Desdobrar
Não sei se se lembram de há já bastante tempo vos ter falado aqui no blogue de um baú cheio de cartas fechadas que foi encontrado cerca de trezentos anos depois de elas terem sido escritas. Eram 2571 missivas do Renascimento que um «carteiro» dos Países Baixos nunca entregou aos destinatários. O que nelas está escrito fará certamente luz sobre vários aspectos da sociedade desse tempo, mas havia um problema que dizia respeito à imensa probabilidade de estragar tudo com um gesto precipitado, até porque, segundo leio no Público de 3 de Março, as cartas estão dobradas de formas incrivelmente engenhosas, em padrões complicados que eram também uma espécie de assinatura de quem enviava, e corriam o risco de se desfazer ao toque. Então, para não deitar tudo a perder, o grande desafio foi ler cada carta sem a desdobrar, ou seja, lê-la com raios-X através de um aparelho criado, vejam lá, para «coscuvilhar» os dentes humanos, que tem uma sensibilidade inédita em cartografia. Um raio-X à História feito, afinal, com a ajuda da medicina dentária, a que posteriormente se associa um programa informático que permite desdobrar virtualmente as cartas em três dimensões e ler, por exemplo, uma missiva de 1697 de um senhor que pede a seu primo, mercador residente na Haia, o envio de uma certidão de óbito do cavalheiro Daniel LePers. As maravilhas da Ciência dedicam-se às Letras. Muito bem.
As maravilhas da ciência, concordo com o termo usado, aplicam-se em geral... pelo bem e pelo mal!
ResponderEliminarLembro-me de um professor de Física I, o Prof. Dr. Rodrigues Martins (goês!), já jubilado e aliás um sábio e um filósofo com quem muito aprendi para lá da constante de proporcionalidade, por sinal físico nuclear que estivera muitos anos na África do Sul a formar-se, se indignar e dar uma "sova" ao meu colega João Lobo Xabregas (por sinal também goês de origem) por causa de um famoso autocolante da "atomenkraft nein, danka" - quem se lembra? Ele defendia exactamente que a ciência e o nuclear eram postos ao serviço do bem, o que de mal os homens fazem com elas é da responsabilidade dos homens.
Creio que tinha razão... afinal quem mata não são as armas mas sim quem as usa!
Extraordinária ciência, sem dúvida, que nos permite estarmos aqui a comentar entre nós, a Km de distância e espalhados por aí! Ao mesmo tempo que permite divulgar "fake news" e agredir pessoas ou denegri-las...
Saudações positivas e saudáveis, cá da Cidade Morena!
A correspondência se lhe deveria um acto, tão sagrado quanto humano. Nasceu em sendo o domínio em pena às letras, elaborada com várias dimensões expressivas para o reconhecimento de sentido prático e lavra. Se a humanidade nos alcança através da palavra é porque me precede mais uma saudade da caligrafia que o silogismo. Mas, nada da actualidade chega ser "medonho" para detetar, quando apenas afronta um modo enfadonho do carteiro ou inocente de ser, neste caso presevar o artístico às dobraduras.
ResponderEliminarCláudia da Silva Tomazi
Em janeiro deste ano o primeiro-ministro Mark Rutte demitiu-se, devido a um escândalo que envolveu a segurança social lá do sítio, que foi acusada de má gestão de abonos de família que levou mais de dez mil chefes de família à ruína ou à devolução de elevadas quantias. Imaginemos que cada um deles escreveu uma carta e que, a dita Segurança as remeteu para o arquivo. Imaginemos que as ditas serão abertas daqui a 300 anos!
ResponderEliminarQuando um carteiro dos Países Baixos, calaceiro, resolve fazer isto, imaginem-se os carteiros do países altos!
Esta notícia dá pano para mangas em um possível livro de ficção. O autor poderia agarrar em meia dúzia de cartas e tecer o enredo dessas famílias; e colocar o título: "as cartas que ninguém leu".
Entre as contribuições da técnica para as letras elejo a invenção da imprensa. Queixamo-nos de que se lê pouco, pois com a invenção da imprensa a leitura aumentou em flecha.
ResponderEliminarAgora que me passei com armas e bagagens da Economia à História - a economia não existe, é uma abstracção, um pós forma onde não cabe o mais importante da sociedade, o ser Humano na sua racionalidade e fragilidade - só posso salientar: «Que extraordinárias Fontes Primárias para o melhor conhecimento desses nossos pais».
ResponderEliminarLi algures que economia, é a ciência que nos explicará amanhã, porque é que as previsões feitas ontem, não se verificaram hoje!
EliminarNa verdade a forma como muitos economistas usam a economia, parece fazer dela uma ciência do inútil... fazem previsões, estas raramente se verificam e então discute-se sobre isso, porque não aconteceram como se isso fosse realmente o mais importante. No entanto, tenho a perfeita noção da importância das ciências económicas, pena é que tanto economista não faça esta ciência de forma séria e para aquilo que serve e é importante: as pessoas!
Ontem mesmo, participei numa "conference call" promovida por um bolseiro que está a investigar numa universidade inglesa sobre as vantagens e o interesse do investimento na fruticultura tropical feita em África, a propósito de um grade projecto que estamos aqui a desenvolver, abacates, macadâmia e abelhas (como não podia deixar de ser!).
Sobre as questões e dúvidas que o jovem investigador me colocou, às tantas resumi-lhe aquilo que sempre digo, seja nas apresentações ou oportunidades que tenha: um projecto só é válido, funciona e é útil, em se desenvolvendo nas três vertente: social, pois tem de ser feito para pessoas e com pessoas. Económica, pois sem economia as pessoas não beneficiam e de nada serve! Ambiental, pois é no ambiente que ele se desenvolve, é no ambiente que estão as pessoas e sem ele não há pessoas, nem projectos, nem economia! Creio que é essa a perspectiva a que o Pedro alude e chegou, talvez... a História são as pessoas, são elas quem faz a história e é para elas que é feita. As implicações são imensas e amplas, a própria economia tem uma forte ligação à história, pois deveras tudo se repete e as grandes lições estão na história!
A ciência de nada serve sem as pessoas, pois é feita por pessoas e para as pessoas.
Tal como a nossa amada e Extraordinária literatura, tem de ser feita por pessoas e para as pessoas.
Afinal está tudo ligado... quem diria ao carteiro que não entregou a correspondência - seria curioso indagar porquê - o que um dia ia provocar ao ser finalmente encontrada, fora tudo o que causou pela sua atitude de incumprimento!
Abraço de quem acredita na História, e, na Ciência em geral, apesar de ter a noção de que de facto em ciência não há certezas absolutas, as excepções confirmam a regra e tudo é dinâmico...
Nem mais, caro António. Um mundo tão relativo, excepcional, a que nem Matusalém chegava na compreensão e conhecimento. As pessoas sempre em primeiro lugar. Abraço.
EliminarAdoro achados e investigações dessas, de descobrir coisas sobre o passado.
ResponderEliminarAndo mergulhada na pesquisa familiar, em alguns casos, já cheguei aos 8ºs avós, nomeadamente, um casal que casou em 1698! É fascinante e aprende-se também alguma coisa sobre a mentalidade e a forma de vida dessas pessoas, por exemplo, com os comentários do padre, quando um recém-nascido morre sem ser batizado, ou quando não é posto o mesmo cuidado nos registos de filhos de pai incógnito como nos outros. Em casos destes, até acontecia os nomes dos avós maternos serem registados incompletos, como se as pessoas quisessem esconder o acontecido.
Não faço isto para tentar encontrar antepassados nobres, que não os tenho, é mesmo puro interesse pelas origens. Descobri inlcusive um bisavô exposto da Santa Casa de Lisboa, que casou em Assentiz (Torres Novas), os pais da minha avó materna.
Esta pesquisa é feita consultando os livros paroquiais online, disponíveis na página "tombo.pt". Já agora, aproveito para dar os parabéns aos arquivos portugueses, de se darem ao trabalho de digitalizar todos esses livros antigos, para que qualquer um de nós os possa consultar em casa, de graça, também uma excelente ocupação nestes tempos de pandemia.
E faz muito bem!
EliminarNão tem que se justificar! Procurar saber sobre e quem foram aqueles antes de nós, não pode ser reduzido ao corriqueiro sentimento de "cagança" (perdoem o vernáculo) , e sim justamente saber quem foram, porque estão na nossa génese, nós somos os que vieram depois, descendemos deles e se somos parecidos com alguém, se temos características vindas de alguém, é justamente deles!
Portanto não sendo embora um dever, é algo que devemos procurar saber.
Houve um tempo, que julgo estar ultrapassado e a acabar, em que a história fosse ela a pessoal e familiar, ou a colectiva, foi desconsiderada e até motivo de vergonha para os que pretendem apagar passados e factos, como imprescindível para se construir "o homem novo". Porque assim liberto de memórias podia ser programado a bel-prazer dos seus criadores.
Um erro tremendo, pois só conhecendo o passado se pode entender o presente, e, prevenir o futuro.
E no resto, é fascinante essa descoberta de quem foi e estve antes de nós!
A genealogia é uma actividade interessantíssima pelo que remete para uma sociedade muito mais estruturada do que poderíamos pensar, pelos movimentos populacionais europeus que já reportam há milénios, pelos inúmeros antepassados que se podem encontrar expostos na roda, etc. E tens toda a razão, Cristina, em dar os parabéns aos arquivos nacionais, já que tenho tido mais dificuldade num ramo proveniente do meu quarto avô Francês de Bayonne (meados do século XIX), onde há uma dificuldade bem maior no acesso aos arquivos do que no das vereações e capitães-mores de Grândola, que antes de "Sande" foram Guerreiro; e, antes de Guerreiro, Barradas... até ao 13 avô (n.1505) Fernão Gonçalves... Toucinho (eheheheh). É curioso como, entretanto, a tendência de valorizarmos o ramo varonil pode dar mau resultado, ao percebermos que é a dada altura - por via de uma 5ª avó - que se impõe o apelido actual. Em suma, para dizer que Arquivos e Bibliotecas em Portugal são algo de que nos devemos orgulhar, nem tudo sendo mau neste "reino da Corte" de Antigo Regime. Quem nos conhecia bem era o D. Pedro V, bem retratado na excelente biografia da Maria Filomena Mónica - em que tantos agora gostam de "bater".
EliminarPura verdade!
EliminarAs vantagens em se valorizar a história, o passado e as pessoas!
Ainda em Janeiro, pude ajudar uma jovem amiga aqui de Benguela (a Mokas, aliás Alexandra São Pedro) , bisneta de portugueses de Vila Nova de Poiares que anda a tratar de obter a nacionalidade. Ela soube pela avó ainda viva, o nome do bisavô - José Martins de São Pedro - nascido na freguesia de Arrifana em 1905. Sabendo eu que os registos anteriores à república eram feitos na igreja pelo acto do baptismo, e, transitaram depois de 1910 para os novos arquivos do registo civil, contactei a junta de freguesia de Arrifana para obter pistas, prestávelmente e atendendo ao facto de se ajudar alguém a recuperar a nacionalidade avoenga, deram-me um contacto na câmara de Poiares onde também obtive todo o apoio e de onde me deram contacto para o Arquivo da Universidade de Coimbra. Ali, encontrei tudo organizado e prestimosamente por mail, com facilidade, por 25 euros, me enviaram uma cópia autenticada do assento de nascimento do bisavô da minha jovem amiga!
De experiência própria, aqui há uns anos por razões de uma herança de jazigo de família, três primos direitos de meu pai (na altura já falecido) andaram comigo a vasculhar os registos no arquivo municipal em Santarém, eles o fazendo no Porto e Viana do Castelo, tendo-se localizado os nascimentos e falecimentos de trinta e seis (creio que foi esse o número...) pessoas! Até e desde o início do século XIX. É de facto notável!
Entretanto e fazendo prova de um sentido de humor bem apurado (é de família) o meu filho que tinha na altura uns 14 anos, vendo a assiduidade com que os primos velhotes lá iam a casa, inspirado no assunto mortuário, passou a chamar-lhes: Os Satânicos!
Eheheh!
Sim, os arquivos nacionais são fantásticos neste serviço. A família do meu pai é transmontana (distrito de Bragança), com um ramo espanhol (ou leonês) da região Zamora/Alcanices. E já vi que vou ter dificuldades em pesquisar esse ramo, ainda não descobri essa possibilidade de pesquisar em casa, aqui na Alemanha, nos arquivos de "nuestros hermanos".
EliminarNa aldeia-natal do meu pai, de facto, nem sempre se seguiu a linha varonil. É verdade que as mulheres, normalmente, eram registadas apenas com o nome próprio, mas há vários casos em que é ao apelido do avô materno que se dá seguimento na família. Outras vezes, em dois irmãos (homens), um deles transmite o apelido paterno, o outro o materno. E até há um caso, nos meus antepassados, em que o nome próprio de uma mulher deu origem a uma família. O meu pai sempre me disse que a avó materna dele descendia da família dos Rosas. Uma minha prima em segundo grau e eu descobrimos que esse nome teve origem numa nossa tetravó chamada Rosa Guiomar! A família Rosa ainda hoje existe, na aldeia.
Também há alcunhas que passaram a apelidos, parece ser inclusive o caso do meu Torrão.
Barradas? Por acaso, houve algum padre na tua família com esse nome?
Fantástico! Logo eu, que sou uma fã do neerlandês. Ando a aprender (bem, agora com o confinamento, desaprendi, pois não tenho aulas ;( ).
ResponderEliminarÉ muito difícil para os meus alguns anos? É! Mas eu adoro.
Penso que, a ter vivido outras vidas, vivi nos Países Baixos (espero não ter sido o tal carteiro calaceiro...ou até teria a sua piada se tivesse sido...não me recordo de nada, juro!). :)