Hungarices

Estava à procura de um livro de poesia de um autor brasileiro e encontrei por acaso um pequeno romance que não tinha chegado a ler até ao fim (tinha lá a marca no sítio onde fiquei e tudo). Depois lembrei-me que o levei há uns dez anos numa viagem de avião e que, ao regressar, tinha provavelmente livros urgentes para ler e o resto daquele ficou a aguardar melhores dias. Perdi-lhe o rasto (o Manel deve tê-lo arrumado entretanto na estante) e só agora voltámos a encontrar-nos. Tirei-o da prateleira e tive de o ler de fio a pavio. Chama-se Budapeste e escreveu-o Chico Buarque (sim, o grande Chico). É a história de José Costa, um ghost writer carioca (e eu, antes de recomeçar a leitura, achava que o protagonista era um tradutor...); por causa de um problema inesperado numa viagem aérea, José vai parar a Budapeste e acaba por lá ficar a aprender a língua esquisitíssima com uma mulher de pele incrivelmente branca com quem acaba por ter um relcionamento amoroso; José estava, porém, muitíssimo bem casado com Vanda, uma locutora de telejornal no Rio de Janeiro, de quem tinha um filho e para quem volta um dia, aborrecido com a professora húngara que o sufoca. O livro vai viajando entre Budapeste e o Rio, e o escritor-fantasma vai escrevendo livros para outras pessoas sem se importar com o anonimato até que, um dia, escreve um romance para um senhor alemão arrogante (um romance supostamente autobiográfico), e Vanda apaixona-se pelo livro (e quiçá pelo autor). Budapeste é cheio de voltas e reviravoltas e fala da identidade de um escritor e da relação entre anonimato e reconhecimento público. Não me lembrava nada do que tinha lido, caramba. Deve acontecer com muitos livros...

Comentários

  1. Um livro interessantissimo. Já o li há algum tempo mas recordo com grande prazer as deambulações e delírios do protagonista.

    ResponderEliminar
  2. Também gostei muito quando o li, foi uma surpresa agradabilíssima. De tal modo que, não conhecendo Chico Buarque como escritor (não me refiro a escritor de letras de canções), fui logo ler a obra seguinte, Leite Derramado, de que também gostei.

    ResponderEliminar
  3. De repente, gostam do encoberto. Obviamente (passa) muita água e a ponte, tão bela.

    CST

    ResponderEliminar
  4. Li "Budapeste"ha vários anos e também vi o filme.Sei que gostei,mas não me lembro de quase nada.Sobretudo surpreendeu-me por ter sido escrito por Chico Buarque,que não e propriamente escritor.
    Gostaria de acrescentar(embora fora do contexto do post de hoje)a minha opinião quanto a venda de livros autorizada aos supermercados(segundo consta).Acho mal.Porque não permitir vender livros a porta das livrarias,sem deixar folhear e manusear os ditos?Penso que o verdadeiro problema das livrarias e´ a possível transmissão de vírus ou outros agentes,porque as pessoas mexem,folheiam,consultam.Ora isso também se pode fazer nos supermercados e esses podem vender.
    Desde sempre tenho tido uma norma de conduta pessoal que consiste em nunca comprar livros sem ser em livrarias.Nao me parece normal nem ético usar os supermercados para esse fim.Alem de ser fora da sua área de mercado,praticam preços muito competitivos que prejudicam enormemente os verdadeiros locais de venda,isto e,as livrarias.Para alem do mais,nunca se poderão substituir a elas,quer pela escassez e qualidade(pouca)de títulos disponíveis,quer principalmente pela falta de ambiente,do cheirinho do "po dos livros",de lançamentos,coloquios,work-shops,clubes de leitura,e também em muitos casos,pela presença de pessoal verdadeiramente embrenhado nessa matéria,que nos aconselha,orienta e nos brinda com as suas sugestões.
    Gostaria de saber a opinião de mais Extraordinários.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Tem razão em muito do que diz e lamento que as livrarias não estejam abertas para vender ao postigo. O problema é que o País se foi esvaziando de livrarias ao longo dos anos e há cidades sem uma única livraria (Elvas, por exemplo). A única forma de aceder aos livros nesses locais é nos supermercados, bombas de gasolina, Correios. Há ainda muita gente que não sabe ou não pode comprar online. A maioria dos livros que eu publico não estão à venda nos supermercados porque a literatura mais dura é para um público mais conhecedor que também não compra nos hipermercados.

      Eliminar
    2. Tem razão em toda a linha!
      Os supermercados vendem livros a baixo custo, porque à partida são produtos que atraem e não porque lhes dêem "margem", pois num supermerdaco há os produtos que dão margem (lucro) mesmo que vendam pouco pois, os que dão lucro apesar da pouca margem pelo volume que vendem, e, há os produtos que servem para atrair. Com o fecho das livrarias terá surgido esse negócio - ter livros - porque por um lado atrai e colmata um espaço livre, por outro, garantidamente que pagam o espaço que lhes é dedicado.
      Eu raramente compro livros em supermercados (FNAC incluída) , só se for uma ocasião do género de ser um livro de que ando à procura e não encontro em mais lado nenhum... no resto, sou cliente assíduo da Bertrand (mesmo que recusem editar-me, mas isso é problema meu...) e da Livraria Costa, sobretudo... .

      De resto era simples solucionar o problema, SE houvesse neste país "responsáveis" e "governantes" que PENSASSEM, sobretudo pensassem no país, nas pessoas e fora dos seus interesses pessoais, partidários e outros: Para entrar na Livraria e manusear livros, era obrigatório usar luvas! SE houvera um pai, primo ou irmão de uma menistra ou algo assim que importasse ou fabricasse luvas, isso se calhar já era assim não em todas as livrarias, mas no dia-a-dia , na rua e comércio, querem apostar?

      Saudações Kaluandas, cansado de 24 de viagem por países infiéis, mas encantado com a eficiência e prestreza com que fui recebido em Luanda, testado e mandado seguir! Montaram cá no aeroporto, com simplicidade e eficiência, uma gigantesca operação de contrôle e detecção, talvez fruto da antiga e aprendida organização soviética - o que é verdade tem de ser dito e reconhecido! AInda bem!
      É preciso é saúde.

      Eliminar
    3. Estou a escrever à pressa, enquanto espero o motorista que me vem apanhar ao aeroporto!
      Por isso escrevi em vez de supermercado, "supermerdaco", foi sem querer, mas parece-me que o acaso faz bem as coisas e o nome até assenta bem! Ahahahah!

      Eliminar
  5. Já o li há uns anitos. É um bom livro que retrata uma realidade que muitos fingem não "ver", os "escritores-fantasmas" que oferecem a mão e o talento a tanta figura pública, que depois se senta na feira do livro e se descobre escritor, sem ter escrito uma linha...

    ResponderEliminar
  6. Bom dia, Extraordinários,

    Também já li. Na altura em que o li, lembrei-me de um namorado húngaro que tive, um jornalista de Budapeste. Conheci essa cidade e a província da Hungria, para norte, muito bem.
    Um peganhento. A única diferença é que eu não era casada e, portanto, estava à vontadinha. Mas era um peganhento. Giro, mas peganhento.
    Mas o que eu ia dizer,

    há jornalistas escritores e há escritores jornalistas; há compositores de música escritores e escritores que são pintores e pintores que são químicos e químicos que são escritores; matemáticos a cantar ópera e cantores de ópera na patinagem artística, há fotógrafos arquitectos; há arquitectos a fazer bordados em seda; escultores a estudar astronomia e astrónomos a cantarolar.
    Só estou a falar de pessoas que tenho conhecido...

    Viva o Chico Buarque que sem ser um escritor-fantasma, também não é um fantasma-escritor! Saúde!

    Cristina Carvalho

    ResponderEliminar
  7. Também li o Budapeste e até vi o filme, não no cinema mas na tv.
    Li todos os livros do Chico Buarque e, se ele não é um escritor não sei o que seja um escritor. Ele já era um poeta e um grande contador de estórias nas suas canções (basta ouvir a Valsinha) e até uma ópera popular escreveu (a do malandro).
    O que não falta aí pelo mundo são pessoas com as mais variadas profissões e a escrever muito bem (e alguns também muito mal...).
    E a Cristina sabe do que fala pois tinha um pai de múltiplos talentos.
    E médicos, há imensos médicos escritores, e até cantores de ópera: ouvi um uma vez, no São Carlos, a cantar O Barbeiro de Sevilha.

    Quanto aos livros, que voltem sim, que possam chegar a todos os sítios onde não há livrarias nem sequer hipers, apenas papelarias, quiosques e pouco mais.
    Boas leituras!
    ap

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Chamava-se Álvaro Malta!
      Não é invulgar e nem raro , haver pessoas com actividade artística bem-sucedida e uma outra profissão... ou ter várias actividades, destacando-se em mais do que uma!

      Abraço ap!

      Eliminar
  8. Desde 2019 que decidi fazer um registo de tudo o que que leio e respetivas datas. Li Budapeste em Abril de 2020. Curiosamente, este registo permite trazer-me à memória locais e pessoas onde e com quem estava durante essas leituras. Hoje em dia (males da idade e de algumas preocupações que vão trazendo cansaço) perco facilmente a memória de muitas e boas leituras que fiz em tempos recentes, mas, se pegar em livros que li jovem e que me marcaram, tenho uma memória muita vívida de muitas das suas passagens. Dá que pensar. Susana Emídio

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Também faço esse exercício há muitos anos. Leio e escrevo sobre o que li... e é TÃO BOM revisitar leituras! Não é necessariamente a mesma coisa. Não tinha que o ser. Mas ficam filamentos de leituras, cruzamentos de momentos e memórias tão, mas tão boas! A idade avança. E é muito bom que assim aconteça, afinal estamos vivos. Contudo extraordinárias são mesmo todas as horas passadas a ler. Ao chegar à quinta década de existência, tirei também um tempinho para fazer releituras... daqueles livros que tanto me marcaram, que tanto me acompanharam. Já revivi as acções de uma Margarida que tinha um anel só com um olho. E também vivenciei de novo o encontro inesquecível de uma Blimunda. Clarividente, quando queria ser. E que nunca, mas nunca nos faltem os livros. Nem vontade de falar sobre as leituras. Muita Saúde para todos!
      Celeste Silveira

      Eliminar
  9. A obra literária de Chico Buarque não é grande mas tem qualidade. Se não tivesse como lhe atribuiriam o Prémio Camões, como aconteceu em 2019?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Escrever, também trata-se de ato político.

      Eliminar

Enviar um comentário