O ano que começa
Bom ano a todos – melhor do que 2020, claro, que foi um ano dramático em vários sentidos (a saúde, a economia, o emprego, as perdas de vidas). Queria ter fé em que este vai ser mais positivo, mas o meu 2021 começou muito mal: morreu Carlos do Carmo, um grande artista e um amigo que eu conhecia pessoalmente há mais de cinquenta anos. Receber tal balde de água fria quando se acorda no primeiro dia do ano sob o signo da esperança (sim, o pensamento era «este ano acabou, o próximo só pode ser melhor») foi, no mínimo, irónico… Nessa sexta-feira tão cinzenta, depois de ouvir a notícia, quis ir dar uma volta a pé para espairecer; mas, apesar de ter saído com sol, apanhei uma valente molha logo a seguir e tive de voltar para trás; depois, mordi sem querer a bochecha e fiz uma ferida feia que ficou a doer-me todo o dia. De repente, pensei: não podíamos, por favor, saltar este ano, se vai ser tão mau como o outro, e acordar em 2022, sem vírus, sem doenças, sem mortes? Mas não, não podemos. Como o nosso Carlos era um optimista, vou fazer-lhe uma homenagem tentando sê-lo também eu. Devia estar a dizer-vos o que ando a ler, mas preferia adiar isso para amanhã e deixar-vos hoje um pequeno testemunho que escrevi sobre o Carlos do Carmo (ver o link). E um pedido: ouçam-no sempre. O país está de luto. E eu também.
O Carlos do Carmo ofereceu-nos um timbre único e uma dicção claríssima, como raramente ouvimos por cá. O seu reportório, em particular as suas letras, é a escolha de um homem culto e sensível. Apesar do inesperado que foi o seu desaparecimento, pelo menos para quem não conhecia os seus problemas de saúde, ele teve o privilégio de se despedir em apoteose do seu público em 2019. E neste nosso mundo do eufemismo "faleceu após doença prolongada", a morte súbita poderá ser uma dádiva de Deus (é o que diz a tradição judaica). Paz à sua alma.
ResponderEliminarRepertorio ou reportório?Gostava de ser esclarecida.
ResponderEliminarRepertório será mais correto por estar mais perto da raiz latina da palavra, mas reportório também poderá ser utilizado em português (esclarecimento retirado de site da net sobre português correto).
EliminarObrigada.Ja tenho esta duvida há muito tempo.
ResponderEliminar"Um Homem na Cidade", o fado extravasou as fronteiras de Alfama, Mouraria, Bairro Alto e Bica e alcandorou-se a património da Humanidade.
ResponderEliminarCara Maria do Rosário,
ResponderEliminarConfesso-me um triste desconhecedor de fado, mas gostaria de lhe perguntar o nome das duas canções de Carlos do Carmo com letra sua. Gostava muito de as ouvir.
Um bom ano a todos os extraordinários.
Rui Miguel Almeida
Obrigada. 'Pontas Soltas' e 'Vem, não te atrases'.
EliminarAgradecendo a retribuindo os votos de Bom Ano ,
ResponderEliminare porque muitos o continuaremos a ouvir com todos os sentidos,
e porque é uma das Rotas do Mundo de alguns de nós , partilho um escrito meu que ora repesquei porque me parece que brota nesta vivência vida/morte/vida:
As Rotas do Mundo
Percorrem os trilhos das Montanhas
Voam por cima das nuvens
Explorando as vertigens da felicidade
Alucinando os olhares...
As Rotas do Mundo
Calcorreiam caminhos
Vadiando desertos
E “bussolando” cartografia...
As Rotas do Mundo
Serpenteiam mapas
Indicando os cardeais
Sinalizam os pontos
E poisam nos beirais..
Gravitam nas ondulações do Planeta
Como mares celestiais
São tesouros escondidos
São triunfos dos sentidos
São paixões viajantes
Reencarnadas em lugares
As Rotas do Mundo
São Arte!
São estrelas de Marte
Na Terra das cores
São luas de Neptuno
No ocaso dos perfumes
São ancoradouros do Sol
E papiros nas rochas...
As Rotas do Mundo
São , tão só,
Guardiães do Tempo
No Espaço
E os seus trilhos
Raios de iluminação
Como silêncio em Canção...
AM
Como sempre AM dá-nos mais uma perola.
ResponderEliminarBom ano e não se esqueça de continuar!
Bom... por morrer uma andorinha, não se acaba a Primavera.
ResponderEliminarÉ sempre triste, mesmo doloroso, quando parte alguém que nos seja próximo, é tão mais triste quando esse alguém é pessoa de vulto. Porém, é assim a girândola da vida, uns irão e outros ficarão. A nossa vez de partir chegará, é uma certeza, resta a dúvida: e quem nos lamentará?
Os artistas, têm pelo menos essa compensação, a de saber que deixam obra para lá deles mesmos.
Saudações de um triste dia cá pelo Bairro Ribatejano.
Muito obrigada pelos seus textos sobre Carlos do Carmo - são homenagens que todos nós gostaríamos de fazer. Aprendi muito cedo a ouvir fado e Carlos do Carmo era/é a minha referência. Sempre o ouvi, oiço e ouvi-lo-ei sempre porque ele é o fado.
ResponderEliminarLuísa Cordeiro
O Infinito num Junco – A Invenção do Livro na Antiguidade e o Nascer da Sede de Leitura - Irene Vallejo. Fiquei entusiasmado e espero lê-lo em breve. Gosto muito de ler livros que falem de livros, da leitura, dos leitores, enfim de tudo o que envolve um livro.
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