Apagão

Sempre que pergunto a um escritor ou editor norte-americano quem acha que é o maior escritor vivo do seu país, a resposta é Don DeLillo (e acescentam que já devia ter recebido o Nobel). Isto já acontecia, aliás, quando eram vivos autores como Philip Roth,  David Foster Wallace ou Joseph Salter, por exemplo. Para mal dos meus pecados, nunca fui grande fã do senhor DeLillo, sempre gostei mais das vozes de Roth ou Cormac McCarthy, só para citar dois grandes, mas, claro, os gostos não se discutem e talvez o problema seja meu e me falte inteligência para a ironia de DeLillo. Ele é, sem dúvida, um escritor parecido apenas consigo, o que diz muito das suas qualidades, e merece ser lido mesmo por quem não o aprecia especialmente. Li por isso a sua última novela publicada em Portugal (O Silêncio), e de uma penada, até porque é um livrinho de meras 80 e tal páginas. Imaginem então um apagão electrónico que dá cabo de tudo quanto é sistema tecnológico; e assistam a uma espécie de Terceira Guerra Mundial através do quotidiano de dois casais norte-americanos (amigos um do outro) e de um jovem professor de Física do Secundário que foi aluno de uma das mulheres. O primeiro casal vem num avião e espera aterrar em segurança em NY quando... (não vou contar); o outro, na companhia do jovem professor, prepara-se para ver a final da Super Bowl na televisão quando... (também não vou contar). Esta inesperada quebra de ligações (deixam de funcionar elevadores, telemóveis, etc.) é o mote para percebermos o que aconteceria a cada um de nós e ao mundo se de repente houvesse um apagão digital e em que é que nos poderia ajudar a Teoria da Relatividade de Einstein papagueada por alguém enlouquecido. O pequenino romance foi terminado pelo autor antes da pandemia, mas curiosamente avisa-nos bastante sobre a catástrofe do presente. Interessante e actual, mesmo que o autor não faça as minhas delícias.

Comentários

  1. Acho que essa resposta é mais uma demonstração de respeito do que outra coisa qualquer. DeLillo é um senador da literatura americana, mas parece-me difícil pô-lo como o melhor do planeta neste momento.

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  2. António Luiz Pacheco11 de janeiro de 2021 às 02:42

    DeLillo, é um grande escritor (que pode duvidar disso?) porém, a mim cansa-me! É fatigante nos temas, na profundidade mas sobretudo no repetitivo em que se torna. É um dramaturgo diria eu, e, apenas tendo lido uns três livros dele (Silêncio branco, americana, os nomes - o que mais gostei, e um outro de que me não recordo agora e estou com preguiça de ir à procura na estante, comprado em Espanha, sobre o pós-11 de Setembro).
    Faz parte dos escritores para ler, para serem lidos, mas nem por isso daqueles que lerei com frequência.

    Já o McCarthy, absolutamente de acordo! A esse leio sempre, e, parece-me o Grande Escritor Americano Actual! Se alguém merece um Nobel, é ele... e acredito que sim.

    Roth, é igualmente enorme! Apesar de eu preferir o McCarthy.
    Curioso como foram ambos oficiais da força aérea, ou talvez não?
    O citado DeLillo agradará mais aos intelectuais, suponho eu, e talvez por isso também prefiro os outros, mas olhem que Phillip Meyer está à espreita, na senda da guerra e dos Grandes Autores Americanos!!!!!!
    Phillip Meyer, há que contar com ele! Acredito.

    Saudações covídicas e enregeladas cá do Bairro Ribatejano.

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    1. Ó Paxeco se gostas do Phillip Meyer (que grande livro é "A FERRUGEM AMERICANA") então não deixes de ler, do primo dele, Donald Ray Pollock) um excelente livro "SEMPRE O DIABO".

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    2. Severino, o Pollock é de facto muito bom e o livro que cita, magnífico de facto! Li-o em dois tempos e tendo a querer descobri-lo, pois é um escritor que me interessa... a sua história pessoal daria, ela também, um grande livro!
      Abraço e bom ano novo.

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    3. Meu caro, do Pollock só li este livro magnífico ("Sempre o Diabo"), não conheço mais nada da obra dele (nem a sua história).
      Abraço e bom ano também para si

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  3. Carlos Alberto Machado11 de janeiro de 2021 às 02:44

    A mim também não, foi uma grande desilusão. E o autor tem livros incomparávelmente melhores, como 'Libra' e 'Submundo', por exemplo.

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  4. Depois de tão tentadora apresentação do livro, a Maria do Rosário quase nos obriga a ler "O Silêncio" para desvendarmos o que vai acontecer a seguir. Fez-me pensar também que, considerando a nossa dependência tecnológica e a ameaça de epidemias, não será má ideia ir viver para a ilha do Corvo, com uma catrefa de livros atrás. Eu sou também mais Roth do que DeLillo, mas ofereceram-me o "O Professor de Desejo" do Roth pelo Natal e não cheguei à página 50. Está bem escrito, como sempre, mas a temática do jovem estudante universitário americano na Europa sempre à procura de sexo não me atraiu. Deve ser da velhice.

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  5. Nunca li nada de Don DeLillo.

    Provavelmente não tenho tido sorte com os livros que li dos autores norte-americanos contemporâneos. É por isso que prefiro, de longe, a literatura da mais próxima "latina-américa". :)

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    1. António Luiz Pacheco11 de janeiro de 2021 às 06:05

      Admiro-me com o que diz... nem John Steinbeck? Melville ou London lhe fizeram nenhuma mossa?
      Abraço americano (e covídico, eheheh!)

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    2. Ó Luís não me leves a mal estar armado em sabichão e a tentar ensinar o padre nosso ao vigário, mas nem um dos grandes marcos da Literatura Universal "AS VINHAS DA IRA" do John Steinbeck?

      E o Paul Auster, um escritor actual e de uma simplicidade que se lê como se estivéssemos a saborear um "ferrero rocher"..., por exemplo "O PALÁCIO DA LUA", "LEVIATHAN" e quase todos deste excelente escritor americano.

      E "A BALADA DO CAFÉ TRISTE" um pequeno mas gigantesco livro de 75 páginas, de uma genial escritora - Carson McCullers.

      E os excelentes contos do Raymond Carver.

      E "O SANGUE SÁBIO" da grande Flannery O'Connor, outro belo livro esta grande escritora.

      E de um escritor que desconhecia absolutamente (Donald Ray Pollock) que li um grande livro "SEMPRE O DIABO".

      Acredito que irás gostar.


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    3. Mas o Steinbeck, o Hemingway, o London, são da velha guarda. E sim, gosto muito deles, António.

      Quando falei em "contemporâneos", estava a pensar nos anos 70, até à actualidade (claro que há um ou outro que gosto, como o Paul Auster, por exemplo).

      Continuo a achar que a leitura do primeiro livro é fundamental (se temos a "sorte" de ler um daqueles que temos dificuldade em entrar na história e na escrita do autor, ele fica "apresentado"...), para nos aproximar ou afastar de um autor. E como todos sabemos, há sempre um ou outro livro "errado" à nossa espera. :)

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    4. Severino, eu estava a pensar mais nos eternos candidatos ao nobel, os Roths e os DeLillos.

      Além dos que referiste, há excelentes autores "menores", do policial, por exemplo (adoro Ross Mc Donald).

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    5. E o Faulknerzinho???

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    6. António Luiz Pacheco11 de janeiro de 2021 às 08:25

      O mais cansativo de todos! Ele e mai-los campos de nabos... mas que Grande Escritor, Faulkner. Se nem falo nele, é justamente pela sua dimensão e para não parecer pretencioso, dado que sei perfeitamente o quão denso e difícil é, poderia parecer estar-me a armar!
      No entanto, creio que Steinbeck é de longe o maior... acabei justamente começar a ler um que nunca lera: "O longo vale". Não é "alma americana", é alma universal, pelo menos para mim, rude barrão e homem do campo.
      Abraço, caro anónimo!

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    7. Penso que o Faulkner é muito bom, tal como o nosso Lobo Antunes, mas a leitura dos seus livros, nem sempre é uma coisa boa e agradável para o leitor (e a leitura também deve ser isso).

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    8. Gostei muito de "A luz em Agosto", creio que só li mais um livro do Faulkner, de que não retive o nome.

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  6. Não consigo gostar nada da literatura Anglo-Saxónica e da Americana em particular. Falta-lhe o sabor da grande literatura Europeia onde um bisonte não é um bisonte, mas uma figura que augura e transporta "náusea".

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  7. António Luiz Pacheco11 de janeiro de 2021 às 06:00

    É no mínimo Extraordinária a diversidade, agora e aqui, dos interesses literários!
    Expressão viva de uma força, de algo maravilhoso sem dúvida!
    A literatura, enquanto expressão dessa diversidade, é algo de sublime!
    Temos aqui um exemplo disso... Gente (esclarecida, de bom gosto e qualidade) que formalmente "desaprecia" o mesmo género literário.
    Mais do que democracia literária, própria de espíritos como os nossos, de leitores, e do que expressão dessa diversidade é bem a prova de que há lugar para todos os géneros literários, autores, temas, romances, etc..

    Vejam lá, como eu sou justamente um grande fã da literatura americana, contemporânea e de todos os tempos, pelo menos desde o James Fenimore Cooper!
    Gosto igualmente dos latino-americanos, e, de muitos outros anglos...

    Não cessa de me maravilhar esta diversidade, repito, e, ainda bem!
    Deus nos livre de que venha alguém pretender impôr aquilo que se pode e deve ler ou escrever, que já esteve mais longe de ser uma ameaça e na actualidade não se deve nem à direita nem à igreja católica!

    Abraço Literário e Libertário a todos os Extraordinários que fazem da leitura a sua política.

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  8. "O Silêncio" - olha que tema mais interessante.
    Ainda não li nada de DeLillo (tenho algum receio...)

    Tudo o que já li do Cormac McCarthy gostei.

    Mas de todos o meu preferido é o Philip Roth; "A PASTORAL AMERICANA" foi dos 10 melhores livros que li até hoje!

    E o "BARTLEBY, O ESCRIVÃO" do Herman Melville - absolutamente imperdível, obrigatório ler!

    Mas há mais e as grandes, gigantescas escritoras: Flannnery O'Connor, Carson McCullers (genial) e a Joyce Carol Oates (não percam "A Filha do Coveiro").

    E, para além de muitos mais, há ainda o grande John Fante (que belo escritor).

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    1. E a poeta prémio Nobel do ano passado, Louise Glück; começam a ver- se algumas traduções suas nas nossas livrarias.
      Teresa Biu

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  9. Agora que Philip Roth já não pode ser candidato, talvez o maior escritor vivo americano seja uma mulher: eu votaria em Joyce Carol Oates.
    Se não fosse o facto de ser muito menos conhecido (apesar de ter mais de uma dúzia de obras de ficção, quase todas originais e uma mancheia de romances ambiciosos - como The Sot-Weed Factor, The Tidewater Tales, The Last Voyage of Somebody the Sailor ou, sobretudo, LETTERS) , votaria em John Barth.
    Paulo Lopes

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  10. Olá Maria do Rosário! Antes de mais, Parabéns pelo seu trabalho! No seguimento do post ao qual respondo, pedia por favor que indicasse um livro que aconselharia de cada autor que mencionou, seria possível? Obrigada :)

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  11. Bem, eu diria que estamos a passar por um apagão afectivo...

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  12. Estou a ler e a gostar bastante!

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  13. Foi o primeiro que li de DeLillo. A mais recente entrevista que o escritor concedeu a Isabel Lucas (ípsilon, dia 15 de Janeiro de 2021) despertara-me a curiosidade — o tema, aí aflorado a propósito deste seu mais recente livro, parecera-me muito interessante do ponto de vista literário: como lidaria o humano (contemporâneo, cosmopolita, informatizado) com um total apagão tecnológico? É, pois, uma interrogação fértil para uma narrativa de digressão frutífera, sobretudo nos dias de hoje, em que nos encontramos cada vez mais soterrados e dependentes dos ecrãs. Seja pela dimensão, pelo conteúdo e/ou pela abordagem, inseriria esta obra entre o conto e o romance: é uma novela. Uma novela que foi, para mim, uma desilusão. O narrador conta o evento catalisador de forma separada, da perspectiva de dois grupos diferentes de pessoas — que, depois, se juntam num mesmo espaço. Este enredo, apesar de original do ponto de vista estrutural, é concretizado por um conjunto de diálogos e monólogos que, a meu ver, pecam por duas ordens de razão: ora porque carecem, manifestamente, de desenvolvimento; ora porque se deixam contaminar pelo veneno da inverosimilhança. Quanto à primeira razão: anotei, várias vezes, alguns excertos que se me ofereceram como meros esboços, pontos de partida a desenvolver pelo escritor — frases secas e inexplicadas, que não podem sequer ser salvas pela ideia literária relacionada com a beleza do não dito ou de um silêncio revelador. Num dos monólogos de uma personagem, apenas isto, sem ideias ou contextos à vista: «Energia negra, ondas espectrais, pirataria e contrapirataria» (p. 62) — tudo isto porquê?, como?, em que sentido? Sem resposta. E sem estilo. E depois, quanto à segunda razão: há uma falta de credibilidade ficcional da personagem Martin, ostensivamente utilizada pelo escritor como veículo das suas divagações filosófico-científicas — mas todas elas ficando apenas no ar, descontextualizadas, como que enxertadas à força, ostensivas e pretensiosas. É certo que há, no livro, perguntas tão pertinentes quanto promissoras. «Ao que parece, todos os ecrãs se apagaram, em toda a parte. O que nos resta para ver, ouvir, sentir?» (p.63): foi ansiando a resposta a esta pergunta (ou, pelo menos, a sua existencial tentativa) que virei as páginas deste "O Silêncio". Em vão: fica a originalidade do enredo e a pobreza digressiva da sua execução. Esperava mais daquele que é, para muitos escritores e editores norte-americanos, o mais próximo e merecedor, entre eles, do Prémio Nobel. Não sei se lhe darei outra oportunidade — com Roth ou David Foster Wallace priorizando a zona, acho que o remeterei ao silêncio.

    Guilherme Henriques

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