Histórias com pêlo

Os canis estão, como sabemos, cheios de animais para adopção (embora se diga que agora, como passear o cão é uma das poucas razões para se poder ir à rua, aumentaram as adopções oportunistas, mas espero que seja boato porque isso pode significar um abandono posterior). Dantes, receber um rafeirinho encontrado na rua ou comprar um cão de raça a um criador eram as opções ao dispor, mas hoje existem muitos animais abandonados que precisam de dono e farão as delícias de adultos e crianças que possam e queiram cuidar deles. Para tornar mais fácil fazer chegar ao público esta possibilidade (e urgência), os voluntários das Histórias com Pêlo teve uma ideia muito feliz: pedir a escritores e personalidades públicas que baptizem e escrevam sobre um destes «órfãos» a partir de uma fotografia e de alguns (poucos) elementos do seu carácter e assim chamem a atenção do público para a necessidade de dar amor e uma casa a tantos animais que entristecem todos os dias na Casa dos Animais de Lisboa. Eu já estou na calha para me associar a um destes cães, esperando que o meu texto o ajude a chegar a um bom destino. Vale a pena ver o vídeo que vos deixo abaixo, em que várias pessoas que conhecem apoiam a iniciativa e se ouvem excertos de alguns dos respectivos textos. Ajudemos os animais com literatura, grande ideia! 


https://www.facebook.com/camaradelisboa/posts/3970397489646838


 

Comentários

  1. Que excelente ideia! Este é um problema não apenas de Lisboa mas de todo o país, infelizmente. Soubessem todos o amor que estes seres podem trazer para as nossas vidas e os canis e associações não estariam em tamanho desespero.
    Obrigada pela partilha e pela colaboração!

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  2. Visitem também um dos trabalhos da talentosa fotógrafa Mariana Sabido em https://www.instagram.com/myneighbourhooddogs_lisboa/
    Junta fotografias dos donos com os seus animais de estimação.

    Suzana Silva

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  3. Já participei numa iniciativa desse género, mas em menor escala, claro. E, sem pretender ser abusiva, aqui vai o texto que escrevi (afinal, é uma maneira de contribuir para esta causa):

    "«Os animais têm sentimentos? Claro. A única forma de comunicar com eles é usando o coração. Dizer que eles não têm sentimentos e que só estão connosco pelos confortos que lhes proporcionamos, serve apenas para aplacar a consciência humana em relação ao sofrimento que lhes possamos causar e à maneira incrível com que muitos humanos se servem deles.
    Um cão, cujo tutor empobrece e deixa de ter dinheiro para comida, passa fome com ele. E se o tutor se tornar num sem-abrigo, o cão dorme debaixo da ponte com ele. E se o tutor adoecer, o cão fica junto dele. E se o tutor morrer, o cão fica triste, sente a sua falta, talvez a sua mágoa seja tão grande, que nem se deixe seduzir por outra pessoa que lhe faça festas, lhe ofereça comida, ou até um lar.
    «Entre o cão e homem há uma ligação que remonta ao fundo dos séculos, um entendimento único entre espécies, e um grau de confiança que não tem equiparação com nenhuma outra - nós somos uma espécie de Deus para eles» - palavras da jornalista e escritora premiada Ana Margarida de Carvalho, na revista VISÃO de 28 de maio de 2015.
    Quando aprenderemos a arcar com esta responsabilidade?
    E quando teremos a humildade para aceitar que podemos aprender muito com um cão? Ele ensina-nos a amar e a respeitar, não em função do que alguém possa fazer por nós, mas apenas pelo simples facto de esse alguém existir. Ele ensina-nos em que consiste a verdadeira confiança mútua e a aceitar os outros, tal como eles são.
    Muita gente alega que, ao abandonar um animal, não lhe está a fazer mal, pois limita-se a devolvê-lo à Natureza. Esta crença tem dois grandes problemas.
    Em primeiro lugar, não há Natureza, nas grandes cidades. Há betão armado, passeios cheios de gente que olha com nojo para um animal errante e estradas cheias de trânsito, ou seja, cheias de máquinas barulhentas e assassinas.
    Não se pense, porém, que os cães abandonados na província têm melhor sorte. Os animais que nascem e crescem no nosso meio nunca aprenderam a viver na Natureza. Antes de atingirem a sua independência, os mamíferos têm de passar por uma fase de aprendizagem, que, nalguns casos, é bem longa (os cães e os lobos ficam cerca de um ano junto dos pais, incluídos na matilha/alcateia; os ursos vivem de dois a três anos com a mãe). Sem esses ensinamentos, veem-se indefesos e praticamente incapazes de tratar da sua vida.
    Em relação aos cães domésticos, além da falta de aprendizagem, temos de considerar que as raças atuais não são o resultado da seleção natural, mas da intervenção humana. Caso contrário, nunca existiriam raças tão pequenas como os "chihuahua", "terrier" ou "teckel", nem outras de pelo encaracolado, como os "caniches", ou de pelo comprido, como os "collies". Caso não usufruam do tratamento adequado, podem-se alojar, nestes tipos de pelo, parasitas que se alimentam do cão vivo.
    Nós humanos mudámos o mundo, com tudo o que a ele pertence e com tudo o que isso implica. Mudámos irremediavelmente, e para sempre, a vida de (quase) todos os animais e nada mais nos resta do que assumir essa responsabilidade.
    Por isso, antes de abandonar um animal, lembre-se:
    Ele sofre!
    Ele sente a sua falta!
    Para ele, não há mais nada nem ninguém no mundo que o possa substituir!
    E, no caso de o ter abandonado, se se arrepender e tornar a albergá-lo, ele não o censura. Torna a recebê-lo com uma alegria esfuziante e aquele brilhozinho nos olhos de quem diz: «estou tão feliz por te ter tornado a encontrar!»"

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  4. Há um livrinho muito interessante "en petit format", das Éditions du Chêne, sobre gatos e seus donos, que se deslocaram propositadamente ao estúdio do fotógrafo francês Yann Arthus- Bertrand. Eu gosto particularmente da gata da minha cunhada, que se chama Olívia, que é uma "scotish fold".

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  5. Este não será bem um tema literário, creio, mas sim de bom senso!

    Quem adopte animais (neste caso, um cão) tem de ter a certeza de que saberá e gostará de lidar com ele, que tem condições para isso e sobretudo que um cão suja, rói, come, bebe, ladra e morde, fica doente, vai custar dinheiro e obrigar a alguns incómodos, etc.
    É justamente por isso que há tantos cães abandonados:
    - Porque as pessoas acreditam que são como brinquedos ou que vêm “programados”, erro!

    Por outro lado, quem conhece bem cães (e não é experiência relevante ter tido um!), sabe que eles podem não se adaptar pura e simplesmente ao que se espera deles, e pior, não se adaptam ou encaixam nas condições existentes! Cada cão é um caso, cada raça é diferente em temperamento e nas necessidades.

    Não percebo muito bem o que se pretende neste post, mas adoptar um cão, adulto, que não nos conhece e nem nós conhecemos, creiam que é uma coisa que deve ser muito bem ponderado! Não pode ser um impulso.
    Sei que está na moda, porém, repito, haja bom senso antes de se tomar uma decisão que vai acarretar responsabilidades, alterar a vida e as rotinas. Um cão é um animal, um ser vivo, não é o mesmo que ter um “tamagochi”.

    Dos quinze que cheguei a ter simultâneamente, ainda tenho aqui na minha casa, três cadelas: uma drahtaar reformada e duas podengas mãe e filha, vivendo à solta num quintal interior e espaçoso, tenho as condições e estando fora quem trate delas.
    O meu sobrinho actualmente é o proprietário da cadela perdigueira com a qual caço, apenas umas três vezes por ano, e, até já tem uma júnior para a substituir.

    Podia ter cão lá em Benguela… mas e quando saio? Quando estou de férias como actualmente que já faz dois meses que estou fora? Quem cuida dele? Acontece que embora gostando muitíssimo de cães e sentindo-lhe muito a falta, sou responsável pois sei bem o que é e como é.

    Saudações cá do Bairro Ribatejano, de dono de muitos cães e que já acolheu alguns!

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  6. A talhe de foice, para quem queira, vou portanto narrar uma historieta a propósito de cães, de passagem de cães e da sua habituação aos donos e vice-versa!

    Nasci e me criei numa casa onde houve sempre cães, muitos! De guarda, de caça, de gado ou simplesmente cães sem especialização… assim me mantive por muitos anos, tendo cães a propósito de tudo e sempre muitos!
    Ora numa das épocas em que mais cacei, ali no final dos anos 80 e pelos anos 90, tinha eu uma belíssima e célebre matilha: A Briosa Matilha de Caça Menor “Balalaica” , com direito a inscrição no atrelado! Os seus elementos foram rodando, mas a matilha manteve o nome e o carisma!
    O meu bom amigo Horácio, valente saloio dos quatro costados, grande aficionado da caça, era no entanto uma desgraça com os cães, ao contrário do pai, o Ti Miguel.
    Ás tantas, foi-lhe oferecida uma cadela braco-francês, por um amigo comum, muitíssimo boa por sinal, que eu gabava e lhe dizia ser bem melhor do que dono! Nessa época caçávamos muito em Espanha, em dois coutos de um tio do Horácio e seu sócio Matias Rodriguez, era o famoso Xico Torres, capitão de caçarias e outro saloio, mariola, mas grande amigo!
    A tal “Nã-sí”, brilhava nas nossas caçadas por isso foi com grande surpresa que no final da época, o Horácio me diz que me vai oferecer a dita! Eu ficava com ela, e depois quando calhasse emprestava-lha uma vez ou outra.
    Hum! Aquilo trazia água no bico. Só quem não conheça a saloiada, ainda que dos nossos! Mas está bem, até fiquei todo contente com a aquisição e lá fui buscar a “Nã-sí” à Assafora. Como boa cadela braco, era meiga com o dono, mas pouco dada a efusões ou manifestar o seu apreço canino, reservada e pouco sociável, ferrava o dente nos outros. Revelou ainda outra característica desta raça, que eu aliás muito aprecio e elejo como os meus cães de parar pela rusticidade e carácter, que era o ladrar muito! De início pensei que fosse por estranhar, mas com o passar do tempo percebi que não, era uma ladradora empedernida! Por mim tudo bem, estava ali ao fundo, debaixo do pinheiro, na casota com nome na placa e tudo, não incomodava muito. Os outros mais comedidos na ladração logo se habituando e deixando de lhe ligar. Eu conhecia o ladrar de cada um deles e o grau de fiabilidade, até se ladravam a algum ouriço, outro cão vadio que passasse longe ou se era gente ou alarme! Também me habituei à “Nã-si”, com quem fui estabelecendo os necessários laços de companheirismo e alguma amizade, era dócil com as pessoas que conhecesse e habituou-se logo a mim, que aliás já conhecia da caça, foi fácil o nosso relacionamento.
    A “Fininha” (a mulher do Horácio), um dia descaiu-se: "Ó Pacheco a cadela na ladra muito?" Ah! Os sacripantas… afinal lá no quintal da casa deles, o incómodo era óbvio e as brigas fizeram o nosso tratante a “oferecer-me” a cadela! Mas ainda bem.

    Bom, nova época, e, o meu amigo Horácio já tinha um novo cão e tudo, o famoso “Nilo”.
    Lá fomos mais a cãzoada para Vila Nueva de Los Castillejos, porém com um percalço: - Na manhãzinha antes de sairmos para caçar, o Horácio soltou o Nilo para fazer uma mija, e, este que ainda não estava feito ao dono e nem sabia onde estava: desapareceu!
    Grande aflição, o Xico não tolerava atrasos… eu disse ao Horácio que como o Nilo tinha vindo na roulotte, que a deixasse ali pois ele era capaz de voltar lá e pelo cheiro a reconheceria.
    O pior foi a jornada!
    O Horácio alinhou ao meu lado, e, a “Nã-sí”, baralhada, passou o tempo todo a correr de um para outro dono, sem saber o que fazer nem com qual ficar… andava um bocado com um, até cobrava alguma peça que depois nem sabia a qual entregar, depois vinha para o pé do outro, mas inquieta, cansou-se e pouco caçou, coitada, completamente confusa!
    Felizmente no regresso, ali estava o pródigo “Nilo”, com fome e sede mas em boa condição.
    No dia seguinte, lá fomos outra vez… e não é que a “Nã-sí” , logo que percebeu que o seu outro dono já tinha colaborador cinegético canino, não mais se preocupou com ele, e p

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