Leiam!
«Leiam!» foi o apelo mais directo que Monsieur Le Maire, o ministro das Finanças, da Economia e da Recuperação de França, fez aos jovens de uma escola no passado dia 25 de Janeiro, chamando a atenção para a importância e o prazer de uma actividade que todos nós comungamos aqui no blogue: a leitura. Mas fê-lo com uma série de frases que eu, se tivesse paredes livres, colava com fita-cola por todo o lado para que todos lessem, de tal forma são claras, apropriadas e direitinhas ao osso. A que mais me tocou foi «Os ecrãs devoram, os livros alimentam», mas há outras igualmente boas, como a que compara a escravidão dos jovens em relação ao digital com a liberdade que proporciona um livro, ou a que vê o acto solitário da leitura como uma abertura ao mundo. Correndo o risco de ir bater com o nariz na porta (quantos que aqui passam saberão o francês suficiente para compreender?), vou divulgar o link deste magnífico vídeo, não só pelo que diz, pela forma como o diz, mas também pela função que ocupa a pessoa que diz: um ministro das Finanças e da Economia. Nem pedia tanto. Gostaria que cá em Portugal os responsáveis pela pasta da Cultura dissessem e sentissem um cagagésimo do que diz e sente Monsieur Le Maire. Já seria certamente bom.
https://www.facebook.com/blm27/videos/227839902155626
E vindo de um Ministro das Finanças ! Espantoso ! A França ainda continua a ser a França. Acalenta-nos a esperança.
ResponderEliminarC'est vrai, Artur!
EliminarE por cá o que se faz? Fecham-se livrarias e bibliotecas e até se proíbe a venda de livros em hipermercados, esquecendo que Portugal não é só Lisboa e Porto e que há muitas vilas e cidades que nem livrarias têm.
Confinada duplamente, a vinte e tal Km de uma cidade do interior, não pude aproveitar todas as 1001 promoções com que fui diariamente bombardeada. Custou-me muito ir a uma grande superfície comprar bens essenciais e não poder comprar 2 ou 3 livros que gostaria de me ter oferecido no natal: pude vê-los à distância de uma corrente mas não pude tocá-los nem comprá-los.
Ah, mas poderia ter ficado a saber tudo das vidinhas das cristinas e dos gouchas e dos claudios: estavam logo à entrada e não tinham correntes...
E lamentei que a cegonha que me trouxe de França não me tivesse deixado lá...
Aposto que na França também me teriam permitido comprar uns pijamas quentinhos para a minha mãe (prestes a fazer 98 anos e que por motivos vários estraga imensa roupa interior).
Desculpem ter desviado a conversa, mas estou tremendamente desiludida com os governantes do meu país: muita parra, pouca uva!
Fortes com os fracos...
E é tudo farinha do mesmo saco, tudo igual, querem-nos em casa e burros...
O que vale é que já cá não devo andar muito tempo.
ap
Muito obrigado por ter escrito de modo tão claro o que muitos de nós, os mais velhos, vamos sentindo. Vivemos tempos tristes e o seu fim não se adivinha. Abraço solidário.
EliminarApoiado!
EliminarFoi um apelo extraordinário! Por cá já só pedíamos que as livrarias, bibliotecas e arquivos pudessem continuar a fazer o seu trabalho neste momento difícil.
ResponderEliminarBom dia com alegria e pandemia
ResponderEliminarComungo das preocupações e conselhos do senhor Bruno Le Maire.
O meu melhor amigo nestes dias chama-se "Router com controlo parental". Uma espécie de polícia sinaleiro cá de casa, ajuda essencial a evitar excessos ao écran, seja em tempo de exposição, seja em qualidade de conteúdos.
Acrescento que as preocupações do senhor Le Maire em relação ao digital vão além da destruição do tempo disponível para a leitura.
Cito: "L'oligarchie digitale est une des menaces qui pèsent sur les Etats et les démocraties"
Não compreeendo como continuamos (os habitantes das democracias em geral) a fomentar a utilização de ferramentas como o Facebook.
Claro que precisamos de comunicar uns com os outros. Pena é que não estejamos sensibilizados para o excedente de informação que fornecemos a estes gigantes tecnológicos.
Excendente esse que pode ser utilizado, por exemplo, para manipular eleições e referendos.
O problema não é existir Facebook e quejandos. O mal é não haver regulação dos estados de Direito á altura do poder destas corporações.
Obviamente, imagino eu, o senhor Le Maire, e os seus colegas ministraos das finanças, também gostariam de taxar convenientemente estas operações.
Pessoalmente, faço o que posso para não me sentir cúmplice: não utilizo não promovo nem divulgo redes sociais.
A par da iliteracia propriamente dita, somos colectivamente vítimas de outras iliteracias imoportates: financeira e informática.
Saúde e boas leituras
cp
Já somos dois, CP, no que toca a "não utilizo não promovo nem divulgo redes sociais". Por mim, pode fechar o tasco o Zucabergue ou lá como se pronuncia em português corrente o nome do dito.
EliminarLer é um acto de liberdade, que liberta também.
ResponderEliminarUm bom mote!
Seria tão bom que entendessem isso, e, que desta crise se possa dizer que há males que vêm por bem, ela servindo para repôr coisas, como a leitura e a solidariedade entre outras.
Não me falem em cultura depois disto tudo, pois em Portugal a cultura que existe é desprezada. Querem sim copiar outras culturas, até impô-las como se isso fosse sinónimo de modernidade e de elevação.
Um erro, pois a cultura tal começa pela preservação da própria!
A nossa ministra da dita, já mostrou que não é pessoa da cultura e nem pela cultura, salvo a dela mesma, parecendo que a sua principal característica e pela qual foi nomeada , é a sua opção sexual e não o trabalho em prol da cultura.
Pelo contrário, os franceses são e permanecem cultos, independentemente das opções políticas, sexuais ou outras, e. fazem pela cultura. Preservam muito bem a sua e ao mesmo tempo criam a nova, evoluem.
Mas esses exemplos não interessam aos nossos "cultos" nem aos responsáveis.
Pena! Pena ver que a intolerância está a crescer, não à direita nem pela direita mas como se tem visto à esquerda e pela esquerda, que em nome da liberdade (deles) pretendem cercear a liberdade dos outros.
Se temos de ser intolerantes com a intolerância, temos de olhar para ambos os lados, esquerda e direita.
Não se esqueçam, nem deixem esquecer que, a diversidade do pensamento é a maior maravilha da humanidade! Penso eu, e, não creio estar errado.
Leia-se pois!
Saudações cá do Bairro Ribatejano.
Gostava de saber quantos deputados leram pelo menos dois livros em 2020?
ResponderEliminarOs Centenos deste país, para além dos números, "saberão ler"?
Olá, SEVE
EliminarAposto que leram os tais dois livros: o livro de ponto; o livro de cheques.
O João César Monteiro dizia que, neste país, a primeira condição para se ser secretário de estado da Cultura, é distinguir uma vaca de um boi, o Hermínio Monteiro gostava de pensar que editava livros como quem trata uma vinha, o Manuel António Pina chegou a dizer que “as 300 pessoas que em Portugal compram livros de poesia são as 300 pessoas que escrevem poesia também – já pensei juntá-las numa jantarada”, Lisboa ficou povoada de hostels e alojamento local, as livrarias foram desaparecendo, as que restaram estão fechadas e não compra livros em hipermercados, não entra na Bertrand, nem na Leya porque aquilo pertence a gente que é alheia ao mundo dos livros “os carros são o meu hobby”, disse um dessa gente, mas livros para quê?, nas «Vidas Secas» de Graciliano Ramos, Fabiano diz a Tomás da Bolandeira: “Seu Tomás, vossemecê não regula. Para quê tanto papel? Quando a desgraça chegar, seu Tomás se estrepa, igualzinho aos outros”, ah! sim, ler implica esforços diversos, incluído ter dinheiro para comprar livros, (não) pensar que um pão vale mais que um Shakespeare, não há gaivotas em terra quando um homem se põe a pensar que se cantava à capella, outros tempos, outros tempos, quando viu Farenheiit 451, filme do Truffaut que o obrigou a comprar o livro, mas livros para quê?, sim, para quê? Júlio César, na peça de Shakespeare, desconfiava de Cássio porque era magro e porque lia muito, a poetisa Teresa Jardim ”o acto de ler reabre feridas. Nos livros em que isso acontece, com frequência, poderia ao menos haver um aviso na capa;
ResponderEliminarassim como se faz com as carteiras de tabaco, embora se saiba que poucos deixam de fumar por isso” quando era jovem ouvia o pai dizer que no tempo dele lia-se mais lia-se melhor, torcia o nariz, tempo de dizer que chegou aqui chateado, escreveu este palavreado, continua chateado, mas antes de se ir embora lembra o Camus «se a literatura salva? Não, não salva. Mas se ela se extinguir, extingue-se tudo.»
O paradoxo disto tudo é que possivelmente nunca se leu tanto e se escreveu tanto, mal ou bem, independentemente dos "veículos". Vivemos hoje num mundo muito mais diverso, não necessariamente menos inculto ou desprovido de conhecimento. Pelo contrário! Na realidade temos de dissociar o nosso mundo, aquele onde crescemos e nos formámos como gente, de um mundo novo que tem a particularidade de já não ser o mundo das nossas referências. Nesse aspecto o "Adeus Futuro" é apenas o adeus do nosso espaço de vivência e contemplação, um espaço onde não havia a precedência do Inglês perante a cada vez menor relevância dessa língua franca e diplomata, o Francês, de que quase todos aqui - desconfio e pela certa, adivinho -, somos tributários. Quem contabiliza hoje os circuitos informais, o livro e a biblioteca, etc? A minha tese é que a perda maior que assistimos e choramos como já não houvesse futuro - sempre haverá e será outro, não "construído" por nós - é a da ficção, pois foi ultrapassada pela própria realidade. Uma realidade que já não é monolítica, desconhecida, sendo cada vez mais plural, no quadro dos novos direitos geracionais e de um mundo cada vez mais rápido e à mão. Um mundo cada vez mais colorido, já não a duas ou quatro cores, mas tal como os computadores, um mundo de "threads", "caches", de múltiplas configurações.
ResponderEliminarLer, sim! Reflectir, sim! Ficcionar, talvez! Impor, jamais! Libertar e deixar fluir o novo, o diferente, o que não nos invoca, sempre!
Ao "Adeus Futuro" não devemos contrapor o "Olá, Futuro"?
Vivo em França e posso assegurar que este nosso ministro francês não é caso isolado. A maioria dos ministros apelam afincadamente e publicamente à leitura. O presidente Macron fá-lo sempre que tem oportunidade. No confinamento de Março de 2020, muitos políticos se manifestaram perante o perigo da pandemia, todos eles, sem excepção, incentivaram o seu povo a ler, dizendo que a melhor forma de "matar" aquele tempo terrível era com um livro nas mãos.
ResponderEliminarUm abraço a todos.
Carla PAIS.
Olá. Boa noite. Pegando no início do comentário de António Luiz Pacheco, "Ler é um acto de liberdade que liberta também" lembrei-me de um trecho do livro que ando a ler. O livro tem o título de "Terra Alta" de Javier Cercas. Porto Editora.
ResponderEliminarA acção passa-se no pátio de uma prisão, durante o recreio.
Uma personagem, Gilles, mais conhecido pelo Francês, é intrepelado por outro prisioneiro.
"-Francês, pára de ler, que te vai secar o cérebro!
O comentário mereceu a aprovação da assistência. Erguendo os olhos do livro, o Francês identificou o brincalhão e perguntou:
- Sabes porque leio tanto, Quezada?
- Porquê? - desafiou-o o outro envaidecido pelo seu êxito.
- Para te perder de vista, a ti e a este buraco de merda, sua besta."
Vamos ler.
A. Delfim.