Excerto da Quinzena

[…] e estávamos os dois em silêncio quando ela me perguntou «que você tem?», mas eu, muito disperso, continuei distante e quieto, o pensamento solto na vermelhidão lá do poente, e foi só mesmo pela insistência da pergunta que respondi «você já jantou?» e como ela dissesse «mais tarde» eu então me levantei e fui sem pressa pra cozinha (ela veio atrás), tirei um tomate da geladeira, fui até a pia e passei uma água nele, depois fui pegar o saleiro do armário me sentando em seguida ali na mesa (ela do outro lado acompanhava cada movimento que eu fazia, embora eu displicente fingisse que não percebia), e foi sempre na mira dos olhos dela que comecei a comer o tomate, salgando pouco a pouco o que me ia restando na mão, fazendo um empenho simulado na mordida pra mostrar meus dentes fortes como os dentes de um cavalo, sabendo que seus olhos não desgrudavam da minha boca, e sabendo que por baixo do seu silêncio ela se contorcia de impaciência, e sabendo acima de tudo que mais eu lhe apetecia quanto mais indiferente lhe parecesse, eu só sei que quando eu acabei de comer o tomate eu a deixei ali na cozinha e fui pegar o rádio que estava na estante lá da sala, e sem voltar pra cozinha a gente se encontrou de novo no corredor, e sem dizer uma palavra entramos quase juntos na penumbra do quarto.


Raduan Nassar, Um Copo de Cólera

Comentários

  1. Nem de propósito... aconselho a todos que leiam o livro de Paulo Sande!
    O assunto actual é se os soldados em missão de guerra, são criminosos? Há quem queira deveras reescrever a história, quando a humanidade se guerreia e mata desde sempre, desde sempre que há guerreiros, soldados e militares, que cumprem missões.
    Não o entender é colocar-se à mercê dos que não respeitam nada, só olham aos seus fins e usam todos os meios para os atingirem.

    " Nesse tempo português em África. Esta é a história de um soldado português entre messes militares. Amou, matou, foi traído, torturado, exilou-se. Esta é uma história portuguesa situada para além de ideologias e interesses, do politicamente correcto e dos disparates radicais. E há tantas por contar…" -
    Fui soldado e morri - o livro que deve ser lido e tem tudo a ver com o momento.

    Felizmente não fui soldado, não cheguei a ser... saudações e votos de um Bom Fim de Semana, cá da Cidade Morena!

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  2. «Há muito que tenho a ideia de que a arte não é uma categoria ou um domínio que abranja uma multiplicidade de conceitos e de fenómenos derivados, mas pelo contrário qualquer coisa restrita e concentrada, a indicação de um princípio que é parte constituinte da obra de arte, a designação da força nela aplicada ou da verdad elaborada [...] A arte primitiva, egípcia, grega, a nossa arte, tem sido por certo ao longo dos milénios uma mesma coisa, que se manteve sempre arte no singular. Ela é uma ideia, uma afirmação sobre a vida, que na sua amplitude universal é indivisível em palavras separadas, e quando um átomo dessa força entra na comosição de qualquer mistura mais complexa, a mistura da arte supera o significado de tudo o resto e torna-se a essência, a alma e o fundamento da obra.»

    Boris Pasternak, Doutor Jivago


    Guilherme P. Henriques

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  3. Bom dia com alegria e pandemia

    Tal como o vacina do COVID, hoje trago duas inoculações, do mesmo "laboratório":

    Dose 1:
    **************************************************************************************
    "A impossibilidade de comunicar com outros seres humanos já foi comparada a ser-se enterrado vivo."

    Uma história da curiosidade - Alberto Manguel
    **************************************************************************************

    Dose 2
    **************************************************************************************
    “Os que sabem ler vêem duas vezes melhor”, escreveu o poeta Menandro, no séc. IV a.C.”

    Uma história da leitura – Alberto Manguel
    **************************************************************************************

    Saúde e boas leituras
    cp

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  4. O meu excerto: "En 1891, alors qu' Oscar Wilde était "la coqueluche de Paris", il rencontre Proust, qui l'invita à diner. Le jour convenu, Proust rentra un peu en retard chez lui. "L e gentleman anglais est-il arrivé? demanda-t-il à la bonne.- Oui , monsieur, il y a cinq minutes. Il n'était pas entré dans le salon qu'il demandait les toilettes, et il n'en est pas ressorti".Proust alla vite au bout du couloir. "Monsieur Wilde, êtes - vous malade? s'enquit l'hôte inquiet à travers la porte._ Ah! vous voilá monsieur Proust, répondit Wilde, en apparaissant majestueusement. Non, je ne suis nullement malade. Je croyait avoir le plaisir de diner avec vous seul, mais j'ai vu que vos parents étaient au salon, et je n'ai pas pu y rester. Au revoir , cher monsieur Proust..."Ensuite, les parents de Marcel lui disent que Wilde, en regardant le salon, s'était exclamé:"Que c'est laid chez vous!"
    Pág.171
    "Parmi tout ce qu'il légua, il y eut un "cadeau d'adieu" typiquement méchant et mysogine. La belle - fille de Madame Armand de Caillavet avait depuis longtemps l'impression erronée que le comte (Robert de Montesquiou) étai épris d'elle, et elle lui ecrivait sans cesse. Dans son testament, il lui légua un coffret. Son notaire l'apporta. Elle réunit ses plus proches amies pour qu'elles assistent à ce grand moment. Elle ouvrit le coffret. Il contenait toutes les lettres qu'elle lui avait envoyées. Aucune n'avait était ouverte".
    Pág. 271

    Julian Barnes- L'Homme en rouge- Mercure de France-Setembro 2020

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  5. «É uma casa comum, de porta e janela parede da frente baixa, alta a de trás, telhado tosco de duas águas. Grandes placas de reboco desapareceram, a pedra está à vista. À janela há um homem de barba crescida, chapéu velho e sujo na cabeça, e os olhos mais tristes que pode haver no mundo. Foram estes olhos que fizeram parar o viajante. É caso decerto raro naquele lugar porque logo se juntaram três ou quatro garotos, curiosos sem nenhum disfarce. O viajante aproxima-se da casa e vê que o homem já saíra para a estrada. Veio sentar-se na berma do caminho como se estivesse à espera. Puro engano; este homem não espera ninguém. Quando o viajante lhe falou, quando fez as tolas perguntas que nestes casos se fazem, mora aqui há muito tempo, tem filhos, o homem tira o chapéu, não responde, porque não podem dar resposta, ou são-no de mais, aqueles suspiros e trejeitos da boca. Aflige-se o viajante, sente que está a penetrar num mundo de pavores, e quer retirar-se, mas são as crianças que o empurram para dentro de casa onde nada mais há que negrume, mesmo estando aberta a janela onde o homem espairecia. São negras as paredes descascadas de argamassa, negro o chão, e negra naquelas sombras parece a mulher que está sentada a uma máquina de costura. O homem não fala, a mulher pouco é capaz de dizer, ele tolinho como um de Cristo que morreu e voltou, e tendo ido e vindo nem gostou antes nem depois, e a mulher é irmã, trabalha naquela máquina quase às escuras, cosendo trapos, esta é a vida de ambos, não outra. O viajante mastigou três palavras e fugiu. Diante destas aventuras, padece de cobardia.
    Não há mais fáceis filosofias que estas, e de nenhum risco: comparar os esplendores da natureza, mormente passeando o viajante no Minho, e a miséria a que podem chegar homens, ficando nela a vida inteira e nela morrendo.»

    José Saramago, "Viagem a Portugal"

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    1. Excelente.
      ACCarvalho

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    2. A verdade sobre Portugal, que se costuma esconder sob a imagem do jardim ou a crença nos brandos costumes.

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  6. Digo-o muitas vezes, e vou repeti-lo aqui: "Para onde vão os guarda-chuvas" de Afonso Cruz, editado em 2013, é uma das obras-primas da literatura portuguesa do século XXI. Deixo um excerto, ao calha:

    "Foi aos sete anos que Badini se calou, que entrou pelo silêncio dentro como quem se deita para dormir. O pai fê-lo engolir as palavras todas. Todas as que disse e as que haveria de dizer, apesar de serem essas mesmas palavras uma vocação.
    Alguns anos antes, aos três anos de idade, antes ainda de saber ler, Badini sentara-se em frente a uma máquina de escrever e, ao acaso, lançara os dedos contra as teclas. O resultado levou ao maior espanto. Tinham ali uns versos de Omar Khayyam, que diziam assim:
    Os pássaros dos poemas
    voam mais alto."

    Bom fim-de-semana a todos os extraordinários,

    Rui Miguel Almeida

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  7. Assim começa "A Vida e o Tempo de Michael K" de J.M.Coetzee:

    -A primeira coisa que a parteira notou em Michael K, ao tirá-lo do ventre da mãe, foi que ele tinha um lábio leporino e a narina esquerda dilatada.....-

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  8. FAUSTO I, Goethe, Relógio D’Água

    Antes, em voo ousado, a imaginação
    Subia até aos céus, plena de alento:
    Hoje basta um estreito espaço para a ilusão
    Se afundar nos abismos do tempo.
    Logo o cuidado se aninha bem dentro
    Do peito e traz secreto sofrimento;
    Balança inquieto, estorva prazer e paz,
    São sempre novas as máscaras que traz:
    É casa e bens, mulher, os filhos que tiverdes,
    Água, fogo, punhal, veneno, eu sei lá;
    E tu tremes com o medo do que nunca virá,
    E choras sem cessar aquilo que não perdes.

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  9. «Na época do ano com dias mais curtos e sonolentos, entalados de um e outro lados pela orla espessa dos crepúsculos, na altura em que a cidade se ramificava por labirintos de noites invernais que uma manhã demasiadamente curta fazia grande esforço para extrair do seu torpor, já o meu pai andava extraviado e entregue à outra esfera... Ficava de rosto e cabeça eriçados com um pêlo grisalho e selvagem, com matagais que saíam de verrugas, orelhas, narinas e lhe davam um ar de velha raposa à espreita.
    Tinha-se apurado espantosamente de olfacto e ouvido.
    Por um jogo de rosto silencioso e tenso via-se que os sentidos tinham-no posto em permanente contacto com o invisível mundo dos cantos escuros, dos buracos de ratos, dos vazios que existiam debaixo de soalhos carunchosos e canos de chaminé.» (...)

    Bruno Schulz - As Lojas de Canela (trad. Aníbal Fernandes)

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  10. Boa tarde. Perdoem-me, mas esta semana tinha que ser. A perda deste poeta, de que tanto gosto, escureceu a minha semana.
    PENÚLTIMO POEMA A MI MADRE
    Acabada la guerra, solíamos jugar
    en nuestra calle, y tú, al oír un avión
    salías a buscarnos hasta que su sonido
    iba a perderse entre las nubes.
    Son las ruinas de aquel lugar seguro
    de la infancia. Recuerdo que una vez
    me levanté de madrugada
    y tú estabas allí en la oscuridad,
    sentada en la cocina
    igual que una gaviota en una grieta
    de la roca durante el temporal.

    Veo tan sólo una luz tenue:
    la casa que, a pesar de no existir,
    me ha hecho sentir menos desdichado.
    Hasta que ya el peligro
    se haya perdido por el horizonte.
    Joan Margarit (1938 - 2021), "No Estaba Lejos, No Era Difícil", Visor Poesia

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  11. "Eta mundo velho sem porteira!", murmurou Liroca, com a testa apoiada no parapeito e os olhos no quintal. Ficou alarmado: a voz que lhe saíra da boca não era a sua. Era a voz de seu pai. Naquele momento Liroca era o próprio Manuel Lírio, tinha sessenta anos e não trinta. O velho sempre dizia aquela frase quando alguma coisa absurda ou triste acontecia. Era a sua maneira de protestar contra um mundo sem coerência, sem bondade, sem justiça e sem Deus.

    Érico Veríssimo, in "O Tempo e o Vento. O Continente, vol I"
    Ed. Âmbar, 1.a Edição - Março de 2007

    Patricia Ribeiro

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  12. «- Annie – exclama ele – declaro-lhe solenemente que a felicidade é possível. Atingimos o extremo da noite, é também o fim da noite. As horas que precedem a madrugada são as mais penosas. Tem-se frio, um sabor mau na boca, o sabor do desgosto. Estamos no tempo do desgosto, o «tempo do desprezo», do sangue derramado sem glória, tempo em que os heróis morrem em lugares ignóbeis, ouvindo injúrias imundas, apanhando bofetadas, pontapés nos testículos. Mas não se deve adormecer na hora que precede a madrugada. Os que tiverem dormido durante a noite da vergonha não conhecerão o dia da glória…»
    Roger Vailland em «Cabra-Cega», pág. 180, tradução Helder Macedo, Editora Ulisseia

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  13. «Ela própria ainda se lembra de como a sua mamacinho a levou de Opolo, no delta do rio Níger
    foi depois de Moses, o seu papá, morrer numa explosão quando estava a refinar crude
    fervia os barris ali nos pântanos, tudo muito malfeito, os barris todos muito colados uns aos outros e destapados e a chama logo ali
    todo aquele crude tão próximo do fogo era perigoso
    e todos eles estavam cientes disso, mas de que outra forma podiam sobreviver naquele lugar desolado onde as petrolíferas procuram petróleo a milhares de metros de profundidade com as suas sondas, para depois o sugarem com as suas gigantescas torres de extração, enchendo milhões e milhões de barris para fornecerem o precioso combustível ao resto do planeta
    enquanto o lugar onde nasce esse mesmo combustível vai apodrecendo
    (…)
    fugiram das refinarias e das chamas alaranjadas do gás que ardiam 24 horas por dia, e fizeram centenas de quilómetros a pé pelo matagal húmido
    fugiram dos gases tóxicos que envenenavam o ar, havia que respirar com cuidado, porque encher os pulmões era morrer aos poucos
    fugiram das chuvas ácidas que tornavam a água imbebível
    fugiram dos derrames de petróleo que envenenavam as colheitas, da pescaria doente nas enseadas de águas pastosas, dos cestos que emergiam das águas com o peixe envolto numa gelatina escura e pegajosa
    caranguejo, lavagante, lagosta - tudo morre
    peixe-espada, bagre, corvina - tudo morre
    barracuda, sável, pampo - tudo morre»

    "Rapariga, mulher, outra", de Bernardine Evaristo (Elsinore 2020), tradução de Miguel Romeira
    Livro vencedor do Man Booker Prize 2019

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  14. Encho-me de coragem e conto-lhe:

    - Cassiopeia eu não conto o tempo, quer dizer, também o conto, mas não é essa a minha actividade profissional.
    - E é qual?
    - Escrevo cartas de amor. Também de ódio.
    - E escreve muitas?
    - Sim, não faltam clientes.
    - Faz isso há muito tempo?
    - Há alguns anos. Até já tenho clientes fixos.
    - Como assim?
    - Pessoas a quem escrevo cartas com regularidade.
    - Tenho até um caso, curioso por sinal, em que escrevo as cartas dos dois.
    -Dos dois?
    -Sim. As dele para ela, e as de ela para ele.
    - E está contente com o resultado?
    - Está a correr bem, confesso que não o esperava.
    - Parece uma coisa arriscada.
    - Eles mantém a relação, assim que presumo que a correspondência que envio em nome de cada um resulta.
    - O Nuno deve ser um bom entendedor dos homens.
    - Bem vê, para escrevermos cartas credíveis temos de conhecer as pessoas. Termos uma ideia de como funciona as suas cabeças, como pensam, como sentem. Mas também invento muito.
    - É como a realidade.
    - Sim, sem dúvida. Neste caso, como sou o escritor, digamos assim, oficial deste casal, fui-os conhecendo nas conversas que temos quando me pedem que escreva sobre isto ou sobre aquilo, e agora, estou perfeitamente à vontade com eles, e eles comigo.
    - Diria, em tom de brincadeira, que sou o terceiro elemento desta relação.
    -Que bom. Contribui, com o seu trabalho, para a felicidade de duas pessoas que não lhe são nada.
    - Nem as conheço, fisicamente, digo. Mas é verdade e orgulho-me disso. Também tenho casos em que os meus serviços são utilizados para descarregar em frases cortantes todo o ódio destilado pelos contendores.
    - Isso deve ser horrível. E um trabalho mais difícil.
    -Não é nada agradável, não, mas a partir da segunda ou terceira ofensa verbal, os destinatários ficam tão irados, que deixam de ler.
    - É uma profissão original a sua.
    -Sem dúvida, mas gosto dela. Sinto que faço uma coisa útil, com sentido.
    - Nem todos podem dizer o mesmo.
    - Pois não. Há por aí muitos que preencherem o seu tempo com futilidades. É o dinheiro! O dinheiro e o poder.
    -Nos livros que já li, nunca percebi a lógica daqueles que têm a ânsia do dinheiro, e do poder.
    - Para mim são pessoas doentes.
    - Doentes?
    - Sim, alguém que se apega ao dinheiro, que o junta avidamente, que inveja aquele que tem mais ou só um pouco mais, que não compartilha uma parte do seu pecúlio com vizinhos necessitados, tem a doença da obsessão, uma doença grave, que destrói as pessoas por dentro, corrói as suas fundações.
    - E com o poder passa-se o mesmo, também faz parte desse catálogo.
    - Se nos conseguirmos afastar desses vícios, seremos mais leves. E mais leves, mais saltitantes. Mais saltitantes, mais alegres. Mais alegres, mais disponíveis para os outros.
    - Que bom. O Nuno encontra sempre uma boa saída para tudo.
    - As vezes não, perco-me em labirintos.

    A Mulher que lia num jardim. Luis Robalo (não publicado)

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  15. Grande arte é a culinária [...].
    O rechinar de um estrugido, o repicar das claras batidas, o tosco espevitar de uma fogueira onde o toucinho se derrama e estala, os odores das carnes em longa marinada para chouriços e o seu sabor em cru com muito colorau, vinagre e louro, o borralho cinzento das batatas-doces, a lavagem das tripas nas águas correntes [...], o travo das costeletas fritas a seguir à missa, a sarda gorda de camada castanha com azeite e cebola no prato de esmalte, a corrida sardinha espojada na fatia de milho, a sopa de feijão com osso de salmoura a boiar na cor do barro.
    O gosto que se aprende na fome natural. A estética ao nível da boca primitiva.
    Armando Silva Carvalho - A Alta Cozinha dos Pobres , in O Livro do Meio
    (do Meio porque foi sendo escrito a meias com Maria Velho da Costa)

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    1. Hum... chlép , miam, e outras onomatopeias... que bom livro há-de ser!!!!!

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  16. Desta viagem no velho Arlanza até Sou'tn vou guardar uma indelével memória. Deixo no cais o punhado de amigos que tenho, e que o tempo e a distância provavelmente irão reduzindo e esbatendo até ao esquecimento. Não vai comigo a bordo ninguém que me possa ajudar a atenuar, pelo convívio, a chaga dos problemas que me ficam no rasto, nem a solver o enigma que do outro lado do Atlântico me espera. A vida é uma cadeia de esfinges irrespondíveis, e é preciso correr ao longo delas, avançar sempre, acreditando que existe algures a solução... A solidão faz-me sofrer: atenua-a porém o interesse que me despertam os companheiros de viagem -- talvez devesse antes dizer de infortúnio. Com eles depressa esqueço, ou quase, o que me dói.
    É preciso ter viajado num destes transatlânticos para se fazer uma ideia das fronteiras que separam os homens e as classes, mesmo dentro duma casca de noz. E somos poucos, aqui, não mais de cinquenta: que faria se fôssemos os duzentos ou quatrocentos da lotação, só Deus sabe, amontoados na imunda gafaria que é a terceira dos emigrantes...
    Gente de Terceira Classe (JOSÉ RODRIGUES MIGUÉIS)

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  17. "Que As Veias Abertas se publique entre nós quarenta e tal anos depois da sua primeira edição original é sem dúvida significativo de inércia e de conformismo. Mas o mais curioso, na presente fase dos estudos pós- coloniais, é que o tempo passado não apaga a necessidade deste discurso profundamente libertador. A sua leitura será hoje diferente do que foi há quarenta anos, mas só até certo ponto, porque uma tal desmontagem do imaginário feito de conquista e arrogância continua a ser um acto de salubridade pública. Tanto mais que entre nós a narrativa colonial virtuosa não deixou de ter uma impressionante massa de adeptos, a começar pelos que continuam a programar para as escolas a petrificada cartilha heróica e civilizacional da "gesta portuguesa", cuja contestação suscita ainda susceptibilidades histéricas."
    Júlio Henriques em nota preliminar a As Veias Abertas da América Latina de Eduardo Galeão
    Boas leituras☀️

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  18. Que giro!! Comprei este livro na semana passada :)

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    1. As Veias Abertas, de Galeano? É um grande livro que me surpreendeu. Tenho que ler mais obras do autor.
      Teresa Biu

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  19. eternidade

    curvo-me a ti, rainha do mato. dobro o corpo, com a testa e os olhos na crosta da terra. olho com espanto a esteva e a simetria da flor, na harmonia de tons verdes, de folhas cerzidas na côdea dos dias. urze!, perfume doce!, tufo de sementes derramadas na areia. são os filhos que te fazem eterna.


    in «O Silêncio Solar das Manhãs», de António Canteiro
    Gradiva, junho de 2014 (1.ª edição)

    Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama

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  20. Por coincidência dois dos amigos que fazem Horas Extraordinárias, mencionam um escritor que faz parte,literalmente,da minha mesa de cabeceira. Refiro-me a Eduardo Galeano. Do seu livro "O livro dos abraços " transcrevo aqui dois trechos.
    A FUNÇÃO DA ARTE
    Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff,levou-o a vê-lo.
    Foram para o sul.
    Ele, o mar,estava para lá das dunas altas,à espera.
    Quando o menino e o pai chegaram, finalmente, àqueles cumes de areia, depois de muito caminharem, o mar explodiu-lhes diante dos olhos. E era tal a imensidão do mar e tal o seu fulgor,que o menino emudeceu de formosura.
    Quando enfim conseguiu falar,trémulo , gaguejante, pediu ao pai:
    - Ajuda-me a olhar!
    Outro trecho.
    Do livro " Caçador de histórias "
    O teu Deus é judeu, o teu carro japonês, a tua pizza italiana, o teu gás argelino, a tua democracia é grega, os teus números são árabes, as tuas letras latinas.
    Eu sou teu vizinho. E tu ainda me chamas estrangeiro?
    Escrito numa parede de Barcelona.
    Boas leituras e bom fim de semana. Ouçam a chuva e deixem-se levar pela ternura e pelas palavras do Eduardo Galeano.
    A. Delfim

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  21. Agora toca a andar. Mas fixem bem este pensamento: não somos importantes. Não somos nada. Um dia, porém, a carga que trazemos poderá ajudar alguém. Contudo, nem há muitos anos, quando tínhamos os livros à mão, aproveitámos o que eles nos proporcionavam? Continuámos a insultar os mortos e a cuspir nas campas dos pobres coitados que morreram antes. Vamos encontrar muita gente solitária na próxima semana, no próximo mês, no próximo ano. Sempre que nos perguntarem o que estamos a fazer, responderemos: «Estamos a lembrar-nos.» É nisso que reside a vitória a longo prazo.
    Ray Bradbury, «Fahrenheit 451»
    maria joão lourenço

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  22. "Nunca olhei para os olhos da minha irmã. Nunca tomei banho sozinha. Nunca permaneci no relvado à noite, a erguer os braços para uma lua sedutora. Nunca me servi da casa de banho de um avião. Nunca usei um chapéu. Nunca fui beijada daquela maneira. Nunca andei sozinha. Nunca trepei a uma árvore. Nunca desapareci entre uma multidão. Tantas coisas que nunca fiz, mas, oh!, como fui amada. E, se tais coisas tivessem de voltar a acontecer, voltaria a viver um milhar de vidas sendo eu própria, para ser amada de um modo tão absoluto."
    "As Meninas" de Lori Lansens

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  23. Biografia de Saramago por João Marques Lopes: pág. 125 o primeiro, segundo e terceiro parágrafo.

    CST

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