública. Ora, juntando estes argumentos todos, está visto que a Santa Casa da Cultura tem de prescindir da outra Santa Casa para pedir aos amigos do Património misericórdia... e donativos. Raspadinha não.
Se alguém com poder decisório no Ministério da Cultura conseguisse contemplar nos orçamentos nacional e comunitário um verdadeiro apoio para a Cultura e Património e alguém com visão executória na aplicação efectiva dos Fundos conseguisse intuir e concretizar que a evolução da sociedade caminha de mãos dadas com a Cultura provavelmente conseguir-se-ía inverter o ónus do custo das ditas raspadinhas para quem, de facto, tem poder e dever de o suportar...
ResponderEliminarCompletamente de acordo ! Para mim basta-me ver quem compra e recompra compulsivamente raspadinhas na tabacaria do Pingo Doce onde vou comprar o Público ao fim de semana. Há outras formas de angariar donativos para financiar o Património do que através de uma prática que fomenta o vício dos remediados e pobres. Já basta o Euromilhões. Se não houver criatividade, ao menos que se imite o que se faz noutros países. Por exemplo, afagar o narcisismo dos ricos e das suas empresas pondo os seus nomes em salas, corredores, entradas, bancos de museus, escolas, universidades e jardins em troca de chorudos donativos anuais (retirando o nome do mecenas quando a anuidade não for cumprida).
ResponderEliminarEntão, só é viciante a do Património, e as outras? O público alvo continuará a comprar raspadinhas, não tenhamos dúvidas! Deviam era acabar com todas, acabava-se o vício! Todos sabemos que o orçamento da Cultura é irrisório, mais uma raspadinha, menos uma, não virá mal ao Mundo!
ResponderEliminarMais coisa menos coisa parece-me que este Anónimo se limita a ser realista o resto são sonhos que também eu os continuo a ter (sonhos).
EliminarO que é mais triste é termos um Estado tão miserável, que tem mais vocação para financiar bancos que para arranjar uns euros do orçamento para a salvaguarda do Património e para investir na cultura.
ResponderEliminarE então aproveita-se de um "jogo de sorte", que como muito bem se diz, é alimentado pelas franjas da sociedade com "menos tempo" para pensarem em Palácios, Castelos, Museus ou vestígios arqueológicos.
É a tal esperteza, pouco saloia, dos políticos...
Bem haja a mentora do blog por lançar mais um tema interessante para reflexão.
EliminarNão há “jogo de sorte” que ajude este Ministério da Cultura. Devo manifestar aqui as minhas dúvidas. Já houve iniciativas semelhantes, com dízimos sobre empreitadas, que sortiram reduzido proveito.
Temo que se esteja num caminho de abandono da Salvaguarda do Património.
As expectativas colocadas no programa REVIVE, para além de perigosas, enfermam de um significativo grau de risco e muita perversidade.
Conheço bem a Região do Centro, onde, se não fossem as iniciativas dos municípios e algumas entidades se caminharia para um gritante abandono, mas pelo que vou auscultando o panorama será geral, sobretudo no interior.
A.Carvalho
Um tema muito pertinente, este das raspadinhas e outros vícios do jogo.
ResponderEliminarEm tempos, numa papelaria do bairoo lisboeta onde vivo, entrou uma senhora já de idade avançada pedindo uma raspadinha. Era a última. Raspou, deitou-a fora e, talvez por me ter apanhado a observá-la, comentou para mim: "Ai, menina, estou tão viciada! Já corri as papelarias todas do bairro vizinho e, neste, só me faltava vir a esta.". Depois saiu. Aquilo fez-me muita impressão. Fiquei a pensar que as raspadinhas são um bilhete de acesso a uma dose de esperança de uma vida mais desafogada. Ficarei muito contente quando forem proibidas. "Quando" e não "se" - porque tenho esperança.
Não vou comentar o vício (praga!) das "raspadinhas"... que são talvez a última esperança, uma réstea a que se agarra uma franja de pessoas, umas inúteis de sempre, outras que já foram úteis... como não comento os programas da manhã ou da tarde, e tudo aquilo a que as pessoas se agarram no seu desespero de abandono, solidão, falta de luz ou soluções!
ResponderEliminarCritico sim aos governos que deveriam preocupar-se, através de ministérios justamente como o da cultura, em fazer algo pelas pessoas! Não fazem... ou melhor fazem por algumas pessoas, uma minoria que possua cartão partidário ou padrinhos a quem sustentam.
O ministério da cultura tem dinheiro do Orçamento do Estado, que vem dos impostos de todos os contribuintes. Tenha muito tenha pouco, mas tem! E teria por obrigação usá-lo nessas iniciativas de que se fala aqui, e , em muitas outras! De interesse e no interesse nacional. Porém o dinheiro creio que é sobretudo para suportar a máquina partidária que emprega e a quem proporciona carros, ajudas de custo, salários, gabinetes, etc. Ou aos artistas "amigos" , os que apoiam e fazem parte dessa máquina, pois de resto os lugares chave da cultura estarão maioritáriamente bem distribuídos por esses, os de confiança.
Claro que difícilmente sobrará para outras e as necessárias actividades ou empreendimentos, também porque procurar mecenas não é coisa a que desça essa elite que governa e a quem tudo é devido, por direito da sua posição na elite. Nem se pensa ou prevê que haja forma desses mecenas serem premiados, vejam retribuído o seu apoio à cultura - e não estou a falar do Berardo!
Eu para esses peditórios, não dou!
Posso dar a uma entidade directamente, mas não dou ao Estado mais do que aquilo que ele me leva, compulsivamente e por excesso, tributando-me até duas e três vezes pelo mesmo!
Uma vez, numa Montaria do Centro, que sempre tinham um programa cultural, creio que em Cabanas de Viriato, durante o almoço cantou um grupo coral da região, aliás muitíssimo bom. Haveria um sorteio de uma espingarda, com o dinheiro a reverter para a junta de freguesia local... eu e o Dr. José Manuel Alves, presidente da Comissão da Região de Turismo, meu bom amigo já falecido, comprámos umas rifas! E, não é que nos saiu a dita cuja espingarda? Não sabíamos de qual de nós era a rifa premiada, pelo que fomos receber a espingarda e logo a entregámos ao Maestro, para que fosse leiloada a favor do coral! Foi um sucesso... só vos digo, vendida pelo triplo do valor a um dos industriais abonados que se encontrava presente, e, assim se fez pela cultura local!
A idéia das raspadinhas é no mínimo vergonhosa!
Lembro aos muitos detractores, que, fazem-se muitas corridas de toiros solidárias, com os proveitos a reverterem a favor de causas solidárias, os artistas actuando graciosamente. Mas disso ninguém fala...
Olhem, a senhora "menistra" já pensou em pedir ajuda ao Cristiano Ronaldo? Se calhar era capaz de apoiar a causa que é meritória, mas sem dúvida que envergonha o governo, ministério e deveria envergonhar-nos a nós, portugueses, quando comprovamos que os Orçamentos e os nosso dinheiros nem por isso são aplicados em nosso favor, mas antes a subsidiar bancos e grandes empresas onde se emprega a clientela política!
Saudações cá da Cidade Morena... e ainda falam de Angola!
Bom dia com alegria
ResponderEliminarPortugal
No seu melhor
A raspar
E a perder
A prescrever
E a feder
A tudo
Menos ler
(Não volto a beber antes do almoço, hic!)
Saúde e Boas Leituras
cp
Que tal almoçar mais cedo? Hips... eheheh!
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