Antes dos teclados
Há talvez um ano e meio ou dois, o jornalista Valdemar Cruz escreveu um interessantíssimo artigo no Expresso sobre o facto de as pessoas terem deixado de escrever à mão e reproduziu alguns cadernos e blocos de escritores que devem ser os últimos que poderemos ver. Na verdade, os teclados substituíram as canetas há já muito tempo; e até as crianças, que deviam treinar e aperfeiçoar a respectiva caligrafia (no meu tempo de escola primária contava para a nota final ter uma caligrafia clara e bonita), como lhes dão telemóveis desde tenra idade, estão mais habituadas às teclas do que às canetas. Mas ainda há quem estime estes objectos raros, sobretudo as canetas de tinta permanente, e quem até sinta pelas que possui verdadeira adoração. Miguel Esteves Cardoso escreveu na quarta-feira passada no Público uma bela crónica dedicada às suas canetas (umas 50!), elogiando sobretudo a preferida, que até foi barata e escreve como nenhuma outra. A circunstância de sonhar de vez em quando com uns revolucionários que vão a sua casa confiscar-lhe as canetas de que ele não precisa e só o deixam ficar com uma ou duas (no máximo, três) é deliciosa, mas vale a pena ler de fio a pavio esse texto que é dos melhores que tem escrito nos últimos tempos. Eu penso melhor com caneta na mão, embora, claro, já não dispense um tecladozinho...
Por vezes tenho dúvidas ao escrever uma palavra. Paro de teclar, imagino-me a fazê-lo de caneta na mão e a palavra flui, sem dúvidas nem erros.
ResponderEliminarEscrevo todos os dias com a mão direita... mas em jeito de rascunho, mas o papel ainda continua a ser o "melhor guardador de ideias".
ResponderEliminarMas nunca me habituei às canetas de tinta permanente, desde que me foi permitido (pelo menos na escola primária eram proibidas...), passei a usar as vulgares "bic's", de cor preta...
E vou procurar a crónica do MEC, embora o ache nos últimos tempos demasiado "politicamente correcto"...
Por acaso, ainda escrevo bastante à mão, para o que contribui ter o mesmo telemóvel há mais de oito anos (não é nem iphone nem smartphone). Pode ligar-se à internet, mas o display é tão pequeno, que não vale a pena. Por isso, continuo a ter uma agenda das antigas e, querendo tirar notas ou apontar pensamentos que me surgem, quando não tenho computador à mão, só mesmo num bloco de notas, o qual tenho sempre na carteira, assim como uma esferográfica.
ResponderEliminarNa escola primária, escrevia com uma caneta de tinta permanente, a partir da 2ª classe. Mesmo assim, não ganhei afeto por canetas, uma esferográfica qualquer me serve.
Não se julgue, porém, que me dava mal com a caneta de tinta permanente. Nunca tive dificuldade em usá-la, mas deixei de escrever desse modo, quando entrei no ciclo preparatório (já depois do 25 de Abril). Hoje, em dia, é raríssimo fazê-lo, apesar de o meu marido ter algumas canetas dessas (ele, sim, aprecia-as). Também sempre tive uma caligrafia bonita, que era, muitas vezes, mostrada pela professora às outras alunas, a servir de exemplo.
Vejo, porém, com reservas o facto de a caligrafia bonita contar para a nota final. Claro que gostava que a professora elogiasse a minha, mas houve uma cena que me deixou muito incomodada. Havia uma colega que, por mais que se esforçasse, não conseguia escrever bonito. Certa vez, numa cópia que lhe saiu especialmente mal, a professora ralhou tanto com ela, humilhou-a tanto, que a miúda começou a chorar, totalmente desfeita. Nunca mais me esqueci e, desde esse dia, fico sempre com um amargo de boca, quando me elogiam a caligrafia.
Reflexão interessante e oportuna...
ResponderEliminarSou dos que andam sempre com a agenda e o bloco-notas na mão!
Tomo notas no bloco, faço desenhos, anoto medidas, resumo as reuniões, aponto tudo também na agenda, inclusive o tempo que fez... vão na mochila da máquina fotográfica onde coloco igualmente as chaves, uma navalha suíça, óculos de ler, rolo de papel higiénico, uma lanterna, telemóvel e a carteira!
Tenho um desses telefones-espertos, mas não o uso senão para mensagens e telefonemas! Sou muito criticado e gozado, mas ande eu quente, ria-se a gente!
Enfim cada um é como cada qual, e, ninguém é como evidentemente...
Escrevo muito à mão, mas como se entende o computador, esse é uma ferramenta indispensável para fazer e enviar relatórios, pareceres, projectos, fotos, desenhos digitalizados... não o posso dispensar, pois ainda me permite por skype e por zoom, fazer reuniões à distância ou falar com a família e amigos.
Já vou usando o wat-não-sei-quê, dá para enviar fotos e mensagens com rapidez e facilidade, no terreno.
Na verdade, somos comodistas e estas facilidades melhoram-nos a vida...
Tenho dúzias de canetas, bem antigas até, herdadas. Usei muito a tinta permanente, de que tenho ainda tinteiros e cartuchos de cores, pois usava várias as cores em cada uma. Olhando ao papel sabia logo que tipo de texto era, consoante fosse azul-marinho, verde, azul-escuro... usava o vermelho e o preto para desenhos! Organização pessoal.
Votos de uma boa semana , cá desde o Bairro Ribatejano, molhado e repassado, com bastante menos frio!
Eu fiz o 3º ciclo (o equivalente ao 7º, 8º e 9º) na Escola Comercial e Industrial de Beja e lembro-me de ter tido nesses anos uma disciplina de Caligrafia que me ajudou a escrever bem e modéstia à parte com uma letra agradável.
ResponderEliminarAlgures, chegam-nos manuscritos que se assemelham a púlpitos viajantes do tempo, tais embarcações levadas pelos ventos, fazendo brilhar invisíveis chamas de silenciosa imensidão...
ResponderEliminarPor vezes, têm ( mesmo ) a capacidade de ser mergulhadores das margens do Rio da Vida buscando a surrealidade das profundezas do ser na realidade do devir do viver.
E ficam. E, amiúde, é quanto basta.
AM
Obrigada pela partilha. Vou tentar ler a crónica do MEC
Também li a crónica do MEC e lembrei-me logo das minhas canetas de tinta permanente que comecei a usar no Secundário. O meu pai tinha tinteiros e usava essas canetas. Eu também quis experimentar e fui comprando das mais baratas para usar na escola. Ainda tenho algumas que já não funcionam e estão cheias de fita-cola. Guardei-as por sentimentalismo.
ResponderEliminarEmbora hoje em dia trabalhe com computador e escreva muito ao teclado, os meus apontamentos e diários são escritos à mão, mas com canetas BIC.
No grupo de desenhadores "urban sketchers" onde pertenço, a caneta de tinta permante é muito usada para um traço escorreito e livre. O facto de gastarmos muita tinta, permite que o uso de tinteiros saia mais barato. E há belas tintas para usar com as canetas.
Pelo menos no desenho em caderno, ainda há muito de mão e traço.
Fiquem bem. Saudações.
Henrique Vogado
Sois uns felizardos. Eu aprendi a escrever com canetas com a aplicação de aparo e que molhava a ponta no tinteiro da própria carteira.
ResponderEliminarQuando via uma caneta de tinta permanente de alguém pensava, um dia terei uma. E mais tarde comprei uma - parker verde - há 50 anos que conservo na minha mesa de trabalho. Está em descanso há muito. A evolução assim o exige.
Cumps.
Fiz, não há muitos anos, uma tese de doutoramente (depois de uma de mestrado), todas as páginas foram primeiro escritas à mão a caneta, tem de ser fina e deslizar rapidamente, todas, todas. Quando me sentava ao teclado era só para passar a limpo. Já não havia emendas. Tive boa nota! Os meus textos importantes têm de ser primeiro artefactos.
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