Imaginação

Rosa Montero, versátil autora do país vizinho, escreveu o seu mais brilhante livro sobre a imaginação e chamou-lhe A Louca da Casa. Se não o leu ainda, não perca esta homenagem à nossa faculdade de imaginar. Hoje, porém, a imaginação está menos valorizada, pois parece que as pessoas preferem as séries da Netflix aos livros que, como se sabe, são instrumentos que desenvolvem inúmeras capacidades, nomeadamente a imaginação, e obrigam a uma participação mais activa do leitor (o espectador já tem a papa feita, digamos assim). Mas ainda há quem, no mundo dos livros, não se deixe abater pela concorrência e arranje maneira de replicar os tiques de quem está a roubar-lhe público, talvez para lho roubar depois. É o caso de uma bibliotecária inglesa, Jo Clarke, que não baixa os braços. O meu amigo facebookiano Nuno Ferreira da Silva partilhou na sua página a fotografia que aqui publico hoje e que mostra como é precisa imaginação e inteligência quando se pretende fazer leitores, incluindo os mais pequeninos. Este foi o cartaz que Jo pensou e realizou para a escola primária onde trabalha, replicando as listas de filmes e séries à disposição na Netflix. Se todos os nossos professores primários tivessem imaginação e iniciativa como Mrs Clarke, talvez houvesse mais leitores em Portugal.


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Comentários

  1. António Luiz Pacheco24 de março de 2021 às 02:48

    No fundo, é igual ao "catálogo" dos aviões... não se pode dizer que seja própriamente inovador, porém é criativo ao aplicá-lo. Esperemos que resulte.

    Deixo uma pergunta:
    - Afinal o que leva as pessoas (toda a gente e não apenas algumas pessoas) a ler?
    Alguém saberá dizer? Se o souber, pois descobriu a solução!
    Faço ainda outra pergunta: o que põe as pessoas a ler, será o ontem aqui falado e mui celebrado "Jerusalém"? Não faço a pergunta aos intelectuais que leram , apreciaram e portanto terão percebido. Faço a pergunta aos outros, como eu... garanto muito respeitosa mas honestamente, que se só houvesse livros como este Jerusalem ou os do Lobo Antunes, seguramente que eu não seria leitor! Seria mais um papa-séries... provávelmente.
    Mas li e gostei muito de A rainha do cine Roma, ou Pão de Açúcar!
    Continuo a acreditar que o que faz o leitor são os livros, na sua maior e mais alargada diversidade.
    Os Editores deviam pensar mais nisso... digo eu, traça dos livros, mas que os compra e lê, e só aqueles de que gosto, quero e me interessam!

    Saudações felizes cá da Cidade Morena!
    Felizes, esclareço, porque aquilo que me fez interromper o fim de semana prolongado de pesca e praia, correu pelo melhor... a garota foi operada, a peritonite não levando a melhor, e, como disse o meu amigo Dr. Luis "Kali", foi Deus que assim destinou! Não sei se foi Deus, o Karma ou o fado, mas acabou em bem e ainda bem que fui àquela praia remota e isolada, onde vive pequena e miserável comunidade de pescadores precisamente neste fim de semana prolongado.

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    1. Cara traça dos livros (permita-me a brincadeira extraordinário António Luiz), não sendo, nem de perto nem de longe, um intelectual, deixe-me dizer-lhe isto:

      Dando de barato o ALA, de quem adorei todos os romances que li, mas foram só 3 ou 4, e nenhum recente; no caso do "Jerusalém ", se o tiver, convido-o a reler. Na minha modesta opinião, é um livro extraordinário e até dos mais imediatos e fáceis do GMT, se excluirmos a série "O bairro". Gostei tanto qué tenho o meu exemplar autografado, até lho mostrava, se conseguisse.

      Não podemos concordar em tudo, é bem certo, mas se puder, faça-me esse favor: releia com paciência essa obra-prima.

      Deixo-lhe um abraço,

      Rui Miguel Almeida

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    2. António Luiz Pacheco24 de março de 2021 às 06:19

      Ora, mas é exactamente isso que eu procuro aqui junto dos Extraordinários, Caro Rui Miguel Almeida !
      Eu não gostei de Jerusalém, enfim falo do romance em si e não da escrita, justamente porque não consegui perceber nada do que li - defeito meu, presumo e assumo sem complexos, pois nem sou nem me pretendo intelectual ou uma sumidade literária. Não percebi a acção, não consegui entender nem entrar nos personagens, e nem onde é que aquilo se passa, onde fica o hospício... é em Jerusalém? E quem são os internados ou o que são? O que é o autor pretende atingir? Qual a razão de escrever aquele romance?
      É tudo o que me leva a não gostar...
      Será alguém capaz de aceitar o desafio de me explicar o Jerusalém? Porque é que gostou? Eu não me espanto ou admiro que goste, note, pois eu próprio tenho dificuldade em explicar porque gosto tanto dos filmes do Tarantino, do Guy Richie, para não falar no Kusturica.
      Há quem me olhe com ar de piedade quando digo isso, portanto não há nada a criticar!

      Quanto ao ALA, é demasiado denso mas pior, perco-me nos romances, já não sei quem é o quê, quando e aonde... ando para trás e para a frente de uma forma que não acompanho, e não gosto, pronto! Não é o meu género de leitura, decidida e definitivamente. Por mim, Levantados do Chão, merece um Nobel ... os cavalos que fazem sombra-não-sei-aonde, nem o consegui acabar! Está tudo explicado, na minha ignorância de traça.

      Grande abraço!

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    3. Ó Paxeco olha que eu gostei muito do "JERUSALÉM" do Gonçalo M.Tavares que já li há uns anos (2012), mas obviamente que não me admira que tu não tivesses gostado pois isso acontece com qualquer leitor; efectivamente "Jerusalém" foi talvez até dos livros dele de que mais gostei, mas claro que hoje não sei explicar porquê até porque quase todos sabemos (leitores) que nos esquecemos facilmente dos livros, que vamos lendo, tanto assim que quando a eles voltamos (daqueles que realmente gostámos, pois geralmente só a esses voltamos) descobrimos sempre coisas novas como é o caso do belíssimo "A LOUCA DA CASA".

      Mas isto de não gostar de um determinado livro que parece que toda a gente gostou não acontece só contigo; por exemplo falavam-me tão bem da Marguerite Duras e resolvi ler "A AMANTE INGLESA" e digo-te: não passei da pág. 27, uma estopada das grandes, creio que também dependerá muito da altura em que lhe pegamos, das circunstâncias, do nosso estado de espírito, enfim de tanta coisa, mas tenho a certeza de que isso acontece com qualquer leitor.

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  2. Dela só li A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te. Gostei. A Louca fica para uma próxima oportunidade.

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  3. Um romance? Um ensaio? Uma autobiografia? - " A LOUCA DA CASA" é tudo isto e mais alguma coisa, já o li três vezes e não me canso de, quase diariamente, o folhear!!!!

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  4. Os tempos passam, os livros não são os mesmos de quando os lemos pela primeira vez. Uns desiludem, outros são como o Vinho do Porto. Como dizer aos miúdos que têm de ler livros, se os pais chegam a casa e pegam no telemóvel, na playstation, e é isso que os miúdos vêem e é isso que eles também fazem.
    São várias e diversas as razões por que se lê, Extraordinário Pacheco.
    Há dias li num bloque, um texto muito interessante de Miguel Torga. Dava bem para as antologias das sextas-feiras mas aí só coloco excertos de livros que tenha lido. Como nunca li os Diários do Torga, avanço hoje com a citação:
    «Quando eu era pequeno, havia em casa de meu pai, no cimo dum lameiro, uma costeira que era só fraga; e meu pai, na vessada, cavava também aquêle bocado, que nunca deu sequer feijão chícharo. Só com dez anos de vida, sem conhecer o pavor dos retalhos de tempo, preguntava-lhe eu, já cansado:
    - Mas porque é que cava também isto?
    E êle, como quem sabia uma verdade eterna:
    - Para se acabar o dia.»
    Se atentarmos bem, pode ser que nas razões de ler, esteja um:
    «Para se acabar o dia.»

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    1. António Luiz Pacheco24 de março de 2021 às 10:42

      É uma abordagem interessante da questão, e, certamente que sábia!
      Basta a alguns, penso eu, aos que lêem acrescento, aos que sendo leitores por hábito cavam diáriamente a leira que assim pretendem cultivar. Mas, e os outros? Os que não cavam?
      Porque lerão eles, achando que não é chão para batatas?
      Porque leio, sei-o tão bem quanto sei que para acabar o dia, cá por estas latitudes, nada como um gin tónico (quiçá a maior contribuição britânica para a civilização), todavia ponho-me a matutar, em porque lerão ou leriam, os demais não-leitores assíduos ou leitores eventuais?
      As nossas respostas não sei se lhes servirão, já que chapéus há muitos... ahahah!
      Gostei de ler a sua reflexão, e sinceramente o cumprimento cá da Cidade Morena... onde já se pôs o Sol e é hora de uma ginzada atómica, para acabar o dia!

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  5. Segundo a minha opinião, o mundo dos livros deve ser escancarado logo no primeiros anos de escolaridade e pré-escolar. Se não for assim, não adianta mais tarde mandar presentes de aniversário comprados nas livrarias. Obviamente, deve ser escolhida a leitura adequada a cada estágio e idade, mas deve ser feita com livros, em papel puro e duro, com hardcover ou softcover, não interessa; com mais ou menos ilustrações, sobretudo com muita imaginação.
    Isto parte da escola e das próprias bibliotecas. Hoje mesmo - e vem a propósito - recebi o convite para participar no Zoom através da biblioteca pública e do agrupamento escolar. É para os mais novos, aqueles que gostam de ouvir ler e ver desenhar ao mesmo tempo. Faço sempre isto com prazer, porque sei que a recepção é sempre boa. A quem cabe o mérito? A mim? Não. O mérito é de quem toma estas iniciativas, escolas, professores e bibliotecas, em rede, em conjunto. Curiosamente, não me apercebo de ver as editoras metidas nisto. Editar - devo dizê-lo alto e bom som - não é apenas imprimir livros, entregá-los a uma distribuidora e esperar que os livreiros vendam as obras. Editar é também formar leitores e não apenas criar chorudos prémios para realçar o ego e a conta de algum momentâneo escritor em conluio com a sua Musa.

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    1. Caro, não se apercebe, mas é dos departamentos mais fortes e activos das editoras. Falo por aquela onde trabalho, onde todos os autores de livros infantis e juvenis têm um programa muito cheio de visitas a escolas e sessões em bibliotecas oara apresentarem os seus livros e falarem la leitura e da sua importância. Nem seria de esperar outra coisa de uma editora que tem manuais escolares e delegados junto das escolas. Por aí, está enganado.

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    2. No Mundo dos Livros não devemos menosprezar o invisível trabalhão da Edição.

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    3. Extraordinária Maria do Rosário
      Eu falei na generalidade da edição, sem citar editora A ou B. Talvez mais propositada e dirigida - essa, sim - a questão dos prémios, que continuo a considerar de valor desproporcionado relativamente à percentagem autoral.
      No que me toca, continuo a dizer "presente" quando sou chamado às escolas. Para além de chamar a atenção aos livros (e não meus), adiciono a parte do desenho, que prende os mais novos.
      De qualquer forma, sensibiliza-me saber que há, como disse, um trabalho feito pela vossa editora com os autores neste âmbito; um trabalho que eu chamo "de campo de semeadura", que resulta no tempo.
      E, como não podia deixar de ser, agradeço-lhe o esclarecimento, com as devidas desculpas em algum exagero da minha parte.

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    4. António Luiz Pacheco24 de março de 2021 às 15:27

      Caro Fernando, as Selectas Literárias, da nossa escola primária e liceu, no meu pessoalíssimo e traçajante caso, foram as grandes responsáveis pelo meu descobrir do interesse na leitura!
      A carga de um búfalo (Serpa Pinto), uma luta de varapaus (Camilo), excertos de Torga, Aquilino, Brandão, e outros mais, foram quem me levaram à descoberta de obras e autores.
      Abraço aí para o Planalto...

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    5. Caro António Luiz

      Lembro-me desses desenhos, complemento da leitura. Eram elementos que faziam apelo às duas artes, a da leitura e do desenho. Acho que toda a arte, seja ela de que tipo for, se deve promover com adereços de outras artes. Como exemplo, recordo as leituras que são acompanhadas de um fundo musical apropriado.
      Considero que os livros têm de se entranhar na pessoa, causar-lhe prazer e não obrigação, oferecer esperança e conhecimento, não dor e angústia. O livro, tal como o concebemos desde a descoberta dos meios da escrita, em papiro, pergaminho ou papel, é indissociável da cultura. Isto não quer dizer que se ponha de lado a tecnologia que os pretende substituir, porque faz parte do progresso.
      Há necessidade de não impingir livros e leituras, mas proporcionar o gosto por ambos e fazer ver às novas gerações que os livros não são apenas objectos de decoração na estante de uma sala. Se cada um fizer a sua parte na divulgação, veremos que os smart's e tabelt's são um parceiro da leitura e da informação, não são a essência e o veículo ideal para substituir a forma mais apropriada para se ler, aprender, apreciar e conhecer.

      Um grande abraço para a Cidade Morena

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  6. Gosto das suas abordagens de escrita, muito bem escolhidas, simples e engenhosas. Sucessos

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  7. nao sei, nem sequer é um palpite, mas se calhar nem toda a imaginaçao conseguirá parar a mudança.

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