Uma pseudo-playlist
Agora, que estou por obrigação a trabalhar em casa, enquanto almoço ouço muitas vezes no pequeno rádio vermelho da cozinha a Playlist da TSF; é uma lista de canções (ou peças musicais) seleccionadas por uma figura conhecida, seja ela da política, da música, do cinema, da ciência, da televisão. No site da estação podemos consultar as playlists todas, mas, curiosamente, passaram de moda na nossa imprensa escrita as listas de livros preferidos ou livros da vida (talvez a maioria das figuras conhecidas já não leia assim tanto). Mesmo assim, acho que podemos fazer aqui no blogue uma coisa original e, em lugar de escolher faixas de música, escolher excertos de livros que dêem aos outros vontade de os ler. De quinze em quinze dias, à sexta-feira, proponho que todos, a começar por mim, publiquemos uma citação de um livro de que gostámos e que ilustre bem o seu conteúdo, porque os títulos não dizem por vezes grande coisa do que vai lá dentro. Concordam? Se sim, na próxima sexta trarei já um excerto de um dos livros que me mudou como leitora, e aí desse lado pensem também no que vão trazer. Não demasiado longo, combinado? Bom fim de semana.
Ótima e oportuna proposta.
ResponderEliminarLuísa Cordeiro
Bom dia com alegria e pandemia
ResponderEliminarCuriosamente tenho um caderno onde guardo esses "retalhos".
Fica aqui uma passagem do livro que ando a ler, "Contra a Democracia", de Jason Brennan, Gradiva, Colecção Filosofia Aberta
"O que é mais surpreeendente em tudo isto é a que ponto é estável a ignorância política. Hoje a informação política é barata e está facilmente disponível. Mas, como diz a anedota "Tenho um dispositivo no meu bolso capaz de aceder a toda a informação conhecida pelos seres humanos. Uso-o para ver fotografias de gatos e conversar com estranhos" "
Saúde, boas leituras e bom fds
cp
Olha... mas que excelente idéia!
ResponderEliminarÉ uma iniciativa que nos vai levar a usar as "qualidades de leitor", eheheh!
Por falar nisso, de facto muitas vezes o título não diz nada a propósito do conteúdo ou temm muito pouco a ver com ele! Acho até que muitas vezes parece haver um esforço maior na elaboração do título, sofisticadíssimo, do que no romance em si!
Nem todos conseguem ter títulos como "Levantado do chão" , "Os lusíadas" ou "A cidade e as serras".
Saudações cá de:
O Bairro Ribatejano
Ia já Setembro avançado mas o Sol subindo na manhã prometia dia quente fazendo resplandecer na ampla paisagem do bairro ribatejano os seus cabeços coroados de pinheiros, sobreiros e de mato, doirando pastos e restolhos. Nas encostas, os pomares ainda verdejando e as vinhas já avermelhando, salpicadas de macieiras e figueiras, as folhas e cachos orvalhados, amadurecidos pelo calor daquele cuja luz os proveu de açúcar, a força e sabor do vinho! Reflectia-se nas folhas de olivais seculares, o oiro do bairro que fazendo reserva de Sol iluminava depois lamparinas e reluzia nas hortaliças ou saladas das muitas hortas amanhadas nas baixas frescas, onde nascentes assinaladas por canas e inúmeros poços traziam à superfície uma água saborida, outro grande segredo desta região generosa, com o seu povoamento disperso, ponteado de casitas, em casais e fazendas, riscada por caminhos orlados de piteiras e figueiras-da-índia, dividida por sebes de marmeleiros, ladeados por frondosas olaias, nogueiras, tílias, cerejeiras e diospiros.
Ao fundo, correndo para o Tejo em longo vale alagadiço por entre salgueiros, a Vala d’Asseca ou Rio Maior. Luzem-lhe em volta pauis e lezírias onde grasnam galinhas-d’água, bordejados por orgulhosos freixos, altos e frondosos, em que arrulham as rolas.
Depois, subindo para lá, a charneca! Agora fornalha ressequida, desolada, inçada de orégãos, ineixas, atádegas, estevas e todas as plantas olorosas que dão cheiro ao Verão; de cardos, alcachofras, carrapiteiros, tojos e carrascos que arranham as pernas afoitas; rasteiras silvas, roseiras-de-cão e madressilvas que se enrolam nos pés e abafam as árvores. Quando o vento se levantasse, correria pelo vale e redemoinharia pelas encostas, transportando o aroma da frescura e o enjoativo das figueiras-do-inferno mais o chilrar dos abelharucos, a aliviar a tarde, trazendo depois do fresco e pela noitinha fora, nuvens de melgas e o coaxar de muitas mil rãs!
O meu método de leitura: vou lendo e registando nas folhas em branco do livro as frases, os pensamentos mais marcantes, com menção da página onde se situam. Quando volto ao livro, se calhar voltar, começo por reler as minhas notas.
ResponderEliminarPara esta sugestão, tenho o trabalho adiantado.
Eu acho uma boa ideia! Vou começar a "trabalhar" nisso. Bem hajam!
ResponderEliminarOlá,
ResponderEliminarUma excelente ideia. Há frases de livros, que são muitas vezes o meu farol.
Um abraço com gratidão,
Sheila Khan
"Os únicos momentos que me davam ânimo eram as horas passadas à volta dos cadernos a contar a minha vida. O método não variava: escrevia sempre primeiro o que estava a acontecer, como se fosse um diário. Quando acreditava que não me esquecera de nada, olhava para os apontamentos e reescrevia tudo, parando a cada frase que merecesse reflexão, num esforço malsucedido para perceber finalmente quem era aquela sujeita debruçada à secretária."
ResponderEliminar«Um Tempo a Fingir (p 334)», JPC
Excelente ideia! Susana Emídio
ResponderEliminarEscreveu Cafáviz que
ResponderEliminar"À entrada do café [...]
vi então aquele formoso corpo
que parecia tê-lo criado Eros
do fundo da sua experiência".
Não era Anónimo que pretendia, mas Amalivros, ainda que não faça grande diferença claro.
ResponderEliminar"(..) Ninguém fala destas coisas, mas eu tenho-lhes grande devoção. O povo traz-mas inteirinhas, com o seu espírito basbaque e amortalhado em utopias e essa alma feirante que existe no português. (...) Gente sem caprichos, que morre quase sempre por comer de mais numa vida tradicionalmente esganada; herdeiros de hipotecas, de promessas, de complicadas formas de alquimia da fortuna, admiráveis a esperar, frouxos a cumprir, generosos a duvidar, inconstantes no amor e no ódio, filhos-família da graça e da melancolia, monumentos da virtude momentânea, percursores de si próprios, eu vos dedico esta história.(...)". Agustina Bessa-Luís, "A Muralha", Relógio d'Água, pág. 91. Boas leituras, Susana
ResponderEliminarExcelente iniciativa. Leitor atento deste deveras útil blog, estou ansioso por mais esta iniciativa
ResponderEliminarAqui vai um texto que, com insistência, me tem acompanhado desde que descobri esta autora com este livro.
“As pessoas estão sentadas, ombro contra ombro, à espera, mas o objectivo da espera é sempre falso, o autocarro, o comboio, o avião, porque todos os lugares são iguais e nada é diferente em parte alguma. E enquanto se espera o silêncio cresce, vai ficando sempre mais denso e mais pesado, e algumas pessoas começam a ficar inquietas, porque de repente percebem que estão bloqueadas, dentro de caixas de vidro, o universo é um conjunto gigantesco de sucessivas caixas de vidro, e elas apenas transitam, ou são transportadas, de umas para as outras, casas, escritórios, autocarros, hospitais, aeroportos, aviões, transatlânticos, é inútil percorrer milhões de quilómetros porque o mundo fica sempre cada vez mais longe, é como se flutuassem, imponderáveis, num espaço vazio, os seus pés não assentam mais sobre a terra, correm seis dias sobre escadas rolantes e tapetes rolantes e no sétimo dia ficam parados sobre uma alcatifa, e o mundo que não tocam mais vem até elas apenas em imagens, dentro da televisão‐caixa‐de vidro. Então algumas pessoas são tomadas de pânico e começam a falar, porque acham necessário modificar este estado de coisas, mas descobrem que não é possível falar porque as pessoas do lado as olham com estranheza, a tal ponto se habituaram a viver dentro de caixas bem isoladas que qualquer som espontâneo as incomoda, transportam em volta da cabeça uma caixa de vidro mental que se fecha por si mesma à menor suspeita de desordem, e então alguém propõe que quem estiver disposto a escutar os outros ponha na lapela uma pequena orelha verde.“ Teolinda Gersão, O Silêncio
O nome do poeta também saiu errado, irra. É Caváfiz.
ResponderEliminarÉ um pouco aquilo que faço quando falo de um livro no blog, escrevo um excerto para se sentir o que está no interior.
ResponderEliminar"Viviam Ursus e Homo ligados por estreita amizade.
ResponderEliminarUrsus era um homem e Homo era um lobo"
Excelente ideia, vou querer participar.
ResponderEliminarUm extraordinário fds a todos,
Rui Miguel Almeida
Excelente ideia! Gostava de partilhar a minha indignação quanto ao que se está a passar no "bloqueio" à venda de livros: fui à papelaria do corte inglês comprar o jornal, mas não pude adquirir um livro, que estava mesmo ao lado... Podemos adquirir, no mesmo piso, aquecedores, agendas e cola UHU, mas livros nem pensar...que sentido isto faz?
ResponderEliminarNão irei seleccionar e publicar excertos das minhas obras preferidas, mas, já que a minha lista respectiva está disponível há quase 10 anos, divulgo-a aqui:
ResponderEliminarhttps://octanas.blogspot.com/2011/04/ordenacao-20-livros.html
Bom dia! Excelente ideia! Lá nos encontraremos.
ResponderEliminar