Inivisibilidade
Perguntam-me frequentemente quando escrevo um livro sobre a minha experiência como editora e conto as pequenas histórias e os episódios menos felizes relacionados com autores que publiquei (e não publiquei). Digo sempre que essas coisas por que algumas pessoas salivam realmente devem permanecer no segredo dos deuses. João Tordo, no seu livro Manual de Sobrevivência de Um Escritor, quando fala de edição, conta, por exemplo, que foi o seu editor na altura quem insistiu em que mudasse o título do seu livro que venceu o Prémio José Saramago. Que ele o diga é bonito; já se fosse o editor a dizê-lo por ele seria, quanto a mim, bastante feio. Num grupo sobre edição criado no Facebook, Rui Beja, que foi presidente do Círculo de Leitores ao longo de muitos anos e se tem especializado em questões editoriais e escrito sobre elas, partilhou um artigo muito interessante de uma revista espanhola sobre como são (quando são) recordados os editores (no caso, por causa da morte prematura do grande editor López Lamadrid aos 59 anos). E foi nele que encontrei o melhor parágrafo sobre a minha espécie. Aqui vai ele (a tradução, livre, é minha):
«Os editores nunca foram personagens públicas; se por acaso se tornam conhecidos, é apenas dentro dos círculos literários, que são sempre pequenos e fechados. Mas a sua importância reside, em parte, justamente nessa invisibilidade. Porque teria alguém de conhecer a vida do tutor, do treinador, do professor ou do editor se pode ter acesso ao artista, ao atleta, ao pensador ou ao autor? A sua figura é naturalmente secundária. Não pode haver duas pessoas no mesmo lugar: o livro que chega ao público não pode estar assinado por mais de uma pessoa.»
Obrigada, Jacobo Zanella, por pensar e exprimir tão bem o que sinto.
Obrigada, Maria do Rosário, pelo workshop onde falou tão bem sobre LIVROS e a sua edição, e onde também respondeu a essa pergunta. Quando a coloquei, não estava tanto a pensar na Petite Histoire, mas mais em métodos, formas, conselhos, experiência partilhada. Mas pensando melhor, claro que teria que falar dos seus autores e claro que não seria elegante. Ficam os workshops, já não é mau ;)
ResponderEliminarFilipa
Aqui no blogue:
Eliminarhttps://horasextraordinarias.blogs.sapo.pt/historias-que-fazem-bem-447620
Este comentário de cima era para pôr no comentário seguinte, mas enganei-me.
EliminarBom dia com alegria e pandemia
ResponderEliminarOutras personagens que também passam despercebidas, invisíveis, são os homens do lixo.
Da Turquia chega esta maravilhosa história, duma biblioteca montada a partir de livros deitados para o lixo.
https://www.goodnet.org/articles/turkish-garbage-collectors-open-library-from-books-rescued-trash
REciclar é preciso
Saúde e boas leituras
cp
Veja por favor o comentário anterior e o link que pus sobre isso. Já cá tínhamos falado dessa biblioteca!
EliminarMas há sempre exceções ! Maxwell Perkins, o editor de Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald e Thomas Wolfe, ficou famoso na primeira metade do século XX. A sua relação tempestuosa com Wolfe foi retratada num excelente filme, “Um Editor de Génios”, com Colin Firth no personagem Perkins e Jude Law a encarnar Wolfe. E, mais recentemente, foi muito falado Gordon Lish, o editor de Raymond Carver, de quem se chegou a dizer que alterava tão profundamente os contos de Carver que devia ser considerado co-autor da sua obra, para além de Lish ter sido uma importantíssima fonte de estabilidade emocional para um Carver que se afundava com frequência no álcool. A referência ao livro do João Tordo é justíssima: ele valoriza imensamente o trabalho dos editores, e desta nossa editora em particular, e diz-nos que é sempre uma relação difícil porque um escritor que não tenha uma desmesurada autoestima não consegue levar até ao fim a escrita do seu romance e, por isso, não lhe é fácil aceitar as feridas narcísicas que para ele serão sempre as críticas do seu editor, por mais justas e úteis que sejam. Eu adorei esse livro de ensaio e memória que é “O Manuel de Sobrevivência de um Escritor” do Tordo.
ResponderEliminarAgora que é pena que a Maria do Rosário não guarde um pouco do seu tempo de azáfama editorial para a criação ficcional, lá isso é pena. Já é uma grande poeta, mas, se quiser, pode ser também uma grande criadora de ficção, não só para públicos juvenis. Basta ler o seu primeiro romance, escrito há décadas. Mais do que um livro de memórias, a sua vida de editora tem mais do que material para recriar o meio literário e as suas figuras, se quiser ir por aí. É fazer a opção Saramago !
Não gosto de deixar anonimato o que aqui escrevo, mas às vezes já tem acontecido, como no post anterior.
EliminarArtur, obrigada. Mas o tempo que isso iria tirar às leituras...
EliminarPelo menos a Poeta não é invisível. :)
ResponderEliminarNas comparações de Jacobo acho que o treinador está ali a mais.
O treinador é muito mais que um editor, pois é ele que "escreve" e "pensa" quase sempre o sucesso dos seus atletas, é o ideólogo, o estratega, só não corre e não joga...
Concordo inteiramente ... os treinadores são sobejamente conhecidos, reconhecidos e recompensados! Não são um bom exemplo...
Eliminar
ResponderEliminarBom dia, Extraordinários Leitores!
Não existiriam bons livros sem bons editores e um editor é, por princípio, um amigo, alguém que confia em nós e alguém em quem nós confiamos.
No meu entender, está fora de questão publicar um livro sem edição prévia. O único exemplo que posso dar (poderia dar outros exemplos, mais familiares, mas não valeria a pena) é o meu: uma pessoa – neste caso, eu, (aplica-se aos escritores em geral, julgo) está ali juntamente com o seu livro, escreve-o horas e horas por dia, leva muito tempo a escrever, meses, às vezes anos, entra e sai dele como se banha nas águas do mar, mergulha, vem ao de cima, torna a mergulhar, regressa, interrompe, regressa, escreve, linha à frente, linha atrás, emenda, torna a escrever, é cansativo, é demorado, é exaustivo, são dúvidas e questões e exclamações e mais dúvidas e mais interrogações.
Martelo bem neste assunto de forma a cansar os leitores deste meu pequeno poste. É assim mesmo.
Mas para não me alongar mais, é isto: quando se dá por terminado esse livro que escrevemos, estamos de tal forma íntimos e conhecedores de tudo o que criámos que já não lhe conseguimos ver nada, nem defeitos, nem qualidades.
É então que entregamos a obra ao editor/a, aquele nosso amigo/a que espera por nós de caneta em punho e um monte de folhas A4 com a cópia do nosso romance, tudo muito bem rabiscado e anotado.
Ai senhores, o que me irá acontecer?
Mas a confiança, a minha, é total. Eu sei que só aquela pessoa que nos aceitou e compreendeu e quis ser nosso editor/a está pronta para uma longa conversa total e esclarecedora.
É que nós, terminámos um livro e estamos “cegos e surdos”. Não se consegue perceber o erro, a repetição, a incongruência, o disparate. Estamos de tal modo embebidos naquele algodão ensopado de letras e ideias que, por mais atenção dispensada, já não há hipótese de percebermos o óbvio, o erro e o disparate.
O nosso editor/a ajuda, percebe, sugere, emenda. Dá ideias, parágrafo ali mais acima, novo capítulo, retira um título lá do miolo, alimenta outras ideias, acalma e inspira.
Imaginemos construir um prédio sem a atenção de um arquitecto ou de um engenheiro…
Já tive oportunidade de ver livros sem editor. Aliás, nos dias de hoje, é o que há mais.
Não se deseja a ninguém que goste e queira escrever.
Cristina Carvalho
Aplaudo, e, agradeço a sua partilha de Autora.
EliminarExcelente, profilático e pedagógico post!
Saudações cá do Bairro Ribatejano para a Praia Saloia!
Interessante este post!
ResponderEliminarO Editor é deveras a "sombra", quem tantas vezes partilha o sucesso e começa justamente na selecção, por ser ele quem decide o que vai ser publicado ou não. Tem a responsabilidade de lançar autores como de os impedir de se revelarem.
Já pensaram nisso?
Talvez seja por essa razão, também sinistra, que o Editor permanece na sombra, pois tanto age como parteiro (que dá a vida) como carrasco (que dá a morte).
De algum modo ou por alguma razão, e, nada acontece por acaso, há Editores que têm sucesso e há os que nunca chegam a ser falados, talvez na medida do sucesso que têm as casas editoras, os autores e os livros.
Fica a questão: foi o Editor do Hemingway que teve a capacidade de reconhecer o génio do autor, ou foi o Hemingway que teve a sorte de cair nas mãos do Editor certo? Imaginem que ele caía nas mãos de um editor puritano e objector de consciência... "O Sol também nasce" ou "Adeus às armas" teriam sido aceites e publicados? Com que consequências sobre a restante e futura obra?
Isto sem tirar ao Editor a sua importância!
Quanto a não poder haver duas pessoas a ocupar o mesmo lugar, o que é verdade, também me parece discutível essa imagem, dado que o Autor é uma coisa e o Editor outra, ambos correm em paralelo e não na mesma pista, se é que me faço entender.
Para o público em geral, importa o autor!
Para o meio, na fileira dos livros, conta tanto o autor como na Fórmula 1 contam os pilotos, mas por trás deles estão os projectistas, os mecânicos e o constructor. Podem crer que não sendo conhecidos do grande público, excepto dos fanáticos da F1, constituem uma parte absoluta e fundamental do sucesso do piloto.
Um Editor pode fazer muito pela obra e pelo autor, tanto pelo bem como pelo mal, se calhar reside nisso a sua discrição e é por isso que será um lugar sombra?
Alguém sabe o nome do autor de "A casa de papel"? Ou de alguma das celebradas (e excelentes!) séries da Net Flix? Lá está... ficam na sombra do sucesso e o grande público nem se lembra disso! Mas aposto que na Fileira eles são bem conhecidos e reconhecidos.
É preciso é saúde, haja livros!
Saudações cá do Bairro Ribatejano.
eu sou suspeito mas adoraria ler esse livro sobre a experiência da edição que a Rosário não quer escrever :)
ResponderEliminarJT
"Inivisibilidade"!
ResponderEliminarEsta palavra existe ou é lapso de digitação e deveria ser Invisibilidade?
Se existe, não sei... mas inevisibilidade é a invisibilidade inevitável! Tá a ver, ó espertinho?
EliminarEheheheh!
Abraço, porte-se bem!
Obrigado António Luiz Pacheco.
EliminarFiquei esclarecido.
Um Abraço.
P.S.: Como já sou dos grisalhos, creio que já estou suficientemente maduro e, portanto, autorizado a compor e inventar palavras, como fazem e bem os Poetas, só para desactualizar os dicionários da Porto Editora, e não só... :-)
alem de que está a exprimir o que sente, a explicaçao colhe, bate certinho.
ResponderEliminarFora daqui, a discussao continua, sobre figuras, que sao figura para alem da figura principal que sao.