Arte pobre

Leio no Público que a Fundação Calouste Gulbenkian vai apoiar os artistas com mais de um milhão de euros. No artigo, que não vem assinado, diz-se mesmo que o apoio às artes sempre esteve no «ADN» da Fundação que, até hoje, foi vista, aliás, por muita gente como «um Ministério da Cultura informal». É verdade que sim – e ainda bem, pois o Ministério da Cultura «formal» pouco tem servido aos artistas, sobretudo neste período catastrófico que atravessamos, apesar de uns míseros apoios anunciados. Reparo, porém, que as ajudas dos dois ministérios (o verdadeiro e o falso) são sempre para as artes visuais e performativas, mas nunca incluem os escritores que, sei lá porquê, ficam de fora como se não estivessem a sofrer na pele tal como os outros. Ora, com as livrarias fechadas há que tempos, com tantos livros que deixaram de se vender, quando os autores receberem os relatórios de vendas anuais vão levar um verdadeiro rombo nas suas contas. Um autor que conheço bem, por exemplo, passou, de uma semana para a outra, de cerca de 100 exemplares semanais vendidos do último título para 2, queda fulminante de que é difícil alguém recompor-se, até porque, mal abram as livrarias, os editores vão «despejar» nelas tudo o que ficou entretanto parado nos armazéns e os pobres livros saídos no início do ano que nem tiveram tempo para respirar serão logo chutados para fora das lojas para dar lugar aos novinhos em folha de três meses acumulados… Mas os escritores são artistas em que ninguém pensa. O MC formal dá umas bolsas de criação literária todos os anos e acha que chega para apoiar as Letras. E o MC informal não costuma incluí-los nestes programas de apoio. Uma outra arte pobre?

Comentários

  1. É um país pobre e mal gerido, cheio de boys famintos e sem qualquer cultura ou visão para o país. Mas também é um país pequeno e onde se lê muito pouco (má política também de educação). O dinheiro estatal e informal não chegando para tudo, chega para onde os boys acham mais vantajoso e para onde há retorno. Sobra às editoras reinventar-se, talvez juntar-se às livrarias num marketing comum, e dar a conhecer os seus autores nas escolas, em clubes de leitura apelativos (sigo o da Leya, foi uma boa ideia), e sobretudo no estrangeiro, onde o mercado, o dinheiro e as políticas de educação sejam diferentes. Talvez subsidiando uma primeira tradução para inglês (sempre dão trabalho aos tradutores), pelo menos dos autores que valham a pena, seja lá o que isso for. E mesmo assim, será provavelmente insuficiente. Faltará sempre escala em Portugal. Mas há o Brasil! O Público tem um clube de leitura com a Folha de São Paulo e eu tenho ouvido nele os brasileiros que adoram o nosso Saramago , o nosso Valter Hugo Mãe, e espero que hoje, o nosso José Luís Peixoto. Eu vou a contra-corrente, compro e leio. É verdade que leio muito emprestado e das bibliotecas municipais, porque os livros são caros e ocupam muito espaço, mas também compro. E ofereço. E cheguei a andar contente porque pelo menos um dos meus filhos lia regularmente. Agora já não o faz. E não consigo mudar isso, nem com todos os livros que tenho em casa, alguns dos quais lhes li quando eram pequenos, nem com os vários clubes de leitura em que participo, nem com as imensas conversas sobre livros que sempre tive com eles, e que os meus filhos hoje em dia ouvem mais por educação do que por verdadeiro interesse.
    Filipa

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  2. Sérgio Tovar de Carvalho9 de março de 2021 às 03:28

    Distingue o falso e o verdadeiro ministério da cultura, mas não deixa muito claro qual é um e qual o outro... Não será que um Ministério da Cultura é sempre falso? Tem sentido existir uma área da governação que pretende ter por escopo a cultura, sem que tenha ao mesmo tempo a educação -ou instrução, ou clarificação, ou desobnubilação, ou capacitação, como se lhe queira chamar...- como foco? Ministério da Cultura, ou Secretaria de Estado dos Subsídios, Propaganda e Boa Imprensa? É que, se é apenas para subsidiar, basta ter dinheiro, nem é preciso um ministério por não haver serviço a prestar; mas se a ideia for mesmo o serviço da educação e da cultura, então trata-se de investir. (E impedir que os artistas desistam é, naturalmente, um investimento).
    Ora, a FCG parece que tem investido; mas o MC, serve para quê?

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  3. António Luiz Pacheco9 de março de 2021 às 03:37

    Se há ministérios que nunca funcionaram, o da cultura será um deles! Aliás, para fazer aquilo que vem fazendo (o que já vem muito lá de trás, diga-se!) bastava ser nem uma secretaria de estado, apenas uma direcção-geral!
    O que o MC faz normalmente é anti-cultura, defende os interesses pessoais do ministro e mais nada. Aparece quando lhe calha ou fica bem, publicita e exagera o pouco que faz e colhe os frutos do sucesso alheio como vitórias de uma política cultural que nunca houve.
    Pensar que apoie a cultura e os artistas, os criadores, é em vão!
    Lá aparece um ou outro beneficiado do regime, aliás viu-se bem quem são os que se querem acolher à sombra do regime quando se apressaram a manifestar posições contra partido ou pessoa numa acção política recente, quando alguns pensaram que prestando vassalagem iam colher benefícios: não colheram nem colherão! Apenas se denunciaram como oportunistas, pois os que não pretendem ser de nenhum regime a não ser do criativo e artístico, esses não se manifestam!

    Também, há o mito, de que os escritores são artistas que ganham dinheiro... não precisam de subsídios como para o teatro e cinema, por exemplo e para onde vão a maioria das verbas, numa visão propagandista. Tal como os músicos, os escritores vivem dos seus rendimentos... segundo parece, se a música passa na rádio, as páginas dos livros nem por isso, mas quem se dá conta?

    Quando um país despreza a sua própria cultura, a popular, a sua herança cultural, como esperar que a política e a governação se preocupem com ela?
    É a pergunta que vos deixo!
    Comecemos por prezar, defender, divulgar e orgulharmo-nos da nossa própria cultura, em vez de nos envergonharmos dela e deixar que a vilipendiem e apouquem! Somos um país de muitas tradições e sobretudo multicultural! O nosso folclore, as tradições, assim o mostram e é por aí que devemos começar, em vez de importar e copiar outras culturas eventualmente mais fortes mas indubitávelmente menos ricas que a nossa, a tradicional. Aquela popular, feita e composta pelo que colhemos pelo Mundo inteiro, fosse no Império fosse na diáspora, nos descobrimentos, ao longo de séculos. A dos nossos ancestrais adoradores do Sol e da Lua, depois enriquecida por aquela trazida pelos inúmeros invasores e colonizadores, depois já pelos nossos próprios descobridores e colonizadores do longínquo, pois fomos colonizadores-colonizados, uma característica bem nossa, que deu um caldo de culturas talvez único no Mundo.

    Saudações cá de um desses lugares que deu tanto à nossa cultura, a começar pela miscigenação, a Cidade Morena!

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  4. A Gulbenkian tem sido um "oásis" no meio do nosso deserto cultural. Talvez as artes plásticas tenham sido as grandes beneficiadas, pelo menos antes de Abril (muitos bolseiros em Paris...), mas porque havia poucos escritores, e ainda menos profissionais (com idade para não serem "bolseiros"...).

    A culpa da falta de apoio tem sido dos escritores (mesmo nas escolas que se visitam, e eu contra mim, falo, nunca recebi um cêntimo de nenhuma escola, nem mesmo para a ajuda do "petróleo").

    A escrita foi entendida (mesmo pelos nossos melhores...) como uma segunda profissão. E isso tem dado muito jeito aos ministérios e ministros das culturas, que gostam mais de se servir, que de servir...

    Aquele que presumo ser o escritor que vende mais livros entre nós, é apresentador de telejornais...

    Esta crise podia ser muito boa para se clarificar, o que é ser-se profissional da cultura, e quais os seus direitos e deveres. Mas parece-me que ninguém quer "entrar nisso". Pelo menos da parte do poder.

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    1. António Luiz Pacheco9 de março de 2021 às 07:35

      Uma análise objectiva e interessante!
      Com conhecimento de causa, aliás.

      Abraço cá de Benguela.

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  5. Muito bem, Maria do Rosário. Mesmo as bolsas de criação literária são poucas e sempre alicerçadas na espuma dos dias. É curioso como o próprio MC vê a literatura como uma arte menor, um trabalho à mão de quaisquer dedos. Verdade que o MC verdadeiramente não existe. É um "flop" num país pobre e inculto. Mas pobre mesmo de quem vendia 100 exemplares por semana que, grosso modo, significa em tempos áureos de produção literária o embolsar de pouco mais de 500/600 euros por mês - isto antes do preço do livro não vir por aí abaixo rapidamente. Verdade que se auto-editasse e conseguisse vender com esse ritmo talvez já levasse para casa - no mínimo - sete vezes mais. Mas auto-editar é mau, péssimo, uma aberração, um selo de má literatura. E, é verdade, pela "força monopolizadora do mercado", um caminho sem caminhar. Vamos reformar Portugal e este mercado?!

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    1. Reformar significa criar cooperativas de autores "esmagando" a intermediação, autores para leitores ou pequenas livrarias. Ou seja, retirando o "mercado" da equação.

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  6. Chamar «escritor» ao apresentador de telejornais, é uma ofensa grave aos escritores deste país, Luís Eme.
    Sim, o país é pequeno e largamente analfabeto, mesmo os que andaram na escola e na faculdade, a maior parte saiu analfabeta.
    Se pensarmos que três-canais-de-televisão-três, diariamente, têm programas a falar, todos ao mesmo tempo, do penalty que não foi marcado, do golo metido em claro fora de jogo, ficamos a saber das razões por que somos leitores de um livro por ano. Se é que um, não seja exagero meu.
    Tivesse um livro, uma exposição, um filme, uma peça de teatro, a sua apresentação e a sua discussão num canal televisivo, com o mesmo tempo dedicado ao pontapé na bola, talvez um outro galo cantasse pelas manhãs.
    Talvez...

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  7. Claro que é escritor, Mário Sérgio. São muitos livros escritos, e vendidos. E tem também muitos leitores.

    Em relação ao gosto, cada um come o que quer (ou pelo menos devia ser assim). Eu "provei" o "Codex 632" e chegou-me...

    Mas o facto de o achar um mau romancista, não me dá o direito de dizer que não é escritor. Há bons e maus em todas as profissões...

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    1. António Luiz Pacheco9 de março de 2021 às 12:17

      Esclarecido como sempre, Caríssimo Luis Eme!

      Não me entenda mal, Extraordinário Anónimo, mas o que é um facto e a verdade, é isto mesmo, e, as pessoas lêem o que querem, são livres de o fazer!
      Não gostamos? Pois não... mas é apenas a nossa opinião e gosto, mais nada, irrelevantes afinal se formos a ver, o que conta são os leitores e "ele" tem muitos, mesmo muitos e gente instruída, culta, garanto-lhe pois conheço alguns.
      O importante é que se leia, nem que sejam "As lições do Tonecas" (Grande, Enorme e Extraordinário José de Oliveira Cosme) , porque só lendo é que deveras há e se divulga a cultura... mas que pensar disso quando os académicos até já vêem racismo n´Os Maias?
      Estamos tramados, é o que é!
      Há que lutar contra isso!
      Enfim, penso eu... de que...

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  8. De facto preocupante. Mas, não o é por tratar mais que seguimento a régua com várias medidas e, a possibilita através deste exemplo comparando-a.Ora, quando a exibem culturalmente sistemática ou arte pobre. Assim por dizer, delicada em sistemática, agoniza. Além disso, velar Arte sem expressão é um modelo monárquico; reina sua predileção. O breve a literatura preserva-se através a educação e no mais evidenciamos o recente abuso distanciado na área do ensino.Felizmente nada a sobrepõe por necessidade o conhecimento.

    Cláudia da Silva Tomazi

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    1. António Luiz Pacheco9 de março de 2021 às 14:10

      Contesto!
      Os reis sempre tiveram os seus artistas, protegidos... a república que se saiba, nem por isso!
      Ou, sobretudo em regimes republicanos com tiques monárquicos, como há tantos...

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  9. Depois de algum período de timidez, é bom ver a FGC a recuperar a sua vocação bolseira, tradição que manteve durante muito tempo, mesmo antes do 25 de abril, e que permitiu que muitos artistas (principalmente artistas plásticos) saíssem do anonimato e projectassem as suas obras e ímpeto criador pelo país e pelo mundo. Sem querer falar de nomes, sob pena de cometer a penosa injustiça de não identificar alguns dos mais importantes no panorama artístico nacional, a política de concessão de bolsas da FGC constituiu-se como uma importante rampa de lançamento para artistas até então desconhecidos e que mais tarde lograriam atingir a consagração.

    A incorporação das artes literárias no plano de apoios da FGC seria não só desejável, como seria fundamental fazê-lo tendo em conta os princípios que levaram a fundação a apoiar os artistas plásticos das décadas de 60, 70 e 80, dando primazia a artistas pouco conhecidos mas com planos artísticos demonstrativos do seu potencial, contrabalançando assim a política de bolsas de criação literária do MC, que, arriscando muito pouco, atribui apoios a um grupo restrito de escritores já consagrados e bem inseridos no meio literário nacional.

    Não estou aqui a colocar em causa a manifesta legitimidade (e, sobretudo, a necessidade) de os nossos escritores mais conhecidos, como qualquer outro artista, recorrerem a apoios públicos para sobreviverem do acréscimo de humanidade que nos dão em cada obra publicada. Estou apenas a sugerir que a FGC poderia, como sempre, substituir-se ao MC, incentivando e apoiando o aparecimento de novos autores.

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    1. Por dislexia de dedos apressados, no comentário anterior, onde se lê FGC, deve-se ler FCG (Fundação Calouste Gulbenkian). As minhas desculpas pelo erro.

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