Estupidez

Disse-se ao longo de mais de uma centena de anos que a América era a terra das oportunidades; infelizmente, passou a ser a terra da oportunidade de ficar calado, pois não se pode agora falar de nada sem que todas as nossas palavras, por mais inocentes que sejam, acabem julgadas da pior maneira. Recentemente soube que recusaram a obra de um autor português com um relatório em que, antes de mais nada, o descreviam como muitíssimo talentoso; mas esse talento era secundário para a editora norte-americana que decidiu não o publicar porque um dos romances falava de forma muito directa de um tema que, para a imprensa norte-americana, era muito sensível (a deficiência); e o outro tinha, entre as suas personagens, uma transexual (mas, como o autor não o é, certamente iria ser acusado de falar do que não sabe; ainda pensaram pedir um segundo relatório de leitura a alguém da comunidade LGBT lá do sítio, mas não encontraram nenhum trans que lesse português). É o que temos na terra das não-oportunidades. Então hoje para uma editora o talento é menos importante do que o assunto de um romance? E um agente cultural como uma editora mete o rabo entre as pernas, recusa-se a arriscar e abdica de mudar mentalidades mesmo quando diz que o autor tem muito talento? Não sei mesmo aonde vamos parar com este tipo de (in)decisões e ainda bem que eu já não vou durar muito para ver este tipo de censura encapotada tomar conta de tudo. É uma outra forma de preconceito que em nada ajuda as minorias, fingindo que as protege. Se os autores não podem falar do que não sentiram na pele, não é isso uma negação da imaginação? Albert Einstein disse que havia duas coisas infinitas: o universo e a estupidez. E que não sabia qual era mais antiga...

Comentários

  1. Bom dia a todos,
    De facto, são sinais dos tempos, temo que os EUA não tenham o exclusivo desta maneira de pensar, infelizmente.
    Pela sua descrição, identifiquei o autor e julgo que muitos dos extraordinários não terão qualquer dificuldade em o fazer.

    Uma boa semana,

    Rui Miguel Almeida


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    1. António Luiz Pacheco22 de março de 2021 às 13:16

      E ainda por cima um excelente e promissor autor!
      Penso eu de que... fiquei fã dele exactamente por ter tido a capacidade de tratar dois temas tão sensíveis, sendo alguém "de fora" deles!
      Pão de Açúcar então, é genialmente perturbador e tocante!
      Grande abraço para si!

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  2. Quando as tribos estiverem todas instaladas, um livro de um(a) homossexual em que surgem heterossexuais será recusado com a justificação de não estarem habilitados(as) a escrever sobre o assunto.

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  3. Se o Harold Bloom ainda fosse vivo, talvez pudesse dar uma forcinha, já que incluiu o Eça nos 100 melhores escritores do mundo.
    É verdade que nem sempre filho de peixe sabe nadar, mas este trineto de escritor sabe nadar e escrever muitíssimo bem.
    Estranhos tempos, estes que estamos vivendo... se bem que nunca foi fácil entrar no mercado livreiro dos States, penso eu.

    Bom dia da Água!

    Maria

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  4. Não se perdeu nada, portanto. Males que, às vezes, vêm por bem...

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    1. E também há males que às vezes vêm por mal...

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  5. Nada que espante. Mas, serão mesmo os EUA a terra das não-oportunidades onde o mérito e o talento ficam para último lugar, ou haverá outros lugares onde isso é o "pão-nosso de todos os dias"? Quantos talentosos autores terão sido em Portugal barrados de publicação por argumentos idênticos ou muito parecidos a esses? Afinal os editores em Portugal sempre explicaram aos seus autores que para serem publicados é preciso um misto qualquer de notoriedade pública, mais tempo de oportunidade, mais uma temática "chamativa", mais uma pitada de inovação e que só no fim vem o talento, a novidade e criatividade. Nada de novo pois para uma literatura que não é Europeia, nem latina, nem mesmo lusitana. Eça é um lugar desconhecido para a novíssima literatura Anglo-Saxónica.

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  6. Essa é digna de figurar na Enciclopédia da Estupidez de Matthijs Van Boxel, editada em Portugal pela Editorial Estampa em 2007, a partir da versão inglesa.

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  7. Conheço um aversão diferente dessa máxima de Einstein.
    Ele terá dito haver duas coisas infinitas: o universo e a estupidez. Embora, em relação ao universo, não tivesse a certeza...

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  8. António Luiz Pacheco22 de março de 2021 às 13:21

    Creio que a estupidez além de infinita, é universal!
    Os EUA não lhe escapam... o políticamente correcto, o ecológicamente correcto, a hipocrisia quaker ... vá lá , anglo-saxónica, o poder das minorias que funcionam como máfias, tudo elevado à potência máxima, tendendo para infinito... o pior é que isso já se vai sentindo também pelas nossas bandas!
    Enfim... saudações incorrectas cá da Cidade Morena, o meu feriado prolongado interrompido por uma causa humanitária, quando fiz o que achei correcti e acabei por chegar ainda a tempo de vir aqui espreitar!

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  9. Às vezes a libedade anda pelo mundo amordaçada
    Valem-nos os escritores que ainda a cantam à desgarrada.

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    1. António Luiz Pacheco23 de março de 2021 às 05:19

      APLAUSOS!
      Extraordinário e oportuno anónimo!

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  10. A estupidez cresce quando é partilhada. É o que muitos não têem a noção.
    Para lá dos limites dessa estupidez encontra-se o paraíso desejado.

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  11. Pois eu já não espero nada dos americanos!!! A era “trump” matou-no que eles tinham de bom. O preconceito vem ao de cima. Eles ainda estão a lidar com o #too.......
    E depois nós é que somos incultos!!!!! Ora.....ora.......!!
    Do jovem ARC gostei de todos mas o “Pão de Açucar” foi um murro no estômago!!
    Saudações a todos!

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  12. Afonso Reis Cabral já se vê ! Só perdem !...

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